Brincando de pobre

26 02 2010

Hoje, trafegando pela Avenida Engenheiro Roberto Freire (para quem não mora em Natal, é uma das principais avenidas da cidade, que dá acesso à praia de Ponta Negra) fechei logo  o vidro do carro e fechei a cara, esperando o sinal abrir para que eu pudesse continuar sem ter contato com eles. Não adiantou. Dois deles, sujos, descalços, sem camisa, maiores do que eu e chegando mais perto do carro do que eu gostaria, bateram no vidro:

“Tia, tem um trocadinho aí?”

“Eu não sou tia de vocês”, respondi. “Se fosse, vocês não estariam se submetendo a esse papel ridículo e desrespeitoso com quem realmente precisa pedir esmolas para viver.”

Pois é, meu caro leitor. Os universitários “em trote” atacam novamente. Rapazes e moças, recém-aprovados no vestibular, estão espalhados pelos semáforos da Zona Sul a pedir uma “esmolinha”. Para isso, os colegas os despojam dos sapatos, os rapazes ficam sem camisa e todos têm os rostos e os braços sujos de tinta. Ombro a ombro com os pobres de verdade, que ali estão para limpar os parabrisas dos carros ou pedir esmolas, esses filhos da abundância riem, divertem-se e parecem estar tirando muito prazer da brincadeira.

Acredito que o fato se repita por muitas capitais brasileiras e já escrevi muito sobre isso, quando tinha coluna fixa nos jornais de Natal. Sempre critiquei essa atitude, esse “trote” de mau-gosto, essa falta de caridade com aqueles que precisam pedir de verdade. Causa-me espanto a naturalidade com que quase todo mundo encara uma coisa dessas. Causa-me espanto os pais desses jovens não se tocarem da crueldade da atitude deles, do acinte que ela representa frente àquelas pessoas que estão ali, lutando pela sobrevivência.

Será que os organizadores desses “trotes” não conseguem pensar em algo mais criativo? Se não querem doar sangue nem empregar parte do seu tempo em uma atividade comunitária qualquer, por que não realizam uma atividade artística ou cultural dentro da própria universidade? Se o espírito do trote é expor os calouros a uma situação vexatória, porque não os colocam para cantar, dançar ou representar, mesmo que não saibam fazer isso direito? Ou por que não pedem esmolas dentro do próprio recinto da universidade, onde os pobres de verdade não podem entrar?

Lembro-me dos trotes universitários em Campina Grande, na época pré-1964, onde era organizado um grande desfile pela cidade com críticas ao governo e às autoridades. Cartazes, faixas, estudantes fantasiados, tudo servia. Os “feras” eram conduzidos amarrados, dentro de um cercado, sujos e maltrapilhos. O desfile era cheio de criatividade, com paradas para apresentação de sketches teatrais e a cidade parava para vê-lo. Depois, a ditadura militar acabou com a farra e quando veio a abertura o costume não foi retomado. Nos últimos anos o que se vê nos trotes é isso: mau-gosto, grosseria e, em alguns casos, como já aconteceu em outras cidades, grandes orgias terminando em morte.

Sei que quem organiza esse tipo de brincadeira não é leitor deste blog. Mas quero mesmo assim sugerir duas opções como alternativa para a “brincadeira de pobre”.

A primeira é que cada um desses jovens leve um pobre de verdade para “brincar de rico” pelo menos por um dia. Banho, roupa nova, uma volta no shopping, umas comprinhas, um cinema, uma volta de carro pela orla…

A segunda opção é a que me agrada mais, embora seja mais radical: pegar cada um desses mocinhos bonitos ou patricinhas deslumbradas que estão brincando de pobre, tirar deles o celular, o dinheiro, os documentos e a chave do carro e soltá-los numa favela, às dez horas da noite, pra ver eles se virarem em outro ambiente que não seja o deles.

Mas sei que de nada adianta tudo isso, caro leitor. Sempre que houver vestibular, vamos ter que apelar para a paciência e conviver com isso. Há alguns anos, quando comecei a observar esse fenômeno, eu ficava preocupada porque sentia que aquelas criaturas sem noção iriam estar futuramente ocupando cargos no poder, atuando na política, dirigindo as universidades, julgando nas cortes, dirigindo os hospitais, e – pior, muito pior – nas salas de aulas ensinando aos nossos filhos e netos.

Hoje, esse triste futuro já se tornou realidade e basta você observar direitinho as pessoas que estão em destaque no seu município ou estado, principalmente aqueles que estão na faixa dos 30 a 40 anos, para constatar que muito deles são os “sem-noção” que há dez anos pediam esmola nos sinais.

Quanto aos pobres de verdade, continuam lá, nos sinais, pedindo esmola o ano todo. E isso não é nenhuma brincadeira.





O tema é o design

25 02 2010

Para se divertir, recorde alguns dos meus posts “temáticos”. É só clicar nos temas.

Camas

Sapatos

Banheiros

Poltronas

Ventiladores

Telefones

Escrivaninhas

Bikes

Banheiras





“Self-self”

24 02 2010

Volta e meia estou aqui de novo falando sobre as palavras, porque elas são para mim a coisa mais preciosa que existe. As palavras são meu ganha-pão, minha diversão, meu roçado, meu video-game, minha glória e a minha agonia. Tudo que faço, faço em torno delas e, para mim, seria o caos se eu não pudesse mais lidar com elas, de uma forma ou de outra. Sempre serei feliz se puder ler; se não puder ler, se não tiver livros, um lápis e um papel para escrever preencherão todos os meus desejos. E sem nem isso me for dado, tenho o juízo para inventar histórias e escrevê-las mentalmente, como o faziam e fazem os poetas populares da minha terra nordestina. E, finalmente, posso recitar mentalmente tudo que sei decorado, por horas e horas, para me distrair, como meu pai fazia depois que a velhice destruiu toda sua capacidade de ler e escrever.

