Galo cantou, às 4 da manhã…

8 02 2010
“À meia-noite acorda um francês
Sabe da hora e não sabe dos mês
Tem esporas e não é cavaleiro
Tem uma serra e não é carpinteiro.
Cava no chão e não acha dinheiro.
O que é o que é?”

Quando eu era menina, Mamãe me perguntava essa adivinha, que ela trazia entre as milhares de coisas que tinha decoradas. A gente logo respondia: é o galo!

Com presença forte ao longo de todo o folclore, tanto brasileiro quanto mundial, o “Francês” da adivinha é um animal emblemático, que “chama o dia e afugenta a noite” com seu canto em horas certas.

Em Hamlet, logo no primeiro ato, Shakespeare o chama de “trombeta da manhã”, na fala de Horácio:

“…Ouvi dizer que o galo, essa trombeta da manhã, com sua voz vibrante e clara desperta o dia, e que a esse aviso, os espíritos errantes, onde quer que estejam, retornam aos seus refúgios…”

E em Macbeth é usado como marcador do tempo na voz do porteiro:

“… Estivemos bebendo até o primeiro cantar do galo…”

Antes que o galo cantasse, Pedro negou três vezes a Cristo; e no jogo do bicho é o número 13, sendo por isso mascote do Treze Futebol Clube, de Campina Grande, um dos meus times do coração, cognominado “O Galo da Borborema”.

Uma história curiosíssima de um galo que seria preparado para o almoço de domingo já foi contada no meu livro Coração Parahybano, na crônica “A minha Noruega”, na página 113; e em Natal, onde moro, ele é considerado um símbolo da cidade, encimando orgulhosamente as torres das igrejas.

João Cabral de Melo Neto, no poema Tecendo a Manhã, o define:

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

Mas essa qualidade de tecer a manhã antes que a manhã real surja muitas vezes incomoda quem quer dormir e não consegue.

Tenho um amigo que mora numa casa onde o quarto dele é no primeiro andar. A janela dá para um pequeno – muito pequeno – quintal de um vizinho.

Aí, o vizinho foi e comprou um galo. Toda santa madrugada o animal começava a cantar, e o barulho ecoava no pequeno e apertado espaço entre as casas.

Então o meu amigo pegou sua vara de pescar, amarrou um peso na ponta, colocou a vara pela janela em direção da biqueira de zinco da casa do vizinho e, toda vez que o animal cantava, ele com a vara, batia na biqueira: dém, dém, dém.

O galo cantava, ele batia. Cocoricó, dém, dém, dém.

Depois de duas noites de dém, dém, dém o vizinho sumiu com a ave para outro galinheiro, onde foi tecer a manhã bem longe de ouvidos humanos precisados de repouso…





O casamento vitoriano

5 02 2010

Casamento, Inglaterra, 1910.

Há um livro interessantíssimo, que recomendo: Vidas Paralelas, da escritora Phillys Rose (Record, 1997), que analisa o casamento na era vitoriana através das biografias de casais famosos.

É impressionante o desconhecimento que as pessoas bem educadas tinham dos fatos simples e corriqueiros da vida, no que diz respeito ao sexo.

Um dos casos citados é o de Marie Stopes, uma inglesa altamente instruída, que havia estudado numa universidade alemã e casado em 1911 com um botânico. Pois bem: mesmo sendo instruída e tendo cursado universidade, a criatura levou seis meses para perceber que faltava alguma coisa em seu casamento, e mais tempo ainda pesquisando no Museu Britânico para descobrir o que era. Ao final das pesquisas, constatou que ainda era virgem e pediu a anulação do casamento.

Casamento, Inglaterra, 1900.

As mulheres de Thomas Carlyle e John Ruskin também atravessaram o casamento virgens como nasceram.

