Carlos Drummond de Andrade, “gauche” na vida

31 10 2009
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Há mais de cem anos, num dia 31 de outubro como esse, em 1902, nascia em Itabira, Minas gerais, o poeta Carlos Drummond de Andrade. Não foi somente um mestre na poesia, mas também na crônica e no conto; sua bibliografia é vasta e dispensa comentários pois é ponto pacífico que Drummond é um dos nossos “gênios da raça”.

Ainda consigo evocar a emoção que tive quando li Carlos Drummond de Andrade pela primeira avez. Tinha uns 14 ou 15 anos de idade e li no colégio, ou melhor, o professor de Português leu alguma coisa durante a aula e depois deixou o livro por ali; eu peguei, folheei e li, entre surpresa e maravilhada, alguns poemas.

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Acostumada com sonetos, poemas de Castro Alves e poesia parnasiana, fiquei completamente de bobeira com a vigorosa poesia daquele homem que dizia tudo o que eu queria dizer mas não sabia. Da mesma forma que ele, eu estava “presa à vida e aos meus companheiros” e sentia, mesmo de forma imperfeita, que “o tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.” A partir daí, o poeta sempre me acompanhou em tudo, oferecendo a melhor forma de descrever e expresar as minhas paixões, as minhas perprlexidades, os meus anseios, numa época em que eu ainda não tinha linguagem própria para traduzir o que ia no meu coração e na minha mente.

Muitas coisas me ensinou a poesia de Drummond. Ensinou-me que “o mundo é grande e cabe na cama e no colchão de amar”, e que o amor é eterno pois “eu te gosto, você me gosta, desde tempos imemoriais”. Aprendi que um retrato na parede pode doer tanto como se a coisa viva, presente e pulsante estivesse de pé, olhando para mi ali no meio da sala, e desde então guardo certos retratos no fundo das minhas gavetas mais profundas, para que não doam, para que não me machuquem.

Junto com o poeta, compadeci-me de José e perguntei-lhe: “E agora, José?” aproveitando também para perguntar a mim mesma “E agora?” E também fiquei ali, como José, “sozinho no escuro, qual bicho do mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar.” Como as filhas, quis saber de “Nossa mãe, o que é aquele vestido, naquele prego?” E perplexa diante do “mundo, mundo, vasto mundo” descobri que não me chamava Raimundo, não era uma rima e muito menos uma solução. Finalmente, fiquei e ainda fico horas mesmerizada diante do desmesurado edifício poético que é “A Máquina do Mundo”.

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Depois de ler Drummond eu, adolescente estranha e esquisita, descobri um termo que me descrevia exatamente: “gauche”. E, como o poeta, entendi que a condição de artista está sempre ligada a essa “gauchice”, se é que posso dizer assim.

Saúdo entao hoje o poeta de “A Flor e a Náusea”, este homem que sentava “no chão da capital do país às cinco horas da tarde” e dizia, sem admitir nenhuma contestação: “Garanto que um flor nasceu.” No dia em que li esses versos pela primeira vez, aprendi uma lição fundamental: que uma flor, mesmo feia, continua sendo uma flor e que, somente por ser flor, pode furar “o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”





Eu acredito

30 10 2009
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Ontem andei aqui falando no Céu, em São Pedro, em livraria celestial. Aí as pessoas me mandaram e-mail querendo saber em que eu acredito. Ou seja, o meu caro leitor quer saber se eu acredito em Deus e qual é a minha religião.

Confesso que eu acho essa curiosidade meio abusada, meio descabida, meio fora de propósito porque crença e religião é uma coisa de foro íntimo e não deve interessar a mais ninguém a não ser a nós mesmos. Por outro lado, já me acostumei com essas atitudes do meu leitor, sempre querendo saber mais sobre mim e isso é compreensível uma vez que sou eu mesma que vez por outra lhe dou esse cabimento, confessando aqui, neste espaço público, coisas que deveriam ficar no terreno pessoal. Então vou tentar responder às duas perguntas colocadas no início: se acredito em Deus e qual é a minha religião.

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Antes de responder se acredito em Deus, quero falar sobre outras coisas nas quais acredito com toda a força do meu coração. Acredito que o mundo tem jeito. Acredito que o ser humano é bom, e se vez por outra fica mau e criminoso isso acontece por motivos que a minha pequena mente não consegue entender, porque também acredito que tem uma mente maior dirigindo todo esse movimento que chamamos de Vida, Mundo, ou Eternidade.

Acredito na Natureza, quando o raio fende o céu, o trovão ribomba e as nuvens se despejam sobre nós, numa chuva carregada da energia das estrelas. Acredito na força das asas do beija-flor, que o equilibra no ar enquanto ele sorve tão gulosinho o mel dos hibiscos do jardim.

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Acredito que o nascer do sol é um dos mais belos espetáculos da terra, muito embora eu nem sempre esteja acordada para vê-lo. Mas contemplo seu esplendor ao contrário vendo o pôr-do-sol, principalmente naqueles começos de noite em que o arco prateado da lua nova se desenha no céu, como que retesado e disposto a levar nossa mente através do azul até as estrelas.

Acredito na Música, no Teatro, na Literatura. Acredito na Arte e na Filosofia. Acredito na Ciência e nas Tradições que dão sustentação e essência aos povos e civilizações. Acredito na cultura simples do meu povo, nos cantadores de viola, nas panelas de barro e nos cestos de palha, nas histórias de trancoso e nos cantos das romanceiras. Acredito no brotar das sementes e na sua transformação em espiga, e na canjica e na pamonha que posso fabricar com ela.

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Acredito nas maravilhas da tecnologia, nos prodígios da informática, nas viagens interplanetárias. Acredito em tudo que vejo estampado nos olhos dos meus netos Marcelo e Isabela. Acredito na confiança que meus gatos sentem quando se entregam aos meus carinhos, e me deixam coçar a sua barriga e puxar suas orelhas.

Acredito nos mistérios. Acredito no que está oculto e naquilo que a minha mente não alcança. Acredito que existe uma batalha entre o Bem e o Mal, e que eu procuro, nas atitudes da minha vida, estar alinhada com as forças do Bem, da Justiça e da Verdade.

Acredito em você, meu caro leitor, como ser humano especial e único entre todos. E também acredito em mim e na força que existe quando dois ou mais de nós nos juntamos com um objetivo comum. Estas crenças formam a minha religião e garanto a você que, se Deus existe, está de acordo com elas.





A biblioteca celestial

29 10 2009
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Biblioteca Nacional - RJ

Hoje, 29 de outubro, é o “Dia Nacional do Livro”, escolhido por ser a data de aniversário da fundação da Biblioteca Nacional, que nasceu com a transferência da Real Biblioteca Portuguesa para o Brasil. O acervo de 60 mil peças, entre livros, manuscritos, mapas, moedas e medalhas ficou no início acomodado nas salas do Hospital da Ordem Terceira do Carmo, no Rio de Janeiro. A data oficial de fundação da Biblioteca é 29 de outubro de 1810, e sobre a aventura que foi a transferência desse acervo há um livro espetacular, A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis, de Lilia Maritz Schwarcz, editado pela Companhia das Letras em 2002.

