Grandes atrizes

23 02 2010

Como gosto de ler e vivo lidando com idéias, as pessoas que me conhecem pensam que eu só gosto de filme “cabeça”, de filme complicado, do chamado “filme-de-arte”. Até que gosto mas, normalmente minhas predileções vão para os filmes históricos e de época, thrillers de suspense e comédias românticas. Também acompanho a obra dos meus diretores preferidos, como Clint Eastwood, Quentin Tarantino e or irmãos Coen.

Tudo isso para dizer que há uma comédia romântica que adoro assistir e que vejo sempre quando passa na TV: “Legalmente Loira”, de Robert Luketic. O filme é tão equilibrado no romantismo, na evolução dos personagens como na transformação da loira fútil em advogada de sucesso, e principalmente na frescura – comedia romântica sem frescura não dá – que dá gosto assistir.

Entre os desempenhos irrepreensíveis que permeiam o filme quero salientar um: o da atriz Holland Taylor, que faz o papel da professora Stromwell, aquela que logo no começo do filme arrasa com a loira do título logo na primeira aula em Harvard.

Aqui, algumas reflexões. Depois que entram para a chamada terceira idade, atrizes muito boas entram num limbo de falta de trabalho. É claro que não me refiro a atrizes como Meryl Streep, Shirley MacLaine ou outras famosas e oscarizadas; mas a todo aquele cortejo de coadjuvantes que conseguem dar vida e destaque a seus papéis.

Uma das coisas que mais gosto de dizer é que não existem pequenos papéis; existem pequenos atores. Neste filme “Legalmente Loira”, Holland Taylor consegue ser irrepreensível nas pequenas cenas em que aparece, e a gente vê claramente onde está o trabalho do ator: no tom da voz, na forma de colocar as mãos, no olhar, no erguer de uma sobrancelha… Ah, é um supremo prazer ver uma atriz como essa trabalhar.

Você pode também vê-la todo dia na série “Two and a half man”, onde ela está completamente diferente fazendo o papel de Evelyn Harper, a impagável e politicamente incorreta mãe de Charlie e Alan.

Vida longa a Holland Taylor!

Holland Taylor





O inferno feminino

27 01 2010

Ivana Arruda Leite

Ontem, um dos links que publiquei foi o do blog da escritora Ivana Arruda Leite. Como eu gosto dos livros dela, meu caro leitor! O que mais gosto nela é a forma como aborda os temas ligados ao universo feminino, completamente alheio aos edulcorantes artificiais que geralmente cercam as chamadas “coisas de mulher”.

Como está escrito sobre as portas do inferno, ao entrar nos seus livros o leitor precisa abandonar toda a esperança, e nutrir-se de coragem para encarar a profunda tragédia que muitas vezes permeia o cotidiano feminino, aqui exposto sem dó nem piedade. No seu livro “Falo de mulher”, o aparente paradoxo do título, repleto de duplos entendimentos, se derrama pelos contos, como “Receita para comer o homem amado”, “A puta seletiva”, “Mulher é tudo igual” e outros, onde a mulher, eviscerada e nua em seus desejos e impulsos mais secretos, fala sempre a verdade.

Mas Ivana é também lírica e memorialista , no seu livro “Eu te darei o céu”, recuperando para nós, mulheres nascidas no inícios dos anos 1950, a infância e adolescência perdidas, com as músicas de Celly Campelo e Roberto Carlos, vestidos rodados e cabelos armados nos assustados da adolescência, seguidos pela fase “caia na real”, onde os anos de chumbo vieram, descendo com seu punho selvagem, esmagando e escurecendo o céu da nossa geração.

Fã de seus livros desde alguns anos atrás, conheci-a pessoalmente em São Paulo no final de 2008, na “Balada Literária”, evento organizado pelo escritor Marcelino Freire nas quebradas da Vila Madalena. Bom papo, boa conversa, alegre, divertida, ficamos horas falando das nossas séries preferidas na TV por assinatura. Tentei olhar para aquela mulher morena, miúda, sentada ao lado de sua filha Bebel e tomando um café, com a bolsa no colo, e fiquei a imaginar o violento pulsão criativo escondido por trás de pessoa tão amável e simples. Pulsão este que faz com que Ivana consiga desvendar o mais grotesco do universo existencial feminino e expor suas chagas ocultas, seus sonhos inconfessáveis, seus amores maníacos, seus ideais inúteis, com um toque profundo de humor, mas humor negro, é bom que se diga.

Ivana Arruda Leite é uma escritora que é preciso conhecer, sem perda de tempo, pelo muito de Humanidade que expõe nas histórias e personagens.

Eu recomendo. Leia alguns dos seus contos aqui.





Gosto não se discute

26 11 2009

J.R.R.Tolkien

O escritor J.R.R. Tolkien faz o seguinte comentário no prefácio do primeiro volume do seu livro “O Senhor dos Anéis”: “Algumas pessoas que leram o livro acharam-no enfadonho, absurdo ou desprezível; e eu não tenho razões para reclamar, uma vez que tenho opiniões similares a respeito do trabalho dessas pessoas, ou dos tipos de obras que elas evidentemente preferem.”

É isso aí, caro leitor. Tem gosto para tudo e não existe nada no mundo que não possa ser apreciado por alguém. Além de ter direito de gostar, o cidadão tem o direito inalienável de expressar sua opinião, sendo esse direito um dos pilares da democracia.

Quando eu expresso meu gosto pessoal para você através deste blog, tenho que deixar bem claro que é o meu gosto pessoal. Se eu quiser comentar uma obra de arte qualquer de um ponto de vista que seja mais do que uma simples opinião, primeiro tenho que conhecer a linguagem daquela arte, para que possa analisar seus elementos e verificar se a obra – música, poema, livro, quadro ou peça de teatro – realizou seus objetivos, dentro da forma que o artista escolheu para se expressar. Aí, estarei exercendo uma função crítica que, apesar do que dizem alguns, é importantíssima para que artistas e público se aprimorem, os primeiros elaborando melhor suas criações e o segundo aprendendo a compreender melhor a obra de arte podendo assim desfrutá-la com mais prazer.

É muito bom ler as críticas de arte: cinema, música, literatura, teatro, pois além dos críticos nos mostrarem um lado ou uma faceta da obra que não tínhamos percebido, orientam nosso gosto e nos afastam daquilo que não tem valor artístico ou importância cultural, segundo os cânones vigentes. É claro que o crítico tem seu gosto pessoal e isso se traduz naquilo que ele escreve. Mas sua opinião sempre deve ser baseada no conhecimento da linguagem da arte em questão e na evolução histórica dessa arte. Nunca no simples “eu acho”.