Talvez – arrisca a autora – a explicação esteja no choque que os homens vitorianos tinham quando se deparavam com a nudez feminina. Muitos conheciam a nudez apenas das estátuas de mármore da antiguidade clássica. Quando os gajos viam pela primeira vez uma mulher nua de verdade, ficavam chocados – dizem que os pelos pubianos os amedrontavam – e simplesmente não conseguiam consumar o casamento.

Está tudo lá, documentado por dona Phyllis Rose e referendado por documentos históricos como cartas e excertos de processos de anulação de casamento.

Eu achei tudo muito interessante.





Ferro-de-engomar

1 02 2010

No meulivro Formosa és: memórias do internato eu mostro a foto de um ferro de passar nos moldes do que usávamos naqueles longínquos anos do final da década de 1950.

Ferro de brasas. Veja a empunhadura de madeira e a abertura traseira por onde se abanava.

Abria-se o ferro, enchia-se o recipiente de brasas tiradas do fogão, e esperava-se que as brasas esquentassem o metal. Aí, passava-se a roupa. Havia ainda uma série de detalhes: para que esquentasse rápido, o ferro era colocado no chão, junto a uma porta bem ventilada, em cima de uma lata emborcada, com a abertura do fundo na direção do vento; um grampo era atravessado no nariz do ferro para que não abrisse quando alguém o empunhava e, se não esquentasse logo, enérgicas abanadas com um abano de palha eram logo providenciadas.

Havia uma empregada lá em casa que ia para o meio do quintal com o ferro na mão e o balançava em arco, provocando com esse movimento o vento necessário para avivar as brasas. Mas Mamãe morria de medo dessa performance, que achava perigosa. Imagina se você sem querer solta esse ferro e ele voa em cima de alguém! – dizia Mamãe. – De um dos meninos! – continuava, e nós nos enconlhíamos, aterrados, ao imaginar a cachoeira de brasas ardentes se derramando sobre as nossas cabeças.

Além do ferro de engomar doméstico, havia na Campina Grande da minha infãncia um lugar com esse nome. Ali perto do Ferro-de-Engomar, diziam. Era um edifício que tinha um formato pontudo, em bico, e por isso era assim chamado. Quero dizer: havia, não: há, ainda há. Continua lá no mesmo local, há bem uns 60 anos.

Infelizmente não achei foto do prédio. mas no Google Maps é possível ver a forma pontuda do edifício, apontando como uma cunha para a avenida.

Localizado na Avenida Getúlio Vargas, no centro da cidade, tem no seu térreo um bar, com clientela cativa; as más línguas dizem que a partir das oito da manhã o dono do “Ferro” já se encontra de plantão, para atender à turma que passa lá pra “regular a marcha lenta” antes de ir trabalhar. Isso deve ser porque neste país está ficando na moda ir trabalhar “calibrado” com algumas doses de álcool…

Peço aos blogueiros Emmanuel Souza e Adriano Araújo, inventores do blog Retalhos Históricos de Campina Grande, que desenvolvam essa pauta e falem sobre esse local tradicional da “Rainha da Borborema”.

Finalmente, um Ferro-De-Engomar famoso: o Flatiron Building (Fuller Building), um dos primeiros arranha-céus construídos em Nova Iorque, inaugurado em 1902 e localizado entre a Quinta Avenida, a Broadway e a Rua 23. Com seus 22 andares, é um dos cenários mais característicos da Big Apple e foi desenhado pelo arquiteto e urbanista Daniel Burnham. Eu ainda vou ver isso!

Flatiron Building, New York City.





Arrobas e léguas

28 12 2009

Um dia desses uma pessoa me perguntou de onde era que vinha a “arroba” que no dia-a-dia usamos com tanta frequência , uma vez que faz parte do endereço eletrônico que chamamos comumente de e-mail. Como passei minha vida sendo professora, acho natural que as pessoas me perguntem coisas desse tipo. O melhor ainda é quando não sei as respostas, pois isso me leva a ler, pesquisar, aprender coisas novas.

