Estou…

31 05 2009

Uma das coisas que eu mais gostaria era de postar nesse blog todo dia de manhã. Mas isso nem sempre é possível. Hoje, domingo, um cerumano ligou um rádio em toda altura às cinco e meia da manhã aqui em algum dos apartamentos do prédio, e me acordou. Aí eu, que havia ido dormir tardíssimo, desorganizei o sono, fiquei acordada um pouco e depois dormi até quase as onze. Isso jogou para o alto todo o meu planejamento para este domingo e somente agora estou aqui mal e mal tentando escrever alguma coisa pois com a tosse que me ficou da gripe que tive durante toda a semana eu não consigo realmente engatar uma idéia na outra.

Assim, hoje é dia dos nossos famosos gerúndios.

ESTOU…

… COMENDO tapioca, arroz de leite, carne assada, pamonha e canjica (mas tudo light!).
… BEBENDO café sem cafeína com leite sem gordura. É de lascar!
… OUVINDO ao longe a cantoria de uma procissão de mulheres, que pelas ruas do meu bairro comemora o encerramento do mês de maio.
… LENDO ainda Pedro Nava, o terceiro volume, Chão de Ferro.
… ASSISTINDO os filmes da coleção lançada pela Folha de São Paulo. Ontem vi Grande Hotel, com Greta Garbo.
… CAMINHANDO meia hora por dia, mas somente a partir de amanhã.
… COMEMORANDO os dois quilos que eliminei graças à dieta e muita força de vontade.
… BEIJANDO ninguém. Com essa tosse, as pessoas nem encostam.
… DORMINDO quando os sem noção deixam.
… ESCREVENDO finalmente o que quero escrever, com regularidade, ritmo e inspiração.
… PESQUISANDO meus antepassados nos antigos livros de registro civil, agora à disposição na Internet.
… ESPERANDO as novidades que vêm por aí no cenário cultural paraibano.
… ORGANIZANDO novamente a vida, depois de dez dias de gripe.
… LUTANDO contra a preguiça, a gulodice, e uma ruma de outros pecados menores.
… ACREDITANDO que um dia vou me ver livre dessa tosse maldita.

Nicole Kidman by Annue Leibowitz

Nicole Kidman by Annie Leibowitz





As coisas que gosto

30 05 2009
Café da manhã na varanda quando o dia está bonito...

Café da manhã na varanda quando o dia está bonito...

Claustro de conventos que chamam ao sossego e à meditação...

Claustro de conventos que chamam ao sossego e à meditação...

Meus meninos: Rômulo e Ana Morena.

Meus meninos: Rômulo e Ana Morena.

Depois de dar um curso, fotografar com os alunos...

Depois de dar um curso, fotografar com os alunos...

Família: irmãos, cunhados, sobrinhos...

Família: irmãos, cunhados, sobrinhos...

William Shakespeare, e sua obra...

William Shakespeare, e sua obra...

Atuar no palco...

Atuar no palco...

Árvores.

Árvores.





Filme bom e filme ruim

29 05 2009

filmes01Fui cineclubista por muito tempo na minha vida, principalmente quando era mais jovem. Em Campina Grande, no final da década de 1960, era uma das atividades mais interessantes da cidade. Reuniões, discussões, cursos e, é claro, sessões e mais sessões de cinema, numa época em que não havia computador, nem vídeo, nem DVD.

Rômulo Araújo, prevendo o futuro, dizia para o porteiro do Cine Capitólio, em Campina: “Um dia ainda levaremos o filme para assistir em casa!” E o porteiro sorria e respondia: “Vocês são uns visionários…” Então, tenho alguma experiência. Para mim, um cineclube é filmes03um espaço para discutir e compartilhar conhecimento sobre cinema. E penso também que é preciso atrair as pessoas para lá, mas como atrair gente nova apenas com projeção de filmes? Sobretudo filmes sobre os quais ninguém tem informação, a não ser as pessoas da área, as que entendem de cinema?

Essa reflexão me veio através de uma lista de discussão que assimo, onde os organizadores de um cineclube se queixavam do pouco interesse de jovens pelas suas atividades e da dificuldade de levar gente nova para o cineclube.

filmes05Penso que discutir cinema é discutir todo tipo de filme. Querem atrair gente nova para o cinema? Discutam os filmes que gente nova gosta! Discutam Batman, Homem Aranha, Juno, Volverine, e outros. Discutam os filmes do Oscar. Por que esses filmes foram indicados? Discutam Tropa de Elite (bem, acho que já passou o tempo de discutir Tropa de Elite, mas o exemplo serve para entender o que estou dizendo: discutam o que está rolando nas telas).

Afastei-me do cineclubismo porque terminou virando uma masturbação mental, de poucos “iniciados” discutindo filmes04horas intermináveis sobre Glauber, ou Bergmann. Nada contra esses cineastas ou seus filmes, dos quais gosto muito, mas tudo tem limite. E penso que não se deve discutir somente filme bom não. É preciso discutir os filmes “ruins”, para ver porque são “ruins”.

Funciona muito também ter uns cursos de vez em quando para atrair gente, ou ciclos de palestras sobre, por exemplo, “A jornada do herói no Senhor dos Anéis: comparações com Guerra nas Estrelas”, ou “A escatologia no cinema brasileiro: análise de O Cheiro do Ralo e Amarelo Manga.” ou “Zé do Caixão e seus filmes”, ou ” A obra de Michael Moore”, ou “A evolução dos efeitos especiais no filme de aventuras”, ou “Filme pornô também é cultura” (eita! esse foi de lascar!) ou o que seja.

Eu poderia sugerir aqui uma lista interminável de títulos de palestras. E terminar dizendo que o cineclubismo é uma das atividades mais interessantes para se participar, pois abre para o mundo e para as idéias, através da instigante arte do cinema.





Paisagens do Cariri

28 05 2009

O solo do Cariri
Na seca rude e deserto
Com poucas gotas de chuva
“Você pode ver de perto
Fica assim de boniteza
Desabrocha a  natureza
Como um paraíso aberto.”

cariri01

cariri02

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Essas fotos foram feitas em fevereiro de 2009, na região do Cariri Paraibano, por Cristina Evelise e Inês Tavares.





A linha genética: uma mão-na-roda para a pesquisa genealógica.

27 05 2009

Por mais que eu veja coisas estranhas, esquisitas, fora de propósito, sem noção, sempre consigo me surpreender com os episódios pelos quais sou obrigada a passar quando o telefone toca. O telefone, meus amigos, é um objeto mágico e cheio de poderes que até Harry Potter invejaria, pela capacidade que tem de trazer para dentro da nossa casa as coisas mais estranhas.

telefone1Pois ontem de noite foi assim. Estava eu quietinha sentada na frente da TV com o notebook no colo, procurando assuntos amenos e agradáveis para fazer este postzinho de hoje quando o telefone tocou.

raiva

Fui ficando estressada...

Um rapaz me disse que era da Oi e perguntou por Ana. Eu moro sozinha, disse que não havia aqui nenhuma Ana, então ele repetiu a pergunta, desta vez com o nome completo da minha filha, que se chama Ana. Aí começou um papo meio estranho, porque ele disse que havia um problema com um telefone, eu perguntei o número, ele me deu o número mas eu não reconheci, e ele não podia me dizer qual era o problema; e perguntou se eu era mãe da Ana e eu confirmei, em troca perguntei o nome dele, que era Mateus. Eu tentei saber novamente qual era o problema do telefone, ele não me disse. Ele quis mais informações sobre Ana, pediu o CPF dela para confirmar, eu me recusei a dar. Então, pedi o CPF e o RG dele, ele não me deu. Mas continuou querendo saber se eu era responsável pelo número que estava no nome de Ana, e eu não disse, e fui me estressando, e quis saber como ele tinha meu número, já que moro em outra cidade, e ele disse que a discagem tinha sido feita automaticamente, e eu perguntei se ele também funcionava automaticamente, ou seja, se era um robô, ou era gente, e ele disse que era gente, mas que a discagem era feita automaticamente e no meio desse dilema entre o automático e o humano eu terminei perdendo de vez a paciência e mandando ele e a máquina de discagem fazerem um com o outro uma atividade humana e animal que não vou descrever aqui e que nunca compreendi porque, sendo uma atividade tão agradável, é usada como forma de insulto.