Pois bem: sobre palavras, muitas vezes vejo coisas curiosas sobre a forma das pessoas se expressarem, principalmente aqueles que não fazem parte dessa nossa cultura letrada, aqueles que vivem e trabalham na área da oralidade. Num mundo oral, de comunicações não-escritas, quando se precisa escrever alguma coisa vemos coisas engraçadas e curiosas, mas também profundamente tocantes e enternecedoras.

“Seelf serfe 5,00 reais, com direito a 2 pedaço de carne outro pedaço 0,80”; “Ceja bemvindo e esprimente a lingüiça”; “Fexe o portão”, são frases que eu entendo, você entende e qualquer um entende mas que não se adequam à norma culta adotada e aceita pela cultura oficial. São pessoas comuns, pessoas do povo, tentando se incluir num meio onde o boca-a-boca não funciona mais e é preciso avisar à clientela os detalhes do negócio.

Antes não precisava de cartaz, não precisava de nada disso. O camarada chegava na bodega da esquina, onde, conversa vai, conversa vem, se falava que lá em Maria de seu Zé de Quinca tinha uma galinha torrada de dar água na boca. E era cada prato de comida que dava pra comer três pessoas. O freguês ia, pedia, Dona Maria trazia a galinha com todos os acompanhamentos e o trabalho era somente deliciar-se com a iguaria.

Mas os temos mudaram e veio a comida no peso, o auto-atendimento, o famoso “self-self”, como já vi escrito também em outro lugar. E as pessoas precisam se incluir nesse mundo mágico e misterioso dos letreiros e cartazes, complicado pelas palavras em língua estrangeira que permeiam nosso cotidiano. O cara que anuncia no balcão da lanchonete “We speak inglish” está se adaptando aos novos tempos, à penetração cada vez maior do turismo, e provavelmente fala inglês mesmo, e bem, e consegue se comunicar com os estrangeiros apesar de não dominar a língua escrita.

Fazer o quê? É isso mesmo. Devagarinho, devagarinho, as coisas se equilibram, uns aprendem a escrever em inglês, outros colocam um anúncio “Sirva-se você mesmo”, que é uma tradução tão brasileira quanto adequada do “self-service”. Outros anunciam “almoço no peso”. E se for mesmo dona Maria quem estiver pilotando o fogão, o prazer gastronômico é garantido porque talento não tem idioma nem nacionalidade.





Grandes atrizes

23 02 2010

Como gosto de ler e vivo lidando com idéias, as pessoas que me conhecem pensam que eu só gosto de filme “cabeça”, de filme complicado, do chamado “filme-de-arte”. Até que gosto mas, normalmente minhas predileções vão para os filmes históricos e de época, thrillers de suspense e comédias românticas. Também acompanho a obra dos meus diretores preferidos, como Clint Eastwood, Quentin Tarantino e or irmãos Coen.

Tudo isso para dizer que há uma comédia romântica que adoro assistir e que vejo sempre quando passa na TV: “Legalmente Loira”, de Robert Luketic. O filme é tão equilibrado no romantismo, na evolução dos personagens como na transformação da loira fútil em advogada de sucesso, e principalmente na frescura – comedia romântica sem frescura não dá – que dá gosto assistir.

Entre os desempenhos irrepreensíveis que permeiam o filme quero salientar um: o da atriz Holland Taylor, que faz o papel da professora Stromwell, aquela que logo no começo do filme arrasa com a loira do título logo na primeira aula em Harvard.

Aqui, algumas reflexões. Depois que entram para a chamada terceira idade, atrizes muito boas entram num limbo de falta de trabalho. É claro que não me refiro a atrizes como Meryl Streep, Shirley MacLaine ou outras famosas e oscarizadas; mas a todo aquele cortejo de coadjuvantes que conseguem dar vida e destaque a seus papéis.

Uma das coisas que mais gosto de dizer é que não existem pequenos papéis; existem pequenos atores. Neste filme “Legalmente Loira”, Holland Taylor consegue ser irrepreensível nas pequenas cenas em que aparece, e a gente vê claramente onde está o trabalho do ator: no tom da voz, na forma de colocar as mãos, no olhar, no erguer de uma sobrancelha… Ah, é um supremo prazer ver uma atriz como essa trabalhar.

Você pode também vê-la todo dia na série “Two and a half man”, onde ela está completamente diferente fazendo o papel de Evelyn Harper, a impagável e politicamente incorreta mãe de Charlie e Alan.

Vida longa a Holland Taylor!

Holland Taylor





Similia similibus

22 02 2010

Na década de 1970, quando eu fiz Faculdade, a Homeopatia era considerada crendice, superstição ou, no máximo, em palavras muito favoráveis, conhecimento tradicional mas sem comprovação científica.

O tempo passou, as coisas foram mudando e hoje a Homeopatia é ensinada nas escolas e  considerada uma especialidade média. Os médicos que a praticam também não podem mais ser acusados de charlatanismo. Da mesma forma que a Homeopatia, outras práticas tradicionais como a Acupuntura, por exemplo, saíram da clandestinidade e hoje são aceitas e desenvolvidas.

Como professora do curso de Medicina, de 1976 a 1992, eu eventualmente fazia parte do Colegiado do Curso e lembro de uma ocasião em que foi discutido o assunto. O que se alegava era que os medicamentos homeopáticos, por serem excessivamente diluídos, não continham quantidade terapêutica da substância que supostamente causa a cura; e os padrões energéticos que os homeopatas alegam ser responsáveis pela cura não podem ser comprovados cientificamente.