E fui logo respondendo que “arroba” é uma medida de peso que se usava muito antigamente, e que hoje não é mais tão comum. Na minha infância, se falava muito em arroba lá em casa, juntamente com “légua”, medida de comprimento que compreende seis quilômetros. Mamãe usava também “uma “quarta”, para designar 250 gramas (“Menino, vai ali comprar uma quarta de charque!”), ou “um quarto” de quilo; uma “mão” de milho, que são 50 espigas; uma “garrafa” de leite, 600 ml; e “meia-garrafa”, 300 ml, essas, medidas numa garrafa de cerveja e numa de guaraná, respectivamente; uma “grosa”, 12 dúzias. E em Campina Grande, ainda hoje, se você entrar em um bar qualquer e pedir um “quinto” de cachaça o garçon traz uma garrafinha de 200 ml da chamada “água-que-passarinho-não-bebe”.

Mas lá estou eu saindo do assunto. Voltemos à arroba. Uma arroba corresponde a dezoito quilos e, junto com a légua está lá no folheto “O Pavão Misterioso”, obra prima da literatura de cordel, escrito pelo poeta José Camelo de Melo Rezende, nos versos que descrevem a máquina voadora construída para que o herói alcançasse a alta torre onde vivia prisioneira a sua amada:

Ele fez um aeroplano
Do formato de um pavão
Que armava e desarmava
Comprimindo num botão
E levava doze arrobas
Três léguas acima do chão.

Ora, o perguntador não se conformou com essa minha enrolação poética e insistiu na resposta exata não sobre essa arroba, que ele também sabia o que era, mas sobre a arroba do e-mail, me forçando a pesquisar aqui e ali e trazer agora a resposta.

Na Idade Média, os livros eram copiados à mão e os copistas buscavam simplificar o trabalho susbtituindo palavras ou conjunto de letras por símbolos. Então, para substitutire a palavra latina “ad”, que significa “casa de”, inventaram o símbolo @. Quando veio a imprensa, o símbolo continuou a ser usado nos livros de contabilidade, aparecendo entre o número de unidades da mercadoria e seu preço, passando a ser conhecido, em inglês, como “at” (“a” ou “em”).

Depois, já no século XIX, quando os espanhóis passaram a usar as práticas comerciais dos ingleses, pensaram que o símbolo seria uma unidade de peso e o atribuíram à “arroba” que era a sua unidade de peso mais comum. Quando as máquinas de escrever foram inventadas, o símbolo foi incluído e sobreviveu no teclado dos computadores. Em 1972, quando começou a ser desenvolvido o primeiro projeto de correio eletrônico, o programador Ruy Tomlinson aproveitou o sentido original do símbolo @ em inglês, que significava “at” ou “em” e o colocou entre o nome do usuário e o nome do provedor. Então, Fulano@ProvedorTal passou a significar Fulano no provedor Tal.

Pergunta respondida, dúvida esclarecida, meu caro leitor. E se quiser ampliar seus conhecimentos sobre a arroba, é só clicar aqui, que tem um artigo muito completo sobre o tema.





A protetora dos olhos

14 12 2009

Hoje, meu caro leitor, 14 de dezembro, é meu aniversário. A data me dá muita alegria, uma vez que estou viva, com saúde, em boa forma física, escrevendo e produzindo idéias no meu ritmo costumeiro, ou seja, a todo vapor. Mas como vivo falando de mim e todo mundo já sabe quem eu sou, hoje quero falar mesmo de outra pessoa, vizinha de data, e de quem por pouco não recebi o nome se tivesse nascido no dia 13. Refiro-me a Santa Luzia, a santinha de Siracusa, cruelmente martirizada pelo imperador Diocleciano.

A história está toda lá, na “Legenda Aúrea”, esta maravilhosa obra medieval editada em português pela Companhia das Letras. O livro conta a história de mais de 170 santos e foi escrita no século XIII pelo monge Jacopo de Varazze, chegando a ter mais edições do que a Bíblia e servindo de fonte de inspiração para milhares de sermões ao longo de séculos. Outra fonte de informações sobre Santa Luzia, no aspecto da tradição popular, é Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro.