Mas como gosto não se discute, e tem gosto para tudo, lembro aqui da história daquela mulher que era feia, muito feia. Mas não era qualquer feia: essa era feia mesmo, daquelas que são feias de doer. Pele áspera como a de uma laranja murcha, cabelos secos e sem cor, olhos sempre lacrimejantes, orelhas grandes e de abano, dentes amarelos e irregulares, boca torta, nariz  adunco. De corpo então nem se fala. O peito era chato, os braços compridos, as pernas finas e curtas, quadris estreitos e para completar mancava um pouco pois tinha uma perna maior do que a outra.

Pois bem: esse estrupício, mesmo com toda essa carga de feiúra, achou um homem que se apaixonou perdidamente por ela. E quando as pessoas perguntaram ao herói o que ele tinha visto naquela criatura horrorosa, o apaixonado galã, provando que tem gosto para tudo,  respondeu: “Gosto de tudo mas o que mais me agradou foi o jeitinho dela andar…”

367 pessoas já baixaram até agora o meu livro Coração Parahybano. E você? Dê-me o prazer da sua leitura! é de graça! É só clicar aqui.





Filmes e mulheres

17 11 2009

Hoje eu quero aqui dar algumas dicas de filmes que tratam da questão da mulher e que são, além disso, obras de arte, delicadas e bem-feitas, cheias de questionamentos, interrogações, perplexidades, reflexões e – por que não? – diversão.

Thelma e Louise

São filmes que trabalham quase todos na vertente da auto-estima feminina e da sua capacidade de virar o jogo e se afirmar, mesmo que isso resulte na destruição e na morte como vemos, por exemplo, em “Thelma e Louise” onde as protagonistas, depois de uma verdadeiro “tour de force” para escapar do machismo e seus preconceitos, encontram a liberdade na auto-destruição. Mas nem todos são assim trágicos.

O belíssimo “Flores de Aço” mostra mulheres de todas as idades, cada uma delas com seus problemas pessoais e particulares, que se agudizam em torno do casamento da personagem vivida por Julia Roberts. O filme é mesmo um belo hino à maternidade, e tem um desempenho magistral de Shirley MacLaine.

O Clube da Felicidade e da Sorte

“O Clube da Felicidade e da Sorte” traz a história de mulheres de gerações diferentes, mães e filhas, imigrantes chinesas, vivendo nos Estados Unidos. A evocação dos dramas vividos no país natal, a forma como se relacionam com a sociedade americana e o dilema entre essas duas culturas faz desse filme uma grande obra de arte, sem contar a beleza das atrizes, todas orientais.

Patchwork

Winona Ryder está em “Patchwork”, representando uma jovem indecisa frente ao casamento. Sua mãe e amigas decidem bordar para ela uma “colcha de casamento”, seguindo a tradição, e enquanto constroem o bordado vão resgatando episódios passados de suas vidas, e resolvendo velhas pendências. Quando a colcha fica pronta, nada mais é como antes. Os desempenhos de Anne Bancroft e Ellen Burstyn são absolutamente magistrais.

Já em “Tomates verdes fritos” a narrativa se divide em dois níveis: enquanto duas mulheres rememoram o passado, a vida de uma delas vai se transformando, inspirada no exemplo dos relatos. A tônica do filme é o amor e a solidariedade entre mulheres, num mundo repleto de preconceitos e dificuldades.

O Clube das DesquitadasFinalmente, o divertido “Clube das Desquitadas”, onde três mulheres abandonadas pelos maridos vão à forra; “A Garota de Rosa Shocking”, saboroso romance adolescente e, como é impossível resistir a uma história de Cinderela, o manjadíssimo “Uma linda mulher”, que sempre faz sonhar quem assiste. É isso aí.





Os blogs de Margareth Duval

2 10 2009

Nesta sexta-feira quero lhe dar um presente: a visita aos blogs de Margareth Duval, profissional da área de Comunicação, onde faz quase de tudo.

Na sua apresentação, ela diz que tem “… paixão pelas artes. Vintage, retrô e afins, (…) livros – principalmente os ligados à história e biografias. Imagens, quaisquer, de revistas em quadradinhos (se preferirem, em quadrinhos) a fotografias e pinturas de grandes mestres, assim como a arte Naïf, desde que transpirem a vida capturada e não aprisionada… amo as que permanecem nas retinas.”

Os blogs de Margareth Duval e a sua revista eletrônica merecem visita demorada e leitura minuciosa. Eu ainda estou perdida neles, com os olhos transbordantes de imagens e o juízo aos pinotes com algumas coisas que vi lá.

E você? Espera o quê? Clique nos links e viaje!

Mol-TaGGe – Arte, cultura e vintage.

Spiritus Litterae

Nos Blogs

E o outro blog dela você vai ter que descobrir sozinho porque eu gostei tanto que vou guardar o endereço só pra mim!





Patrick Swayze

15 09 2009

Hoje é dia de celebrar a Vida. Aliás, todos os dias são para celebrar a Vida mas muitas vezes a gente se esquece disso, e passa pelas horas na maior correria, na pressa, sem refletir e sem desfrutar sobre essa coisa maravilhosa que é estar vivo: respirar, ler, blogar, ir ali na geladeira e tomar um copo de água, levantar do computador e passar um tempinho ali na varanda vendo o céu, o perfil sensual das dunas e os carros em disparada pela avenida.

Patrick Swayze

Patrick Swayze

Tudo isso é para dizer que a primeira notícia deste dia de hoje foi a morte do ator Patrick Swayze, que me veio assim que abri o Twitter. Ao falar em Morte sempre me lembro da Vida porque para mim ambas fazem parte de um par indissolúvel, estão tão entrelaçadas que é difícil falar de uma sem falar da outra.

Patrick Swayze é um ator de quem eu gosto muito, e sempre paro o que estou fazendo para ver de novo, novamente e outra vez Dirty Dancing ou Para Wong Foo, Obrigada por Tudo!, filme em que ele faz o papel de uma drag-queen.

Os puristas do cinema dizem que ele era canastrão, mas isso pouco me importa. Eu sempre gostei de Jack Palance e de Victor Mature, por que não gostaria do belo Patrick Swayze? Seu maior sucesso, Ghost, é moralista e piegas demais para o meu gosto, e só me interessa pelo desempenho de Whoopy Goldberg. Mas há uma filme dele, Steel Dawn (Lance Hool, 1987) onde ele faz o papel de um espadachim do futuro num mundo pós apocalíptico, um filme de ficção científica que eu gosto muito.