Não quero entrar no mérito da discussão, isso mesmo porque na minha cabeça ela já está superada ao longo desses 30 anos em que vi a Homeopatia ser praticada sempre com responsabilidade e com sucesso.

O que me parece é que voltei esses mesmos 30 anos atrás no tempo quando assisti ao Jornal Nacional nesta segunda feira. Uma matéria mostrou que na Inglaterra, o parlamento britânico através de um relatório da sua Comissão de Ciência e Tecnologia afirma que os remédios homeopáticos não têm eficácia, são inócuos e, se curam, é por efeito psicológico, a exemplo dos placebos. Continua afirmando o relatório que as explicações cientificas que procuram referendar a homeopatia não são convincentes e recomenda que o governo não ofereça mais essa opção nos serviços públicos de saúde.

Parece que a tal comissão não levou em conta todos os estudos igualmente científicos que vem sendo realizados ao longo dos anos e que comprovam a eficácia da homeopatia. Eu, que já vivi muito, desconfio de quando vejo parlamentares subitamente interessados numa questão desse tipo, como essa levantada pelo parlamento britânico. Como a homeopatia é uma opção terapêutica barata e com nenhum efeito colateral, sinto cheiro de influência do lobby farmacêutico alopático por trás disso tudo.

Sou usuária eventual da homeopatia e considero que sua indicação é de primeira escolha em certos tipos de problemas de saúde. Como não faz mal, não vejo motivo para criticar seu uso a não ser, é claro, o motivo financeiro de quem sempre quer lucrar mais com a doença dos outros.





Acabou o horário de verão!

21 02 2010

Há uma anedota muito antiga que vi em um velho filme de caubói, não me lembro qual. A história era sobre um índio que, chateado porque seu cobertor era pequeno, cortou um pedaço dele e costurou na outra ponta, para que ficasse mais comprido.

Assim é que eu vejo o horário de verão, que felizmente acabou. O dia continua tendo as mesmas vinte e quatro horas; as coisas que precisam do claro ou do escuro para acontecerem continuam acontecendo do mesmo jeito, como aquelas pessoas que têm o costume de acorda cedinho quando o dia começa a clarear, não importa se é seis, cinco ou quatro horas da manhã. O perigo das ruas também continua atrelado à escuridão, não importando aquilo que o relógio está marcando.

No Brasil, há um horário muito importante que é o da nossa maior emissora de televisão. O horário global domina várias instâncias de nossas vidas, queiramos ou não. Marcamos compromissos depois do Jornal Nacional ou da novela das oito – que nunca começa às oito. Neste ano, a rede Globo alterou a ordem dos programas e, durante algum tempo, tivemos o Jornal Nacional, depois a novela das sete e só depois a novela das oito. Então aqui no Nordeste, onde não precisamos alterar o relógio, somos afetados do mesmo jeito por causa das mudanças na programação televisiva.

Como gosto muito de Televisão e acompanho a programação da TV por assinatura, tenho por hábito, no início do horário, enquanto me acostumo às mudanças, manter na parede um relógio no horário de Brasília – ou seja, uma hora à frente – para não perder meus programas favoritos. Esse relógio adiantado também me ajuda quando preciso ligar para meus irmãos, que moram no Rio e em São Paulo, e também para outros telefonemas importantes. Por outro lado, o relógio uma hora adiantado criou algumas complicações, sendo a maior delas comigo mesma, que muitas vezes pulo de susto pensando que estou atrasada sem me lembrar de que eu mesma adiantei o relógio.

Isso me lembrou a casa de Mamãe, em Campina Grande. No horário de verão ela mantinha compromissos que seguiam o “horário velho” e outros que se baseavam no “horário novo”. Nunca compreendi de que forma ela conseguia se organizar, mas agora me vejo fazendo a mesma coisa! Deve ser da idade!

Enfim, nada é mais relativo do que essa entidade vaga e imponderável chamada Tempo. Fonte de estresse para uns, mas dobrável e manipulável para outros, o tempo é aquilo que é: uma invenção do homem, uma convenção, um acordo coletivo feito pelas pessoas para poderem organizar melhor sua vida.

São minutos que duram horas enquanto o dentista perfura o nosso dente com aquela famigerada broca, ou horas que parecem durar segundos quando estamos ao lado de alguém que amamos, e que precisa se despedir e ir embora. Horário de verão ou de inverno, tempo de amor ou despedida, horas de dor ou paixão, minutos de sofrimento ou de supremo deleite: disso é feita a Vida, essa é a matéria prima da Existência.





Haja paciência!

18 02 2010

Você deve ter notado que meu ritmo de postar todo dia anda meio atropelado: tem dia que posto, tem dia que não posto.

Não é culpa minha, meu caro leitor. Não sei o que está havendo mas tem dias que eu simplesmente não consigo abrir o blog para postar. Não sei se o problema é do WordPress, onde este blog está alojado, ou do meu computador. Abro tudo normalmente, menos este maldito blog no qual me propus a postar todo dia.

Para a pessoa quase-meio-um-pouco obsessiva que sou, isso tem sido uma tortura. Vem a vontade de escrever, e a máquina não corresponde. Mais tarde, quando abre, eu já estou cansada, enjoada, impaciente, e blogar não é só escrever: tem que procurar as fotos, que incluir no post, e para tudo isso é preciso uma disponibilidade que eu não tenho toda hora.

Este texto, que escrevi ás nove da manhã, só está sendo postador agora, às 14h40.

Então mais uma vez me perdoe se você vem aqui e não tem coisa nova. Há um pessoal cuidando de resolver esse problema, mas ainda não resolveram.

Eu estou tendo paciência.

Peço também a sua.





Caia na gandaia!