Então, hoje para mim é dia de festa. O aniversário de uma biblioteca, minha gente, que hoje também tem muita coisa disponível em formato digital, quer evento mais importante? Quando estive no Rio de Janeiro no ano passado passei um dia internada naqueles corredores, respirando o ar daquelas paredes cobertas de tesouros e com o coração batendo docemente e mais forte só por estar naquele ambiente sagrado, para mim muito mais significativo do que qualquer templo ou igreja. E lhe garanto: se um dia eu morrer e for para o Céu, a primeira pergunta que faço a São Pedro (pergunta que aprendi a fazer com Diógenes da Cunha Lima) é onde está a biblioteca, onde é a livraria. Se não tiver nem numa coisa nem outra dou meia volta e vou para o Inferno, porque lá pelo menos tem rock and roll…

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Brincadeiras à parte, os apaixonados por livros, como eu, devem imaginar o Céu como uma grande livraria, ou biblioteca, onde seja possível encontrar todos os títulos, todas as coleções completas, sem falar nos jornais, revistas, periódicos, fanzines, e tudo o mais que possa ser impresso, escrito ou desenhado.

As poltronas desse espaço paradisíaco devem ser macias como nuvens e o café forte, quente e perfumado. Na biblioteca do céu será possível encontrar, entre outros, o livro de Aristóteles sobre a comédia, que se supõe que ele escreveu mas que não chegou até nós. E o que dizer das outras peças de Sófocles, que escreveu quase 120 mas só sobreviveram sete? E Ésquilo, autor de mais de 80 textos dos quais também só sete chegaram até os nossos dias? Ao todo, seriam 184 textos teatrais desses dois grandes autores, sem falar nos outros: todos os grandes textos da Antiguidade Clássica que foram destruídos pelo fogo das guerras e pela burrice do fundamentalismo religioso!

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Agatha Cristhie

Todos esses livros estariam lá, lado a lado, como aqueles escritos de antigas civilizações que nunca encontraram decifração e que, no céu, foram pacientemente decifrados pelos estudiosos que, na morada celestial, receberam todas as verbas de pesquisa que lhe foram negadas na Terra. Um livro curioso que sei que será encontrado no Céu é aquele no qual a escritora Agatha Christie relata o que aconteceu durante os onze dias em que ficou desparecida, mistério real nunca revelado e cuja solução ela levou para o túmulo.

Um paraíso feito de livros: quer coisa melhor, meu caro leitor? Sem estresse, sem pressa, desfrutado com extremo prazer, porque nessa livraria divina podemos ler lenta e gostosamente todos os livros que quisermos, já que a Eternidade é o nosso tempo e se estende, infinita, à nossa frente.





Banheiras

28 10 2009

Ontem à noite, depois de um cheio de stress, fiquei pensando em como seria bom mergulhar numa banheira de espuma… Como não tenho banheira, catei na web essas banheiras que compartilho com você.

Um modelo clássico.

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No aconchego da sala, ao lado da lareira… Encontrei aqui.

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Que maravilha! Aqui.

Uma banheira de livros… aqui.

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Outra… aqui.

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Essa com TV nem sei onde encontrei.

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Com salva vidas… aqui.

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Essa é a banheira-café; se você seguir o link, vai ver também a cama-sanduíche.

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E finalmente a rainha da coleção, essa banheira maravilhosa, incrivelmente fashion-brega, que encontrei aqui, por indicação da jornalista Atalija Lima, a quem agradeço a inspiração deste post.





Eu e meu duplo

27 10 2009

No tempo em que eu ainda estava na ativa como professora da UFRN, tirei três meses de licença prêmio, à qual eu tinha direito. Os colegas perguntavam: “E então, Clotilde, vai fazer o que com esses três meses de folga? Vai viajar? Vai aproveitar para escrever um livro?” e ficavam chocados quando eu respondia que não ia fazer nada, que ia ficar à toa, que tinha tirado a licença exatamente para isso. “Mas fazer nada como?” perguntavam, como se tivessem esquecido do supremo deleite que é ficar estirada na rede branca armada na varanda, empurrando de leve o pé na parede para desfrutar do balanço suave e do rangido do armador.

Essa incapacidade de relaxar, de entregar-se ao ócio, é uma constante nesses tempos turbulentos e apressados em que vivemos. O cotidiano assume uma velocidade, uma intensidade, uma concentração tal que fica difícil desligar-se disso nos momentos de lazer. Então, para acompanhar o ritmo, busca-se também diversões agitadas, velozes, barulhentas e concentradas. Não se admite mais um lazer onde não haja barulho, agitação e movimento.

Além disso, é importante mostrar-se ativo, sociável, extrovertido. Olha-se com desconfiança as pessoas contemplativas, que amam a solidão, o sossego, o silêncio. Um sujeito que passa o fim de semana lendo em vez de sair para a balada, principalmente se é jovem, é olhado com estranheza pelo grupo, e os amigos dizem: “Precisamos arrancar Fulano de casa, do meio desses livros, e levá-lo para se divertir”, como se os livros não fossem uma diversão tão aceitável como qualquer outra.

Na verdade, as diversões desses dias de hoje são cada vez mais desgastantes pelo tempo que perdemos tentando nos divertir, ou lutando para chegar no local da diversão. São horas perdidas em filas para comprar ingressos, em congestionamentos no caminho para a praia ou enquanto aguardamos uma mesa no nosso restaurante predileto. A diversão termina sendo mais cansativa do que o trabalho, mas é preciso se divertir, é preciso freqüentar, é preciso aparecer nos lugares, é preciso dançar a noite inteira, é preciso ir ao restaurante da moda, à buate do momento. É preciso manter a fama de ativo, participante, sociável.

Ah, meu caro leitor, ficar sozinho exige competência. Dedicar o fim-de-semana a arrumar os armários exige coragem. Entregar-se à leitura, à contemplação, enquanto todos estão na praia ou na balada, exige um espírito forte, disposto a enfrentar críticas de todo tipo. Finalmente, ficar à toa, sem fazer nada, simplesmente, é um suicídio social.

Esquecem-se os baladeiros de que é nos momentos de solidão que pensamos, criamos, questionamos. É nesses momentos que acontece o encontro mais importante, o encontro da gente com a gente mesmo, com o nosso duplo, que nos observa do fundo do espelho, que tem coisas para nos dizer mas precisa de silêncio e de calma para se expressar. Dessa conversa, sempre saímos mais fortes, mais calmos, mais vivos e criativos. Experimente. É um bom programa para qualquer fim de semana.





Cora Coralina, doceira e poeta

26 10 2009
Igreja da Boa Morte em Goiás Velho.

Igreja da Boa Morte em Goiás Velho.

Já andei por aqui falando de uma visita que fiz a Goiás Velho, a antiga capital do estado de Goiás, um lugar lindo, encantado, cheio de recordações de um tempo antigo, com igrejas, casarões e chafarizes de encher os olhos.

Lá também foi a morada da poeta/doceira Cora Coralina, de quem visitei a casa agora transformada em museu, guardando todos os objetos do dia-a-dia da poeta, como a cadeira onde escrevia, seus tachos de fazer doce, seus livros na estante, seus vestidos.

Pois é com grande prazer que apresento hoje um indispensável complemento dos encantos dessa cidade: o livro  “Cora Coralina, doceira e poeta”. Que livro maravilhoso, meu caro leitor! Uma viagem poético-visual-saborosa em torno do universo de Cora, especialmente da sua atividade à frente do fogão e dos seus tachos de cobre, o que a levou a dizer: ” – Sou mais doceira do que poeta”.