Aí liguei para Ana, contei o caso, ela ligou para a Oi e descobriu que se tratava de um telefone antigo dela, que ela havia desativado mas que por um motivo qualquer ainda estava no sistema (Ah! O sistema! Um dia falaremos aqui sobre ele). Pois bem, ela esclareceu as coisas lá com o atendente e então perguntou:

mendel- Porque vocês ligaram para a minha mãe? Ela está morando por um tempo em outra cidade e não tem nada a ver com os meus negócios.

Ele respondeu:

- É porque nós temos aqui uma linha genética que, não encontrando alguém, conecta com o pai, o filho, etc.

Pronto, meus caros leitores.

Aí está a salvação da genealogia brasileira.

livrosantigosNós, incansáveis pesquisadores, não precisaremos mais ficar revirando velhos e empoeirados livros de registros, ou mergulhados em pilhas de documentos antigos cheios de mofo, que jazem há décadas em vetustas sacristias ou empoeirados cartórios.

Nossos problemas se acabaram. É só requisitar a Linha Genética da Oi. De forma automática, sem mofo, sem poeira e sem má-vontade, ela procura seus parentes, completa a ligação, estabelece os contatos e os valorosos garotos que estão ao telefone, que me incomodaram na terça-feira, 26 de maio, às oito e meia da noite, que me tiraram da frente da TV e do computador, que tiraram meu sossego e acanalharam com o meu bom-humor, provavelmente têm capacidade para acordar do sono eterno os nossos antepassados até a décima geração.





Dois meses no ar!

26 05 2009

Há dois meses comecei mais essa experiência, com o meu já conhecido Umas & Outras, desta vez em forma de blog. Hoje, sessenta dias depois, o blog está com pouco mais de 6.300 visitas, o que dá cerca de 100 visitas por dia. Eu considero um privilégio e uma honra que cerca de cem pessoas deixam de fazer outras coisas para aprecerem por aqui para leitura ou para uma zapeada rápida.

aniversario3Só para esclarecer aos novos leitores, e como bem expliquei no primeiro post do blog, o Umas & Outras é um projeto de comunicação. Começou em novembro de 1999, com um boletim que eu fazia inicialmente em formato Word e que enviava por email toda semana para uma lista de uns 200 assinantes, pela Internet.

Depois, foi mudando de cara: virou boletim em HTML, site na Internet com diversos colunistas durante um ano e com atualização diária, boletim outra vez, blog sediado no Uol, boletim em HTML de novo… E sempre, sempre com as temáticas básicas concentradas em quatro pilares: Arte, Cultura, informação e Humor.

aniversarioEntão este blog é a nova cara do Umas & Outras, que está dando muito prazer a esta escriba que vos tecla. No início eu tinha dúvidas se não seria muito complicado manter a periodicidade diária; mas até agora não foi. Tenho escrito todo dia, muito embora os recursos do blog me permitam escrever, por exemplo, dez posts, e agendá-los para irem sendo “soltos” dia após dia. Quase nunca tenho usado essse recurso, porque o barato mesmo é escrever todo dia, sobre o tema que está em minha cabeça naquele dia.

aniversario5Tenho tentado diversificar os assuntos. Tem dia em que falo sério; tem dia que é só bobagem. Há posts em que discorro sobre um tema, defendendo uma opinião; em outros, apenas comento assuntos que estão em voga. Como sei que tem gente que tem preguiça de ler, ou não tem tempo de ler posts muito grandes, alterno os escritos com os posts de figuras, como as igrejas do interior, e outros posts de fotografia, artes plásticas ou retratos. E tem aqueles da série Gerundiando, onde abro um pouco minha vida pessoal para os voyeurs (alguém me socorra e me dê o plural correto desta palavra), como o jornalista Sebastião Vicente, que diz ser a seção que ele mais gosta. Aí do seu lado direito, na coluna categorias, os posts estão agrupados por temas.

42-15660713Algumas pessoas sugeriram que eu tocasse em temas de interesse diário da cidade em que vivo – a capital da Paraíba – denunciando abusos, apontando soluções para problemas urbanos, como já fiz em outros formatos do Umas & Outras. Eu agradeço a sugestão, mas prefiro me manter num nível mais geral, mais abrangente, sem descer ao nível local. Os problemas da cidade, do estado, da política, da nação estão aí, escancarados, para todo mundo ver, e todo mundo sabe quais são. Eu prefiro falar de outras coisas que vão além do cano estourado na esquina da rua Antonio Gama, que é a rua onde moro nesta deliciosa capital. Este não é um blog engajado, nem defende nenhuma causa. Existem muitos blogs assim na Internet, e eu frequento alguns diariamente porque acredito na seriedade deles. Vez por outra os cito aqui. São muito bons. Mas, repito, este não é um deles.

aniversario4Ontem recebi um email de um leitor que diz que eu escrevo demais. Escrevo mesmo. Sou escritora. É isso que eu faço. Fica difícil me pedir para escrever menos; é a mesma coisa que pedir a um músico que faça músicas mais curtas, ou ao pintor que pinte quadros menores. Recomendei ao leitor que esquecesse o blog e me acompanhasse pelo Twitter, onde só se pode escrever 140 caracteres. E já basta as duas colunas que escrevo toda semana para o Correio da Paraíba e para a União, onde tenho espaço limitado, tipo 32 linhas em Times 12, e não posso escrever nem 31 nem 33, tem que ser 32. Pelo menos aqui no blog o espaço é teoricamente ilimitado.  Ao leitor impaciente recomendo: olhe só os posts de figuras ou siga-me no Twitter, onde também mantenho uma postagem por dia.

aniversario7Aliás, e falando-se em leitores, eu respondo pessoalmente a todos os comentários que são postados aqui. Só respondo no blog quando o esclarecimento pedido interessa aos outros que também comentaram.

Uma coisa que faz a felicidade do blogueiro são os comentários. Então, se vocês gostam de mim e querem me agradar, o que não custa nada, comentem, que me faz feliz e dá status ao blog.

Então é isso, minha gente. Continuem vindo por aqui que eu estarei como escoteiro, sempre alerta, todo santo dia, sem respeitar domingo ou feriado, enquanto puder teclar, porque o meu projeto literário deste ano de 2009 chama-se: Umas & Outras: todo dia um post novo. Durante um ano.





Estratégias da memória II

25 05 2009

Hoje vou continuar com o assunto da memória, porque no post de sábado eu esqueci (hahaha) de várias coisas que queria dizer, o que foi até bom, para o post não ficar muito comprido.

Gipsy, minha personagem preferida.

Gipsy, minha personagem preferida.

Lido muito com memória. Como sou atriz, uma das coisas que é preciso fazer no palco é ter o texto inteirinho na ponta da língua. Não somente o texto – as palavras – mas as intenções, os gestos, os olhares, a posição do corpo, o deslocamento no espaço, em suma, aquilo que chamamos “as marcas”. No teatro, todas essas coisas complementares, todo esse contexto ajuda a memorizar o texto em si, as palavras.

Outra coisa importantíssima em cima do palco é como lidar com o terror de todo ator, que é “o branco” – aquela situação em que você simplesmente não lembra de nada, esquece tudo. Penso que a única solução, o único remédio, é eliminar o estresse que é o maior causador dos “brancos”. Se você acha que não vai lembrar, não vai lembrar mesmo! “To play” tanto é “atuar”, como “jogar”, como “brincar”. Relaxar no palco, ver o trabalho do ator como uma doação amorosa da energia humana, integralmente a serviço da criação do personagem, não é uma coisa maravilhosa? Então como ficar nervoso com um fenômeno desse? O palco é uma festa, uma glória, um deslumbramento e o “branco” só surge quando a gente se estressa por querer impressionar, por colocar os objetivos do ator acima dos objetivos do personagem.

Com Jessier Quirino, poeta e declamador.

Com Jessier Quirino, poeta e declamador.

Vamos ver agora um outro caso de palco, o caso do declamador que, ao contrário do ator, não tem o auxílio do contexto. Aí, eu quando decoro algo para ser recitado diante de uma platéia, estabeleço comigo mesma algumas marcas e gestos mínimos, coisas que só eu sei, lugares pra onde olhar, e também me remeto ao formato da página onde o texto está escrito e à situação que o texto ocupa na página: página par, página ímpar, em cima, embaixo… São truques que todo artista tem e que não me incomodo de revelar. É assim que vou do começo ao fim, ao longo das cerca de 130 sextilhas do folheto de cordel O Pavão Misterioso, que sei todinho decorado. Além do “Pavão”, sei muita coisa decorado, mas se não houver uma constante repetição, a gente vai esquecendo. Por isso é preciso praticar.