16 02 2010

No Brasil é assim: não importa em que mês caia o Carnaval, se é em fevereiro, ou se é em março, a vida nacional só engrena, só pega ritmo depois que passa o chamado “reinado de Momo”. Até terminar esses três dias, que viraram quatro, depois cinco e que já são bem uns dez em lugares como Olinda ou a Bahia, o brasileiro fica por ali, se escorando, empurrando com a barriga, sem querer iniciar nada novo, sempre deixando “para depois do Carnaval”.

Até eu descolei nesse Carnaval!

Se o meu caro leitor acha isso “o fim”, e diz sempre que “é por isso que esse país não sai das dificuldades”, fique sabendo que o Carnaval é uma festa muito antiga, uma tradição pré-cristã, onde as pessoas literalmente caíam na gandaia e que tinha como objetivo liberar as tensões, relaxar da crueldade e das obrigações do dia-a-dia, beber e farrear. Uma das coisas mais importantes desses festejos era a verdadeira inversão de valores, onde tudo aquilo que era errado e inaceitável nos demais dias, tornava-se permitido e aceito nos dias de Carnaval. A quebra da hierarquia era uma dessas características, com empregados faltando às suas obrigações, mulheres casadas caindo na farra, filósofos e pensadores bêbados como qualquer escravo e homens vestidos de mulher. A festa servia como válvula de escape para as sociedades que disso precisavam para se manterem saudáveis, como qualquer ser humano precisa de vez em quando dar uns gritos e sair do sério para liberar as tensões.

Então, como o leitor já deve ter percebido, tudo isso continua valendo. No Carnaval ninguém quer trabalhar, a empregada sai na sexta de noite e só volta na quinta-feira seguinte, o professor universitário se veste de papangu, as crianças molham os transeuntes com suas bisnagas de plásticos cheias de água, as mulheres avançam no terreno da ousadia e o comerciante respeitável pega o vestido da esposa, arranja duas quengas de coco para fazer os peitos e sai pela rua vestido de mulher.

A favorita de Zeus!

A favorita de Zeus!

Nesse período vale tudo, e é por isso que ele se chama “carnaval” que vem de “carne vale”, termo inventado pela igreja cristã do primeiros séculos quando começou a limitar e a censurar as Saturnálias, que eram o antigo nome do Carnaval e que duravam mais tempo. Aí, a igreja limitou a festança a poucos dias e como depois se seguia a Quaresma, onde não se podia comer carne, a festa passou a ser chamada de “carne vale”, onde era permitido, entre outras, coisas comer carne.

Então é isso, caro leitor. É um período bom para exercitar o nosso lado lúdico, brincalhão, para que cada um de nós se permita ser algo diferente daquilo que somos todo dia. O Carnaval é um convite ao exercício da fantasia, da liberdade, da imaginação.

Eu podia até dizer aqui que, como já é terça-feira, o carnaval está quase terminando. Mas como todo mundo sabe que há lugares onde se brinca por vários dias ainda além dos três dias regulamentares, eu reforço que ainda é tempo.

Gipsy, a cigana desbocada e politicamente incorreta, meu alter-ego.

Se você ainda não fez nada, vista um personagem. Transforme-se por algumas horas em outra pessoa, abra mão dessa personalidade que muitas vezes lhe pesa tanto e através da qual tantas cobranças lhe são feitas. Deixe de ser, apenas por momentos o pai cuidadoso, a mãe extremosa, o cidadão respeitável, o empregado pau-pra-toda-obra, a esposa cumpridora das obrigações, o estudante aplicado, o empresário viciado em trabalho, o operário explorado, a faxineira que trabalha sete dias na semana.

Esqueça a tristeza, a mágoa, a responsabilidade, a raiva, o cansaço, a desesperança e caia na farra. Vista o seu personagem: mulher fatal, de vestido vermelho e decotado, com longa piteira; o palhaço desbocado e inconveniente; o cachorro louco, latindo e correndo atrás dos outros; o pirata, de tapa-olho, espada e lenço vermelho; a cigana, a ler a mão dos transeuntes; a odalisca, sensual e bela; o rei de nenhum reinado, majestoso com sua coroa de lata.

Depois, é dormir um bom sono, curtir a ressaca e empreender, a partir da quinta-feira, as tarefas deste novo ano que só se inicia, de verdade, depois que passa o Carnaval.





Antigos carnavais

14 02 2010

Neste domingo de Carnaval a minha vida virtual está por um fio. Falo assim porque o adaptador do meu notebook – aquele acabo que conecta a máquina à tomada de energia – está com mau contato, com péssimo contato, em vias de pifar. Está na garantia, mas onde danado eu vou achar assistência técnica autorizada num domingo de Carnaval? Pois é.

Enquanto escrevo, fico com um olho na tela e outro no pequeno led verde, que indica que o contato está feito. Se o led apaga, e apaga do nada, eu fico sem a máquina…

Então, nas carreiras, “ligêro como quem róba”, como se diz lá no mato, vou postar aqui umas imagens de antigos carnavais e lhe pedir encarecidademnte que não me abandone enquanto eu não normalizar essa situação e ficar sem atualizar o blog todo dia. Entre os meus grandes terrores está o de perder o contato com você, meu caro leitor, em homenagem de quem me sento todo dia aqui para escrever.

1949 foi o meu primeiro Carnaval. Eu tinha somente um ano e dois meses, usei um pierrô de seda colorida e, de lança-perfume em punho, já anunciava um futuro nada ortodoxo...

Em 1952 usei essa fantasia de presidiário em seda listada de vermelho e branco. As fantasias eram idealizadas por Papai e confeccionadas por Mamãe. A cidade ao fundo é Campina Grande-PB e eu tinha 4 anos de idade.

