As urupembas de alumínio

29 12 2009

Foto de Canindé Soares - http://www.canindesoares.com

Uma das imagens que mais me impressiona quando viajo pelo interior é a visão das antenas parabólicas sobre os telhados das casas. Em alguns lugares, a imensa antena em forma de panela escora o casebre que parece se sustentar de pé apenas por obra da antena. Por pobres que sejam, a maioria tem parabólica. Numa pousada em que me hospedei um dia desses, a TV fica na sala, uma TV enorme, com uma imagem espetacular; sentado no sofá, um garotinho de calção e descalço, um indiozinho cariri, com o controle remoto na mão, dominando todas as estações, passeando pelos canais.

Aí está, penso eu, a síntese da nossa realidade. Imagens aparentemente contraditórias, inconciliáveis, mas que terminam resumindo as mudanças pelas quais o nosso país está atravessando, principalmente longe dos centros adianatados: o casebre e a parabólica, o indiozinho cariri e o controle remoto.

O dono da casa comentou comigo: “Antes dessa televisão, eu pensava que só tinha duas línguas no mundo: essa que a gente fala e o inglês. Agora eu sei que tem muitas línguas diferentes, língua que não acaba mais. Deve ser por isso que tem tanta guerra. Ninguém se entende…”

Em outra casa, vi uma mulher de 82 anos, professora aposentada, que mora com a irmã de 89 anos, já doente, de quem cuida. Sobre a velha e escalavrada mesa de madeira, que parece ter mais de um século, um espetacular aparelho desses grandes e modernos, em frente ao qual as duas se distraem. “E vêem que tipo de programa?” pergunto eu.  “De um tudo, minha filha”, diz a mais nova. ” Mas o que a gente gosta mesmo é de rezar”. Rezar junto com a TV, evidentemente, acompanhando os inúmeros programas religiosos que existem.

O professor e poeta Geraldo Bernardo, que vive em Sousa, sertão da Paraíba, escreveu um divertido texto no qual fala sobre a parabólica, que ele chama de “arupemba de alumínio”, onde o matuto descreve o que viu na TV: “A primeira imagem que apareceu era uma galega toda entroncada, fazendo muganga com a bunda, uns negão com os dentes no quarador, a meninada inventou de rebolar, chamando aquilo de pagode.” E continua, divertido e espantado: “E o cabra continuou mudando de imagem, era cada coisa diferente, tinha desenho de bicho fazendo papel de gente, cada lapa de mulher, Zé de Lídia chega babava…”

O matuto, então, questiona: “Agora pergunto pra que? Uma bacia de alumínio em cima da casa, encandeando os olhos dos outros? Não serve para soprar arroz, café ali não se torra, se pelo menos juntasse ága! Mas eu mesmo espondo qual a sua serventia, ou será que ninguém percebeu, que com esse progresso da ciência muito menino nasceu? Hoje em dia, mulher velha, parideira, sabe menos das coisas de que essas meninas, de tanto verem nas novelas amancebo, baitolagem e coisa e tal, em tudo que é canal. Enquanto isso, as parabólicas vão aumentando, as saias diminuindo e o sertão se enchendo de menino…”





Arrobas e léguas

28 12 2009

Um dia desses uma pessoa me perguntou de onde era que vinha a “arroba” que no dia-a-dia usamos com tanta frequência , uma vez que faz parte do endereço eletrônico que chamamos comumente de e-mail. Como passei minha vida sendo professora, acho natural que as pessoas me perguntem coisas desse tipo. O melhor ainda é quando não sei as respostas, pois isso me leva a ler, pesquisar, aprender coisas novas.

E fui logo respondendo que “arroba” é uma medida de peso que se usava muito antigamente, e que hoje não é mais tão comum. Na minha infância, se falava muito em arroba lá em casa, juntamente com “légua”, medida de comprimento que compreende seis quilômetros. Mamãe usava também “uma “quarta”, para designar 250 gramas (“Menino, vai ali comprar uma quarta de charque!”), ou “um quarto” de quilo; uma “mão” de milho, que são 50 espigas; uma “garrafa” de leite, 600 ml; e “meia-garrafa”, 300 ml, essas, medidas numa garrafa de cerveja e numa de guaraná, respectivamente; uma “grosa”, 12 dúzias. E em Campina Grande, ainda hoje, se você entrar em um bar qualquer e pedir um “quinto” de cachaça o garçon traz uma garrafinha de 200 ml da chamada “água-que-passarinho-não-bebe”.

Mas lá estou eu saindo do assunto. Voltemos à arroba. Uma arroba corresponde a dezoito quilos e, junto com a légua está lá no folheto “O Pavão Misterioso”, obra prima da literatura de cordel, escrito pelo poeta José Camelo de Melo Rezende, nos versos que descrevem a máquina voadora construída para que o herói alcançasse a alta torre onde vivia prisioneira a sua amada:

Ele fez um aeroplano
Do formato de um pavão
Que armava e desarmava
Comprimindo num botão
E levava doze arrobas
Três léguas acima do chão.

Ora, o perguntador não se conformou com essa minha enrolação poética e insistiu na resposta exata não sobre essa arroba, que ele também sabia o que era, mas sobre a arroba do e-mail, me forçando a pesquisar aqui e ali e trazer agora a resposta.

Na Idade Média, os livros eram copiados à mão e os copistas buscavam simplificar o trabalho susbtituindo palavras ou conjunto de letras por símbolos. Então, para substitutire a palavra latina “ad”, que significa “casa de”, inventaram o símbolo @. Quando veio a imprensa, o símbolo continuou a ser usado nos livros de contabilidade, aparecendo entre o número de unidades da mercadoria e seu preço, passando a ser conhecido, em inglês, como “at” (“a” ou “em”).

Depois, já no século XIX, quando os espanhóis passaram a usar as práticas comerciais dos ingleses, pensaram que o símbolo seria uma unidade de peso e o atribuíram à “arroba” que era a sua unidade de peso mais comum. Quando as máquinas de escrever foram inventadas, o símbolo foi incluído e sobreviveu no teclado dos computadores. Em 1972, quando começou a ser desenvolvido o primeiro projeto de correio eletrônico, o programador Ruy Tomlinson aproveitou o sentido original do símbolo @ em inglês, que significava “at” ou “em” e o colocou entre o nome do usuário e o nome do provedor. Então, Fulano@ProvedorTal passou a significar Fulano no provedor Tal.