Zé de Cazuza

Zé de Cazuza

Na poesia, elementos como a métrica e a rima falicitam a memorização e por isso as sagas e epopéias da Humanidade, no tempo da tradição oral, quando ainda não havia a escrita, eram formuladas em verso, para facilitar a memorização.

Conheço muitas pessoas que têm memória prodigiosa. A Rede Globo mostrou, no programa sobre a memória, o grande poeta popular Zé de Cazuza como exemplo. Mas conheço muita gente com memória igualmente prodigiosa. Meu pai, o jornalista e poeta Nilo Tavares, era uma dessas pessoas, recitando sonetos e mais sonetos, poemas e mais poemas, hora após hora. Olavo Bilac, Augusto dos Anjos, Emilio de Menezes e outros tantos dos seus poetas preferidos desfilavam na nossa frente enquanto ele, com sua voz forte e rouca para o homem tão pequeno que era, desfiava verso atrás de verso, quarteto atrás de quarteto, soneto atrás de soneto. Já velhinho, desmemoriado, sem conhecer ninguém, eu o ouvia falando baixinho. Ia devagar ao pé de sua cama e lá estava ele, repetindo seus sonetos preferidos, um depois do outro… Era como se estivesse desfiando o último fio da memória já deteriorada pela demência senil, a chamada “caduquice”, que o acometeu nos últimos dos seus 86 anos de vida.

pavaoO meu tio Cláudio Tavares, comunista histórico, vivendo em Recife durante toda a sua vida, também tinha esse tipo de memória, ainda melhor do que a de Papai. Ele decorou um dicionário inteiro, o “Dicionário da Fábula”, de Chompré. A pessoa abria o dicionário e dizia: página 86! E ele começava a dizer o que tinha escrito na página 86.

Uma ocasião tive uma doença infecciosa qualquer, uma inflamação de garganta. Fui ao médico, colega meu, da mesma turma. E ele então disse: “Mas Clotilde, isso que vc tem é a doença Fulana de Tal, que fica na página tal do livro de Veronesi!” referindo-se ao Tratado de Infectologia do professor Ricardo Veronesi, livro no qual estudamos no Curso de Medicina. Ele lembrava da página e da coluna do livro onde a doença era descrita. E tem mais: saiu recitando o texto do livro que se referia à descrição da doença como se o compêndio estivesse ali aberto na sua frente. Decoreba? Não, meu caro leitor: capacidade de memorizar e de ir buscar essa memória quando for preciso, coisa que não é todo mundo que tem.

numerosAs associações mnemônicas são outro tipo de estratégia que usamos para nos lembrarmos das coisas. Lembro-me das minhas aulas de Nutrição para o Curso Médico da UFRN onde eu recitava com facilidade o nome dos oito aminoácidos essenciais. Eu havia inventado três palavras com as três primeiras letras de cada um: TRIFENLIS TREVALMET ISOLEU. Então era fácil recitar para os alunos, bem naturalmente, como se não fossse decorado: Triptofano, Fenilalanina, Lisina, Treonina, Valina, Metionina, lsoleucina e Leucina…

Para as senha numéricas, inventei palavras parecidas com os números. Um é pum, dois é arroz, três é freguês, quatro é teatro, cinco é brinco, seis é reis, sete é valete, oito biscoito, nove é love e zero é nero.

Então uma senha por exemplo assim: 56923457 vira brinco reis love arroz fregues teatro brinco valete. Aí eu faço umas frases do tipo “o brinco dos reis love arroz, o freguês do teatro usa o brinco do valete”.

Eu adorava!...

Eu adorava!...

Já para aquela combinação de letras que fazem parte da senha, aquela de três letras, também formam frases. Lembro de que uma antiga minha, era AJG – digo aqui pois perdeu já a validade – na mesma época do sucesso da música de Los Hermanos. Então a senha virou Ana Julia Gostosa.

Parece doidice? Ora, meu caro leitor! Doidice é chegar no caixa eletrônico e não se lembrar da senha…





Fora de combate!

24 05 2009

Estou completamente fora de combate por uma gripe – que não é suína, nem caprina e nem equina – que me asssltou desde terça-feira. Ontem estive melhor mas hoje, não sei porque, piorei.

Então lhe deixo sem post, prometendo voltar amanhã com o assunto da memória, que ainda rende umas coisinhas. Para não passar em branco, algumas imagens do meu baú.

Página do número 1 do Correio das Artes, suplemento literário d'A União-PB, que em 27 de março deste ano completou 60 anos de circulação ininterrupta. É o mais antigo de Brasil.

Página do número 1 do primeiro número do Correio das Artes, suplemento literário do jornal A União-PB, que em 27 de março deste ano de 2009 completou 60 anos de circulação ininterrupta. É o mais antigo do Brasil.

Túmulo de Monteiro Lobato, no cemitério da Consolação, em São Paulo. Foto de novembro de 2007.

Túmulo de Monteiro Lobato, no cemitério da Consolação, em São Paulo. Foto de novembro de 2007.

Isso aí é a flor do umbuzeiro, brotando. A foto é de Egberto Araújo.

Isso aí é a flor do umbuzeiro, brotando. A foto é de Egberto Araújo.

As Tavares: Maria Nayara (minha sobrinha, filha de Braulio), Inês (minha irmã) e esta que vos tecla. Ô povo bonito, minha Santa Zoraide!

As Tavares: Maria Nayara (minha sobrinha, filha de Braulio), Inês (minha irmã) e esta que vos tecla. Ô povo bonito, minha Santa Zoraide!

Teobaldo, um dos meus gatos, que só dorme onde quer...

Teobaldo, um dos meus gatos, que só dorme onde quer...

Casarões de Alcãntara, MA. Foto de Karl Leite.

Casarões de Alcântara, MA. Foto de Karl Leite.

A "Moça com Brinco de Pérola" e parte da minha coleção de caixinhas.

A "Moça com Brinco de Pérola" e parte da minha coleção de caixinhas.





Estratégias da memória

23 05 2009

memo3Na noite de ontem (sexta-feira) me desliguei das séries na TV para ver o Globo Repórter. O sacrifício não foi tão grande porque na sexta-feira, com exceção de In Plain Sight no Canal AXN eu não acompanho nenhuma outra série, principalmente depois que deixou de passar Criminal Minds. Então, eu fiquei na Globo mesmo, vi um pedaço daquela alucinação visual/conceitual que é a novela Caminho das Índias e logo em seguida começou o Globo Repórter, com o tema A memória.

Não que haja muita profundidade científica num programa desses, e nem poderia, porque é dirigido às massas. Mas o tema me interessa mesmo numa abordagem superficial porque eu, aos 61 anos, tenho que ficar atenta para isso.

05A perda da memória não é exclusivamente uma consequência natural da idade, apesar de sabermos que, como todos os órgaos do corpo, o cérebro se deteriora ao longo dos anos e muitas das suas funções ficam prejudicadas. O programa de ontem mostrou como o estresse ou o uso de álcool e drogas podem lesar a capacidade de armazenar informações e resgatá-las depois, quando isso é preciso.

memo7Algo que muita gente não atenta, no caso da memória, é que não se trata somente de armazenar informações. É preciso ter a capacidade de resgatá-las depois, é preciso tê-las disponíveis quando você precisa delas. Eu comparo com uma pessoa que vai lendo livros, jornais e revistas, e armazenando cópias de artigos, trechos, textos e outros, mas tudo misturado, sem organização. No dia em que precisar de um texto tal, como irá encontrar? Fico completamente admirada quando vejo esse pessoal estudando para o vestibular, sem descanso, sem distração, quando uma parte do tempo deveria ser destinado a dar descanso ao cérebro para que ele pudesse processar a informação. O Globo Repórter mostrou isso ontem de forma muito didática e clara.

memo8Eu sou um pouco – só um pouco – obsessiva pela organização e vez por outra escrevo sobre isso. Tenho um arquivo onde coloco todos os meus papeluchos. Assim, estão disponíveis quando preciso deles, e não gasto mais do que 30 segundos para ter na mão tudo o que preciso, desde o recibo de setembro de 2008 da conta da luz até o telefone que aquela pessoa passou pra mim no último domingo num guardanapo de papel, e que eu anda não passei para a agenda. Qualquer dia faço um post aqui sobre o meu sistema, com fotos. E a quem interessar possa eu sigo o GTD adaptado às minhas necessidades.