Bem, mas o belo e sarado Patrick travou mesmo sua maior batalha contra o câncer de pâncreas que o destruiu em poucos anos, levando-o aos 57 anos de idade. Morreu em sua casa, sem a tortura dos tubos e das ressuscitações nas UTIs tecnológicas, que só fazem prolongar a agonia.

Para ele, aqui, esta declaração de amor de uma fã, e o consolo de que, nas imagens gravadas que ficaram de seus filmes, ele terá alcançado a imortalidade.





A Casa Rosa

12 09 2009
A Casa Rosa

A Casa Rosa

Acabo de assistir a um documentário muito bom. “Pretérito perfeito” (Brasil, 2008 – 71 minutos – Original Video), com direção e roteiro de Gustavo Pizzi, fala sobre a Casa Rosa, prostíbulo de luxo que teve sua época áurea no década de 1940 e que funcionava no bairro das Laranjeiras, na rua Alice 550, no Rio de Janeiro.

Como não conhecia nada dessa história fui à Internet, onde encontrei no site da Casa Rosa toda a história do edifício. O cabaré foi “…ponto vital na historia do Bairro das Laranjeiras e nas estórias de muitos que tiveram sua iniciação nos famosos quartos da Casa Rosa.” No documentário, vemos o cantor Lobão contando como foi isso, e mostrando o quarto onde ele pela primeira vez conheceu – do ponto de vista bíblico – uma mulher.

Cartaz de "Pretérito Perfeito"

Cartaz de "Pretérito Perfeito"

A Casa Rosa é um belo exemplo de arquitetura do início do século XX, tendo sido construído “… com o objetivo de agradar aos prazeres da alta sociedade, mantendo assim um padrão de qualidade em sua arquitetura e detalhes como azulejos portugueses e pinturas em azulejo ainda em exposição na casa.” A clientela era gente rica: comerciantes, políticos, magistrados e coronéis que por ali passavam.

Depois do seu declínio como bordel, no início dos anos 80, passou um tempo fechado e no fim dos anos 90 começaram a se realizar eventos de Forró e samba, como o Xote Coladinho e o Pessoas do Século Passado. Isso redundou na fundação de um Centro Cultural, que oficializou suas atividades em 2004.

Ivanilda

Ivanilda

Voltando ao documentário, ele é uma maravilha. Mostra depoimentos de antigos frequentadores e de funcionários; e pontuando toda a narração temos os depoimentos sábios e divertidos de Ivanilda Santos de Lima, que ali trabalhou como prostituta. É dificil imaginar que a respeitável senhora de meia-idade, bem acima do peso, de óculos de grau e vestida com simplicidade, seja a personagem das histórias que ela conta, de maneira divertida, ao entrevistador.

Além de tudo, o “Pretérito perfeito” (e viva o diretor, Gustavo Pizzi!) é técnicamente muito bem feito, fotografia linda, recursos narrativos excelentes e uma sensibilidade muito grande na abordagem de um tema como esse.

Recomendo.





Teatro versus cinema

10 07 2009

godotTeatro e cinema: duas artes distintas, tão parecidas e tão diferentes. Quando o cinema surgiu, nos finais do século XIX, dizia-se que seria o fim do teatro; mas a luz elétrica, que deu suporte ao nascimento do cinema, também tornou possível ao teatro entrar numa nova fase estética, onde a iluminação passou a constituir um elemento importante da cenografia, sendo usada para desenhar espaços, suscitar climas, criar atmosferas. O cinema não acabou com o teatro e e ambos continuaram crescendo juntos, usando os mesmos elementos mas com diferenças que parecem pequenas mas são muito, muito grandes.

O primeiro desses elementos comuns ao cinema e ao teatro é a interpretação, em que uma pessoa (o ator) se transforma em outra (o personagem); o primeiro empresta seu corpo, sua voz, sua energia viva para esse que é um dos mais espetaculares fenômenos que é dado a alguém presenciar: a metamorfose.  Do nada, usando apenas as palavras do texto e seu corpo, o ator cria um ser humano completamente diferente dele. Existe algo mais mágico, mais genial? Eu não conheço. Mas a interpretação é diferente para o cinema e para o teatro, e é por isso que grandes atores de cinema muitas vezes não se saem bem em frente às câmeras, e vice-versa.

clitemn_cassO texto teatral também é diferente do roteiro cinematográfico em tudo, uma vez que neste último é preciso ter uma série de indicações técnicas que vão servir de guia para a filmagem, para a operação das câmeras propriamente ditas. Eu mesma sei escrever peças de teatro, já escrevi muitas, a maioria delas encenadas por aí, mas não sei nem para onde vai a técnica de escrever roteiros para cinema e muitas vezes fica difícil explicar para alguém, que quer porque quer que eu escreva um roteiro. “Mas eu não sei”, digo eu. “E você não escreve peças?” diz o outro. Escrevo, mas é muito diferente.

stabanadaE quanto à maquilage, figurino, cenografia, a direção de arte como um todo, elementos também comuns às duas artes, é tudo muito muito diferente para o palco ou para a câmera. Só para tomar um elemento, o “close” do cinema é completamente impossível no teatro, onde nenhum espectador, pelo menos na maioria dos espetáculos, vê o ator da distância em que a câmera pega o ator de cinema. Também no cinema é permitido dar um leve suspiro, coisa que seria impossível no teatro. Os microfones sensibilíssimos do cinema captam qualquer tipo de ruído enquanto que no teatro, o ator pode até cochichar em cena mas tem de cochichar de forma a ser audível pelo menos até a fila “P”… (Aí ao lado uma foto histórica: Maria de Lia, Marcos Bulhões e esta que vos tecla, em 1991, na peça de Guto Greco “Papai Pirou nas Ondas do Rádio”. Ô saudade!)