O livro é um edição da Global Editora, em tamanho grande (30×23 cm) capa dura, magnificamente ilustrado por Claudia Scatamacchia e com fotos das receitas por Cristiano Lopes. Tem textos sobre Cora de sua filha Vicencia Bretas Taham, do neto de Cora, o advogado e jornalista Flavio de Almeida Salles Junior, além de texto de J. A. Dias Lopes, jornalista e gourmet.

A Casa Velha da Ponte.

A Casa Velha da Ponte.

Ana Lins dos Guimarães Peixoto, a Cora Coralina, nasceu na cidade de Goiás Velho, mas saiu de lá bem jovem, indo morar em São Paulo. Voltou a Goiás Velho aos 45 anos de idade e, tornando a habitar na casa velha dos seus ancestrais, chamada a Casa Velha da Ponte, começou a fazer doces para sobreviver. Escrever já era hábito desde os 14 anos de idade. Publicou seu primeiro livro com 75 anos e, reconhecida nacionalmente tanto como doceira como quanto poeta, falceceu aos 96 anos, deixando vários livros publicados.

Esta publicação traz suas receitas, apresentando o texto na redação original de Cora e em seguida sua interpretação, com as quantidades, para que eu ou você possamos repeti-las. Isso porque a receita original geralmente é escrita sem as quantidades, ou com quantidades aproximadas, tornando impossível a sua reprodução por uma pessoa com dotes culinários reduzidos, como esta blogueira e quem sabe muitos dos seus leitores.

Cora Coralina.

Cora Coralina.

A viagem é doce, saborosa e cheia de poesia, pois as receitas são entremeadas com fotos da cidade, da casa, e com poemas de Cora. São doces, bolos, pudins, biscoitos, broas, geléias, cremes, licores e vinhos caseiros, todos com fotografias e todos de dar água na boca.

Eu adorei esse livro que a Global editou para celebrar os 120 anos de nascimento desta mulher espetacular, que nos deixou esse legado poético de doces delícias, esse versos cheios de sabor, e o exemplo de sua vida.

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Elogio da Preguiça

25 10 2009

Você já ouviu falar de Juvenal Antunes, poeta nascido em 1883 em Ceará Mirim, RN? Ele foi personagem da série “Amazônia” e aqui você sabe mais sobre ele. O que eu queria mesmo era preencher esse domingo com o magnífico poema “Elogio à preguiça”, da sua autoria.

ELOGIO DA PREGUIÇA

Poema de Juvenal Antunes (1883-1941)

Bendita sejas tu, Preguiça amada,
Que não consentes que eu me ocupe em nada!
Mas queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras,
Hei de dizer, em versos, quatro asneiras.
Não permuto por toda a humana ciência
Esta minha honestíssima indolência.
Lá está, na Bíblia, esta doutrina sã:
-Não te importes com o dia de amanhã.
Para mim, já é grande sacrifício
Ter de engolir o bolo alimentício.
Ó sábios, dai à luz um novo invento:
A nutrição ser feita pelo vento!
Todo trabalho humano, em que se encerra?
Em na paz, preparar a luta, a guerra!
Dos tratados, e leis, e ordenações,
Zomba a jurisprudência dos canhões!
Juristas, que queimais vossas pestanas,
Tudo que legislais dá em pantanas.
Plantas a terra, lavrador? Trabalhas
Para atiçar o fogo das batalhas…
Cresce o teu filho? É belo? É forte? É louro?
- Mais uma rês votada ao matadouro!…
Pois, se assim é, se os homens são chacais,
Se preferem a guerra à doce paz,
Que arda, depressa, a colossal fogueira
E morra assada a humanidade inteira!
Não seria melhor que toda gente,
Em vez de trabalhar, fosse indolente?
Não seria melhor viver à sorte,
Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte?
Queres riquezas, glórias e poder?…
Para que, se amanhã tens de morrer?
Qual mais feliz? O mísero sendeiro,
Sob o chicote e as pragas do cocheiro,
Ou seus antepassados que, selvagens,
Viviam, livremente, nas pastagens?
Do Trabalho por serem tão amigas,
Não sei se são felizes as formigas!
Talvez o sejam mais, vivendo em larvas,
As preguiçosas, pálidas cigarras!
Ó Laura, tu te queixas que eu, farsista,
Ontem faltei, à hora da entrevista,
E, que ingrato, volúvel e traidor,
Troquei o teu amor – por outro amor…
Ou que, receando a fúria marital,
Não quis pular o muro do quintal.
Que me não faças mais essa injustiça!…
Se ontem não fui te ver – foi por preguiça.
Mas, Juvenal, estás a trabalhar!
Larga a caneta e vai dormir… sonhar…




Inventando histórias

24 10 2009

Trabalhando com teatro, uma das coisas que tenho que fazer de vez em quando é escrever textos que depois serão encenados por atores. Escrever é muito bom, é uma coisa que me dá muito prazer e quando se trata de uma tarefa específica como é o caso dessa as dificuldades que podem aparecer servem apenas como estímulo para tentar alcançar um resultado melhor.

Quando eu ainda ensinava teatro na UFRN muitas vezes inventava personagens a partir dos exercícios de trabalho de ator propostos aos alunos. E o engraçado é que esses personagens, criados pelos alunos/atores eram quase sempre reis, imperadores, sacerdotes, heróis, magos, princesas, governantes… Isso acontece, penso eu, porque projetamos nos personagens que criamos nosos sonhos, nossas expectativas, nossos desejos.

Uma coisa semelhante acontece no que se relaciona à chamada “terapia das vidas passadas”. Segundo alguns estudiosos, é possível acessar existências que já vivemos através de hipnose e outras técnicas. Eu não sei se isso é verdade ou não, e nem quero aqui discutir essa questão. O que quero dizer é, quando se trabalha com esse tipo de prática de uma forma que considero superficial, as pessoas sempre são, em vidas passadas, reis ou imperadores, nobres na corte francesa, sacerdotisas do templo de Ísis, guardiões do tesouro de Persépolis, altos dignatários, embaixadores, e por aí vai.

Aí eu pergunto: e as pessoas comuns? Nunca vi ninguém dizer que, numa vida passada, tenha sido servente de pedreiro ou lavrador. Nunca ouvi ninguém dizer que foi dona de casa ou uma simples costureira, apesar desse tipo de gente – as pessoas simples – representarem noventa e cinco por cento ou mais das pessoas existentes no mundo, em qualquer época que se considere.

Talvez se pense que a vida das pessoas comuns é destituída de atrativos, de aventura, de encanto, mas disso eu discordo. Eu, você, cada um de nós, por simples e comum que seja, tem suas histórias e aventuras para contar. Cada um de nós tem um repositório de histórias, emoções e vivências tão excitantes quanto a vida de qualquer rei, ou rainha. Concorda comigo?





Ouvindo a intuição

23 10 2009
Cleuza Santa Cruz Tavares, minha mãe.

Cleuza Santa Cruz Tavares, minha mãe.