1953. Eu e meu irmão Braulio fantasiados de "turcos". Braulio de calça de seda azul, blusa branca e bolero preto bordado de lantejoulas, Na cabeça um chapeu feito de cartolina com areia prateada; eu uso saia de várias cores de seda, e na cabeça um turbante (ai, meu Deus! esse turbante nunca ficava no lugar) de seda violeta - que Mamãe chamava de "ciclámen". Nos pés, tênis e meias brancas para "pular" o frevo sem machucar os pés... Cada um com sua lança-perfume e o saquinho de confetes.

Há também uma foto maravilhosa do Carnaval de 1950, onde eu estou de havaiana vermelha; mas essa foto – com sua descrição – você vai ver lá no blog Memoria Viva.





“Toda vez que um juiz prende um ladrão…”

11 02 2010

Hoje, com a notícia da prisão do governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, disseram logo:

- Não adianta! Rapidinho vem outro juiz e manda soltar!

Aí eu me lembrei de uma história que está lá no livro “Os Martelos de Trupizupe”, da autoria do meu irmão Braulio Tavares.

Braulio glosa em martelo em decassílabo o mote “Toda vez que um juiz prende um ladrão/  Chega outro juiz, manda soltar!”

O verso foi escrito há uns oito anos, mas parece que foi escrito hoje, não é, minha gente?

*     *     *

Glosa ao mote

Toda vez que um juiz prende um ladrão/ Chega outro juiz, manda soltar

Por Braulio Tavares – Do livro “Os Martelos de Trupizupe” (Natal, Engenho de Artes, 2004)

1.
Toda vez que um soldado de polícia
leva preso um filhinho-de-papai,
meia hora depois ele já sai
com propina na hora mais propícia…
Toda vez que um jornal dá a notícia
dos trambiques de algum parlamentar,
noutro dia precisa apresentar
desmentidos de toda a redação…
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
chega outro juiz, manda soltar!
2.
Quando algum promotor tem a coragem
de enfiar sua mão nesse vespeiro,
chega um fax e manda bem ligeiro
que ela mexa com outro personagem…
Se o Congresso descobre sacanagem
e promete depressa investigar,
muita gente começa a encomendar
uma pizza gigante pro salão…
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
chega outro juiz, manda soltar!
3.
Mesmo quando um ladrão endinheirado
por acaso pernoita na cadeia
ele tem boa cama e boa ceia
numa cela com ar refrigerado.
Sendo o caso de ser um magistrado,
tem direito a TV e frigobar;
tem cozinha francesa no jantar
e cobertas de seda no colchão…
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
chega outro juiz, manda soltar!
4.
Outro caso na história brasileira
é o juiz conhecido por Lalau
que roubou cem milhões dum tribunal
e escondeu do outro lado da fronteira.
O juiz vai em cana terça-feira
e na sexta já mandam libertar;
não tem homem que faça ele passar
sete dias seguidos na prisão…
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
chega outro juiz, manda soltar!
5.
No Brasil tem indústria madeireira
derrubando floresta em todo Estado,
e às vezes vem um advogado
traz a lei, e interrompe essa sujeira.
Mas aí um ricaço abre a carteira
compra a peso de ouro a liminar,
e na mata se volta a escutar
motosserra, machado e caminhão…
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
chega outro juiz, manda soltar!




Direto ao coração

10 02 2010

Hoje quero falar aqui sobre um aspecto dos livros que não tem nada a ver com o seu conteúdo ou com aquilo que o autor quis dizer. Refiro-me à dedicatória, que nos arrasta numa viagem emocional pelo passado e nos faz lembrar da pessoa que nos deu o livro, ou daquela animadíssima noite de autógrafos. No pequeno texto, escrito por mãos alheias, residem histórias, demonstrações de afetos, declarações de amor, pedidos de reconciliação… Toda uma vida afetiva pode ser reconstruída através das dedicatórias dos livros de quem tem algumas centenas deles, como eu.

Quando estou arrumando as estantes fico folheando meus livros e encontro verdadeiros achados, como, por exemplo a dedicatória que fez a poeta (ou poetisa, nunca sei qual o certo) Diva Cunha no seu livro “Coração de Lata”, em 1993: “- Clô querida, eis uma mulher louca a teus pés.” Já Alex Nascimento, em “Alma Minha Gentil”, me diz: “- Clotilde, juntando nossas loucuras, ah, não dá um suspiro de Camões! Mas vale a pena e as penas.”

Marize Castro, nos idos de 1984, já me dedicava o seu “Marrons, Crepons, Marfins” como se segue: “- A Clotilde, que como eu e Ana C. há muito desistiu de afundar navios.” Ana C. é Ana Cristina César, poetisa (ou poeta?) de quem ambas gostamos muito. E Bráulio Tavares, meu irmão, em 1981, me dedicou “Balada do Andarilho Ramón” com esse primor que é, por si só, um poema: “Para Tide, minha irmã mais velha, velha irmã mais minha, que fez minha cabeça e sempre fará o meu coração.”

Ah, meu caro leitor, é bom ter vivido para merecer palavras como essas, que vão direto ao coração. E tem mais. Olhem a dedicatória que o escritor e agitador cultural pernambucano Jomard Muniz de Britto me faz no seu “Arrecife de Desejo”, em 1994, conseguindo reunir num só oferecimento toda a minha família, com seu texto pop-tropicalista; “- Para o charme devastador, indócil, subSUPERliminar e laminar, entre notícias e libidos mutantes sempre juvenis de CLOTILDE e mais Ana Morena e outras caçadas do Rômulo, filho-sobrinho de B.T. E viva a Marquesa!” A Marquesa era minha mãe, e Jomard, sempre louco, dizia que Rômulo – meu filho – era também filho de Bráulio, que ele chama de B.T.!