barrymoreMuitas vezes não nos tocamos das especifidades dessas duas artes porque não paramos para pensar no making-off de cada uma delas. Para mim, teatro e cinema, quando se misturam, são sempre fonte de excitação e prazer estético. Há alguns filmes sobre teatro que eu acho fundamentais para quem quiser experimentar esse prazer e, de quebra, conhecer o fazer teatral um pouco mais a fundo. A televisão também faz isso. Nesta semana a Rede Globo estreou uma série em que pretende retratar os bastidores de uma montagem teatral. Não gostei das últimas séries apresentadas pela emissora (“A Pedra do Reino”, “Capitu”, “Queridos Amigos” e “Maysa”) e como pensei que provavelmente nao iria gostar dessa, me abstive de assistir, baseada também nos traillers que vi esses dias e na desvairada paixão que sinto pela obra de Shakespeare, que nos trailers me pareceu apenas servir de pano de fundo para mais uma bobagem global. Além disso, com essas minhas viagens entre Natal e João Pessoa nesta semana foi mesmo impossível.

tirosnabroadwayVoltando ao assunto, sugiro com ênfase dois filmes. O primeiro deles é um filme de Woody Allen “Tiros na Broadway” (Bullets Over Broadway, 1994). Um diretor de teatro resolve montar uma peça de sua autoria; recebe o patrocínio de um gangster, e em troca tem que aceitar a namorada loura e burra do bandido no elenco. Além disso, o guarda-costas da loura, que vai toda noite ao teatro para os ensaios, parece entender mais de teatro do que o autor. É muito engraçado e um dos filmes menos conhecidos de Woody Allen.

noisesoffO outro é um dos filmes de teatro que mais gosto: “Impróprio para Menores” (Noises off…,1992) dirigido por Peter Bogdanovich como o maravilhoso Michael Caine no papel principal. A expressão “noises off” significa algo como “sem barulho”, o que seria mais ou menos o desejo de todo diretor de teatro em relação à platéia. Mas o que você vai ver neste filme é exatamente o contrário. O diretor Lloyd Fellowes (Michael Caine) precisa estrear a peça no dia seguinte e os atores erram as falas a todo instante, saem para beber escondido, brigam nos bastidores, esquecem dos objetos de cena, tropeçam no cenário… Além disso, cada um desses atores vem de uma escola teatral diferente – um é stanislavskiano, outro vem da comédia – e isso atrasa e complica o ensaio, que vira uma loucura. O curioso é que o espectador – do filme, não da peça – tem o privilégio de vê-la duas vezes: uma do ponto de vista da platéia e outra depois, por trás, do ponto de vista dos bastidores.

Sempre levei esse filme para meus alunos de teatro assistirem. Era muito legal.

Então, aproveite.





O que é bonito…

1 07 2009

… é o que persegue o infinito.*

Hoje, imagens que me inspiram.

1. A atriz Sarah Bernhardt

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2. Uma cidade com planta em forma de estrela.

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3. Página de manuscrito medieval.

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4. Salão que antecede o teatro do castelo da cidade medieval de Cesky-Krumlov, na república Theca, todo adornado com pinturas ilusionistas, no estilo barroco, sobre temas da commedia dell’arte.

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5. Tela do artista plástico paraibano Sérgio Lucena.

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6. As peças de William Shakespeare.

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7. Igrejas barrocas brasileiras. Essa é a Capela da Jaqueira, em Recife-PE.

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*A frase “O que é bonito é o que persegue o infinito” é de Braulio Tavares.





Michael Jackson: Too bad too bad about it!

26 06 2009

Michael Jackson não foi um dos meus ídolos. É claro que eu o conhecia, desde a época do Jackson Five, e acompanhei mais ou menos a sua trajetória na música, sem prestar muito mais atenção a ele do que prestava a outros cantores americanos de que eu gostava mais.

Na década de 1970, meu filho mais velho tinha um grupo de dança de rua, tipo “break” e eu comecei a prestar mais atenção naquele artista cuja performance no palco era tão precisa, tao enérgica, tão elétrica, tão sensual. Quando em seguida a minha filha um pouco mais nova tornou-se pré-adolescente, também virou fã do cantor e vivia a me pedir uma roupa cheia de zíperes, de couro preto, igualzinha à dele. Comecei a prestar mais atenção no artista e cada vez gostava mais.

Era o dia todo rodando o vinil Bad, naqueles tempos pré-CD. Too bad! Too bad! Too bad! E quando o clip aparecia na TV, eu largava tudo e ia olhar. E depois foi a vez de Thriller.

Nunca me interessei pela vida particular do artista. Sei que casou com a filha do Elvis, que teve filhos com outras mulheres, que se envolveu em escândalos com crianças, que tinha uma doença na pele que terminou deformando seu rosto e que aparecia com máscara e óculos escuros em frente às câmeras de TV para evitar os paparazzi e para não expor sua privacidade, sua e de seus filhos.  Nunca fiz julgamentos morais de artistas. Acho bobagem.

Para mim, a doação da música, da dança, da energia vibrante e alegre sobre o palco foi suficiente, e eu a aceitei carinhosamente, como um presente que o artista quis me dar, a mim e a seus milhões de fãs, e é isso que agora importa, nessa hora em que registro com tristeza a morte dele, ocorrida hoje à tarde.

É isso que quero agradecer aqui. O mais, é coisa da Vida, tão misturada com a Morte que às vezes a gente pensa que é tudo uma coisa só. Too bad!

UPDATE – O leitor avisa que eu inverti as datas, que Thriller veio antes e Bad depois. Eu me lembro de tudo junto, e o tempo da recordação é assim mesmo, misturado. Fica feita a observação.

MIchael





O sonho de Poliphilo

22 06 2009

polifilo02Há algum tempo a editora Planeta publicou o romance O Enigma do Quatro, de Ian Caldwell e Dustin Thomason, cujo enredo versa sobre a busca do significado de outro livro, o clássico Hypnerotomachia Poliphili, impresso no finalzinho do século XV. Apaixonada que sou por temas medievais e por livros, corri a adquirir o tal romance. A ação se passa no campus de uma universidade americana, mas o enredo é mal construído, confuso e, antes da metade eu me perdi irremediavelmente nas imperfeições do estilo e terminei por passá-lo adiante, sem terminar de ler.

poliphiloMas o livro teve a virtude de me apresentar esta espetacular obra, a Hypnerotomachia Poliphili, cujo título quer dizer “O Combate de Amor de Polifilo num Sonho” e que conta a indecifrável e obscura história de Polifilo à procura de sua amada, Polia. A linguagem utilizada é o italiano arcaico, com intervenções gregas e latinas e enriquecido por 171 xilogravuras da escola de Andrea Mantegna.

polifilo01Considerado um dos mais belos livros que existem, Hypnerotomachia Poliphili foi impresso em 1499 pelo veneziano Aldo Manuzio, e representa uma revolução na arte editorial, em termos tipográficos, em relação às ilustrações e à diagramação. Sua autoria é incerta, talvez de Francesco Colonna (1433-1527), talvez de Leon Battista Alberti (1404-1472) e somente agora, depois de quase 500 anos, foi realizada a sua tradução integral.