A minha mãe era uma mulher muito sábia. Ela possuía em alto grau essa sabedoria atávica, ancestral, intuitiva, que vem não se sabe de donde, e que não se aprende nas universidades. É uma espécie de dom, algo que parece trazermos inscrito no nosso DNA. Até os meus vinte e dois anos, tempo em que vivi em casa e convivi com Mamãe, aprendi muito, e hoje me considero também depositária dessa sabedoria, exercitada a cada dia, nas situações do cotidiano que me são apresentadas pelo fluir do rio da Vida.

Uma coisa curiosa em Mamãe era que, nos seus atos, obedecia sempre à voz da intuição, que ela chamava “a minha natureza”. Essa “natureza” dela a fazia ter comportamentos ou atitudes inesperadas, quando se recusava a participar de algo ou a gostar ou desgostar de alguém. Os parentes reconheciam esse seu dom e era chamada sempre para resolver conflitos familiares na grande família de dez irmãos da qual fazia parte, sendo a sétima filha. Qualquer problema, qualquer situação de estresse familiar, lá ia ela para Recife – onde morava boa parte dos meus tios e tias. Moças solteiras que engravidavam, rapazes que não queria seguir a carreira determinada pelos pais, casais que ameaçavam se separar, crises financeiras, Mamãe ia, com sua “natureza” a tiracolo, dar um jeito nas coisas.

É, meu caro leitor. A intuição é uma função cerebral tão importante quanto a razão, ou o raciocínio lógico, mas opera diferente, através de caminhos que não conseguimos entender bem. Além disso, a nossa educação, toda firmada em cima de funções lógicas, não dá muito status de saber ao conhecimento intuitivo. No entanto, ele está aí a nosso serviço. É só saber como utilizá-lo, e não reprimi-lo quando ele se manifestar. E, antes que me perguntem: a intuição não tem sexo. Não existe esse negocio de “intuição feminina”. Os homens também a têm, no mesmo grau que nós, mulheres, mas a reprimem de tal forma, e a descaracterizam como “coisa de mulher”, que ela raramente se manifesta entre eles.

No exercício das minhas funções intuitivas, eu dou extrema importância a instintos, a essas mensagens que vêm à mente consciente não se sabe de onde nem por que. Olhei e não gostei, mesmo que não haja nenhum motivo, não me aproximo. “Sinto” que fulano não presta: não faço negócio. Entro no carro e lá vem a voz: “Vá de táxi”. Vou de táxi. Estou de passagem comprada e lá vem a voz de novo: “Não vá não” e eu não vou não. Estou em casa sentada e a voz diz: “Vá”. E eu largo o que estou fazendo e vou.

Foi assim que ontem eu simplesmente desisti de ir à viagem do Cariri, para a qual havia me planejado há dias. Acordei de manhã e a voz disse: “Não vá não!” Disse e repetiu, de maneira tão forte e consistente que eu simplesmente cancelei tudo. Telefonei cancelando a reserva na pousada, cancelei os encontros que havia marcado com os amigos e não fui mesmo.

Aí você me pergunta: “E quem garante que a voz está certa?” Eu, meu caro leitor, eu garanto. A voz é a minha intuição e eu nunca me arrependi de obedecer a ela. É a voz de mamãe, a voz da natureza, da “minha” natureza, sentimento atávico, conhecimento intuitivo, fonte límpida de sabedoria que aí está, à nossa disposição. É só prestar atenção.





Paraíso aberto

22 10 2009

Há uma música que fala sobre o Cariri, que diz assim:

“No meu Cariri, pode-se ver de perto

tanta boniteza,

pois a Natureza

é um paraíso aberto…”

Pois é para esse paraíso aberto que estou indo hoje, meu caro leitor, passar quatro dias no Encontro dos Povos do Cariri, um evento que congrega arte, cultura, economia e negócios, e que acontece em São João do Cariri, na Paraíba.

Eu sempre fico feliz de poder voltar a essa região, sobre a qual já escrevi outras vezes aqui neste blog. O Cariri é o berço dos meus antepassados mais próximos, e é lá que fica Coxixola, onde nasceu minha mãe.

Neste final de semana vou encontrar amigos, escritores e artistas, gente da minha gente, povo do meu povo, e vou fazer o lançamento virtual do meu folheto de cordel Cariri de A a Z, onde eu louvo as belezas daquela região. para o meu caro leitor de todo dia nesse blog, faço uma gentileza especial: é suficiente clicar aqui e ler o folheto, disponível para você em formato PDF.

Mesmo viajando, o blog continuará sendo atualizado diariamente mas talvez haja uma pequena demora na liberação dos comentários e nas respostas aos emails. Segunda, 26, tudo volta ao normal.

No mais, é me desejar boa viagem e prometo que quando chegar venho cheia de novidades pra você.

"Sobrado dos Árabes" - São João do Cariri, Paraíba.

"Sobrado dos Árabes" - São João do Cariri, Paraíba.

UPDATE: Minha gente, desisti da viagem. Acordei assim com um pressentimento, uma sensação estranha, e como obedeço muito às minhas intuições, cancelei tudo. É isso. (Escrito às 7h20 da manhã de 22/10)





Preparativos para viagem

21 10 2009
Sartre e Simone

Sartre e Simone

A escritora Simone de Beauvoir relata num dos seus livros que Sartre, seu companheiro e também escritor, sempre saía de casa com bastante dinheiro em espécie, passaporte e todos os documentos. Para Sartre, isso significava que, se lhe desse vontade, podia dali mesmo de um daqueles cafés que frequentava viajar para onde quisesse sem precisar voltar em casa. Isso significava liberdade absoluta de ir e vir.

Eu morro de inveja desse tipo de atitude porque sou daquelas pessoas que para viajar nem que seja por dois dias preciso de milhares de preparativos. Desde os tradicionais “que roupa levar”, que somente isso daria um post quilométrico incluindo minha clamorosa indecisão a respeito não somente a roupa mas sapatos, bolsas e acessórios até os meus equipamentos eletrônicos dos quais não me separo e que dão sentido à minha vida. Então: roupa, sapatos, acessórios, maquilage, notebook e sua fonte, câmera, gravador, celular e carregador, o carrgador de pilhas, agenda, caderninho para escrever, canetas, remédios, produtos dietéticos… É uma troçada sem fim, da qual preciso todo dia. Antes levava livros também, mas agora com os livros em PDF (tenho cerca de 400 títulos no notebook) não preciso mais carregar esse peso extra.

Mas antes de viajar também tenho que tomar providências domésticas. O apartamento tem que ficar todo arrumado e a cozinha limpa, senão quando a gente volta, além daquele choque inicial de abrir a porta e ver logo uma bagunça, se ficar sujeira na cozinha cria mofo e atrai insetos. É preciso também deixar as plantas com água e em lugar protegido, mas onde haja alguma luz, para que não morram.

Fora isso, e princialmente se eu for para um lugar onde não tenha Internet ou a conexão seja difícil e precária, é preciso deixar agendados os posts dos blogs, colocar as listas de discussão (quase 30!) em modo web, e enviar antecipadamente as colunas para o jornal.

Então, meu caro leitor, viajar para mim é sempre uma trabalheira; é por isso que só saio de casa se o roteiro me atrair com muita força. Como farei amanhã, indo em direção ao Cariri Paraibano. Mas os detalhes dessa viagem você vai ter que esperar até amanhã para saber.