Luzia, ou Lúcia, nasceu em Siracusa, Sicília. sendo de origem nobre, tornou-se cristã e resolveu consagrar sua vida a Deus, fazendo voto de  castidade e distribuindo seus bens aos pobres. O noivo, ofendido e irritado pela dilapidação da fortuna que um dia seria sua, levou-a à Justiça. O cônsul Pascácio foi o seu algoz, tentando fazer com que ela renegasse sua fé e oferecesse sacrifícios aos deuses pagãos, ameaçando-a com suplícios inenarráveis, queimando-a com fogo e óleo fervente e por fim degolando-a a fio de espada.

A tradição retarata a  jovem com vestes vermelhas, um manto verde, a palma do martírio e uma salva onde estão seus dois olhos, que ela própria teria arrancado para enviá-los a um homem que os elogiara, sacrificando sua vaidade pessoal e buscando com isso afastar os homens que pretendiam o troféu da sua virgindade. É a defensora dos olhos e invocada na doença desses órgãos. Tira qualquer tipo de argueiro e aos seus devotos promete uma boa visão até mesmo em idade avançada.

Curioso é que uma santa tão boazinha dê nome à terrível palmatória de castigo escolar e doméstico, denominada “Santa Luzia dos Cinco Olhos”, em alusão aos cinco furos da palma. Essa denominação é de origem portuguesa como explica Conceição Barros, na sua tese de mestrado em História da Educação, realizada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto: ‘Este objecto de madeira era constituído por um cabo que terminava numa forma circular com cinco pequenos furos dispostos em cruz. A cruz fará alusão à cruz de Cristo e os cinco buraquinhos parecem representar os cincos sentidos corporais’.

No dia dedicado à Santa Luzia, 13 de dezembro, não se caça nem se pesca. Ainda segundo Cascudo, em história que lhe foi contada pelo pescador Chico Preto, um outro pescador irreverente , sem respeitar a tradição, resolveu pescar nesse dia: ao recolher a rede, achou-a cheia de peixes cegos que foram lançados de volta ao mar pelos pescadores aterrorizados. Ao chegar à agua, os peixes recobraram a visão, nadando para longe.

Durante muito tempo, na minha infãncia, a imagem da santinha era a última coisa que eu via antes de adormecer, em um quadro colocado de frente para a minha cama. Não recebi o nome, mas recebi a tradição e quem sabe por intercessão de Santa Luzia , a quem dediquei minhas rezas inocentes de criança é que eu tenho hoje esses olhos tão ativos, tão curiosos, tão videntes das coisas desse mundo e de quantos outros mundos existam por aí.





Nós podemos

12 12 2009

Tenho uma amiga, Denize Barros, designer gráfica pernambucana radicada em São Paulo, cheia de ideias bacanas e que faz bolsas tão lindas que você nem imagina, só indo lá no site dela olhar. Pois bem, eu mandei uma foto para ela, numa promoção do site, e olha o que ela fez! Não ficou bacana?

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Firulas textuais

7 12 2009

Numa Lista que assino, um dos membros postou um texto todo escrito sem usar a letra “A”, do qual reproduzo um pequeno trecho abaixo.

Sem nenhum tropeço posso escrever o que quiser sem ele, pois rico é o português e fértil em recursos diversos, tudo isso permitindo mesmo o que de início, e somente de início, se pode ter como impossível. Pode-se dizer tudo, com sentido completo, mesmo sendo como se isto fosse mero ovo de Colombo.

Desde que se tente sem se pôr inibido pode muito bem o leitor empreender este belo exercício, dentro do nosso fecundo e peregrino dizer português, puríssimo instrumento dos nossos melhores escritores e mestres do verso, instrumento que nos legou monumentos dignos de eterno e honroso reconhecimento.