Mas de todas as dedicatórias, duas me emocionam profundamente. Uma é do poeta Luís Carlos Guimarães, no livro “A Lua no Espelho”, com data de 1994, que diz: “- Clotilde, perdoe se chego tarde e vestido de branco. Mas veja da janela a lua no espelho do mar. O abraço em flor de L.C.G.” A outra está no romance de Hemingway “O Velho e o Mar”, que Papai me deu no ano de 1977 e que ainda hoje, depois de tantos anos, não posso ler sem me emocionar: “– Clotilde, minha filha, este livro era para lhe ser dado no dia do seu aniversário. Não o foi porque eu queria fazer um oferecimento em verso e não o fiz. Depois, o fiz e o perdi. Hoje, 24-21-77, véspera de Festa, sem verso e sem inspiração, eu lhe entrego ‘O Velho e o Mar’. Eu, o Velho. O Mar, meu coração. E de entorno ao Velho e ao Mar – Você – minha filha, aurora das minhas verdes praias. Teu pai, Nilo.”

E depois disso, caro leitor, o que me resta dizer? Só uma palavra: saudade…





A melhor marchinha de Carnaval

9 02 2010

No domingo eu estava vendo o Fantástico e eles mostraram o Concurso de Marchinhas de Carnaval da Fundição Progresso. É um concurso que existe já há alguns anos e neste ano de 2010 teve mais de mil inscrições de vários estados brasileiros.

Ainda alcancei o reinado das marchinhas no Carnaval. Veículo poderoso de crítica social e política, algumas dessas marchinhas ficaram famosas como “A cabeleira do Zezé”, “Índio quer apito”, “Mamãe eu quero”, “O teu cabelo não nega” e tantas outras cantadas até hoje. Quando chegava perto do Carnaval, nos idos da década de 1960, a gente começava a aprender as marchinhas que tocavam no rádio, na voz de Emilinha Borba, Marlene, Ângela Maria, Blecaute.

No concurso de marchinhas que vi na TV, ganhou “Bom Dia”, de Renato Torres de Lima, de Itaguaí. E eu entrei logo em discussão com um amigo, que queria que a vencedora tivesse um “conteúdo educativo”, como uma marcha que ganhou há uns dois anos e que falava da péssima mistura que é álcool e direção.

É claro que eu concordo que é um horror beber e dirigir. O que não dá é pra fazer de uma marcha de carnaval instrumento de educação no trânsito. Pelamordedeus! O carnaval é uma festa da transgressão, de deboche, de divertimento. Se o politicamente correto já é chato no dia-a-dia, no Carnaval é que ele não tem mesmo espaço.

Carnaval é pra debochar do Zezé por causa de sua cabeleira, pra proclamar aos quatro ventos que garrafa cheia eu não quero ver sobrar e que o teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor. É bom berrar a plenos pulmões que eu mato, eu mato, quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato ou olhar pro céu e desejar que chova três dias sem parar porque a minha grande mágoa é lá em casa não ter água e eu preciso me lavar…

Misturando crítica social com letras bem humoradas a marchinha de Carnaval foi retrato de um tempo; hoje o Carnaval mudou, e eu não sou nem socióloga, nem antropóloga, nem “óloga” nenhuma para estudar os motivos. Mas as marchinhas, eu garanto que fazem falta nos dias de hoje.

Finalmente para você a letra – e depois o vídeo no YouTube – da marchinha vencedora no Concurso da Fundição Progresso e que o meu amigo achou tão inútil, desnecessária e boba – e é mesmo, mas também é divertida, alegre, engraçada, com uma melodia e um estribilho que pregam no ouvido e que vc aprende da primeira vez. E não é isso que todo compositor de marchinhas almeja? Pois é.

Bom Dia – de Renato Torres de Lima

Deixa eu dar bom-dia
Deixa eu dar paixão
Hoje é alegria
E eu dou, não nego não…
Mas se eu dou bom-dia
Dou de coração
Pinto minhas unhas
Viro um avião.
ESTRIBILHO
Se o conde D’Eu,
Se o rei de Bagdá
Se os negros do Sudão
Por que eu não posso dar?
E os enrustidos
Sempre dizem não
Se não dão bom-dia
Entram em depressão
Eu já dei um dia
Mas que confusão
Só não entenderam
O meu bom-dia não
ESTRIBILHO
Se o conde D’Eu,
Se o rei de Bagdá
Se os negros do Sudão
Por que eu não posso dar?




Galo cantou, às 4 da manhã…

8 02 2010
“À meia-noite acorda um francês
Sabe da hora e não sabe dos mês
Tem esporas e não é cavaleiro
Tem uma serra e não é carpinteiro.
Cava no chão e não acha dinheiro.
O que é o que é?”

Quando eu era menina, Mamãe me perguntava essa adivinha, que ela trazia entre as milhares de coisas que tinha decoradas. A gente logo respondia: é o galo!

Com presença forte ao longo de todo o folclore, tanto brasileiro quanto mundial, o “Francês” da adivinha é um animal emblemático, que “chama o dia e afugenta a noite” com seu canto em horas certas.

Em Hamlet, logo no primeiro ato, Shakespeare o chama de “trombeta da manhã”, na fala de Horácio:

“…Ouvi dizer que o galo, essa trombeta da manhã, com sua voz vibrante e clara desperta o dia, e que a esse aviso, os espíritos errantes, onde quer que estejam, retornam aos seus refúgios…”

E em Macbeth é usado como marcador do tempo na voz do porteiro:

“… Estivemos bebendo até o primeiro cantar do galo…”

Antes que o galo cantasse, Pedro negou três vezes a Cristo; e no jogo do bicho é o número 13, sendo por isso mascote do Treze Futebol Clube, de Campina Grande, um dos meus times do coração, cognominado “O Galo da Borborema”.