O programa mostrou uma série de estratégias para não esquecer das coisas. Esses esquecimentos têm produzido piadas de todo tipos e eu mesma escrevi um texto muito engraçado baseado em outro que recebi pela Internet sobre a D.A.D.I.A – Síndrome de Desordem da Atenção Deficitária na Idade Avançada. Mas, brincadeiras à parte, não há nada pior do que viver esquecendo das coisas, deixar as panelas fervendo no fogão, as plantas esturricadas por falta de água, ou não saber onde colocou os óculos. E o mais desagradável é que quando isso acontece a uma pessoa jovem, é porque está estressada; na minha idade, dizem logo que é caduquice…

memo6Algumas coisas podem ajudar a quem vive se esquecendo das coisas. Uma das mais importantes é ter um lugar certo para cada coisa. Eu não vejo nada de perto, sou hipermétrope em alto grau. Dirijo sem óculos, mas até para comer preciso deles. É crucial que eu tenha um lugar certo para os óculos. Então é assim: um no rosto (o de andar em casa); outro na mesinha de cabeceira (o alinhado, de sair) e mais dois de modelo “fora-de-moda” dentro da primeira gaveta da cômoda. Quando viajo levo três, guardados em lugares diferentes da bagagem.

Meus remédios estão organizados assim: os de tomar de manhã, na mesinha da cozinha em que preparo o café. Os de tomar à noite na mesinha ao lado do sofá onde vejo TV. Não tem como esquecer. Quando estou tomando antibiótico, que tem que ser na hora certa, tomo a dose e coloco o celular para despertar no horário da próxima. Assim, nunca esqueço nenhuma.

As tesouras são três: uma na cozinha, outra no escritório, outra junto da máquina de costura. A coisa que eu mais odiava quando morava com a família – agora moro sozinha – era ficar procurando a tesoura, e não adiantava comprar DEZ tesouras; quando eu queria uma, nunca encontrava. Uma vez amarrei uma na cabeceira da cama; pois os terroristas domésticos, com a própria tesoura, cortaram o cordão e a levaram dali.

memo9Meus livros são organizados nas estantes por assunto, e ninguém é autorizado a mexer neles. Meus sapatos - todos – são colocados à vista, senão esqueço de que eles existem. A mesma coisa ocorre com as echarpes, colares e bijuterias. Colocar uma coisa numa caixa fechada é simplesmente bani-la do meu cotidiano. Meus armários de cozinha não têm portas, meu guarda-roupa não tem portas.

memo10Um problema grave que eu tinha era esquecer as panelas no fogo. Então comprei um timer, que achei no camelódromo por sete reais. Quando coloco água no fogo, ponho imediatamente o timer em cinco minutos. Se for arroz 20 minutos, e assim por diante. Quando preciso ligar para alguém, mas só pode ser daqui a meia hora, descobri um timer on-line que me avisa quando a meia-hora acaba. A campainha toca, e eu largo o que estou fazendo e faço a ligação. Ele serve também para limitar o tempo de algo que estou fazendo no computador. Por exemplo: adoro jogar sueca – um jogo antigo, que se jogava muito no interior quando eu era criança, ou então Mah Jong. Então, para não passar o dia todo na jogatina, regulo o timer-on-line. Por que não uso o timer da cozinha para isso? Elementar, meu caro Watson: o timer da cozinha é da cozinha…

bananameninaFora isso, para manter a mente ativa eu escrevo todo dia neste bloguinho, que hoje completou seis mil visitas em menos de dois meses, faço palavras cruzadas e sodoku, sou doida por enigmas e quebra-cabeças, faço leitura anotada de livros e sou muito, muito curiosa: quero saber de tudo um pouco. Alimento-me bem, e mantenho o bom-humor na maior parte do tempo.

Finalmente, se a memória serve para lembrar, também serve para esquecer. Ouvi ontem no noticiário que vai voltar a farra com as passagens internacionais para os políticos. Uma coisa dessas, meu caro leitor, é melhor esquecer pra não morrer de raiva ou de vergonha.





Álbum de recordações

22 05 2009

Hoje é dia de remexer no baú e procurar coisas interessantes para mostrar. Poucas palavras e muita figura, para equilibrar com os quilométricos textos que posto aqui de vez em quando, como foi o caso de ontem.

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Carnaval de 1950. Estou com meus meus pais, Nilo e Cleuza, e a babá, passeando na rua Marques do Herval, em Campina Grande. A fantasia é de "havaiana", toda feita por Papai em papel celofane vermelho.

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Foto histórica, data do início dos anos 1960, com os jornalistas atuantes na cidade. Vemos Josusmá Viana, Nilo Tavares (meu pai), Luismar Rezende, Epitácio Soares, Ramalho Filho e Leonel Medeiros. Não consegui identificar a figura por trás, entre Ramalho e Epitácio. Talvez seja o motorista do táxi, que naquele tempo se chamava "carro-de-praça".

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Minha mãe, Cleuza Santa Cruz Tavares, "a Marquesa", em foto de 1945, quando ela tinha apenas 24 anos de idade, com seu cachorro Pinóquio.

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Meu filho Rômulo Tavares, aos sete anos de idade. Hoje ele é músico e publicitário, tem 41 anos, e mora em Natal.

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Carta-poema de 1946, escrita pelo meu avô Braulio Fernandes Tavares ao meu pai, Nilo Tavares, pedindo vinte mil réis para trocar a sola do sapato. Clique na imagem e veha em tamanho maior.

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Campina Grande-PB, meu berço natal, com o aspecto que tinha na década de 1950. A rua é a Floriano Peixoto - veja as torres da Matriz à esquerda.

Versos do meu avô Braulio para sua noiva Clotilde. A data é 1906, cento e três anos atrás.

Versos do meu avô Braulio para sua noiva Clotilde. A data é 1906, cento e três anos atrás.





O mundo serial da TV

21 05 2009
C.S.I.Las Vegas

C.S.I.Las Vegas

Sou uma série-maníaca compulsiva. Isso quer dizer que acompanho com entusiasmo muitas das séries que passam na TV fechada. Gosto sobretudo dos enredos policiais, de detetives, e daqueles que envolvem perícia médica, um ramo da medicina que sempre me atraiu muito. E também gosto de séries cômicas e românticas.

Só para você ter uma idéia, acompanho com fervor: E.R. – cuja última temporada começa agora em junho revelando no primeiro episódio quem morreu na explosão da ambulância), Desperate Housewives, C.S.I. Las Vegas, Miami e New York, The Big Bang Theory, Two and a Half Men, Life, The Mentalist, Fringe, The Eleventh Hour e In Plain Sight. E já acompanhei:

Gilmore Girls

Gilmore Girls

Gilmore Girls, Friends, Without a Trace, Sex and the City, Close to Home, Medium, Vegas, Bones, Justiça Sem Limites, Criminal Minds e muitas que esqueci o título, séries que já acabaram ou – pior – começaram a ser dubladas, como as do canal Fox, tornando insuportável a audição. E teve ainda Heroes, Law and Order-SVU, Huff e House, que eram do Canal USA que tive até 2007 e agora não tenho mais.

Vale a pena também lançar um olhar nostálgico sobre o passado, sobre a era pré TV-a-Cabo, ainda na TV preto-e-branco e me lembro logo de Napoleon Solo – o Agente da UNCLE,

MacGyver-Profissão Perigo

MacGyver-Profissão Perigo

MacGyver-Profissão Perigo, O Fugitivo, O Incrível Hulk, Bonanza, Dr. Kildare, Dallas, A Feiticeira, Jeanie é um Gênio, Perdidos no Espaço, Casal 20, Ilha da Fantasia, As Panteras… Não são todas, são apenas algumas das que eu vi e que me lembro.

Gosto das séries que assisto por motivos variados. E.R. me traz de volta os três ou quatro anos em que, ainda estudante, dava plantões nos Pronto-Socorros do Hospital das Clínicas da UFRN e do INPS (antigo Hospital dos Pescadores, nas Rocas) em Natal, serviços de urgência já extintos, onde aprendi muita coisa e vivi muita coisa rica de experiência humana. Os acontecidos ali, onde eu às vezes passava tres ou quatro noites por semana de plantão, davam pra fazer 15 temporadas de 20 episódios cada uma. Para mim, a prática da urgência é  a mais interessante da Medicina, e se eu voltasse, era onde gostaria de trabalhar: num serviço de atendimento de urgência.