Trechos difíceis se resolvem com sinônimos. Observe-se bem: é certo que, em se querendo esgrime-se sem limites com este divertimento instrutivo. Brinque-se mesmo com tudo. É um belíssimo esporte do intelecto, pois escrevemos o que quisermos sem o “E” ou sem o “I” ou sem o “O” e, conforme meu exclusivo desejo, escolherei outro, discorrendo livremente, por exemplo sem o “P”, “R” ou “F”, o que quiser escolher, podemos, em corrente estilo, repetir um som sempre ou mesmo escrever sem verbos.

(…)

E o texto continua por mais alguns parágrafos e lamento não ter aqui a autoria para lhe informar. Quem postou não colocou o autor.

Mas textos sem “A”, sem “E” ou textos onde a única vogal é “A”, por exemplo, são exercícios corriqueiros para quem escreve. Não é nada incrível, é somente um exercício. Faz-se quase como desafio, como brincadeira. Cada um de vocês, se tentar, consegue fazer.

Eu gosto de me divertir escrevendo textos como esse. Não servem para nada, apenas para exercitar a capacidade de brincar com as palavras, do mesmo jeito que o jogador de futebol faz embaixadas, para desenvolver a habilidade com a bola.

Outro exercício legal é escrever uma história curta, de umas duas páginas, por exemplo. Depois, tentar reduzi-la a 200 palavras, depois a 100, a 50…

Veja essa décima do poeta Dedé Monteiro:

“Ô casa velha do cão,
A de vovó Januária!
Caverna bicentenária,
Sem um sinal de cristão.
Morcegos sobre o fogão,
Na sala somente pó,
No muro, uma planta só,
No jardim, rato e mosquito:
Eis o retrato esquisito,
Da casa da minha avó.

O detalhe? Não notou? Não tem um só VERBO…





Troncha de saudade

2 12 2009

Eu me lembro que quando estudei no segundo grau aprendi que saudade era uma palavra que só existia na língua portuguesa e que não tinha correspondente em outros idiomas. Note que existem em outras línguas palavras para solidão, carência, tristeza, nostalgia. Mas saudade mesmo, que é bom, só tem em português.

Quero dizer: que é bom, não. Que é ruim. Pois tem coisa mais ruim do que saudade?

Como diz Luiz Gonzaga, saudade só é bom quando “a gente lembra só por lembrar um amor que a gente um dia perdeu.”  Quando a gente está assim sem ter o que fazer e começa a lembrar das aventuras, dos amores, das histórias. Aí dá aquela saudade boa, gostosa, leve, de um tempo que já passou mas que foi bom, um tempo em que a gente “foi feliz sem saber, pois não sofreu.”

Mas se é uma saudade presente, se a gente vive a sonhar “com alguém que se deseja rever”, aí, meu filho, “saudade entonce assim é ruim, saudade assim faz roer e amarga que nem jiló…”

O poeta Antonio Marinho, de São José do Egito, disse um dia que

Quem quiser plantar saudade
Escalde bem a semente
Plante num lugar bem seco
Quando o sol tiver bem quente
Pois se plantar no molhado
Ela cresce a mata a gente.

E mata mesmo, minha gente. É por isso que eu proponho que a palavra SAUDADE seja imediatamente, banida, expulsa, varrida, extirpada da língua portuguesa, como já foi feito em outros idiomas, para que a gente não fique por aí, andando sem destino dentro de casa, olhando o mundo com os olhos cegos, arrastando o nosso corpo morto e doendo, troncha de saudade de quem a gente quer bem.

Esse texto é dedicado à minha amiga Cida Lobo, à minha sobrinha-neta Maria Luísa, à minha filha Ana Morena, e ao meu amigo Cassiano Lamartine, o Orquilouco.