Pergunta respondida, dúvida esclarecida, meu caro leitor. E se quiser ampliar seus conhecimentos sobre a arroba, é só clicar aqui, que tem um artigo muito completo sobre o tema.





A divina Sarah

27 12 2009

Para os fãs do teatro, o nome de Sarah Bernhardt sempre soa envolto em uma aura quase divina. Esta atriz foi um ídolo mundial na sua época, e encarnava aquele ideal de diva, de deusa, de femme fatale, de pessoa cujo talento ficava acima da linha da normalidade.

Nascida em Paris em 1844, dominou os palcos da Europa e logo em seguida sua fama ganhou o mundo. Além de atriz, foi cortesã famosa tendo aos seus pés desde intelectuais de renome até cabeças coroadas. Na época, o limite que separava as duas atividades quando se tratava de mulheres era bem tênue, e Sarah, sem querer a principio assumir o papel de mulher galante para o qual havia sido empurrada por sua mãe, terminou por encarná-lo e e seus amores e aventuras ficaram famosos, suas peripécias corriam o mundo.

Oscar Wilde escreveu Salomé para ela; teve casos com Gustave Doré, Georges Clarin, , os atores Jean Mounet Sully e Lou Tellegen, e com o escritor Victor Hugo. Teve ainda um caso com a pintora Louise Abbema.

Foi casada com o ator Aristides Damala; o casamento durou pouco em si durou pouco e conta-se que, ainda casada com ele, Sarah teria se envolvido com o Príncipe de Gales, que posteriormente veio a se tornar o rei Eduardo VII da Inglaterra.

Chamavam-na “A Divina Sarah”. Excursionou pelo mundo quase todo com suas peças de teatro; além de atriz cuidava da sua companhia de teatro com grande tino empresarial e fez fortuna com seu trabalho. Seu papel mais marcante foi o da peça A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas. Representou todo tipo de papel, incluindo Hamlet, de William Shakespeare.

Como Hamlet.

Em 1905, encenava La Tosca no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Na cena final, ela se atirava do alto de um muro para a parte de trás do cenário, onde deveria cair em cima de colchões ali colocados. O contra-regra esqueceu de fazê-lo, e ela quebrou a perna, que não se recuperou, precisando ser amputada tempos depois. Mesmo assim, continuou representando, sentada em uma cadeira de rodas, aproveitando-se da sua presença magnética e da sua voz envolvente e cheia de nuances, que manteve-se incólume ao envelhecimento.

Em 1923, com quase 80 anos, estava rodando um filme quando desmaiou. Faleceu a 26 de março do mesmo ano, sob os cuidados do seu filho Maurice.

Um video do You Tube mostra a atriz em uma pequena cena; a interpretação é calcada no teatralismo, com largos gestos e gritos que nao se ouvem no video – o cinema ainda não tinha som.





A botija

26 12 2009

Câmara Cascudo. 1898-1986.

Diz Luís da Câmara Cascudo que o tesouro enterrado é um mito presente em quase todas as culturas e que no Nordeste recebe o nome de “botija”: “… ouro em moedas, barras de ouro ou de prata, deixados pelo holandês ou escondido pelos ricos, no milenar e universal costume de evitar o furto ou os ladrões.” (Dicionário do Folclore Brasileiro)

Riquíssimo é o conjunto de superstições e crenças que envolvem o assunto na nossa cultura. Primeiro vem o sonho. Sonha-se com o tesouro, que muitas vezes é indicado por almas penadas, seres do outro mundo condenados a sofrer nas chamas do Inferno enquanto  o ouro escondido em vida não for encontrado. Parte dele deverá se destinar a missas pelo defunto e o resto fica para o herói que, afrontando os perigos de empresa tão arriscada, desenterra o ouro.

Fui criada ouvindo histórias de botija. Aprendi com os mais velhos e recordo hoje na leitura de Cascudo que para desenterrar uma botija é preciso obedecer a certas regras. É preciso ir à noite, sozinho, sem falar com ninguém e em silêncio. Se contar a outra pessoa, o tesouro some. Se outra pessoa for pegar a botija sonhada por alguém, não encontra nada. Quando muito, uma panela de carvão em lugar do tão cobiçado ouro. E é preciso traçar um “sino salomão” (um signo de Salomão, a estrela de seis pontas) no chão, antes de começar a cavar.

Na cidade de Cerro Corá, onde estive em 1999, ouvi uma historia de botija. Passou-se na Fazenda Tupã, que era propriedade de Sérvulo Pereira, magnata daquela região e dono de minas de ouro, e que hoje pertence a seus descendentes. Um rapaz que trabalhava lá começou a sonhar com uma “bola de ouro” que estaria enterrada em determinado lugar da casa sede da fazenda. Contou a um, contou a outro, mas ninguém deu crédito à história, e parece que nem ele mesmo estava acreditando muito. Aí ele foi morar em Natal, mas o sonho não parou de persegui-lo até que, no final de 1998, foi lá no local indicado pelo sonho e arrancou a botija. Um buraco entre a parede e o piso, na parte anterior da casa, foi somente o que encontraram na manhã seguinte. Ouvi a história e fotografei o buraco quando andei por aquelas paragens em 1998.

Meu pai contava a história de um homem que vivia numa fazenda em Minas Gerais e sonhava com uma botija enterrada em uma casa na rua da Imperatriz, no Recife, cidade à qual ele jamais tinha ido. Um dia, esse homem resolveu sair de onde morava e empreender a busca do tesouro. Foram muitas peripécias e um final inusitado, e essa história me impressionou tanto, ecoou tanto dentro da minha cabeça durante tanto tempo que eu resolvi contá-la em livro. Misturei com outras histórias também da minha infância e daí resultou um livro, “A Botija”, que ganhou em 2000 o Prêmio Câmara Cascudo de Literatura, que é o prêmio da Prefeitura Municipal do Natal. Editado pela editora 34 em 2006, o livro é muito bem aceito e está sendo adotado como leitura obrigatória do vestibular de 2011 da Universidade Federal de Campina Grande.

Um tesouro de histórias, arrancado do profundo solo da minha infância: é esta botija, brilhando como ouro nas noites da imaginação.