The Big Bang Theory

The Big Bang Theory

The Big Bang Theory é uma série sobre quatro jovens pHDs, inteligentíssimos mas completamente inábeis quando o negócio é lidar com as questões práticas da vida, em especial os relacionamentos amorosos. Lembro da minha tímida e desajeitada adolescência, lendo tudo o que é de livro, sabendo desenvolver equações e matrizes, mas cheia de dedos quando era pra namorar. Os atores são ótimos, e a loirinha Penny (Kaley Cuoco), egressa de outro seriado, Charmed, é realmente muito fofa. É uma série de meia-hora, que segue o modelo de Friends e Two and a

Two and a Half Men

Two and a Half Men

Half Men, com roteiro ágil, piadas engraçadas, inteligentes e bem encadeadas. Aliás, em Two and a Half Men há uma das melhores personagens do mundo serial da TV: a empregada Berta.

Uma das novidades deste ano são as séries Fringe e The Eleventh Hour, que se propõem a tratar de temas ligados à ciência e à tecnologia, com fortes dosagens de ficção científica, principalmente em Fringe. Esta série começou muito bem, mas eu não gostei dos últimos episódios, que para mim perderam um pouco a qualidade, com soluções saindo do nada e situações que ferem a verossimilhança interna do enredo, tendo se recuperado no episódio desta semana, aquele onde

Berta, ao centro.

Berta, ao centro.

a agente do FBI Olivia Dunham (Anna Torv) é raptada. The Eleventh Hour, cujo protagonista é o Rufus Sewell, ator meio canastrão mas que eu simplesme a-do-ro, não consegue decolar, os episódios são mornos e ainda não conseguiram me convencer.

Simon Baker. Ahhhhhhhhhh...

Simon Baker. Ahhhhhhhhhh...

Quanto a The Mentalist, ver durante uma hora o lindíssimo Simon Baker no papel-título contribui para a recuperação dos meus olhos esturricados de passar 16 horas por dia diante de uma tela. Na verdade, o moço é um verdadeiro colírio que recomendo enfaticamente “a todos e todas” que gostarem de ver homem bonito. As tramas é que precisam ser um pouco mais bem amarradas para amarrar também o espectador mas quer saber? Com Simon Baker na tela, eu nem ligo.

Desperate Housewives continua simplesmente maravilhosa, com suas doses cavalares de humor negro, as vezes mais humor, às vezes mais negro, mas sempre uma diversao garantida. Gosto de brincar comigo mesma de “qual é a minha desperate favorita”, e escolho naquela semana uma delas para observar melhor, e procurar gente parecida com ela entre as pessoas que conheço: a controladora Lynette, a fútil Gabrielle, a piranhésima Eddie, a desastrada Susan, a perfeccionista Bree ou a sonsa Katherine. As crianças – os filhos de Lynette, as filhas gordinhas de Gaby, os filhos de Bree, Mike Jr. – são um show e a velha senhora MacCluskey é, como Berta de Two and a Half Men, um presente dos céus para qualquer atriz.

Desperate Housewives

Desperate Housewives

Vejam o diálogo de ontem, quarta feira, episodio 16 da 5a. temporada.

Gabrielle (G) vai encontrar a amante (A) do marido da amiga para convencê-la a desistir do caso.

G – Você precisa acabar esse caso. Ele é casado.

A  – É, eu, sei, mas ele não ama a esposa.

G – Ama, sim, ama muito, eles têm dois filhos.

A – Ele me disse que vai se separar.

G – Separar como? Ela está grávida.

A – É mentira. Ele me garantiu que não transa com ela há mais de um ano.

G – Então temos que ligar para o Vaticano pois vamos precisar de uma manjedoura…

Concorde comigo, meu caro leitor, que é uma verdadeira diversão.

Life

Life

Antes que você me pergunte, eu não acompanho nem Lost, nem Grey’s Anatomy. Não vejo Lost porque me dá agonia aquele povo sujo, suado, com os cabelos nos olhos; e Grey’s Anatomy porque não consegui me envolver nem com o roteiro nem com os personagens – e talvez porque quando estudei Anatomia semore preferi o livro de Gardner ao de Grey.

Uma coisa boa das séries é que não há perigo de perder um episódio. Boa parte delas têm episódios independentes, e não faz muita diferença você ficar sem ver um ou outro. Além disso, os canais oferecem cinco ou seis oportunidades de ver o mesmo episódio na semana; e nos períodos entre uma e outra temporada nova, os capítulos passam todos novamente. É bem diferente de assistir à novela das oito, onde você só tem aquela oportunidade para ver o capítulo, o que lhe faz ficar prisioneiro da história e da emissora.

Agora eu quero fazer um comentário de outro tipo e, se você chegou até aqui e está cansado de ler, levante-se, beba um copo dágua – é muito bom beber água, e a cota é dois litros por dia – e volte depois.

Perdidos no Espaço

Perdidos no Espaço

Imaginem vocês que chegou aqui em casa uma pessoa conhecida no auge das temporadas dos C.S.Is. e ficou reclamando de mim. Disse que eu passava o meu tempo vendo essas séries cheias de crimes, de roubos, de assassinatos, de violência e que isso não era legal pra mim. Além disso, o tempo gasto dessa forma na frente da TV me impedia de ler um jornal, de ver o noticiário, de me inteirar do que estava acontecendo no país.

Pensei um pouco e concordei. Na noite seguinte, em vez de assistir à minha série preferida, liguei a TV no Jornal Nacional. Foram crimes, assassinatos, extorsão, corrupção ativa e passiva, crimes de ódio, tiroteios, tráfico de armas e drogas, abuso sexual, exploração e prostituição de menores, pedofilia, e todo tipo de desgraça que você possa imaginar! E tudo de verdade. Tudo acontecendo de verdade com gente de carne e osso que nem eu e você.

Voltei para as minhas séries porque nelas os ladrões e criminosos vão todos para a cadeia. Já os que vi no Jornal Nacional, de paletó e uma gravata, transitam para lá e para cá, de Brasília para o exterior, da capital para o interior, com passagens e salários pagos do meu e do seu bolso, e estão todos aí posando de “homens bons” no Congresso, nos Tribunais Superiores, nas presidências das estatais.

Deixem-me de volta com meus personagens preferidos, com minhas donas-de-casa desesperadas, com os nerds incapazes de namorar, com os irmãos Charlie e Alan Harper, com Berta e a Sra. MacCluskey, com o Detetive Crew, com o lindíssimo Patrick Jane, com a louraça Mary Shannon, com as Dras. Abby Lockhart e Neela Rasgotra.

Alienada! você diz. Omissa! você afirma. Irresponsável! você quase grita. E eu respondo: sou mesmo! E ligo a TV.





Um milagre no Corcovado

20 05 2009

Uma amiga me contou um dia desses uma história espantosa e, mais do que espantosa: verdadeira. Foi assim: um espanhol veio muito jovem para o Brasil, no início da década de 1930, para tentar uma vida nova. Aos vinte anos, chegado a este país, radicou-se no Rio Grande do Sul. Digamos que se chamasse Juan Rodriguez, nome que aportuguesou logo para João Rodrigues, para facilitar sua vida e se adaptar melhor ao novo país.

Sentia saudades dos pais, e dos irmãos que havia deixado pequeninos, mas era jovem, e logo se envolveu na vida do trabalho, arrumou namorada, casou e perdeu o contato com a família que havia ficado na distante terra espanhola.

corcovadoAí, um belo dia, depois de uns vinte anos no Brasil, já com dinheiro sobrando para viajar e fazer turismo, empreendeu a realização de um velho sonho, que era conhecer o Rio de Janeiro, cidade que ele achava a mais bela do mundo. Viajou com a família, hospedou-se na casa de um compadre e num dia em que a mulher foi fazer compras e as filhas foram ao cinema, ele resolveu ir ver de perto o Cristo Redentor. Lá em cima, deslumbrou-se com a paisagem espetacular, tomou um sorvete e veio voltando, descendo a escadaria. Cansado, sentou-se em um banco no meio da descida, onde duas jovens senhoras também estavam tomando um fôlego antes de continuar a subida. E começaram a conversar.

Elas disseram que eram turistas espanholas que ali estavam, e ele imediatamente começou a gabar as belezas do Rio e a indicar-lhe locais turísticos para visitar. Elas disseram que não, que não iram demorar no Rio, porque estavam de viagem para Porto Alegre. Ele ficou espantado. Fazer o quê em Porto Alegre, quando poderiam demorar no Rio, uma cidade tão mais bela? Ele mesmo morava em Porto Alegre e sabia do que estava falando: não havia melhor lugar do que o Rio de Janeiro para passear e ver coisas bonitas. Nós vamos procurar uma pessoa, disse uma delas. Um irmão nosso, que deixou a Espanha há tempos, e que se chamava Juan Rodríguez. Só temos o nome dele mas temos fé em Nossa Senhora que vamos encontrá-lo. Nossa mãe, que já é velhinha, nunca deixou de ter esperanças de vê-lo outra vez.

stairway-to-heavenO resto, meu caro leitor, você já adivinhou. Nossa Senhora, para poupar trabalho e dar prazer a todos, reuniu a família depois de vinte anos a meio caminho do lugar onde seu santo filho toma conta do Rio. Ali, sob os braços abertos do Cristo, as doces menininhas que havia ficado na Espanha há vinte anos, agora adultas, abraçaram o irmão mais velho, reconhecendo no homem vivido, de meia-idade, o jovem que havia deixado a casa paterna há tanto tempo.