Mala de viagem

28 11 2009
Quando eu vim do sertão
Seu moço, do meu Bodocó,
A malota era um saco
E o cadeado era um nó…

É assim que começa a música Pau de Arara, de Luiz Gonzaga, onde descreve a “mala” e o “cadeado”. Pensando nisso, e como hoje estou meio sem assunto, separei para você essas malas, úteis e inseparáveis companheiras quando nos aventuramos pelo meio do mundo.

A mala da menina. Achei aqui, com dicas importantes sobre viagens com a criançada.

Arrumar as malas? Aprenda aqui.

Mais dicas.

E esse conjuntinho bem básico, bem Vuitton? Aqui.

A Vuitton é tão linda e tão chique que se garante até como mesa de cabeceira! Aqui.

Não tenho culpa do meu bom-gosto. É Vuitton de novo, um escritório completo dentro de uma mala.

E, finalmente esta outra – que não é Vuitton – e foi transformada numa estação completa de maquilage…





Estou…

9 10 2009

… LENDO “Agincourt: o Rei, a Campanha, a Batalha”, de Juliet Baker (Record, 2009)

… OUVINDO a conversa dos pedreiros no apartamento que está em reforma no fim do corredor.

… COMENDO tanta fibra que acho que estou prestes a virar um balaio.

… BEBENDO três litros de água por dia para equilibrar a fibra – vou me transformar num balaio molhado.

… DORMINDO profundamente da meia-noite às oito da manhã.

… TWITTANDO 10 a 20 vezes ao dia. (Siga-me aqui.)

… ESCREVENDO pouco.

… AGUARDANDO com ansiedade a estréia da temporada nova das minha séries preferidas na última semana de outrubro.

… TERMINANDO de arrumar o apartamento.

… ESPERANDO que Marlos Apyus termine de formatar meu livro Coração Parahybano em PDF para fazer o lançamento virtual, pela Internet.

… PLANEJANDO encontrar amigos que não vão viajar nesse feriadão.

… PROMETENDO assuntos interessantes no final de semana para este blog.

… BEIJANDO esfinges





O baobá, gigante vegetal

27 09 2009
Os baobás da Lagoa do Piató, em Assu-RN.

Os baobás da Lagoa do Piató, em Assu-RN.

Andei um dia desses falando aqui sobre as árvores, comemorando o seu dia; aí hoje me lembrei de uma paixão que tenho por uma árvore muito especial: o baobá, que é uma árvore sagrada para muitas culturas. Sua altura descomunal e sua circunferência avantajada o tornam um gigante entre as outras espécies, elevando-o a objeto de culto entre as tribos da África, de onde parece ser nativo. Para essas culturas, não é somente uma árvore: é portadora de uma grande e poderosa energia, e em muitas comunidades é considerada um “espírito protetor”.

Somente no Rio Grande do Norte existem, catalogados, dez baobás, sendo que sete deles se encontram no município de Assu, na fazenda Curralinho, às margens da lagoa do Piató. Existe mais uma dessas árvores em Jundiaí, outra em Nísia Floresta – cuja idade real provavelmente é muito maior do que aquela que está registrada na placa que existe na árvore – e o famoso “Baobá do Poeta”, que o poeta e advogado Diógenes da Cunha Lima em boa hora salvou do sacrifício comprando o terreno onde a árvore “residia” quando o proprietário, querendo construir no local, ameaçava derrubar a árvore.

O prof. John Rashford e o poeta Diógenes da Cunha Lima. Atrás, o "Baobá do Poeta".

O prof. John Rashford e o poeta Diógenes da Cunha Lima. Atrás, o "Baobá do Poeta".

Diógenes comprou a área, mandou cercar e tomou o baobá como seu filho adotivo. Ele lá está na rua São José, quase na esquina da Avenida Alexandrino de Alencar. Sempre passo por ali para ver como vai a imponente árvore e você que está lendo, se planeja visitar Natal, não deixe de ver essa preciosidade. Não sou botânica, nem agrônoma, mas amo as árvores e elas se entendem muito bem comigo. O baobá me disse, da última vez que passei por lá, que está tudo bem, embora esteja atravessando um período de seca, natural numa espécie acostumada com os rigores do clima africano.