Um sonho de Natal

25 12 2009

Na minha infância nunca tirei retrato com Papai Noel. Se você vem acompanhando essa minha série de post sobre o Natal, já sabe que não tive uma infância muito fácil no que se refere ao quesito financeiro.

Além de sermos “remediados”, não havia essa tradição tão arraigada de comemorar o Natal como hoje. O evento ainda não tinha se tornado essa locomotiva de marketing, puxando atrás de si os vagões do consumo desenfreado, das tradições inventadas de última hora para vender produtos, da perda de significado dos símbolos.

Mas eis que no Natal de 2001 ou 2002, não me lembro bem, fui à “formatura” da minha neta Isabela, que devia ter seus seis ou sete anos e estava terminando a fase de alfabetização. No final da cerimônia, as crianças se acotovelaram para tirar uma foto ao lado de um magnífico Papai Noel, com uma espetacular roupa de cetim vermelho e belas barbas de algodão.

Eu fiquei olhando assim de longe e pensei: “Por que não?”

E fui lá, caro leitor. Fui também tirar a minha foto com Papai Noel, projeto adiado por cerca de cinquenta anos. Abracei aquela criatura e dei um zoom ao contrário no tempo. Virei criança de novo enquanto meu filho fazia a foto e minha neta morria de rir.

O Papai Noel, muito maroto, parece ter gostado do abraço porque dois dias depois eu o encontrei no shopping, ainda com a fantasia, no meio de um monte de criança. Piscou o olho para mim e disse: “E aí? Não quer dar mais um beijinho no Papai Noel?”

Pois é, meu caro leitor. Tem milagre de Natal pra tudo quanto é gosto. Prudentemente, recusei a oferta e recomendei ao bom e assanhado velhinho que fosse beijar uma de suas renas, e me incluísse fora daquilo. Ele riu, eu ri, e assim termina mais um conto de Natal moderno.

Feliz Natal!

Veja que olho mais safado desse Papai Noel!





Natal: a festa da Fé

24 12 2009

Observo, com alguma surpresa, que o Natal já foi uma festa pagã, depois tornou-se cristã, e pelo visto está prestes a se tornar pagã novamente pela corrida desenfreada às lojas, pela substituição das igrejas pelos shopping-centers como lugares de celebração, e por ter se tornado para muita gente uma festa sem significado, sem reverência, sem milagre.

Há ainda um aspecto interessante. O Natal é antes de tudo uma festa de família, que desde o tempo do paganismo sempre foi comemorada em família, no interior do lar, em volta de uma ceia. Mas hoje em dia geralmente estamos cansados, estressados e cheios de obrigações de última hora. São as duras injunções da vida moderna, dita “civilizada”, que nos arrasta a esse torvelinho de compras de última hora, embalagens para presentes, confraternizações, amigos secretos e muita agitação no trânsito, aumentando o número de acidentes.

Não posso deixar de me lembrar dos natais da minha infância, quando não existia essa entidade chamada shopping-center em torno da qual se estrutura praticamente toda a nossa atividade natalina. Naquele tempo as coisas eram mais simples, menos sofisticadas. Quando criança, nunca me levaram para “ver Papai Noel no shopping” ou em qualquer outro lugar. Em Campina Grande, no início da década de 1950, coisas como essas eram distantes dos nossos festejos, e como Papai vez por outra estava desempregado, havia natais em que não adiantava colocar o sapatinho na janela do quintal porque o bom velhinho não vinha mesmo.

Mamãe, com sua sabedoria, contou a mim e a Bráulio que Papai Noel era o pai da gente mesmo, mas só quando havia dinheiro; e que se em um ano as coisas estavam ruins, era sinal de que no outro ano elas estariam melhores. Dessa maneira simples, nos ensinou a Esperança. E não sei como, dava um jeito de arranjar uns trocados e nos levava para “a festa”, que era como chamávamos o parque de diversões armado em toda a extensão da avenida Floriano Peixoto, a principal rua da cidade, com roda-gigante, carrossel e os pavilhões onde todos bebiam e comiam à vontade. Lá, dava algumas voltas conosco no carrossel e depois voltávamos para casa, ainda tontos e com os olhos cheios das luzes em redemoinho… Não havia ceia, nem presentes, mas estávamos felizes.

Hoje não é mais assim. As estatísticas mostram que na época de Natal há maior incidência de crises de depressão e de suicídios, principalmente entre pessoas idosas. Há uma condição já reconhecida na clínica chamada “Christmas blues” ou “depressão de Natal”. A pessoa sente-se triste, desamparada, desanimada, sem perspectiva. Os encontros de família contribuem para tornar mais intensos ainda esses sentimentos, e fica-se muitas vezes lembrando do que passou, mas não com aquela saudade boa e nostálgica, de quem “foi feliz sem saber”: ao contrário, a lembrança vem cheia de dor e solidão, de sentimento de perda irreparável, de profunda tristeza, de angústia extrema.

É por isso que tem gente que simplesmente “detesta o Natal”. Esta “depressão de Natal” tem alguns fatores desencadeantes: sentimentos de culpa por coisas mal resolvidas do passado, estresse e cansaço (isso acontece quando o freguês entra na maratona de compras-ceia-comemorações) e dificuldades com a família.

Como se defender da praga? Cuidar da cabeça, de preferência com ajuda profissional; minimizar as expectativas, não esperando de uma simples festa de Natal mais do que ela pode dar; procurar não se cansar muito fisicamente, comer e beber com moderação, pois afinal não estamos cobertos de neve para precisarmos nos empanturrar de calorias; ter tolerância e compreensão com a família reunida, e respeitar as esquisitices de cada um, não se envolvendo em disputas; não tomar resoluções drásticas e superiores às nossas capacidades; e, finalmente, permitir-se ficar triste e ter saudade, pois a tristeza e a nostalgia pelo que se foi são sentimentos naturais e devem ser experimentados, respeitados, aceitos e vivenciados.

Natal/2006.

Finalmente, lembrar novamente do Milagre. Sugiro a você, que está triste, que escolha o Natal deste ano como a festa da Fé, a festa do Milagre e a celebração da Esperança. Não importa o que aconteceu: se houver Fé na possibilidade do Milagre isso já é garantia de que o Milagre aconteça.