Uma história bonita, pra gente ficar feliz e não perder a fé nos milagres.





Xixi no banho!

19 05 2009

Quando eu fazia mestrado e morava em Recife, em 1978, estava grávida da minha filha mais nova, que hoje tem 30 anos. Eu mesma tinha 31 anos na época. Moravam comigo uma amiga e minha irmã mais nova, ambas por volta dos 19 anos, que faziam faculdade e trabalhavam. Duas meninas lindas, namoradeiras, que sempre estavam às voltas com os rapazes.

save waterEntão eu, para brincar com elas, preguei no banheiro um cartaz que dizia: “Economize água. Tome banho com o seu namorado.” Era muito engraçado ver a cara dos rapazes quando viam o anúncio, mas no final todos aproveitavam e tomavam banho juntos. O problema é que às vezes a economia não funcionava, pois os banhos juntos demoravam muito mais do que dois banhos separados…

Naquela época não se falava ainda tanto de crise energética nem do esgotamento do suprimento de água do planeta. O meu pensamento de economia referia-se apenas à conta save water3da água, que eu geralmente pagava sozinha, pois as meninas eram jovens, estudantes, com empregos ainda precários e pelos dez anos de diferença, eu fazia mais ou menos o papel de “mãe” da duas. Foi uma boa época, da qual guardo carinhosas recordações.

Hoje, com a ameaça do esgotamento dos recursos naturais do planeta, as campanhas de economia de água, energia e outros recursos se sucedem, sobretudo essa muito curiosa, que está agora sendo divulgada pela Internet e que, por ter a ver com o que se passa dentro do banheiro, fez eu me lembrar da minha “campanha” de 30 anos atrás.

A campanha é Xixi no Banho e defende que, uma vez que 80% do gasto de água de uma casa é no banheiro, e que na privada se gasta mais do que no chuveiro, nada mais saudável para economizar água do que fazer xixi durante o banho.

A argumentação é que o xixi é composto por 95% de água, sendo o restante 5% apenas sais e amoníaco. Não é nojento, não transmite doenças, e a pessoa deve ter o cuidado apenas de fazer o xixi no ínicio do banho, para que a água possa realmente diluir o xixi e levá-lo para longe. A campanha é de uma organização chamada SOS Mata Atlântica, que anuncia um evento para o Ibirapuera, em São Paulo, o Viva a Mata, de 22 a 24 de maio próximo. O site é muito engraçadinho, cheio de animações e vai a pena dar uma olhada lá.

Antes que me esqueça, 75% dos internautas que o visitaram responderam à enquête dizendo que sim, que fazem xixi no banho. E você, faz?

Bem, mas o mundo está cheio de gente desocupada e sem noção, que não perde a oportunidade de tirar sarro dos outros. Então essas criaturas inventaram campanha semelhante, Cocô no Banho, onde defendem que o ato irá economizar papel higiênico e impedir que mais árvores sejam derrubadas. Segundo os idealizadores, cada pessoa gasta por ano 864 metros de papel higiênico que seriam economizados se o freguês optasse por fazer cocô no banho.

O site é engraçadíssimo e oferece ainda sugestões para resolver as mais variadas situações tipo “O que fazer se o cocô ficar preso no ralo” e outros que não me atrevo a mencionar. Faz propaganda do “xampum” Cocô no Banho e do Creme para Pentelhar. É a coisa mais engraçada que já li, e é tão bem feito que se alguém sem senso de humor ler os textos pensa que aquilo é sério e não uma imensa gozação.

É por isso que penso que o mundo tem jeito: primeiro porque há pessoas sérias preocupadas com ele; e segundo porque também ainda tem muita gente com senso de humor.

(Eca! Não achei nem como ilustrar esse post!)





Olhando sem ver.

18 05 2009

É assim que nós vivemos na cidade em que moramos. Eu na capital da Parahyba, você em Natal, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Jucurutu, Mossoró ou Riacho dos Cavalos. Seja lá onde for a nossa moradia, acostumamos o olhar e passamos sem ver por um bocado de coisa, até que alguém nos chama a atenção.

Você viu? aquela estátua, busto, painel, construção, árvore centenária. Aí, a gente vai, e vê.

Falávamos disso ontem na mesa do cafezinho que nos reúne todos os domingos, quando eu me lembrei desse projeto maravilhoso que Sandro Fortunato e Canindé Soares estão fazendo em Natal desde fevereiro deste ano e que já está quase concluído.

Sandro Fortunato trabalha com comunicação há 22 anos, nas áreas de jornalismo e fotografia. Além disso, é internauta desde que inventaram a Internet e mexe com editoração eletrônica e websigner. É autor do site Memória Viva, com o qual já ganhou alguns prêmios IBest. Doido por biografias, dorme de dia e passa a noite acordado mantendo na Internet blogs, sites e tudo quanto é de coisa. Canindé Soares é repórter fotográfico, um dos mais conceituados do Nordeste, com mais de 25 anos de experiência, com um blog que teve cem mil visitas em quatro meses! Conheço ambos há muito tempo e tenho por eles uma grande amizade e uma espetacular ressonância intelectual. Infelizmente, do ponto de vista fisico são a coisa mais diferente de Brad Pitt que você possa imaginar. A confiança e amizade que nos une permite que eu faça gracinhas desse tipo com os dois, e eles continuem meus amigos.

Pois bem: essas duas criaturas heróicas, por conta própria e assumindo os riscos, resolveram juntar seus esforços e cabeças pensantes para fazer um trabalho de documentação de estátuas, efígies, bustos e semelhantes espalhados pelo cidade, e pelas quais a gente passa todo dia e não vê, e quando vê não conhece e sequer adivinha quem é aquele velho bigodudo que nos encara de cima daquele pedestal.

É o próprio Sandro quem explica:

“Em escolas públicas e particulares, autarquias e outras instituições, encontram-se outros bustos e efígies. Todos mais ou menos esquecidos, com seus olhares perdidos no tempo, testemunhando mudanças, lembrando de seus tempos gloriosos e dos motivos que os tornaram imortalizados em pedra ou metal. Calados, olhando mais do que são olhados, acabaram chamando nossa atenção e logo estarão reunidos em livro e também em uma exposição. Será uma reunião de políticos, militares, empresários, religiosos e intelectuais, de várias épocas, como colunista social nenhum jamais sonhou.”

Fã dos dois, desejo a eles o sucesso que merece a iniciativa e envio os parabéns do Umas & Outras. Comemoro esse projeto como uma ilha verdejante em meio ao areal do esquecimento e da desmemória com os quais, pouco a pouco, vamos sepultando o nosso passado.





As igrejas do interior – III

17 05 2009

Volto aqui com as imagens das igrejas das pequenas cidades do interior, tão significativas para o povo que ali vive. Algumas antigas, bem conservadas, guardando ainda traços do barroco tardio, como a de São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte, mostrada aqui. Outras singelas e pobrinhas, mas belas exatamente por isso: pela singeleza.

As fotos estão creditadas aos autores: quando não há o crédito, é porque são minhas. Fotos sem crédito não serão publicadas.

Areia Branca-RN.

Areia Branca-RN. Foto de Alexandro Gurgel.

Paraú-RN.

Paraú-RN.

Caraúbas-RN.

Caraúbas-RN.

Caicó-Rn. Foto de Karl Leite.

Caicó-RN. Foto de Karl Leite.

Apodi-RN.

Apodi-RN.

Santa Cruz-RN. Foto de Hugo Macedo.

Santa Cruz-RN. Foto de Hugo Macedo.

Pedro Velho-RN. Foto de Karl Leite.

Pedro Velho-RN. Foto de Karl Leite.

Acari-RN.

Acari-RN. Foto de Hugo Macedo.

Itapetim-PE

Itapetim-PE

Tangará-RN. Foto de Karl Leite.

Tangará-RN. Foto de Karl Leite.