Parte narrativa imaginária e parte tratado erudito, este livro intriga há séculos historiadores e arquitetos pelas representações de edifícios e estruturas físicas ali ilustradas; contém ainda um inflamado discurso da heroína, Polia, defendendo os direitos das mulheres expressarem a própria sexualidade, e isso escrito quinhentos anos atrás.

polifilo03É um livro raro. Dele, existem menos exemplares do que da Bíblia de Gutemberg, supondo-se que haja apenas uns 200 no mundo inteiro. O único que existe no Brasil pertence ao bibliófilo José Midlin, que não revela quanto pagou pelo volume mas diz que o livro se paga cada vez que é folheado. Aliás, José Midlin doou sua magnífica biblioteca à USP em 2006; e os livros estão passando por um processo de digitalição, e vão fazer parte do projeto Brasiliana-USP, sendo que alguns já estão disponíveis na Internet. Mas isso é assunto para outro post.

poliphilo2Meu assunto de hoje é a Hypnerotomachia Poliphili. A raridade e o preço não nos impedem de conhecer essa obra primorosa. Antes que o projeto Brasiliana-USP coloque no ar sua edição fac-similiar, ela já é há tempos disponível aqui neste link.  Mesmo que para nós seja indecifrável o italiano antigo, as belíssimas ilustrações estão lá, à disposição de qualquer criatura, para deleite dos olhos e reconhecimento da cultura renascentista que, ainda hoje, encontra eco nos nossos espíritos e na nossa memória. Vale a pena a visita.





Gerúndios

21 06 2009

… LENDO Memórias de Eloy de Souza
… ESCREVENDO minhas recordações, enquanto estou lembrada.
… COMENDO nestes dias camarão com Karl Leite, ratatouille com Estêvão Lúcio e pizza com Carlinhos e Ilana.
… DORMINDO marromeno…
… MATANDO as saudades de parte dos meus livros que estão em Natal.
… ASSISTINDO Marcas da Violência com Viggo Mortensen.
… ABRAÇANDO filhos e netos em Natal-RN por esses dias.
… ACARICIANDO meus gatos Teobaldo e Irlanda, que se deitam no meu colo sem serem chamados.
… ENCONTRANDO amigos queridos.
… PESQUISANDO preços.
… PLANEJANDO umas coisas.
… REVISITANDO esta cidade impossível.

Tela de Vicente Vitoriano, artista plástico do Rio Grande do Norte.

Tela de Vicente Vitoriano, artista plástico do Rio Grande do Norte.





Imagens da cultura popular

15 06 2009

1.

O cordelista e xilogravurista José Costa Leite e um dos seus trabalhos.

O cordelista e xilogravurista José Costa Leite e um dos seus trabalhos.

2.

"É o Homem da Meia-Noite que vem, vestindo fraque e colete, gigantes pernas de pau, sorrindo na multidão, com riso de manequim..." Boneco gigante do Carnaval de Olinda.

"É o Homem da Meia-Noite que vem, vestindo fraque e colete, gigantes pernas de pau, sorrindo na multidão, com riso de manequim..." Boneco gigante do Carnaval de Olinda.

3.

Nau Catarineta de Cabedelo-PB. Há muitos grupos mas este é formado só por mulheres da terceira-idade.

Nau Catarineta de Cabedelo-PB. Há muitos grupos mas este é formado só por mulheres da terceira-idade.

4.

"Vassoura", personagem cômico tradicional da Nau Catarineta.

"Vassoura", personagem cômico tradicional da Nau Catarineta.

5.

Santana Mestra, arte popular de Goiás.

Santana Mestra em terracota, arte popular de Goiás.

6.

Pastoras do cordão Azul em Pastoril na praia de Tambaú, na capital paraibana.

Pastoras do cordão Azul em Pastoril na praia de Tambaú, na capital paraibana.

7.

Os estranhos animais de argila de Fulano, Paraíba.

Os estranhos animais de argila de Abimael, Paraíba.

8.

O cordelista e xilogravurista Abraão Batista.

O cordelista e xilogravurista Abraão Batista.

9.

Bonecos

Artesanato paraibano. Bonecos à imagem e semelhança de Genival Lacerda, Sivuca, Jackson do Pandeiro e Biliu de Campina.

10.

E pra fechar o firo, cozido de corredor com pirão mexido com frinha de mandioca e tutato comido de colherinha, pra deixar os neurônios azeitados e tinindo que só a mulesta dos cachorros!

E pra fechar o firo, cozido de corredor com pirão mexido com farinha de mandioca e tutano comido de colherinha, pra deixar os neurônios azeitados e tinindo que só a mulesta dos cachorros!

Todas as fotos são minhas. Comi o pirão na casa da minha sobrinha Júlia Quirino.





Filme bom e filme ruim

29 05 2009

filmes01Fui cineclubista por muito tempo na minha vida, principalmente quando era mais jovem. Em Campina Grande, no final da década de 1960, era uma das atividades mais interessantes da cidade. Reuniões, discussões, cursos e, é claro, sessões e mais sessões de cinema, numa época em que não havia computador, nem vídeo, nem DVD.

Rômulo Araújo, prevendo o futuro, dizia para o porteiro do Cine Capitólio, em Campina: “Um dia ainda levaremos o filme para assistir em casa!” E o porteiro sorria e respondia: “Vocês são uns visionários…” Então, tenho alguma experiência. Para mim, um cineclube é filmes03um espaço para discutir e compartilhar conhecimento sobre cinema. E penso também que é preciso atrair as pessoas para lá, mas como atrair gente nova apenas com projeção de filmes? Sobretudo filmes sobre os quais ninguém tem informação, a não ser as pessoas da área, as que entendem de cinema?

Essa reflexão me veio através de uma lista de discussão que assimo, onde os organizadores de um cineclube se queixavam do pouco interesse de jovens pelas suas atividades e da dificuldade de levar gente nova para o cineclube.

filmes05Penso que discutir cinema é discutir todo tipo de filme. Querem atrair gente nova para o cinema? Discutam os filmes que gente nova gosta! Discutam Batman, Homem Aranha, Juno, Volverine, e outros. Discutam os filmes do Oscar. Por que esses filmes foram indicados? Discutam Tropa de Elite (bem, acho que já passou o tempo de discutir Tropa de Elite, mas o exemplo serve para entender o que estou dizendo: discutam o que está rolando nas telas).