Por conta desse meu amor pelas árvores, fotografei os baobás de Assu e coloquei-os no meu site. Lá, eles foram descobertos pelo professor John H. Rashford, da Universidade de Carolina do Sul nos Estados Unidos. Esse cientista é especialista em baobás e árvores sagradas, e estava para fazer um levantamento dos baobás existentes na América Latina e Caribe. Viu os baobás do Rio Grande do Norte no meu site, e veio parar aqui em Natal onde peregrinamos durante dois dias, sob os auspícios de Diógenes da Cunha Lima, medindo e fotografando todas essas árvores. Segundo o Dr. Rashford, o “baobá do poeta”, o filho adotivo de Diógenes, aquele mesmo que está aqui bem pertinho de nós é o segundo maior da América Latina e Caribe.

O Prof. Rashford mede a circunferência do "Baobá do Poeta".

O Prof. Rashford mede a circunferência do "Baobá do Poeta".

Então, minha gente, uma vez atualizados os nossos conhecimentos sobre o baobá, eu vou aproveitar a manhã para fazer uma visita à árvore, com calma, matando as saudades, como se estivesse visitando um parente muito velho, com muita coisa para me ensinar. Vou permanecer em silêncio ao lado desse gigante vegetal, regular o meu vermelho e agitado coração com o verde e calmo coração da planta e deixar brotar em a coragem dos chefes guerreiros que, nos tempos primitivos, eram sepultados de pé, com todas as suas armas, nas fendas da árvore. E sei que vou ficar feliz de pertencer a um mundo que nos dá de presente tantos e tão inusitados prodígios.





Estranho, bizarro, engraçado…

20 09 2009

Domingo preguiçoso esse em que eu, absolutamente incapaz de encadear uma idéia na outra, deixo aqui pra você esse álbum de figurinhas.

Philip Toledano

Foto de Philip Toledano

Castelo de Zé do Monte, construído pelo próprio nas brenhas do sertão do Rio Grande do Norte.

Quando vejo isso fico feliz de estar aposentada da docência...

Ô coceira danada!

Imaginem quando ela se curvar para jogar a bola...

Da série "Pérolas do Orkut.

Se você não se mexer, engorda. É o que diz a placa.

Eu quero um desse!

E finalmente esse banco que escapa a qualquer descrição!





Esfriando a cabeça

12 08 2009

Estou naquela fase de milhares de coisas para fazer e sabendo muito bem que o tempo não vai dar para fazer tudo. Vou mudar não só de apartamento como de cidade; e são muitas providências de última hora, mil detalhes a me chamar a atenção; se eu não fosse uma mulher muito organizada já estaria provavelmente à beira da loucura.

Sempre fui muito boa no planejamento de coisas; e a prática teatral durante anos completou aquilo que a vida não havia me ensinado, porque só faz um teatro de qualidade, principalmente quem produz, escreve, atua e faz outras coisas no mesmo espetáculo quem tem capacidade de organização.

Além disso, para o dia-a-dia, sou adepta do GTD, que é um método de organização pessoal e gerenciamento de tempo, criado pelo americano David Allen e que tem seguidores no mundo inteiro. Você pode ler alguma coisa no site Efetividade.net ou assinar a lista do Yahoo onde eu aprendi tudo que sei. Pode ainda, é claro, comprar o livro do titio Dave, Getting Things Done ou, em português, A Arte de Fazer Acontecer (Ed. Campus, 2005)

Finalmente, quando a coisa aperta no mundo das tarefas a cumprir, dos prazos estourados, dos relatórios atrasados e o que seja, o remédio melhor é esfriar a cabeça, como você pode ver na foto abaixo e que já virou mania na Internet, da qual você também pode participar.