Feliz Natal.





O milagre do Natal

23 12 2009

O nascimento de Cristo, por Piero della Francesca.

Uma das coisas que mais me agradam quando penso sobre o Natal é a idéia do milagre da virgem que deu à luz uma criança. Sou doida por milagres, e penso que eles são preciosos como reforço da Fé, condição indispensável para que o ser humano possa continuar com sua trajetória. Considero esse milagre do nascimento de Cristo um tema não só profundamente poético mas também riquíssimo de simbologia e interpretações.

Sobre esse caráter milagroso da Natividade, quem fala é Jacopo de Varazze, em “A legenda áurea”. Ele diz que o nascimento do Cristo foi milagroso “quanto ao modo de geração, pois o parto superou as leis da natureza por ter sido uma virgem a conceber; superou a razão, pois o gerado foi Deus; superou a condição da natureza humana, pois foi um parto sem dores; superou o normal, pois a virgem não concebeu de sêmen humano, mas de um sopro místico, o Espírito Santo, que tomou o que havia de mais puro e de mais casto no sangue da virgem para formar aquele corpo.”

A adoração dos Magos, por Giotto.

Citando Anselmo, Jacopo de Varazze diz que Deus mostrou um quarto modo admirável de criar um homem. Com efeito, “Deus pode criar o ser humano de quatro maneiras: sem homem nem mulher, como criou Adão; de um homem sem mulher, como criou Eva; do homem e da mulher, como de costume; e de uma mulher sem homem, como nesse caso maravilhoso do nascimento de Cristo.

Reforçando esse caráter milagroso, o Divino Nascimento foi anunciado por todos os tipos de criaturas, viventes e não viventes, desde a estrela, que brilhou no céu e apontou o caminho aos Reis Magos, o boi e o jumento que dobraram os joelhos frente à manjedoura e até “as vinhas da Engadia que produzem bálsamo, e que nessa noite floriram, deram fruto e destilaram seu licor”.

Que coisa linda, não é, meu caro leitor? É possível ficar indiferente a uma coisa dessas, sendo ou não sendo católico, cristão, ou ateu? Eu não consigo.

Amanhã, continuo aqui falando sobre o Natal. Volte.





As origens do Natal

22 12 2009

Nesta época do ano, proliferam nos jornais, nas revistas e na Internet artigos, crônicas e escritos diversos sobre o Natal. Entre nós, cristãos e ocidentais, comemora-se nesta época o nascimento de Jesus Cristo, o filho de Deus.

Na verdade, meu caro leitor, o Natal é uma antiga celebração pré-cristã, ligada ao mito da esperança e do renascimento. Os povos antigos, nos países do Norte da Europa, faziam essa celebração coincidindo o solstício de Inverno, data em que a noite é mais longa e o dia parece que não vai mais amanhecer. Mas o Sol surge, renovando nas pessoas a esperança de que, com o fim do Inverno, venha a Primavera e a Natureza volte a desabrochar em flores e frutos. Na verdade, após o Solstício, os dias vão se tornando cada vez mais longos até que chega o equinócio vernal, em 21 de março, onde dias e noites têm a mesma duração.

Para marcar com exatidão as datas dos Solstícios e Equinócios, os povos antigos, depois de décadas de observação, faziam marcos de pedra. Acompanhando a projeção das sombras, conseguiam determinar os eventos astronômicos relativos ao Sol. O mais famoso desses marcos é Stonehenge, na Inglaterra, erguido cerca de 3.100 a.C.

Nas culturas antigas, da época neolítica, as últimas provisões de inverno eram cuidadosamente reservadas para serem consumidas no dia 21 de dezembro, data do solstício. Neste dia, os grupos familiares se reuniam e compartilhavam alimentos de grande valor energético como frutas secas e sementes buscando uma energia extra para suportar os últimos dias de frieza. É daí que vem o uso que fazemos desses alimentos até hoje nessa época do ano, mesmo que entre nós não seja inverno e que o calor de dezembro não recomende a ingestão de pratos tão calóricos. Comemos nozes, castanhas, passas e frutas secas porque tribos primitivas, que viveram há cinco mil anos, assim o faziam.

Não é curioso, meu caro leitor? Muitas das coisas que fazemos hoje em dia são aquilo que os estudiosos do folclore e da tradição chamam de “sobrevivências”, práticas e comportamentos que estão profundamente arraigados no DNA da Humanidade. Quando você enfeita a árvore de Natal, faz isso porque os povos antigos enfeitavam os carvalhos, que eles consideravam sagrados e que estavam despidos de folhas no rigoroso inverno europeu. Enfeitavam estas árvores para atrair de volta o espírito da natureza, que se pensava que havia fugido.

Com o surgimento do Cristianismo e a sua expansão pelo mundo, principalmente a partir do ano 313 d.C, quando o imperador Constantino converteu-se e adotou a religião cristã em todo o Império Romano, resolveu-se então estabelecer uma data para comemorar o nascimento de Jesus Cristo, tendo sido escolhida o dia 25 de dezembro por situar-se praticamente na mesma data em que a população já festejava seus antiqüíssimos cultos ligados ao solstício de Inverno.

Outras festas cristãs – como a Páscoa, o São João, o Dia de Todos os Santos – também foram estabelecidas da mesma forma, sobrepondo-se às festas pagãs já existentes, imprimindo a elas novas características ligadas à religião que nascia mas permitindo que costumes e práticas, relativas à forma de comemoração, permanecessem da mesma forma. Daí a alimentação especial, a árvore, a troca de presentes e outros aspectos de origem pagã que perduram até hoje. Muitos autores informam que o primeiro Natal cristão foi comemorado em Roma no ano de 336 d.C.

Amanhã continuo essa conversa sobre o Natal, falando do que mais gosto: a comemoração do milagre.





Qual cisne branco…

21 12 2009

As viagens sempre me atraíram. Quando menina, gostava muito de ler livros onde os viajantes narravam suas peripécias. Quando criança, eram freqüentes os deslocamentos entre Campina Grande, onde meus pais moravam, e Recife, onde morava parte da família de ambos, e lá íamos nós a bordo das então sacolejantes “marinetes” que percorriam aquelas estradas de terra. A viagem era um horror, e chegávamos cansados e cobertos de poeira.