Afastei-me do cineclubismo porque terminou virando uma masturbação mental, de poucos “iniciados” discutindo filmes04horas intermináveis sobre Glauber, ou Bergmann. Nada contra esses cineastas ou seus filmes, dos quais gosto muito, mas tudo tem limite. E penso que não se deve discutir somente filme bom não. É preciso discutir os filmes “ruins”, para ver porque são “ruins”.

Funciona muito também ter uns cursos de vez em quando para atrair gente, ou ciclos de palestras sobre, por exemplo, “A jornada do herói no Senhor dos Anéis: comparações com Guerra nas Estrelas”, ou “A escatologia no cinema brasileiro: análise de O Cheiro do Ralo e Amarelo Manga.” ou “Zé do Caixão e seus filmes”, ou ” A obra de Michael Moore”, ou “A evolução dos efeitos especiais no filme de aventuras”, ou “Filme pornô também é cultura” (eita! esse foi de lascar!) ou o que seja.

Eu poderia sugerir aqui uma lista interminável de títulos de palestras. E terminar dizendo que o cineclubismo é uma das atividades mais interessantes para se participar, pois abre para o mundo e para as idéias, através da instigante arte do cinema.





Hoje não tem post…

5 05 2009

coubert

Estou cansada…

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Quero apenas sossegar num bom papo com minhas amigas…

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Depois chamar a massagista para uns toques, um relaxamento…

goya44

E finalmente ir ao cinema ver Volverine (alguém já viu? Gostou?)





EXPO-FOTO 1 – Alexandro Gurgel

29 04 2009

Para deleite dos leitores, vez por outra estarei postando aqui fotos que gosto.

Hoje o espaço é do potiguar Alexandro Gurgel. Todas as fotos são dele, e as legendas são minhas. Mais dele, e sobre ele, aqui.

Auto da Liberdade. Mosssoró-RN.

Auto da Liberdade. Mosssoró-RN. O Auto da Liberdade é uma encenação teatral ao ar livre que é realizada anualmente em Mossoró, comemorando a abolição dos escravos, realizada naquela cidade antes do 13 de maio de 1888.

Farol do Calcanhar. Touros-RN.

Farol do Calcanhar. Touros-RN.

Fazenda Pitombeira. Acari-RN.

Fazenda Pitombeira. Acari-RN.

Paz, solidão, beleza.

Paz, solidão, beleza.

A Lua Cheia sobre o mar de Ponta Negra. Natal-RN

A Lua Cheia sobre o mar de Ponta Negra. Natal-RN

Casario. Juazeiro do Norte-CE.

Casario. Juazeiro do Norte-CE.

Ponte Newton Navarro. Natal-RN

Ponte Newton Navarro. Natal-RN

E finalmente o fotógrafo, bonitão e atrevido, brincando de vaqueiro, se arriscando no meio da jurema.

E finalmente o fotógrafo, bonitão e atrevido, brincando de vaqueiro, se arriscando no meio da jurema.





Parabéns para Shakespeare!

23 04 2009
Stratoford-on_Avon

Stratford-on_Avon

Hoje, 23 de abril, comemora-se o 445º aniversário do nascimento de William Shakespeare, ocorrido no ano de 1564, em Stratford-on-Avon. Com este post encerramos a série de três posts em homenagem ao poeta inglês, objeto da minha profunda admiração e paixão desvairada, para sempre e eternamente.

Toda a produção de Shakespeare é estupenda. Foram 38 peças, além de 154 sonetos, considerados entre os mais belos em língua inglesa. Morreu em 1616, aos 52 anos, depois de uma noitada alegre com os amigos, tendo vivido toda a sua vida ligado à prática teatral, onde fez fortuna e fama.

Segundo o crítico Harold Bloom, no seu livro “A Invenção do Humano”, Shakespeare “pensou mais originalmente do que qualquer outro escritor e tinha um domínio quase sem esforço da linguagem”. Seus personagens tão humanos, quase mais humanos do que nós mesmos, nos lançam numa investigação interior da qual não podemos escapar. Ao ler, ou ver qualquer das suas tragédias, principalmente “Hamlet” ou “Macbeth”, é como se estivéssemos abrindo nossa alma no divã de um psicanalista. As comédias também não são um simples passatempo, mas nos levam à nossa própria “floresta de Arden”, onde nos perdemos para nos encontrar, como Rosalinda, em “Como Gostais”.

Harold Bloom

Harold Bloom

Bloom diz ainda que ele criou mais contextos para nos explicar, a nós, seres humanos, do que somos capazes de criar para explicar seus personagens: Hamlet, Lear, Falstaff, e os vilões Iago, Ricardo III, Edmundo e Macbeth, são um estudo profundíssimo da natureza humana. E as mulheres! Cordelia, Rosalinda, Viola e a maravilhosa Beatrice de “Muito Barulho Por Nada”… Seres que povoam os palcos do mundo há quatrocentos anos e cujas possibilidades estão longe de serem esgotadas.

Mas afinal, Shakespeare existiu mesmo? É uma pergunta que sempre escuto quando o assunto vem à tona. Quem conhece e estuda a obra do poeta inglês já está acostumado com isso e sabe que periodicamente aparece alguém colocando em dúvida a autoria das peças e sonetos, já atribuída a mais de cinqüenta nomes, incluindo Christopher Marlowe, Francis Bacon, o Conde de Oxford e até a própria rainha Elizabeth I!

The Globe, teatro de W.S. na Londres do século XVI.

The Globe, teatro de W.S. na Londres do século XVI.

Felizmente para os bardólatras, como eu, não há mais dúvidas sobre quem escreveu as peças: foi ele mesmo, William Shakespeare, quem em 1582 já vivia em Londres, fazendo e escrevendo teatro.  O jovem William foi para Londres aos vinte e três anos de idade onde, começando como ator, passou depois a escrever peças e em 1599 tornou-se um dos sócios do Globe Theatre. Em 1603, passou a fazer parte dos “Homens do Rei”, a mais importante companhia teatral da Inglaterra. São também desse período, início do século XVII, as suas obras mais importantes, como “Hamlet” (1601), “Rei Lear” (1605) e “Macbeth” (1606).

Unânimes nesse reconhecimento, os estudiosos shakespearianos já se acostumaram com o fato de que vez por outra aparece alguém em busca da notoriedade conferida por uma crítica ou um fato em relação a Shakespeare. É a grandeza do poeta inglês que leva o mundo a ficar sempre de olho nele, mesmo depois de decorridos quase quatrocentos anos da sua morte.