Sem assunto…

16 05 2009

O meu caro leitor deve estar se perguntando: se está sem assunto, por que bloga? E eu respondo: porque a proposta deste blog é ter um post por dia durante um ano.

Então, trate de me aturar porque além de sem assunto eu estou mortinha de preguiça neste sábado chuvoso.

Foto de Hugo Macedo. Visite o blog em http://fotohugo.blogspot.com

Foto de Hugo Macedo. Visite o blog em http://fotohugo.blogspot.com

FRASE

“Nunca serei velho. Para mim, a velhice começa quinze anos depois da idade em que eu estiver.”

(Bernard Baruch, que morreu aos 95 anos em 1965.)

Colégio N. Sra.do Bom Conselho, em Bom Conselho-PE, onde eu fui interna nos anos de 1956 e 1957. O colégio é tradicional daquela região do AGreste de pernambuco, fundado pelo missionário Frei caetano de messina há mais de 150 anos. Visitei-o em 2004, quase 50 anos depois que fui interna lá. Pense numa emoção!

Colégio N. Sra.do Bom Conselho, em Bom Conselho-PE, onde eu fui interna nos anos de 1956 e 1957. O colégio é tradicional na região do Agreste de Pernambuco, fundado pelo missionário Frei Caetano de Messina há mais de 150 anos. Visitei-o em 2004, quase 50 anos depois que fui interna lá. Pense numa emoção!

OUVIDO (OU LIDO) NA INTERNET

Um hipocondríaco vai ao médico e  diz:
- Doutor, a minha mulher me traiu há uma semana e ainda não me apareceram os chifres. Será falta de cálcio?

Fotos histórica: Braulio Tavares, Fuba e Pedro Osmar. Quem é da Paraíba conhece.

Foto histórica: Braulio Tavares, Fuba e Pedro Osmar, em algum lugar do passado. Quem é da Paraíba conhece.

FRASE OUVIDA NÃO SEI ONDE

A adversidade é a pedra onde amolo a minha faca.

Sem legenda. E antes que me acusem de politicamente incorreta, comunico que estou loura também, por uns dias.

Sem legenda. E antes que me acusem de politicamente incorreta, comunico que estou loura também, por uns dias.

LÍQUIDO CARÍSSIMO…

O que é que custa entre 6 e 14 mil reais o litro e não serve nem para beber? Resposta: tinta de impressora, essas máquinas malditas que inventaram somente pra gente comprar o tal líquido…

Eu e o paredão do centro Cultural do Banco do Brasil em Brasília. A foto é de Sandro fortunato, a pose pe minha. Novembro de 2006.

Eu e o paredão do Centro Cultural do Banco do Brasil em Brasília. A foto é de Sandro Fortunato, a pose é minha. Novembro de 2006.

MAIS UMA FRASE

“Corta tua própria lenha e ela te aquecerá duas vezes”

(Thoreau)

Bons tempos em que queríamos resolver os problemas do mundo na cama...

Bons tempos em que queríamos resolver os problemas do mundo na cama...

SÓ MAIS OUTRA…

“Nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem a seus
pais e são simplesmente maus.”

(Sócrates, filósofo grego, 470-399 a.C.)

...e, finalmente, nunca houve nem haverá uma mulher como Gilda.

...e, finalmente, nunca houve nem haverá uma mulher como Gilda.





A cruz dos heróis

15 05 2009

Este texto foi publicado originalmente na Tribuna do Norte, de Natal, em 1999, depois que cheguei de uma viagem que fiz pelo interior do Rio Grande do Norte repetindo o trajeto que Luís da Câmara Cascudo fez em 1934 e que deu origem ao livro Viajando o Sertão.  A minha intenção, terminada a viagem, era a publicação do relato. mas como não houve quem se interessasse em editar, e eu estava sem grana na época, o texto permanece até hoje dormindo na gaveta onde eu vou, de vez em quando, pegar um pedacinho dele para servir aos leitores.


Muita história existe por aí por esse sertãozão. Já dizia o mestre Guimarães Rosa que o sertão é do tamanho do mundo, e vai ver que é mesmo. O meu caro leitor não imagina o que existe por aí por esse interior, para se conhecer, para se descobrir, para se entender.

Em Lucrécia-RN, pertinho da cidade, tem uma cruz plantada na beira da estrada com uma placa com o seguinte dístico: “A cruz dos três heróis. Francisco Canela, Sebastião Trajano e Bartolomeu Paulo sucumbiram neste lugar pelas mãos assassinas de Virgolino Lampião na destemida missão de liberdade de Egidio Dias da Cunha, em 12 de junho de 1927.” O lugar chama-se Caboré, e foi palco dessa sangrenta história que está lá todinha, muito bem contada no livro de Raul Fernandes “A Marcha de Lampião”.

A cruz dos heróis, em Lucrécia-RN.

A cruz dos heróis, em Lucrécia-RN.

A história é a seguinte: os cangaceiros, vindos do Ceará, entraram no Rio Grande do Norte com o intuito de invadir Mossoró. Pelo caminho assaltavam vilas e cidades, e faziam reféns para obter dinheiro. Um deles foi o fazendeiro Egidio Dias, pelo qual os bandoleiros estavam pedindo dez contos de réis.

Rapazes amigos da vítima, corajosos, temerários mas inexperientes, resolveram ir enfrentar os cangaceiros e resgatar o refém. Tudo foi combinado enquanto estavam em um forró, após algumas doses.

É Raul Fernandes quem conta: “A rapaziada saiu despreocupada, em algazarra, estrada acima. Os cabras, emboscados no sítio Caboré, aguardavam que chegassem ao alcance de tiros certeiros. De súbito, ouve-se uma descarga, seguida de outra. Os da frente caíram varados de balas.”

Foram mortos cruelmente os três rapazes que encabeçavam a marcha. Os outros, ao ouvirem os tiros, se jogaram ao chão e rastejaram para dentro do mato, voltando bem mais tarde para recolher os corpos dos amigos.

Zé Maia e Rita Cesária, memória viva da cidade.

Zé Maia e Rita Cesária, memória viva da cidade.

Zé Maia, com quem conversei em Lucrécia, contemporâneo desses acontecimentos, complementa a história e dá detalhes: “Ajuntaram e foram com uma pistola velha, pau, um rifle velho, pra ir atrás de Lampião que tava com um bando de 60 homens. Quando iam conversando, pei-pei-pei, pei-pei-pei, aí Lampião apontou. Dois caíram logo e o tal do Bartolomeu tinha chegado há pouco tempo, era um primo da gente, do exército, um rapaz novo, dizem que ele atirou com a arma de fogo, dizem até que ele matou um, mas os cangaceiros pegaram ele, cortaram os braços, regetaram as pernas, furaram os olhos, destamparam a cabeça, ficou um bagaço. Aí falam que Lampião disse: – Um homem daquele não era pra nós ter matado não, era pra nós ter conduzido ele.” Quanto ao refém, conseguiu fugir, aproveitando-se de uma distração dos bandidos. Raul Fernandes conta que Egídio Dias “desata, com os dentes, o nó da corda. Tira o paletó e a camisa. Arruma as vestes no chão e coloca o chapéu, no lugar da cabeça, de modo a simular sua presença.”

Egídio Dias foi o único prisioneiro a conseguir escapar de Lampião. “Força de reza, minha filha!” confidenciou-me Rita Cesária, mulher de Zé Maia. “Foi a mulher dele que rezou, reza forte. Chegou em casa muito judiado, muito maltratado, mas escapou. Força de reza.”

E quem sou eu pra duvidar?


Mais sobre a minha viagem, aqui.

E para mais histórias ou informações sobre o cangaço acesse o blog da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço.





A eternidade do minuto

14 05 2009

forever youngO escritor Paulo Coelho defende interessante tese em um de seus artigos, desses que são publicados em jornais de todo o país. Diz ele que o desejo de imortalidade é na verdade uma armadilha, e que o camarada que obtivesse tal dom possivelmente seria muito infeliz porque a maioria de nós, seres humanos, somos fortemente resistente às mudanças. Na verdade, diz o escritor, o que gostaríamos era de ser imortais desde que o mundo que esta à nossa volta, como o conhecemos, também ficasse imortal”, ou seja, não se modificasse.

entrevista-com-vampiro05Paulo Coelho dá como exemplo o mito do vampiro, que é aquele cara cujo corpo “não vai seguir o curso normal da natureza; será jovem para sempre, pode viver o tempo que quiser, sem ter de lidar com os problemas relacionados à idade. Seu  único regime é um pouco de sangue todos os dias, e seu único cuidado com a pele é evitar a luz do sol – mas afinal isso é um preço muito pequeno que se paga diante de todas as possibilidades de uma vida eterna”, conclui, bem humorado, o escritor.

manual_vampirismoO mito do vampiro apaixonou gerações, até que, com o advento da Aids, o sangue tornou-se um líquido mais suspeito do que a água do esgoto. O próprio Paulo Coelho, no início de sua carreira, escreveu um livro sobre o tema, o Manual Prático do Vampirismo, livro esse que o próprio escritor fez por onde recolher do mercado tão logo ficou famoso pregando verdades mais amenas e mais voltadas para a “luz”. Eu, como boa bibliófila, tenho meu exemplarzinho bem guardado e não vendo por dinheiro nenhum.