Já no trem era uma delícia o chaco-chaco do vagão, e o movimento das pequenas estações, o trem parando em cada uma, onde vendedores de todo tipo de comida encostavam na janela.

Mesmo assim, nunca fui uma viajante. Primeiro por falta de tempo e dinheiro, e depois por falta de tempo, terminei por não desenvolver na minha vida o hábito de viajar. Quando todo mundo se programava para férias fora do Brasil, eu só pensava em ir para Olinda ou Salvador, pular Carnaval e cair na gandaia.

Viajei pouco na minha vida, e nunca para fora do Brasil. Agora, aos poucos, com tempo e paciência, estou procurando suprir esse desejo, mas as viagens nunca me levam para o exterior: me levam ou para o Rio e São Paulo, atraída pelos eventos culturais ou para o interior do Nordeste onde estão minhas origens, minhas raízes, e a fonte das histórias que vivo contando ao povo.

Neste verão, mais precisamente a partir desta quarta-feira, dia 23, estarei realizando um sonho há muito tempo acalentado: uma viagem de navio. Nada demais: um cruzeiro de sete dias pela costa nordestina, num desses navios lotados de gente, mais parecido com um hotel flutuante. Não vou para lugar nenhum: vou tão somente fazer a experiência de navegar. Estou cheia de expectativa pois amo o oceano e a sua vastidão; já subi a bordo de diversos tipos embarcações, de todo tamanho, e percorri trechos não muito longos, mas o bastante para saber que não sou daquele povo que “enjoa”, o que me assegura longas e felizes horas a bordo. Numa dessas aventuras fui até o mar alto de jangada, amarrada ao mastro por uma corda, uma vez que não havia salva vidas e nem eu sei nadar. Foi emocionante.

MSC-Melody

Então, estarei embarcando no porto de Cabedelo-PB no navio MSC-Melody, com escalas em Recife (dia 24), Salvador (dia 26), Maceió (27), (Fortaleza (29) e de volta a Cabedelo, onde desembarco, dia 30.

Durante esse tempo, você pode vir aqui todo dia que vai encontrar texto novo sempre porque há um recurso do WordPress que permite que agendemos previamente posts em blogs; mas sobre a viagem mesmo, somente quando eu voltar, porque o uso de Internet no navio é muito caro para as minhas limitadas posses.

Então, deseje-me boa viagem e nos encontramos na volta.

Não perca a partir de amanhã a minha série de artigos sobre o Natal.





Chinelos

19 12 2009

Estou me preparando para uma viagem, e depois de olhar para o meu velho e usado chinelinho, comprado na feirinha da Liberdade em São Paulo para combinar com um robe japonês há bem uns dois anos, vi que se havia usado pouco o robe usei muito o chinelo, que está em petição de miséria. Resolvi então comprar outro e, navegando na Internet em busca do modelo ideal encontrei uns chinelos tão engraçados que não resisti ao desejo de compartilhar com vocês.

Descartável, feito com EVA. Aqui.

Que tal um chinelinho como brinde de casamento? Aqui.

Pensei em fazer esse com carinhas de políticos recortadas das revistas. O passo a passo está aqui.

É estranho, mas criativo pra caramba. E “verde”, porque reaproveita garrafa pet. Aqui.

Você calça este chinelo com detetor de metais, vai dar um passeio na praia e encontra moedas, anéis e sei lá mais o que de metal se pode perder numa praia… Aqui.

Pão-de-chinelo ou chinelo-de-pão? Você escolhe. Aqui.

A-do-rei esses! Aqui.

Esses são os que estou usando desde o dia 6 de dezembro… Na butique do clube, aqui.

Finalmente, muita atenção quando for calçar seu chinelo de bichinho.





A festa perpétua

17 12 2009

Hoje em dia, para onde a gente se vira tem festa. Só de carnaval fora de época há dezenas pelo Brasil afora, coordenados de tal jeito que a data de um não coincide com a do outro, para que toda a estrutura que põe esse moinho para funcionar, e que é a mesma – cantores, produtores, bandas, montadores de arquibancada, comerciantes – possam ir se mudando de um lugar para o outro. Além dos festejos de um Momo extemporâneo, tudo hoje é motivo para festa, e essa festa parece que só tem graça se contar com a participação de milhares de pessoas, contabilizadas no outro dia pelos jornais e tomadas como parâmetro para o sucesso do evento, ou melhor, mega-evento.

Toda festa hoje, qualquer que seja ela, aspira a ser “mega”. A cada semana repetem-se as comemorações onde é obrigatório o apelo às multidões, embaladas pela música amplificada a limites insuportáveis. É o aniversário do bar, o dia da padroeira, a confraternização da empresa tal, a caminhada contra a hipertensão, o passeio da terceira idade, a procissão da paz.

Mas qual é a função da festa? Nas sociedades arcaicas, a festa constituía um momento único de subversão da ordem, um espaço salutar onde se podia fazer tudo aquilo que normalmente não era permitido, atuando como válvula de escape das tensões sociais. As festas eram ritualizadas, obedecendo a procedimentos, a regras, a ações e a comportamentos repletos de significado e encerravam tanto o aspecto de serenidade cerimonial como tinham espaços próprios para a liberação da violência e do imaginário. Algumas comemorações atuais ainda conservam esses traços, como a Semana Santa, por exemplo, onde há todo o culto ao mito da Morte e Ressurreição, cheio de unção e reverência, ao lado da morte do Judas, da queima do Mal, onde a violência e o deboche correm soltos.

Nestes tempos atuais do mega-evento e da indústria da festa esse sentido ritual da celebração se perdeu e vivemos numa festa contínua, perpétua, “cheia de som e fúria”, talvez para não termos tempo de encarar os nossos problemas, que vão desde a violência e a intolerância coletivas até a solidão e a infelicidade individuais.

Como participar de uma festa que deveria ser uma ruptura, um desvio da norma mas que se torna quase uma obrigação, uma imposição social? Tente ficar em casa e não participar dos mega-eventos propostos a cada semana: você suscitará a desconfiança e a preocupação do seu grupo, que imediatamente vai julgá-lo deprimido ou com algum problema.