Foram muitos os nomes que duvidaram da sua real existência, como Mark Twain, Henry James, Sigmund Freud, Charles Dickens, Walt Withman e Charles Chaplin. A autoria foi questionada a primeira vez em 1796, por um certo Herbert Lawrence, e em 1848, por Joseph Hart. Surgiu então Delia Bacon, uma americana radicada na Inglaterra em 1853, que se dizia descendente do filósofo inglês Francis Bacon, e afirmou ter provas de que fora o seu antepassado e não Shakespeare o autor das obras famosas. O debate pegou fogo nos meios acadêmicos, nada foi provado e a sra. Bacon terminou seus dias num manicômio, talvez por não ter sido levada a sério.

Fontispício de uma das edições das suas peças.

Fontispício de uma das edições das suas peças.

Roger Pringle, diretor da Fundação Shakespeare Birthplace, não acredita nos argumentos apresentados pelos pesquisadores que vez por outra aparecem com dientidades novaa para W Shakespeare. Diz ele que o que os move é apenas o desejo de vender livros. Já Ann Thompson, professora do King’s College London e editora da série Arden Shakespeare, defende que tudo isso é puro preconceito: setores do meio acadêmico e intelectual jamais aceitaram que um homem sem instrução universitária pudesse erguer tais monumentos literários. É mais uma vez o preconceito do erudito contra o popular, deformação que persegue Shakespeare há quatrocentos anos e que nossos autores de cordel e poetas populares já experimentaram várias vezes, na própria pele.

Compartilho aqui com você algumas jóias do poeta inglês. Vejam esta, bem adequadas a estes nossos tempos, onde se fala sem pensar e se difama por distração: “O bom nome para o homem e para a mulher, meu caro senhor, é a jóia suprema da alma. Quem rouba minha bolsa, rouba uma ninharia. É qualquer coisa, nada; era minha, era dele, foi escrava de outros mil. Mas quem surrupia meu bom nome tira-me o que não o enriquece e torna-me completamente pobre.” (“Othelo”, Ato III, Cena 3).

Há, também uma peça dele, não tçao conhecida, “Como Gostais” (“As you like it”), uma deliciosa comédia, cheia de tramas, onde a heroína se disfarça de homem e os poemas de amor parecem nascer nas árvores. Um dos seus melhores momentos é a fala do personagem Jacques, na Cena 7 do Ato II, sobre as “sete idades do homem” e traça um retrato entre trágico e irônico do que é a nossa vida.

Matteo Pangallo como Jacques.

Matteo Pangallo como Jacques.

Jacques começa dizendo que “…O mundo é um palco; os homens e as mulheres, meros artistas, que entram nele e saem. Muitos papéis cada um tem no seu tempo; sete atos, sete idades. Na primeira, no braço da ama grita e baba o infante. O escolar lamuriento vem depois, com a mala, de rosto matinal, e como serpente se arrasta para a escola, a contragosto. Então vem o amante, fornalha acesa, celebrando em balada dolorida as sobrancelhas da mulher amada. A seguir, estadeia-se o soldado, cheio de juras feita sem propósito, com barba de leopardo, mui zeloso nos pontos de honra, a questionar sem causa, buscando a falaz glória até mesmo na boca dos canhões. Segue-se o juiz, com ventre bem forrado de cevados capões, olhar severo, barba cuidada, impando de sentenças e de casos da prática; desta arte seu papel representa. A sexta idade em calças magras tremelica, óculos no nariz, bolsa de lado, e a voz viril e forte, que ao falsete infantil voltou de novo, chia e sopra ao cantar. A última cena, remate desta história aventurosa, é mero olvido, uma segunda infância, falha de vista, de dentes, de gosto e de tudo.”

Ah, meu caro leitor! Ninguém descreveu com tanta poesia e capacidade de síntese esta vida que levamos. Shakespeare é uma leitura grandiosa, a qualquer estado de espírito, a qualquer necessidade da alma. Sempre haverá uma peça, ou trecho dela, que exprima exatamente aquilo que estamos pensando e às vezes nem compreendemos direito; ou aquilo que queremos dizer mas não sabemos como.

E é por isso que nos aqui, quatrocentos e quarenta e cinco anos depois, estamos repetindo as palavras deste homem que com sua arte, conseguiu levantar o véu que encobre essa matéria sutil: a Alma Humana.

No post de amanhã, voltaremos aos assuntos habituais, muito embora seja possível passar um ano inteiro. escrevendo diariamente sobre William Shakespeare.





Ser ou Não Ser, eis a questão?

22 04 2009

hamlet-yorik“A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca” ou simplesmente “Hamlet”, como é mais conhecida, é entre as obras do “bardo” aquela que se encontra no topo da excelência artística. O enredo conta a história do príncipe Hamlet, cujo pai morre de causas aparentemente naturais; o fantasma do rei aparece então ao príncipe dizendo que foi assassinado e pedindo ao filho pra vingá-lo.

pooryorick2Dito assim, parece ser uma simples história de vingança, mas não é. Enquanto a trama vai sendo construída, os personagens vão se mostrando mais elaborados e o personagem principal assume um nível de profundidade e complexidade tal que serve como um verdadeiro estudo da alma humana.

“Hamlet” é uma obra tão arraigada no imaginário ocidental que, mesmo que nunca a tenhamos lido ou visto no palco ou no cinema, nos lembramos imediatamente dela se nos mostrarem a imagem de um homem, em atitude meditativa, segurando um crânio. E se eu perguntar a qualquer um dos meus caros leitores o que Hamlet está dizendo nesta hora provavelmente todos responderão: “Ser ou não ser, eis a questão”.

pooryorickMas é engano. Não é isso absolutamente o que diz o príncipe nessa hora. O famoso “ser ou não ser” localizado na Cena I do Ato III, ocorre numa sala do Castelo de Elsenor, onde não há caveiras nem ossadas. A cena na qual Hamlet empunha o crânio é, na verdade, a famosa “cena dos coveiros”, a primeira cena do Ato V.

Nesta cena, Hamlet está no cemitério do castelo, onde dois coveiros estão abrindo a cova de Ofélia, que será enterrada daí a pouco. Revolvendo a terra com a pá, um dos coveiros encontra uma caveira. Hamlet pergunta de quem seria aquele crânio e o coveiro responde que pertencia a Yoric, o bobo do rei. O príncipe então toma a caveira entre as mãos e lamenta; “Pobre Yorik”, relembrando quando era criança e se divertia na corte com os gracejos do bobo.