Pequenos crimes

20 10 2009

Segundo a Wikipedia, a contravenção é “uma infração penal, designada de crime menor, punida com pena de prisão simples ou multa, ou ambas, alternativa ou cumuladamente.” E, continua dizendo que parace não haver diferença entre crime e contravenção, “pois o mesmo fato pode ser considerado crime ou contravenção pelo legislador, de acordo com a necessidade da prevenção social”.

Fazendo uma analogia com as drogas, quando se diz que as chamadas “drogas leves”, como a maconha, podem servir de porta de entrada para drogas mais perigosas, como a cocaína e o crack, eu também posso pensar que a contravenção, que é um crime leve, pode servir de porta de entrada para o crime maior, o crime grande. O camarada se acostuma a viver muito próximo do ilegal até que vai se acostumando e termina por cometer um delito de verdade.

E é fácil detectar esses pequenos crimes no dia-a-dia. Um cara passa sossegado com uma gaiola na mão. Dentro, um pássaro. Será que ele tem licença do Ibama para possuir aquele passarinho? E o outro que conserta, por exemplo, geladeiras e fogões e usa a calçada da casa como oficina de trabalho, de onde se espalha o cheiro dos produtos químicos e da tinta utilizada? Além disso, trabalha sem máscara, sem camisa e descalço, prejudicando a própria saúde e pondo em risco sua vida.

Pelo leito inclinado da rua, desce uma grande grande quantidade de água. Não está chovendo. É um morador da parte alta da rua trocando a água da piscina! A água que ele não quer mais, despeja na rua e ela desce em corredeiras porque o novo rico construiu a piscina mas esqueceu de providenciar uma forma adequada de esvaziá-la.

No corredor do prédio de apartamentos, a mãe manda o garotinho de cinco anos jogar bola com a empregada, por certo quando o guri está insuportável dentro de casa. É como se dissesse: vai ser insuportável no corredor, e aproveita e incomoda os vizinhos. E a madame entra com o cachorrinho poodle no restaurante e dá pedacinhos de comida na boca do bicho, como se ele fosse gente.

E assim caminha a Humanidade, de crime em crime, sem nem saber que é crime porque não tiveram educação em casa, porque as escolas são frágeis, porque as políticas que deviam cuidar disso são frágeis, porque não há como fiscalizar, porque não há como reclamar, porque o dinheiro que devia ser utilizado para dar sustentabilidade às políticas de prevenção some depressa no sorvedouro da corrupção, esta sim, um crime grande, mas que começa e se origina nos pequenos crimes de todo dia.

Contravenção é uma infração penal, designada de crime menor, punida com pena de prisão simples ou multa, ou ambas, alternativa ou cumuladamente.

Não existe na realidade uma diferença substancial entre crime e contravenção penal, pois o mesmo fato pode ser considerado crime ou contravenção pelo legislador, de acordo com a necessidade da prevenção social. Ex: no Brasil, o porte ilegal de armas já foi considerado contravenção penal, com o advento do estatuto do desarmamento hoje é considerado crime.





Você é muito inteligente, superdotado ou gênio?

19 10 2009

Você deve ter visto ontem no Fantástico uma reportagem sobre um garotinho muito pequeno, que é considerado um prodígio. O menino chama-se Oscar, tem dois anos e meio, é uma gracinha e a mãe diz que com um ano e meio ele já tinha um vocabulário de 600 palavras, o que eu considero realmente espetacular haja vista que muitos ceresumanos adultos que conheço não chegam a conhecer e usar 300 palavras.

A reportagem acrescenta que o menino foi levado à Mensa, que é uma organização que aplica testes de inteligência e foi constatdo que o QI do pequeno infante alcançava 160 pontos, coeficiente altíssimo e que seria igual ao de Einstein.

Deixando um pouco de lado o caso do pequeno Oscar, quero falar um pouco sobre a Mensa, uma sociedade fundada na Inglaterra em 1946, que tem hoje mais de 100.000 membros no mundo inteiro e cujo objetivo é congregar pessoas intelectualmente estimulantes e fomentar o convívio entre elas. Tem cerca de 700 membros no Brasil e para filiar-se é preciso ter QI alto, comprovado por entidades reconhecidas pela Mensa ou através de testes por ela aplicados.

Mas o que é ser uma pessoa “inteligente”? Os grupos de estudos e pesquisas discordam quanto a detalhes, mas, no geral, aceita-se uma classificação que envolve três categorias: muito inteligentes, superdotados e gênios. O “muito inteligente” é a pessoa que em um teste de QI reconhecido obtêm um resultado superior a 95% da população em geral, ou seja, dentro dos 5% superiores. A Mensa seleciona como sócios somente aqueles que estão nos 2% superiores.

o superdotado é aquela pessoa que apresenta desempenho notável, somado ou não a capacidade intelectual superior, aptidão acadêmica específica, pensamento criador ou produtivo, capacidade de liderança, talento especial para artes visuais, artes dramáticas e música e capacidade psicomotora. O superdotado é curioso, persistente, crítico de si mesmo e dos outros, tem senso de humor altamente desenvolvido, não se conforma com avaliações superficiais, é sensível a injustiças tanto no nível pessoal como no social, é líder e vê relações entre idéias aparentemente diversas, gosta de investigar, faz muitas perguntas, resolve problemas de forma original, é independente, imaginativo, cheio de idéias, e irrita-se com a rotina.

Quanto aos gênios, existem duas definições em disputa pelo termo. Uma delas diz que é possível medir quantitativamente a genialidade pela medição de QI, que estaria entre 180-190. A outra, mais qualitativa, define gênio como aquela pessoa que consiga elaborar raciocínios e inferências tais que, somados a uma intuição também muito acima do normal, lhe permitam não somente imaginar como também formular e realizar uma obra fundamentalmente original e reconhecidamente de alto valor.

Os membros da Mensa são todos muito inteligentes mas não são necessariamente superdotados ou gênios. Entre eles, encontrei o nome de Roger Rocha Moreira, guitarrista e fundador da Banda Ultraje a Rigor, o que mostra que, como eu sempre defendi, há muita vida inteligente no rock and roll.

Visitando esse site da Mensa, é possível acessar um setor onde há testes de inteligência para sua diversão. Em um deles você tem 25 minutos para responder a uma série de questões variadas, sendo o resultado avaliado tanto em termos de acerto quanto em termos de tempo gasto. Além disso, há os desafios em vários níveis, com questões que deixam você louco para largar o que está fazendo e se dedicar o resto do seu dia somente a resolvê-las.

Voltando ao pequeno Oscar, com seu QI de 160, a preocupação dos pais é porque o garoto se sente deslocado na escola, pois comenta e fala sobre coisas que os coleguinhas não entendem. Imediatamente me remeti à minha própria infância, onde sempre me senti uma outsider, uma estranha no ninho, completamente tomada pela síndrome Sheldon-Cooper. Lia muito, conhecia coisas que ninguém sabia o que era e incomodava demais os professores com perguntas que não sabiam ou não queriam responder.

Aos 16 anos, fiz um teste de QI que apresentou 148 pontos; meu pai, que gostava de novidades e que havia me inscrito para o teste, ficou vaidoso, satisfeito, mas isso não adiantou de nada para mim, pois era o ano de 1963 em Campina Grande, época e local que não abriam muitas possibilidades para uma menina filha de gente remediada como eu era, mesmo com esse QI apreciável.