Mas voltando a esse desejo de eternidade, é isso que nos faz ter filhos, escrever livros e plantar árvores, como se diz na sabedoria popular. Com esse objetivo, de eternizar nossa passagem pelo planeta, queremos deixar atrás de nós o maior número possível de marcas, de referências, de lembranças.

nightstar03É natural do homem querer a eternidade, e as religiões apregoam a vida eterna como uma das suas mais sedutoras possibilidades. Vida eterna sim, mas em outro mundo, no tal “país ignorado do qual ninguém jamais voltou”, nas palavras inspiradas de Shakespeare.  Nesse mundo aqui, a vida eterna se tornaria uma complicação porque todos os nossos amigos envelheceriam e morreriam; o homem amado, ao nosso lado, ficaria decrépito e depois também se finaria, e correríamos o perigo, sempre renovado, de não conseguirmos acompanhar a velocidade do avanço tecnológico, tornando-nos analfabetos eletrônicos em poucos anos.

Eternidade? Só a do minuto, deste minuto agora, enquanto você me lê, o único minuto do qual você e eu temos certeza de que é nosso, de que nos pertence e que é, certamente, o nosso minuto mais importante.





Feiras, piratas e outros.

13 05 2009

feira_modaFui hoje a uma feira dessas que acontecem nas cidades, que duram uma semana, e que vendem todo tipo de tranqueira, obviamente dentro do perfil a que a feira se propõe. Então tem feira de informática, feira de livros, feira de automóveis, feira de móveis, feira de artesanato e por aí vai. A que fui hoje era de “Moda e Estilo”, ou coisa parecida.

Fiquei impressionada com o desespero das pessoas para comprar todo tipo de artiguete barato que se oferece à sua frente, a maioria deles desnecessários, de mau-gosto, feitos com material de quinta e com confecção de qualidade duvidosa. Mas ninguém resiste ao apelo de “um é dois, mas três é cinco”. A tal feira me pareceu mesmo um imenso camelódromo.

moda_indiaHavia um stand imenso cheio de roupas com a moda “trazida diretamente da Índia” e, segundo o anúncio em volume altíssimo, “absolutamente idêntica àquela usada pelas atrizes da novela da Globo”. Preciso dizer que estava lotado de gente?

Zanzei por lá, não vi nada que me interessasse e voltei para casa sem ter feito nenhuma despesa, a não ser um brinco que custou cinco reais e que realmente parece algo muito, mas muito superior mesmo.

O motivo de estar postando aqui sobre isso é que vi dois stands vendendo cópias piratas de DVDs e CDs. Tinha filme e show pra todo tipo de gosto. Com a capinha, o DVD custava quatro reais; sem a capinha, apenas acondicionado em um saco plástico, era apenas três reias. Lá estavam todos os sucessos do cinema, para quem quisesse.

Sem querer tomar aqui neste post nenhuma posição contra ou a favor da pirataria, sempre vi o tal comércio restrito apenas aos camelôs, ao informal, beirando o ilegal. Nunca esperei encontrar um representante dos piratões numa feira, num stand, estabelecido como se fosse uma loja qualquer.

AINDA VOLVERINE

volverine2Vocês acreditam que ainda não vi o tal do Volverine? O jornalista Alex de Souza me aconselhou a desligar o lado racional da mente e me divertir com o filme; é isso que vou fazer. Aliás, ando desligando o lado racional da mente com muita freqüência ultimamente. É bom que só.

C.S.I.

Fã de séries que sou, acho que a série C.S.I. perdeu a graça depois da saída do personagem Gil Grisom, interpretado pelo ator William Petersen. Mesmo considerando a magnética presença de Lawrence Fishbourne, que entrou para reforçar o elenco, os episódios não têm conseguido me prender a atenção. Aí, fico vendo as temporadas antigas que passam no canal AXN todo dia, às 18 horas.

QUALIDADE DE VIDA

writerPra vocês verem como uma bobagem pode fazer diferença na qualidade de vida de alguém. Na semana pasada, tomada por dor nas costas, na coluna, no pescoço e em tudo o que é de lugar da minha combalida anatomia, considerei que era hora de comprar uma cadeira específica para trabalhar, com braços, rodinhas e formato mais ergonômico. Foi o que fiz, e minha vida mudou deste então.

Agora, fico horas à mesa escrevendo e teclando, tendo retomado com redobrado vigor minhas pesquisas genealógicas sobre o Clã Santa Cruz. Se você se interessa pelo tema clique aqui e veja o que já descobri sobre a minha família.

A PRIMEIRA DAMA DA GENEALOGIA

Por falar em Genealogia, ontem, terça-feira, dia 12, recebi a visita da secretária do Colégio Brasileiro de Genealogia, do qual sou sócia-colaboradora. A ilustre personagem, a carioca Regina Cascão, veio em viagem de turismo e passou um dia na capital paraibana. Regina Cascão é autora de dois livros importantíssimos para a genealogia das famílias nordestinas: Pereira Lima – Uma Família Pernambucana e Do Porto ao Recife: os Pinto de Lemos. Andou, virou, mexeu, conheceu a cidade, conversamos e nos despedimos, esperando nos encontrar novamente em breve. Aí, sou eu que vou vê-la no Rio.

Regina Cascão e esta blogueira, ontem no Mercado de Artesanato, botando os assuntos em dia e satisfeitas que só um vintém na bacia dum cego.

Regina Cascão e esta blogueira, ontem no Mercado de Artesanato, botando os assuntos em dia e satisfeitas que só um vintém na bacia dum cego.

IRLANDA VOLTOU

Disposta, lustrosa e absolutamente despreocupada, minha gatinha Irlanda, que desapareceu há uma semana, reencontrou o caminho de casa e hoje de manhã voltou, para alegria de todos nós, sua família humana. Não se sabe por onde andou, ou o que fez. Não se sabe se foi levada, ou se foi por sua vontade. Aliás, com os gatos, é preciso aceitar essa independência deles, ou então a gente é capaz de ficar doido. Ela voltou, e estamos felizes.





Da série “gerundiando”.

12 05 2009
Entrei pro cangaço!

Entrei pro cangaço!

ESTOU…
… RELENDO as memórias de Pedro Nava. Depois de Baú de Ossos e Balão Cativo, acabo de começar Chão de Ferro.
… BEBENDO suco de uva com soda limonada light.
… COMENDO umas tapioquinhas recheadas com parmesão que eu mesma faço. Hummmmm
… DORMINDO melhor, depois das drogas lícitas que os médicos me receitaram.
… ABRAÇANDO minha amiga, a genealogista carioca Regina Cascão que, de férias, veio hoje passar o dia na capital paraibana.
… ASSISTINDO em DVD O Código da Vinci, que nunca tinha visto, pois vem aí a continuação.
… COMPRANDO uma nova TV a cores, daquelas grandonas, que não tenho ainda.
… ESTUDANDO psicologia, por minha própria conta, tendo a mim mesma como objeto de estudo.
… LAMENTANDO o sumiço da minha gatinha Irlanda, lá em Natal. Há dez anos conosco, era um membro da família.
… PESQUISANDO os registros civis dos meus antepassados, agora disponíveis na Internet, pelo menos no período 1890 a 1930.
… PLANEJANDO ir assistir Volverine amanhã ou depois.
… REVERENCIANDO uma imagem de Santa Zoraide que encontrei na loja de artesanato e imediatamente entronizei na entrada do apartamento.
… COMPROVANDO que minha sobrinha-neta Maria Luísa é mesmo a criança mais linda que já vi.
… SONHANDO sonhos estranhos. O último foi com Dunga, lá de Natal. Quem conhece entende.
… PEGANDO leve com a vida.
… ACENDENDO esperanças nos corações.
… VENDENDO saúde.

Irlanda. Espero que onde estiver, esteja bem.

Irlanda. Espero que onde estiver, esteja bem.








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