Vivemos nesse cotidiano onde vale tudo, onde tudo é permitido, onde não há limites; quando a festa chega, e chega a intervalos cada vez menores, nada mais temos para liberar, e sobra muito pouco para transgredir. Nessa festa contínua, na qual somos impelidos pela mídia a participar, ficamos tão ansiosos pela diversão que precisamos do ruído atordoante dos trios elétricos para abafar o grito desesperado do nosso coração, solitário e faminto de amor. Nessa festa perpétua, o riso está à beira da morte, a alegria senta-se na cadeira elétrica dos decibéis e a espontaneidade falece no limite dos abadás.

(Esse texto foi escrito há alguns anos, quando amigos preocupados sugeriram que eu estivesse deprimida por não estar afim de participar de um fuzuê desses).





Formosa és

15 12 2009

Quando a gente vai chegando na meia-idade, e começa a se aproximar daquilo que supomos ser a viagem derradeira - digo supomos porque quem sabe se depois dessa ainda não haverá outras viagens, outras passagens? – começa a haver uma necessidade de passar as coisas a limpo, de pegar o rascunho da vida e dar-lhe forma e essência, conteúdo e continente, aparar os excessos, enxertar sentido naquilo que ficou vago, preencher as lacunas. Isso, penso eu, é uma tarefa feita mais para nós mesmos do que para os outros.

Então nesta semana, concluí e lancei – lançar no sentido de publicar, entregar ao público – mais um livro, disponível para download gratuito pela Internet.

Desta vez é o “Formosa és: memórias do internato”, texto que venho escrevendo desde junho deste ano, para que não se perca na memória essa fase da minha vida. Fiquei interna por dois anos, entrando com oito anos e saindo ao completar dez, no Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, na cidade de Bom Conselho, no Agreste pernambucano.

Os acontecimentos narrados no livro se passaram há 55 anos, tendo sido já depurados pelo filtro do tempo e da maturidade. Foi ruim? Foi bom? Digo somente que foi uma experiência, que deixou marcas. Mas é bom quando a gente pode se debruçar sobre o passado e ajustar contas com ele, fechando arquivos que estavam abertos e “desfragmentando” esse imenso HD a que chamamos memória.

Não tenho planos de fazer o livro em papel. Nem ele, nem os que pretendo ir lançando pelo mesmo método, à medida em que os for preparando. Afinal, o desejo do escritor é ser lido; se você mandar imprimir as cerca de 150 páginas do volume, terá gasto praticamente os mesmos 30 reais que pagaria  pelo livro impresso – ou menos. De quebra, eu me livro da noite de autógrafos, na qual estou sempre tão aterrorizada que mal sei o que estou dizendo a cada uma daquelas pessoas tão gentis que compram o livro e querem minha assinatura.

Então, aí vai o endereço:
http://www.clotildetavares.com.br/formosaes.pdf

E para quem está curioso, o “Formosa és” do título é de um belíssimo hino a Nossa Senhora, tema musical daqueles dois anos que passei interna: “Formosa és, Rainha Imaculada,/ Fragrante lis, aurora divinal./ Se os olhos meus um dia te olvidarem, / Ó Mãe, então, recorda-te de mim.// Quero morrer cantando os teus louvores, / Qual rouxinol que expira ao pôr-do-sol. / Quando partida a minha pobre lira,/ Te cantará meu triste coração.”

Sou uma pessoa religiosa que não tem religião, e esse hino sempre consegue me transportar para as altas esferas, onde cantam os anjos e ainda ecoa a minha voz de menina.





A protetora dos olhos

14 12 2009

Hoje, meu caro leitor, 14 de dezembro, é meu aniversário. A data me dá muita alegria, uma vez que estou viva, com saúde, em boa forma física, escrevendo e produzindo idéias no meu ritmo costumeiro, ou seja, a todo vapor. Mas como vivo falando de mim e todo mundo já sabe quem eu sou, hoje quero falar mesmo de outra pessoa, vizinha de data, e de quem por pouco não recebi o nome se tivesse nascido no dia 13. Refiro-me a Santa Luzia, a santinha de Siracusa, cruelmente martirizada pelo imperador Diocleciano.

A história está toda lá, na “Legenda Aúrea”, esta maravilhosa obra medieval editada em português pela Companhia das Letras. O livro conta a história de mais de 170 santos e foi escrita no século XIII pelo monge Jacopo de Varazze, chegando a ter mais edições do que a Bíblia e servindo de fonte de inspiração para milhares de sermões ao longo de séculos. Outra fonte de informações sobre Santa Luzia, no aspecto da tradição popular, é Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro.

Luzia, ou Lúcia, nasceu em Siracusa, Sicília. sendo de origem nobre, tornou-se cristã e resolveu consagrar sua vida a Deus, fazendo voto de  castidade e distribuindo seus bens aos pobres. O noivo, ofendido e irritado pela dilapidação da fortuna que um dia seria sua, levou-a à Justiça. O cônsul Pascácio foi o seu algoz, tentando fazer com que ela renegasse sua fé e oferecesse sacrifícios aos deuses pagãos, ameaçando-a com suplícios inenarráveis, queimando-a com fogo e óleo fervente e por fim degolando-a a fio de espada.

A tradição retarata a  jovem com vestes vermelhas, um manto verde, a palma do martírio e uma salva onde estão seus dois olhos, que ela própria teria arrancado para enviá-los a um homem que os elogiara, sacrificando sua vaidade pessoal e buscando com isso afastar os homens que pretendiam o troféu da sua virgindade. É a defensora dos olhos e invocada na doença desses órgãos. Tira qualquer tipo de argueiro e aos seus devotos promete uma boa visão até mesmo em idade avançada.

Curioso é que uma santa tão boazinha dê nome à terrível palmatória de castigo escolar e doméstico, denominada “Santa Luzia dos Cinco Olhos”, em alusão aos cinco furos da palma. Essa denominação é de origem portuguesa como explica Conceição Barros, na sua tese de mestrado em História da Educação, realizada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto: ‘Este objecto de madeira era constituído por um cabo que terminava numa forma circular com cinco pequenos furos dispostos em cruz. A cruz fará alusão à cruz de Cristo e os cinco buraquinhos parecem representar os cincos sentidos corporais’.