Às vezes penso que a vida teria sido melhor e menos solitária se eu percebesse menos do mundo que me cerca, se compreendesse menos as coisas, se tudo não fosse tão claro; poderia me contentar com pequenos prazeres, com coisas mais simples, não seria tão seletiva e não exigiria tanto do mundo nem das pessoas. Mas essa foi a minha sina e eu tive e continuo tendo uma vida boa, afinal de contas. Gosto da forma como me localizo no mundo e continuo treinando minha mente, para ver se os tais pontos não diminuem muito sob o efeito poderoso dos anos.

Finalmente, recomendo a visita ao site da Mensa, que é muito interessante. Mesmo que você não seja superdotado nem nada, vale a pena a visita, para ler os artigos, navegar por alguns dos links recomendados e divertir-se com os desafios à sua inteligência. E habilidade mental é como qualquer outra: se exercitada, só tende a aumentar.





Os gatos

18 10 2009
Com Galileu. 1995.

Com Galileu. 1995.

Dizem os médicos que as pessoas que têm um bicho de estimação são menos propensas a uma série de doenças. Parece que a companhia do animal desperta nos humanos mecanismos de carinho, de afeto, de atenção, sobretudo naquelas pessoas muito solitárias, não importa a idade. O contato com o bicho, que se apega ao dono de uma forma amorosa e irrestrita, proporciona calma, tranquilidade e um canal para a expressão do afeto. Com isso, vem a saúde, ou pelo menos se evita ou retarda a doença.

Com Julio Braga III. 1999.

Com Julio Braga III. 1999.

Evidentemente, quando os médicos falam essas coisas, estão se referindo a animais tais como um cachorro, um peixinho, um pássaro. Nunca, porém, a um gato.

Os gatos não são animais de estimação. Pelo contrário: nós, humanos, é que somos propriedade desses felinos, que acham que os seres humanos foram criados para servi-los, alimentá-los, acariciá-los e alisar-lhes o pelo. Quer ver?

Zureiúdo. 1967.

Zureiúdo. 1967.

Quando você vai viajar, e coloca a mala em cima da cama para arrumar suas roupas, o gato aparece imediatamente se deita em cima do seu blazer preto de griffe. Para ele, você apenas arrumou aquele lugar para que ele se deitasse.

Compre um sofá novo e caríssimo, forrado com aquele tecido rugoso e tão alinhado. O gato logo entende que aquela textura foi fabricada apenas para que ele afiasse as preciosas unhas. E o patê de atum que você quer preparar para os seus convidados provavelmente será desviado para satisfazer a gulodice do bichano que, atraído pelo cheiro, lhe olhará com olhos suplicantes e ternos, sem um só miado, mas com um convencimento tão grande na expressão que é impossível resistir. Acomode-se na cama, na posição ideal para adormecer ou ler que ele chega, sorrateiro, quente e pesado, deitando-se sobre suas pernas e obstruindo sua circulação.

Teobaldo. 2008.

Teobaldo. 2008.

Não adianta ensinar-lhe gracinhas, como ao cachorro, ou ao papagaio. O gato é superior demais para prestar-se a esse papel. Também não é o melhor amigo do homem: é, sim, o melhor amigo dele mesmo. Orgulhoso, esnobe e delicado, amante amoroso e fera bravia, quando se entrega aos nossos carinhos não o faz por afeto a nós: antes permite que o acarinhemos, recebendo isso como um tributo que nós, humanos, lhe devemos.

Everaldo. 2001.

Everaldo. 2001.

Já pertenci a muitos gatos na minha vida, cada um deles com sua personalidade própria e especial, cheia de nuances. Nessa relação com os bichanos minha vida ganhou um novo significado e me lembro de uma ocasião em que um leitor me ligou uma noite e leu ao telefone um poema que ele fez – adivinhe para quem? Para meu dois gatos, caro leitor, e não para mim, como você talvez tivesse imaginado.

Finalmente, antes que os proprietários de cachorros saiam aflitos em defesa dos seus bichos, dizendo-os mais especiais do que os gatos, respondo com uma simples pergunta. Quando você chama um homem de “cachorro”, você quer dizer o que? E quando o chama de “gato”, qual é o significado? Responda, se for capaz.





Sapatos: um fetiche

17 10 2009

Toda vez que vejo um desfile de modas na TV, ou quando assisto à série America’s Next Top Model, fico fascinada pelos sapatos com saltos altíssimos que as meninas usam.

O sapato, principalmente o de salto alto, é carregado de forte conteúdo erótico e tem gente que é doida por eles. Basta lembrar a personagem Carrie Bradshaw, na série “Sex and the City”. Eu também sou doida por sapatos, tema do post de hoje.

Jimmy Choo – um clássico!

Christian Loub0utin: uma jóia, com seu tradicional solado vermelho.

Yves Saint Laurent: ahhhhhhhhhhhhhh… A propósito, há uma frase dele que eu adoro. Ele diz: : “A roupa mais bonita de uma mulher são os braços do homem que ela ama. Para as que nao têm esta felicidade, eu estou aqui.”

O tênis mais bonito do mundo, que pertence à Rainha Denizeaqui.

Achei aqui.

Seriam os sapatinhos de cristal da Cinderela? Tem mais aqui.

Ai meu Deus! E o tênis-hamburger? Veja mais aqui.

Os MEUS sapatinhos, baixos e de pulseirinha!

E finalmente um clássico: These Boots Are Made For Walking, com Nancy Sinatra, que pisou em cima de muito marmanjo fetichista dos anos 60 para cá.

A minha sobrinha Gina Gomes me deu a ideia deste post. Era para sair outra coisa, um post somente sobre sapatos bizarros, mas me deixei levar pela paixão das grandes marcas e terminou saindo isso daí.





Sem água e sem luz

16 10 2009

Hoje o dia começou estranho por aqui, pois houve uma pane elétrica no bairro; a energia faltou às quatro da manhã e só veio chegar agora às onze. No prédio, antigo e precário, a bomba que eleva a água para a caixa não funcionou – pois faltava energia – e mais ou menos às nove da manhã acabou a água.

Eu acordei morta de calor – o ar condicionado sem funcionar – e, sem poder blogar, twittar, ler e-mails, tomar banho, cozinhar (sem água – fica difícil) e com preguiça de descer os quatro andares (sem elevador) para ir a um lugar qualquer onde o mundo funcionasse, fiquei simplesmente na varanda, curtindo a brisa da manhã e lendo. Não que eu não faça isso todo dia – faço, mas depois de cumprir as outras obrigações, todas elas ligadas a um fornecimento normal de água e energia elétrica.

Então é curioso como o mundo estaciona quando não existem esses dois serviços mais do que básicos. Quando a gente vê na televisão aquelas notícias de catástrofes e desastres naturais, onde as pessoas ficam sem água e sem luz a gente não tem idéia do que é isso. É difícil ficar sem as duas coisas ao mesmo tempo e eu fico cá comigo pensando o transtorno que deve ser isso não para mim, que não tenho obrigações de trabalho com horário fixo, vivo por minha conta e tenho saúde, mas o que deve ser ficar sem água e sem luz para a imensa massa de pessoas que precisam levantar na hora, fazer café, tomar banho, descer de elevador e tudo o mais? E quem tem crianças, ou gente doente em casa? Pois é, meu caro leitor. Por isso não reclamo, nem reclame de mim por só estar blogando a essa hora, uma vez que logo cedo, todo dia, estou aqui com esse pão-de-cada-dia em forma de texto para lhe oferecer.