Uma história curiosíssima de um galo que seria preparado para o almoço de domingo já foi contada no meu livro Coração Parahybano, na crônica “A minha Noruega”, na página 113; e em Natal, onde moro, ele é considerado um símbolo da cidade, encimando orgulhosamente as torres das igrejas.

João Cabral de Melo Neto, no poema Tecendo a Manhã, o define:

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

Mas essa qualidade de tecer a manhã antes que a manhã real surja muitas vezes incomoda quem quer dormir e não consegue.

Tenho um amigo que mora numa casa onde o quarto dele é no primeiro andar. A janela dá para um pequeno – muito pequeno – quintal de um vizinho.

Aí, o vizinho foi e comprou um galo. Toda santa madrugada o animal começava a cantar, e o barulho ecoava no pequeno e apertado espaço entre as casas.

Então o meu amigo pegou sua vara de pescar, amarrou um peso na ponta, colocou a vara pela janela em direção da biqueira de zinco da casa do vizinho e, toda vez que o animal cantava, ele com a vara, batia na biqueira: dém, dém, dém.

O galo cantava, ele batia. Cocoricó, dém, dém, dém.

Depois de duas noites de dém, dém, dém o vizinho sumiu com a ave para outro galinheiro, onde foi tecer a manhã bem longe de ouvidos humanos precisados de repouso…





Três histórias engraçadas

7 02 2010

QUESTÃO DE AUTORIDADE

O gerente chama o empregado da área de produção, tipo armário quatro portas, com 1,90 de altura, recém-admitido e inicia o diálogo:

- Qual é o seu nome?

- João – responde o grandalhão.

- Olhe – explica o gerente – eu não sei em que espelunca você trabalhou antes, mas aqui nós não chamamos as pessoas pelo seu primeiro nome. É muito familiar e pode levar a perda de autoridade. Eu só chamo meus funcionários pelo sobrenome: Ribeiro, Matos, Souza, etc, entendeu? E quero que o senhor me chame de Sr. Mendonça. Muito bem, agora quero saber: qual é o seu nome completo?

O empregado responde:

- Meu nome é João Paixão.

- Tá certo, João. Pode ir, agora.

MAU MOTORISTA

Um velhinho jantava em um restaurante de beira de estrada quando entram três motoqueiros da pesada. O primeiro chega e cospe no bife dele. Mais encorajado, o segundo apaga um cigarro na bebida do velhinho. Por último, o terceiro motoqueiro, sem ter mais o que fazer, vira o prato na cabeça dele. O velhinho pede mais uma bebida e então sai. Nisso um dos motoqueiros exclama:

- Este sujeito não é homem!

O garçom responde:

- Nem é motorista, também. Acabou de passar com um caminhão por cima de três motos…

O BATISMO

O discípulo procura um mestre para iniciá-lo no caminho esotérico. O mestre propõe a iniciação num ritual à margem do rio. Lá, mergulha o discípulo na água, e lhe diz:

- De agora em diante não mais te chamarás Luiz: te chamarás Pietrie. Não comerás mais carne animal, não beberás mais nada que contenha álcool, não fumarás, e nem usarás nenhuma droga. Tua alimentação será vegetariana, podendo eventualmente comer peixes.

Alguns dias depois o discípulo é encontrado à margem do rio, mergulhando um porco na água, e dizendo:

- De agora em diante, não te chamarás mais porco, teu nome será peixe…





O casamento vitoriano

5 02 2010

Casamento, Inglaterra, 1910.

Há um livro interessantíssimo, que recomendo: Vidas Paralelas, da escritora Phillys Rose (Record, 1997), que analisa o casamento na era vitoriana através das biografias de casais famosos.

É impressionante o desconhecimento que as pessoas bem educadas tinham dos fatos simples e corriqueiros da vida, no que diz respeito ao sexo.

Um dos casos citados é o de Marie Stopes, uma inglesa altamente instruída, que havia estudado numa universidade alemã e casado em 1911 com um botânico. Pois bem: mesmo sendo instruída e tendo cursado universidade, a criatura levou seis meses para perceber que faltava alguma coisa em seu casamento, e mais tempo ainda pesquisando no Museu Britânico para descobrir o que era. Ao final das pesquisas, constatou que ainda era virgem e pediu a anulação do casamento.

Casamento, Inglaterra, 1900.

As mulheres de Thomas Carlyle e John Ruskin também atravessaram o casamento virgens como nasceram.

Talvez – arrisca a autora – a explicação esteja no choque que os homens vitorianos tinham quando se deparavam com a nudez feminina. Muitos conheciam a nudez apenas das estátuas de mármore da antiguidade clássica. Quando os gajos viam pela primeira vez uma mulher nua de verdade, ficavam chocados – dizem que os pelos pubianos os amedrontavam – e simplesmente não conseguiam consumar o casamento.

Está tudo lá, documentado por dona Phyllis Rose e referendado por documentos históricos como cartas e excertos de processos de anulação de casamento.

Eu achei tudo muito interessante.





Deletando a solidão!

4 02 2010

De quinze em quinze dias somos bombardeados pela mídia com a mais “nova” pesquisa sobre a rede mundial dos computadores. Os jornais dizem que pesquisadores de tal ou qual universidade chegaram à conclusão de que a Internet faz com que as pessoas fiquem cada vez mais isoladas sem se comunicarem umas com as outras.

Aí eu tenho que apelar para a minha padroeira Santa Zoraide e pedir que ela clareie a cabeça desse povo. Ora, minha gente: o que é a Internet? Uma ferramenta de comunicação, constituída por computadores ligados em rede e à frente de cada um desses computadores existe alguém que tecla, que clica o mouse e que olha o monitor! Então como é que a Internet pode isolar as pessoas? Ela faz exatamente o contrário!