No dia dedicado à Santa Luzia, 13 de dezembro, não se caça nem se pesca. Ainda segundo Cascudo, em história que lhe foi contada pelo pescador Chico Preto, um outro pescador irreverente , sem respeitar a tradição, resolveu pescar nesse dia: ao recolher a rede, achou-a cheia de peixes cegos que foram lançados de volta ao mar pelos pescadores aterrorizados. Ao chegar à agua, os peixes recobraram a visão, nadando para longe.

Durante muito tempo, na minha infãncia, a imagem da santinha era a última coisa que eu via antes de adormecer, em um quadro colocado de frente para a minha cama. Não recebi o nome, mas recebi a tradição e quem sabe por intercessão de Santa Luzia , a quem dediquei minhas rezas inocentes de criança é que eu tenho hoje esses olhos tão ativos, tão curiosos, tão videntes das coisas desse mundo e de quantos outros mundos existam por aí.





A solidão e sua porta

13 12 2009

A SOLIDÃO E SUA PORTA

Poema de Carlos Penna Filho

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha),
quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha
a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida
com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.

Achei a imagem aqui.

O poema, achei no livro “Os melhores Poemas” – Global Editora – 1983





Nós podemos

12 12 2009

Tenho uma amiga, Denize Barros, designer gráfica pernambucana radicada em São Paulo, cheia de ideias bacanas e que faz bolsas tão lindas que você nem imagina, só indo lá no site dela olhar. Pois bem, eu mandei uma foto para ela, numa promoção do site, e olha o que ela fez! Não ficou bacana?

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A energia de Sagitário!

11 12 2009

Quando chega o mês de dezembro, começa a agitação. Como se um vento poderoso varresse o ar, o planeta é avassalado pela energia sagitariana, uma energia vigorosa e entusiasmada, que faz com que as pessoas se lancem ao trabalho ou à diversão com alegria e inspiração.

Acredite ou não em Astrologia – eu mesma não acredito nem um pouco – você há de concordar comigo em que o mês de dezembro é uma das épocas mais interessantes e bonitas do ano. Praticamente estamos no final de nossas tarefas, e começamos a planejar as festas de fim de ano. O comércio, animado pela perspectiva das vendas de Natal, se enfeita todo, as vitrines mostram tudo o que é de coisa bonita e secretamente começamos a pensar em todas as extravagâncias que vamos fazer, tanto em compras como em violações da dieta, com a desculpa do Natal.

Nessa época, a cidade fica mais bonita, com suas luzes coloridas, e há muitos lançamentos de livros, exposições, festas, espetáculos quase todo dia e as confraternizações de final de ano acontecem, aumentando a cota de diversão e prazer. É também nesse mês que quem está longe volta, para rever família e amigos, e matar as saudades.

O meu caro leitor já deve ter adivinhado que nasci sob esse maravilhoso signo de Sagitário, responsável talvez pelo meu otimismo e despreocupação mas também por uma certa excentricidade e extravagância que estão permanentemente me metendo em confusão.

Exatamente no dia 14, segunda-feira, “colho mais uma rosa no jardim da existência”, como se dizia antigamente. As rosas já são muitas, e formam um enorme e perfumado ramalhete, que às vezes fica meio pesado de carregar, embora eu continue fazendo isso com grande prazer.

Espero que você, meu caríssimo leitor, deseje-me muitas felicidades e muitos anos de vida. Como toda legítima sagitariana, eu tenho certeza de que mereço.





Flores do meu Cariri

10 12 2009

No mês de fevereiro deste ano, Inês Tavares e Cristina Evelise (minha irmã e minha cunhada) fizeram uma viagem ao Cariri paraibano. Ficaram hospedadas numa fazenda, na região de Sumé; mas andaram, viraram, mexeram, fizeram uma ruma de fotos que, quando voltaram, descarregaram no meu computador. São fotos de gente, de natureza, de plantas e de bichos. Fotos que eu não sei, das duas, quem fez, se uma ou a outra.

Portanto, com crédito duplo, eu trouxe para vocês essas flores do meu Cariri, floreszinhas bestas, sem nome, sem a sofisticação ou a majestade das orquídeas ou rosas mas tão caprichosas na minúcia e na beleza que parecem jóias coloridas brotando daquele chão seco e áspero, assim que dá a primeira chuva.





O Orquilouco

9 12 2009

Eu tenho um amigo que é maluco. Mas isso todo mundo também tem. Todo mundo conhece gente que tem um parafuso frouxo. Mas a maluquice desse meu amigo é saudável porque ele a usa integralmente para defender seus pontos de vista e as coisas em que acredita. Aí, o chamam de doido porque ele não tem medo de ir até às últimas consequências. Ele mora em Natal, tem cerca de 60 anos, curso superior, bonitão e criador de orquídeas. Por isso gosto de chamá-lo de Orquilouco.

Pois uma vez o Orquilouco foi levar a filha a um dos shoppings de Natal e viu duas motocicletas paradas na vaga destinada a portadores de deficiência. Chamou o segurança e reclamou daquele absurdo. O segurança disse que não tinha visto, não sabia quem era, e ele começou a se irritar. E disse: “Olha, eu venho pegar minha filha daqui a meia-hora. Se essas motos ainda estiverem aqui, você vai ver uma coisa”.

E assim disse, assim o fez. Ao voltar, como as motos ainda estavam estacionadas no mesmo lugar, ele entrou com o carro no corredor principal do shopping e estacionou entre as lojas. Criou-se então um grande tumulto. Vieram os seguranças, mas se intimidaram diante do Orquilouco, que, em alto e bom som, expunha aos curiosos – que já eram muitos – os motivos da sua atitude. Muita gente ficou do lado dele e a pressão sobre os seguranças e a administração do shopping ficou cada vez mais forte. Decidiu-se então procurar os donos das motos, que não foram encontrados. Para acabar com a confusão, os seguranças se reuniram e tiraram “no braço” as duas motos da vaga de deficiente. Só então o Orquilouco tirou o carro de dentro do shopping. A multidão aplaudiu, enquanto a filha dele, morta de vergonha dos escândalos do pai, procurava passar despercebida e entrava no carro.

É louco, diria você, meu caro e sensato leitor. É louco, digo eu também. É louco porque é capaz de se arriscar, de dar a cara para o tapa quando vê uma coisa errada acontecendo, mesmo que essa coisa errada nada tenha a ver com ele. Quantos de nós temos essa mesma disposição diante da vida? Quantos de nós estamos dispostos a nos arriscar em busca daquilo em que acreditamos? Quantas coisas erradas e tortas acontecem neste mundo somente porque nos omitimos, viramos o rosto para o outro lado, fechamos os olhos, nos negamos a ver a agressão, a dor, o erro, porque nos incomoda mas pensamos que não temos nada com isso?