Você, que acordou, tomou banho, ligou secador de cabelo ou barbeador elétrico, fez café na sua cafeteira, ligou microondas, viu seus e-mails, desceu de elevador e abriu o portão eletrônico com o controle, não reclame de mim: hoje você, sem sombra de dúvida, teve muito, muito mais do que eu.





Dia do professor

15 10 2009
Dando aula. 1999.

Dando aula. 1999.

De todas as coisas que faço e fiz na vida, e eu garanto que são muitas, talvez a que goste mais de fazer seja ensinar. Ensinar, dar aulas, para mim, é uma das atividades mais importantes a que uma pessoa pode se dedicar. Não é simplesmente ensinar uma técnica, ou passar um conhecimento qualquer. Para mim ensinar é compartilhar experiências. Esse processo é uma coisa tão rica, tão fermentadora de novas idéias, de novas visões, de novos e maravilhosos insights, nos arremessando sempre a um nível mais elevado de existência, que não compreendo como é que ainda não existe a terapia do ensino.

Para mim, a sala de aula sempre funcionou como uma experiência quase transcendental de relação com o outro, de comunhão através das idéias. Por mais chateada, doente, ou estressada que estivesse, ao entrar na sala de aula sempre experimentei uma grande felicidade, e essa é uma das grandes perdas que eu tive com a aposentadoria. Procuro contrabalançá-la dando palestras aqui e ali, me comunicando com os jovens, mantendo viva a cpacidade de aprender/ensinar.

Palestra. 2007.

Palestra. 2007.

Como professora que fui/sou desde a minha juventude, penso que ninguém ensina nada a ninguém. As pessoas aprendem quando estão motivadas para isso e acho que essa é a verdadeira função do professor: motivar seus alunos a experimentarem a aventura do conhecimento. Eu gostava de dizer que meu objetivo como professora era “plugar” o meu aluno no Universo, coisa que a maioria não consegue fazer sozinho. Quando eu conseguia com que ele “se ligasse”, o trabalho estava feito, e daí em diante era só orientar a leitura, compartilhar experiências e conhecimentos, e ver o milagre daquela mente jovem descobrindo o Mundo.

Com alunos. 2006

Com alunos. 2006

Sempre tive dedicação integral aos meus alunos. Sempre acreditei que, como o professor de natação, qualquer professor não pode ficar na borda da piscina: tem que cair na água junto com o discípulo, e sempre estar disponível quando ele precisar. Aqueles que foram meus alunos e que lêem essas linhas sabem o que estou dizendo e é com prazer que os encontro no cotidiano, aqui e ali, já profissionais, e fico feliz de saber que contribuí para a construção daquele ser humano tão especial.

Como falei no início, ensinar é uma coisa tão rica e tão excitante que não sei como os médicos ainda não inventaram a terapia do ensino. Está estressado, doente, entediado, ansioso, angustiado? Dedique-se a ensinar a alguém qualquer coisa que você saiba fazer, qualquer conhecimento que você domine. Seja lá o que for, compartilhe com alguém. Garanto que você vai se sentir muito melhor.





A música das manhãs

14 10 2009

Acordei com a obrigação de enviar a minha coluna para o jornal, mas sem saber direito o que ia escrever. Em busca de inspiração, liguei a TV e o canal que estava sintonizado era um daqueles que passam filmes antigos. Em preto e branco, um musical daqueles em que os homens usam paletós com ombreiras largas e os vestidos das mulheres têm saias rodadas; os personagens estão conversando e de repente começam a cantar como se fosse a coisa mais natural do mundo – e é, nesses filmes.Uma das canções era “A música das manhãs”, onde o personagem, entregando leite de porta em porta, canta os sons matinais da cidade.

O caso é que acordamos sempre atrasados, correndo para o trabalho, tendo de deixar antes as crianças na escola, além de outras obrigações e terminamos por ficar surdo ao mundo que, junto conosco, desperta à nossa volta. Acredite, meu caro leitor, que é possível distinguir entre o ruído dos carros nas avenidas apinhadas, o cantar dos passarinhos e o rumor do vento nas folhas das árvores. Para mim, que não saio de casa de manhã, a música da manhã tem os bem-te-vis cantando e o vento na palmeira em frente à minha janela; como uma grande avenida está a menos de trinta metros, carros e ônibus se juntam à sinfonia, encarregados dos tons graves. Uma moto acelera na esquina, e a campainha do colégio no outro quarteirão chega aos meus ouvidos.

chaleira_vaca-709205Dentro do prédio, os pedreiros já começaram o trabalho no apartamento do final do corredor; ao longe, ouço o ruído surdo da porta do elevador quando alguém a deixa bater, e o portão eletrônico de saída dos carros toca sua rumba rascante, rolando sobre o trilho. Um flautim agudíssmo sobrepõe-se a tudo: é o apito da chaleira avisando que a água está pronta para ser despejada sobre o pó do café, já pronto sobre a garrafa, e o tlim-tlim do forno de microondas me diz que o pão está quentinho e o queijo deliciosamente derretido.

Uma voz forte de homem predomina agora: é o vigia do prédio em frente, falando com alguém; um cão late; e o ventilador, já velho, com defeito e ligado a esta hora, marca o tempo com seu estacato seco e duro, pois mesmo cedo o calor já é grande.

Esta é a música das manhãs, e este concerto de sons me traz a certeza de vida. Ouço, logo existo, e existo feliz nesse mundo variado, bom de viver, porque é o único mundo que conheço. Para completar, o recado de mais uma canção do filme, ingênuo e tolo, mas que me deu o assunto de hoje: “Entregue-se a esse gigante gentil chamado Amor… “





Cappela degli Scrovegni

13 10 2009

Existe na Itália, na cidade de Pádua, uma pequena capela decorada com pinturas de temática religiosa que é uma das obras primas da Humanidade. É a Cappella degli Scrovegni, trabalho sem igual da pintura do século XIV, ou “Trecento” italiano, realizado por Giotto e considerado o ciclo mais completo de afrescos realizado pelo grande mestre toscano na sua maturidade.

Tais pinturas exerceram uma influência marcante em todo o desenvolvimento da arte pictórica não somente na Itália mas também em outros países da Europa pela cor, pela luz, pela inovação da representação em perspectiva e pelos sentimentos que despertam em quem contempla essas cenas sagradas.

Foi construída pelo rico banqueiro italiano Enrico Scrovegni em 1303, anexo ao palácio da família, com a intenção de salvar das chamas do inferno o seu pai, um agiota, morto há pouco tempo. Nessa época, Giotto já era um artista célebre: havia trabalhdo para o papa na Basílica de São Francisco em Assis, em São João de Latrão em Roma, e em Pádua na Basílica de Santo Antonio e no Palácio Comunal. Ao encomendar a obra, o banqueiro pediu a Giotto para representar uma sequência de histórias do Velho e do Novo Testamento, culminando com a morte e a ressurreição do Filho de Deus e o Juízo Final, com o objetivo de levar os visitantes que penetravam na capela a meditarem sobre o sacrifício de Cristo para salvar a Humanidade.