Com a Internet podemos trocar informações e experiências, lançar apelos e responder a pedidos, fazer denúncias, conhecer pessoas, namorar, compartilhar interesses comuns e, sobretudo, exercer a cidadania e praticar a democracia.

Os usuários da rede são estudantes conversando sobre suas dificuldades escolares, doentes trocando as informações mais atuais sobre tratamentos, adolescentes tímidos procurando companhia nas salas de bate-papo, ativistas políticos usando a rede para persuadir e noticiar, portadores de deficiência ou doentes que não podem sair da cama ou da cadeira de rodas mas cujos cérebros estão vivos e on-line. Tem empulhação e safadeza também, mas isso tem em tudo o que é atividade humana, e não será isso que vai descaracterizar a rede; a gente também encontra o que não presta no cinema, na literatura, na música, que dirá na Internet!

Não conheço coisa mais solitária de que uma pessoa sozinha, na sala de um apartamento, vendo televisão. Hoje, essa pessoa não está mais na frente da TV: está conectada à rede, se comunicando com algum outro ser humano. Ou seja: não está mais sozinha. Deletou a solidão.





Acabou o verão!

2 02 2010

Acabou é o modo de dizer, porque o sol continua brilhando, as areias quentes continuam beijadas pelas águas mornas e o mar, bem, o mar continua indiferente a se é janeiro ou fevereiro e não se cansa de envolver com seu abraço salgado e sensual aqueles privilegiados que não precisaram voltar ao trabalho ou à escola.

Para mim, que não tenho mais emprego formal, que não vou à praia e que vivo enfiada em casa, continua tudo como antes no quartel d’Abrantes. A rotina por aqui permanece igual, escrevendo de manhã – quando o assunto aparece – saindo à tarde quando é preciso resolver alguma coisas fora e permanecendo de noite em casa, dividindo meu tempo entre o Twitter, as séries favoritas de TV e a leitura de livros como Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, que estou lendo pela … vamos ver: pela quinta ou sexta vez, porque este livro é uma verdadeira aula de história, e de como bem escrever.

Daqui a uns dias chega o Carnaval, acaba fevereiro e março começa, marcando o real início do ano para quem exerce qualquer atividade produtiva nesse país que não dependa da estação chamada Verão.

Coisa boa é que em março o preço das passagens de avião e dos hotéis despenca. Para aqueles que, como eu, ficaram em casa nas férias fugindo das temperaturas abrasadoras para os sombreados aposentos com ar-condicionado, é uma boa hora para pensarem em dar uma volta por esse mundo velho sem porteira.

Vou viajar: só não sei para onde. Viajar é preciso: viver não é preciso.





Ferro-de-engomar

1 02 2010

No meulivro Formosa és: memórias do internato eu mostro a foto de um ferro de passar nos moldes do que usávamos naqueles longínquos anos do final da década de 1950.

Ferro de brasas. Veja a empunhadura de madeira e a abertura traseira por onde se abanava.

Abria-se o ferro, enchia-se o recipiente de brasas tiradas do fogão, e esperava-se que as brasas esquentassem o metal. Aí, passava-se a roupa. Havia ainda uma série de detalhes: para que esquentasse rápido, o ferro era colocado no chão, junto a uma porta bem ventilada, em cima de uma lata emborcada, com a abertura do fundo na direção do vento; um grampo era atravessado no nariz do ferro para que não abrisse quando alguém o empunhava e, se não esquentasse logo, enérgicas abanadas com um abano de palha eram logo providenciadas.

Havia uma empregada lá em casa que ia para o meio do quintal com o ferro na mão e o balançava em arco, provocando com esse movimento o vento necessário para avivar as brasas. Mas Mamãe morria de medo dessa performance, que achava perigosa. Imagina se você sem querer solta esse ferro e ele voa em cima de alguém! – dizia Mamãe. – De um dos meninos! – continuava, e nós nos enconlhíamos, aterrados, ao imaginar a cachoeira de brasas ardentes se derramando sobre as nossas cabeças.

Além do ferro de engomar doméstico, havia na Campina Grande da minha infãncia um lugar com esse nome. Ali perto do Ferro-de-Engomar, diziam. Era um edifício que tinha um formato pontudo, em bico, e por isso era assim chamado. Quero dizer: havia, não: há, ainda há. Continua lá no mesmo local, há bem uns 60 anos.

Infelizmente não achei foto do prédio. mas no Google Maps é possível ver a forma pontuda do edifício, apontando como uma cunha para a avenida.

Localizado na Avenida Getúlio Vargas, no centro da cidade, tem no seu térreo um bar, com clientela cativa; as más línguas dizem que a partir das oito da manhã o dono do “Ferro” já se encontra de plantão, para atender à turma que passa lá pra “regular a marcha lenta” antes de ir trabalhar. Isso deve ser porque neste país está ficando na moda ir trabalhar “calibrado” com algumas doses de álcool…

Peço aos blogueiros Emmanuel Souza e Adriano Araújo, inventores do blog Retalhos Históricos de Campina Grande, que desenvolvam essa pauta e falem sobre esse local tradicional da “Rainha da Borborema”.

Finalmente, um Ferro-De-Engomar famoso: o Flatiron Building (Fuller Building), um dos primeiros arranha-céus construídos em Nova Iorque, inaugurado em 1902 e localizado entre a Quinta Avenida, a Broadway e a Rua 23. Com seus 22 andares, é um dos cenários mais característicos da Big Apple e foi desenhado pelo arquiteto e urbanista Daniel Burnham. Eu ainda vou ver isso!

Flatiron Building, New York City.








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