Fica então aqui o exemplo do Orquilouco, para nos servir de inspiração nestes dias.

Eu já havia publicado essa crônica no jornal há tempos. Mas na próxima segunda-feira, o meu querido Orquilouco, o  agrônomo e orquidófilo Cassiano Lamartine, vai se submeter a uma cirurgia delicada. Com votos de que corra tudo bem, peço a todos que, junto comigo, torçam por ele.

Esta orquídea, híbrida, foi batizada com o nome dele.





É bom casar!

8 12 2009

Talvez o meu caro leitor não saiba que já fui casada algumas vezes. Casamento é isso mesmo, não é bom nem é ruim, é apenas uma situação como outra qualquer, que tem coisa boa e coisa ruim e que você vai fazendo a relação custo/benefício o tempo todo: quando o custo supera o benefício, está na hora dos parceiros caírem na real e ver se compensa continuar com a relação.

Se não dá, é partir para outra, mesmo que a separação seja dolorosa – e geralmente é, mais pelo hábito e pelas dependências que criamos um do outro do que propriamente pelo amor que, a essa altura, já deve ter acabado também. Aliás essa discussão do amor merece um post só pra isso e não vou enveredar por ela agora sob pena de me desviar completamente do assunto.

O curioso da separação é que vemos com surpresa que, de par com a tristeza e a saudade vem um certo alívio, e a descoberta de uma inusitada liberdade, de possibilidades até então não suspeitadas, sequer consideradas antes, porque quando a gente vive junto há coisas que geralmente a gente sequer imagina que possa fazer.

Fui casada quatro vezes. Tenho dois filhos, do primeiro e do terceiro. Uns duraram mais, outros menos. Dois me deixaram, e dois eu deixei. De dois eu ainda sou muito amiga, muito amiga mesmo – e sou amiga de um que deixei e de um que me deixou. Os outros dois um eu não quero ver (um que eu deixei) e outro não tem interesse em me ver (um que me deixou).

Então, somando e dividindo, penso que tive sorte pois os pratos da balança da minha vida de casada se equilibraram de tal forma que não lamento nada que houve, mas também não quero repetir um dia que seja. E confesso que me considero feliz no casamento porque todos os meus maridos eram – são – bonitos, inteligentes, talentosos, bons-de-cama e companheiros. Não deu certo? Deu, sim! Enquanto durou, deu certo.

Hoje, integro aquilo que se chama a “comunidade single”: pessoas que optaram por viver sozinhas, sem companheiro para dividir a casa embora uma vez ou outra coisas diferentes possam acontecer – e acontecem.

Não me sinto solitária. Como poderia, com o mundo ao meu alcance pela via presencial, pois é só pegar o meu Fiat Modelo Velho e ir para onde quiser ou, se for mais longe, pegar um avião? E pela via virtual posso penetrar em lugares onde jamais imaginei ir, pois a Internet me proporciona todas as viagens com que já sonhei?

Como me sentir solitária com esse mundo de gente que me lê, envia emails, troca idéias, reclama, critica, elogia, diz que não gostou, faz perguntas, numa balbúrdia e num tumulto virtual que chega a me cansar, e eu corro para longe do computador com um livro, e vou para a varanda fiscalizar a natureza somente para me livrar um pouco de vocês?

Pois é, meu caro leitor. Posso até viver sozinha, mas solitária, nunca!

Vocês estão sempre comigo, e estou feliz por isso.





Firulas textuais

7 12 2009

Numa Lista que assino, um dos membros postou um texto todo escrito sem usar a letra “A”, do qual reproduzo um pequeno trecho abaixo.

Sem nenhum tropeço posso escrever o que quiser sem ele, pois rico é o português e fértil em recursos diversos, tudo isso permitindo mesmo o que de início, e somente de início, se pode ter como impossível. Pode-se dizer tudo, com sentido completo, mesmo sendo como se isto fosse mero ovo de Colombo.

Desde que se tente sem se pôr inibido pode muito bem o leitor empreender este belo exercício, dentro do nosso fecundo e peregrino dizer português, puríssimo instrumento dos nossos melhores escritores e mestres do verso, instrumento que nos legou monumentos dignos de eterno e honroso reconhecimento.

Trechos difíceis se resolvem com sinônimos. Observe-se bem: é certo que, em se querendo esgrime-se sem limites com este divertimento instrutivo. Brinque-se mesmo com tudo. É um belíssimo esporte do intelecto, pois escrevemos o que quisermos sem o “E” ou sem o “I” ou sem o “O” e, conforme meu exclusivo desejo, escolherei outro, discorrendo livremente, por exemplo sem o “P”, “R” ou “F”, o que quiser escolher, podemos, em corrente estilo, repetir um som sempre ou mesmo escrever sem verbos.

(…)

E o texto continua por mais alguns parágrafos e lamento não ter aqui a autoria para lhe informar. Quem postou não colocou o autor.

Mas textos sem “A”, sem “E” ou textos onde a única vogal é “A”, por exemplo, são exercícios corriqueiros para quem escreve. Não é nada incrível, é somente um exercício. Faz-se quase como desafio, como brincadeira. Cada um de vocês, se tentar, consegue fazer.

Eu gosto de me divertir escrevendo textos como esse. Não servem para nada, apenas para exercitar a capacidade de brincar com as palavras, do mesmo jeito que o jogador de futebol faz embaixadas, para desenvolver a habilidade com a bola.

Outro exercício legal é escrever uma história curta, de umas duas páginas, por exemplo. Depois, tentar reduzi-la a 200 palavras, depois a 100, a 50…

Veja essa décima do poeta Dedé Monteiro:

“Ô casa velha do cão,
A de vovó Januária!
Caverna bicentenária,
Sem um sinal de cristão.
Morcegos sobre o fogão,
Na sala somente pó,
No muro, uma planta só,
No jardim, rato e mosquito:
Eis o retrato esquisito,
Da casa da minha avó.

O detalhe? Não notou? Não tem um só VERBO…








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