Concluído em apenas dois anos, o ciclo pictórico da capela é dividido em três temas principais: os episódios da vida de Joaquim e Ana (pais da Virgem Maria) e os acontecimentos da vida e morte de Cristo. Além disso, há ainda uma série de pinturas que ilustram alegoricamente os Vícios e as Virtudes, culminando com a representação do Juízo Final.

No século 19 o patrimônio foi abandonado e começou a se deteriorar. As pinturas se esfarelavam e se transformavam em pó, correndo risco de destruição total. A Prefeitura da cidade de Pádua interveio e tombou a construção, mas as restaurações realizadas não obtiveram êxito. Finalmente, as modernas tecnologias mobilizadas conseguiram, no ínício do ano 2000, estabilizar o monumento, impedir a deterioração e, em seguida, realizar a restauração.

Atualmente, a Cappella degli Scrovegni está restaurada com suas vívidas cores originais e aberta à visitação pública, mas de uma forma muito especial: quem quiser visitá-la precisa agendar essa visita com antecedência, e são permitidos apenas 25 visitantes de cada vez no seu interior. Antes de entrar no recinto da capela propriamente dita, a pessoa deve permanecer por 15 minutos numa sala especial para estabilização do microclima interno; somente então pode ser admitido no recinto da capela propriamente dita, onde não pode permanecer mais de 15 minutos.

Fora isso, o visitante pode ter acesso a uma sala multimídia onde, através de vários instrumentos de informação – videos, imagens, reconstrução virtual – toma conhecimento detalhado das pinturas, do trabalho de Giotto e do contexto no qual ele produziu suas obras. O preço da visita é de 12 Euros e é possível agendar através do site oficial do monumento.

Quando vejo essas coisas, além da paixão que me move pela Arte daquele período, vem imediatamente à minha lembrança o costume do nosso público de entrar nos teatros, muitas vezes seculares, portando refrigerantes e salgadinhos, ou de reclamarem quando em outros locais se proíbe a etnrrada com qualquer tipo de alimento. Retornam à minha mente cenas que já vi, de pessoas esfregando o dedo em quadros expostos em museus, colocando os pés em cima das cadeiras nos teatros, vandalizando, destruindo, contaminando, uns por ignorância e falta de educação, outros pelo prazer de destruir.

Ainda estamos muito distantes dos visitantes da capela italiana, que se submetem a ficar durante quinze minutos trancados em uma sala climatizada com a finalidade de equilibrarem a temperatura de seus corpos para que a umidade gerada não danifique as obras de arte!

Penso que a nossa caminhada na construção de um comportamento civilizado é muito longa ainda, meu caro leitor, mas tenho esperança de que um dia chegaremos lá.

Aproveite e veja o video sobre a Capela.






As crianças da minha vida

12 10 2009

Tenho dois netos, Marcelo e Isabela. Só Marcelo é criança ainda, com 10 anos, sendo Isabela já uma mocinha de quase 15. Fora Marcelo, há ainda outras crianças importantes na minha vida. Minha sobrinha-neta Maria Luísa, de 1 ano e 2 meses, a quem chamo do “Botãozinho-de-Rosa” e sua irmãzinha de 4 anos, Maria Eduarda. Há ainda “o pequeno João“, de 2 anos e meio, também meu sobrinho-neto, para quem eu sou a “Titia-Grande”. Além dessas crianças, que são ligadas a mim pelo sangue, há outras duas, que se ligaram ao meu coração com laços igualmente poderosos: os do afeto e da amizade. São eles meu afilhado Vinicius, de 10 anos, e Ilana (“Ilaninha”), sua irmã de 8 anos. São filhos dos meus queridos amigos Carlos e Ilana von Sohsten.

Não sou jeitosa com crianças. Não tenho paciência, não sei brincar, não sei lidar com essas criaturas tao especiais e tão diferentes de mim. Mas amo profundamente as crianças da minha vida e através deles as crianças do mundo todo. Quando Vinicius tinha oito meses, escrevi para ele um texto que publiquei na Tribuna do Norte-RN; em 2008, novamente dediquei o mesmo texto a Maria Luísa, quando do seu nascimento. Já quando meus netos nasceram eu fiquei tão abestalhada que não consegui escrever nada. Hoje, quero aqui dedicar a todas as crianças do mundo o mesmo texto que escrevi para Vinicius há dez anos.


Você ainda não sabe ler, pequeno Vinicius, mas hoje eu estou escrevendo para você. Você é tão novinho, nos seus oito meses de vida que além de não saber ler também não sabe sequer o que é um jornal. A televisão, para você, também é apenas um objeto colorido e brilhante que lhe chama atenção mais pelo movimento e pelo som do que pelas imagens propriamente ditas.

Mas não demora muito e você devagarinho vai começar a compreender o mundo, a interpretar as imagens da TV e a entender o que dizem os jornais. Talvez então você se surpreenda com as notícias que a mídia derrama diariamente sobre nós. Confesso, pequeno Vinicius, que muitas vezes preferiria viver num lugar onde não houvesse jornal ou TV para não ver coisas que me deixam assim meio desorientada em relação ao nosso Destino: o meu, o seu, o da Humanidade.

Ultimamente, vimos as notícias estarrecedoras de políticos de várias partes do país envolvidos com o narcotráfico, corrupção e assassinatos. Assistimos boquiabertos à violência do cotidiano, onde as pessoas perdem o controle e voam em cima dos outros para matar por qualquer motivo fútil. Vemos a intolerância, o preconceito, a homofobia, a falta de amor, tudo isso, pipocando na tela na nossa frente, nos deixando muitas vezes temerosos até de sair de casa para comprar o pão na padaria da esquina.

Mas é exatamente por causa de todas essas tragédias que estou mandando este recado para você. O recado, Vinicius, diz apenas o seguinte: o mundo tem jeito. Sabe por que? Porque enquanto todas essas desgraças estão acontecendo, muita coisa boa também acontece. Enquanto a violência corre solta, a corrupção mina a vida política e a crueldade aciona o gatilho dos revólveres, cientistas e pesquisadores trabalham sem descanso para descobrir a cura de doenças, pessoas de bom coração se dedicam a ajudar aqueles que precisam e ecologistas estão vigilantes na defesa do Meio Ambiente.

Enquanto a mídia aumenta seus níveis de audiência graças à exploração da notícia ruim, da desgraça, do flash violento, a Internet aproxima pessoas que conversam, estudam, pesquisa, trocam informações, namoram, praticam a democracia e exercem sua cidadania.

Enquanto bandidos com ou sem gravata se organizam em quadrilhas para matar, seqüestrar e roubar, gente de bem se congrega em organizações e entidades para a promoção dos valores humanos, para a arte, a cultura, a educação.

O mundo tem jeito sim, Vinicius, enquanto a Esperança, de quem você e todas as crianças são o símbolo vivo e amoroso, banhar o coração dos homens. Mesmo diante da morte, da violência, da brutalidade e da injustiça, a Esperança brilha como farol a nos dar alento. Eu, que sou sua orgulhosa madrinha, ainda espero viver bastante para lhe ver desfrutando de um mundo de Paz e Harmonia, como você e todas as crianças merecem.








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