Então, por que sempre pensamos que o homem com a caveira na mão está dizendo o famoso “to be or not to be”? Elementar, meu caro leitor: a frase mais famosa da peça (e talvez do teatro) funde-se quase sem querer com sua imagem também mais famosa, embora aterradora: o homem, contemplando filosoficamente o profundo mistério da Morte.

Imagem e frase, impressas para sempre em nossa mente, em tributo eterno a um homem que elevou a dramaturgia ao nível das obras primas. Parabéns, William Shakespeare.

Laurence Olivier, na famosa cena.

Laurence Olivier, na famosa cena.





Shakespeare, sempre e eternamente!

21 04 2009

shakespeare2Todo ano nessa mesma época estou falando, escrevendo, dando cursos ou oficinas sobre William Shakespeare, o imortal poeta e dramaturgo inglês, o homem cuja obra atravessou incólume, poderosa e sempre renovada a barreira dos séculos e ainda encanta multidões.

Nesta quinta-feira, 23 de abril, decorrem 445 anos do seu nascimento, que ocorreu no ano de 1564 na cidade de Stratford-on-Avon, na Inglaterra. E daqui dessas lonjuras do espaço/tempo eu, fã inconteste, tiete despudoradamente shakespeareana até a última fibra do meu coração poético e teatral, saúdo este homem e digo que sua leitura continua sendo fonte de um prazer estético e artístico indescritível, que deveria ser experimentado por todos.

Por que ler Shakespeare hoje? Ora, minha gente! Porque Shakespeare – como todo clássico – é atual, é universal e é genial. Mas é velho, diria você. É antigo, é antiquado, trata de reis e rainhas, coisas obsoletas, que não existem mais.

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Hamlet e o fantasma

Mas eu lhe peço dois minutos de atenção. Imagine uma história onde fantasmas aparecem e revelam crimes do passado, e um jovem se vê na obrigação de vingar a morte do pai, sendo traído e enganado pelos amigos e pelo rei, usurpador do trono. Na ânsia de vingar-se, despreza a namorada e ela enlouquece e morre. No final, tudo dá errado e morrem todos! Parece quadrinhos, Sandman, Mangá, Kill Bill ou Batman. Parece a novela das oito ou o último épico que está passando no cinema próximo.

Mas não é nada disso: é “Hamlet“. O bom é que esta peça, escrita em 1501, pode ser vista como uma história de assassinato e vingança, povoada de fantasmas, suicidas e paisagens de cemitérios; mas pode também ser entendida como uma das mais espetaculares viagens de descoberta de um ser humano à procura da sua própria alma.

Macbeth

Macbeth

E não venha me dizer que Shakespeare é chato, que a linguagem é incompreensível e difícil de entender. Eu defendo a idéia de que tudo que há em “Hamlet” pode ser compreendido por qualquer adolescente de quinze anos. É somente uma questão de se entregar, de mergulhar na lógica interna daquela linguagem aparentemente difícil. Depois de dez minutos, você está entendendo tudo.

Aí alguém pergunta (como já me perguntaram): “E porque então ele não escreveu numa linguagem mais simples?” Ora, meu caro leitor! Você está propondo que o pavão, com aquele leque de mil cores que se desdobra com lentidão e maravilha, se torne preto e branco? O que eu sei é que os jovens adoram, quando entram na viagem.

Sonho de Uma Noite de Verão

Sonho de Uma Noite de Verão

E o que é isso: “entrar na viagem”? É despir-se dos preconceitos e ultrapassar as barreiras que nos separam dessa obra tão genial. A principal barreira, e talvez a mais amedrontadora, é mesmo a da linguagem. William Shakespeare se expressa com riqueza de detalhes, de metáforas e de imagens poéticas de uma forma que revolucionou a língua inglesa da época elisabetana e que ainda hoje dificulta um pouco a sua leitura até mesmo no idioma original. Mas é só relaxar, deixar-se levar pela magia das palavras e começar a entender que “o úmido astro que ergue o império de Netuno” é a Lua, e que “a carga de Hércules” é o mundo, o globo terrestre. Mal comparando, as músicas de Marcelo D2 e do “rap” em geral, por exemplo, também são incompreensíveis para quem não “entra na viagem” da linguagem, das expressões, dos assuntos abordados.

O Mercador de veneza

O Mercador de veneza

Quanto aos temas, são os mesmos e eternos temas que o ser humano sempre gostou de discutir: ambição (“Macbeth”), vingança (“Hamlet”), inveja, ciúme e desconfiança (“Otelo”), amor impossível (“Romeu e Julieta”), enganos do amor (“Sonho de Uma Noite de Verão”), velhice, decrepitude e ingratidão dos filhos (“Rei Lear”), orgulho e prepotência (“Coriolano”), a luta pelo poder (“Ricardo III”, “Júlio César”), magia e encantamento (“A Tempestade”), como agarrar um homem – ou uma mulher (“A Megera Domada”, “Trabalhos de Amor Perdidos”), o exercício da justiça (“O Mercador de Veneza”)… e por aí vai.

Coriolano

Coriolano

A experiência prática que eu tenho é que, quando se apresenta Shakespeare aos jovens, no início há uma estranheza por causa da linguagem; mas logo em seguida, quando se “entra na viagem”, a paixão é súbita, avassaladora e permanente, a mesma paixão que se abateu sobre mim quando, curiosa e despida de idéias preconcebidas, li o “Hamlet” pela primeira aos 16 anos de idade. Não compreendi muita coisa, mas gostei – nem sempre é preciso compreender para gostar – e hoje, depois de décadas lendo de novo e novamente essa obra, considero que ela ainda me reserva muitos espantos e surpresas.

A partir de hoje, e por mais dois dias, culminando no dia 23 de abril, seu aniversário, estaremos aqui rendendo homenagem a William Shakespeare.

Então, comemore comigo e saiba que, em qualquer lugar do mundo, quando no ar vibrarem as suas palavras imortais, lidas em qualquer idioma, o bardo de Stratford estará conosco, conectando-nos com a alma poética da Humanidade, e fazendo correr um oceano de Beleza, Poesia e Prazer para dentro do nosso coração.





Estranhas bonitezas.

3 04 2009

moloko

Genial.

Vi isso aqui. A dica veio do site De(coeur)ação.

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As garotas do Vovô!

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Achei aqui.

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Um apartamento espetacular.

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