Eu ensino. Tire uma foto sua “esfriando a cabeça”, ou seja, com a cabeça dentro da geladeira,  e chame o arquivo de “241543903″. Isso mesmo, essa sequência de números. Poste a foto em um blog, ou site, ou flickr, ou album on-line. Qualquer pessoa que digitar no Google “241543903″ vai encontrar um monte de fotos de gente com a cabeça dentro da geladeira, incluindo essa minha, e a sua, se você assim o fizer.

Para que serve?

Para nada. É mais uma das bobagens divertidas da Internet. (A foto foi feita by myself, especialmente para este blog).





Bobagem viciante

7 08 2009

No dia de hoje vai haver um momento especial. Esse momento vai ocorrer exatamente às 12:34:56 do dia de hoje, 7 de agosto de 2009.

Repito:

12:34:56 07/08/09

1 2 3 4 5 6 7 8 9

Importância disso? Nenhuma. É mais uma das bobagens que chegam às nossas caixas postais pela rede mundial de computadores, e que proliferam na mente de quem não tem o que fazer, como esta que vos tecla.

Sempre gostei dessas curiosidades, como aquela que mostra coincidências numéricas entre fatos da vida de Abraão Lincoln e John Kennedy. Não sei se são verdadeiras, nem me interessa, mesmo porque se forem não contribuem em nada para explicar os fatos da vida de um ou de outro.

E os joguinhos de inteligência, que você passa horas tentando resolver? Há um que propõe combinações de letras e números que devem ser decifradas, como 26 L no A (26 letras no alfabeto) ou 64 C num T de X (64 casas num tabuleiro de xadrez). Baixe aqui.

Há vários links na Internet para jogos de inteligência, Sodoku e outros. Você pode começar por aqui. A importância desses jogos é que aumentam a sua capacidade mental, exercitam seu cérebro, e previnem a esclerose cerebral e outras doenças degenerativas.

Outro jogo que gosto muito é o Bubble Shooter, no qual você tem que acertar umas bolinhas coloridas e assim acumular pontos. É um jogo altamente viciante e eu não recomendo se você tiver trabalho para fazer ou tarefas para cumprir. É só acessar o site Jogos Viciantes. Outro que gosto muito é o Bloxorz, que encontrei na central de jogos Koreus. Espere o jogo carregar e é só começar. Lida com habilidades espaciais, e é um jogo daquele tipo onde há dificuldades crescentes, em etapas.

Bem: acessando esses sites para linkar neste post, me deu vontade de jogar. Assm, fico por aqui com o texto, e corro para me entregar ao vício!





Jackson do Pandeiro e a Internet

4 08 2009
Jackson do Pandeiro

Jackson do Pandeiro

Hoje quero contar uma coisa engraçada, que me aconteceu no ambiente da Internet.

Em 1998 Jackson do Pandeiro foi agraciado postumamente com o Prêmio Sharp de Música. Procurando na Internet, descobri que não havia muita coisa sobre ele, e nenhum site que tratasse somente da sua obra. Aí, coincidindo com a entrega do prêmio, criei e coloquei no ar o primeiro site sobre Jackson do Pandeiro que foi feito neste país. Um site simples, bem abaixo da grandeza do artista mas era tudo o que eu, uma simples fã, poderia fazer para homenagear o imortal criador de O Canto da Ema. Ainda está no ar, é bem visitado e você pode acessá-lo no endereço http://jacksondopandeiro.digi.com.br

Recebo muitos e-mails de pessoas que o visitam e pedem informações, fazem sugestões e elogiam a inciativa. Mas também recebo emails de cantores e produtores perguntando se podem gravar as músicas de Jackson, ou onde podem comprar os discos, ou sugerindo que eu disponibilize os MP3 – o que não posso fazer, por causa dos diereitos autorais. Muitos também escrevem para o site pedindo informações sobre onde podem ter aulas de pandeiro ou pedindo ajuda para comprar pandeiros.

Mas nada se compara a um e-mail que recebi certa vez que transcrevo com todas as letras, resguardando obviamente a identidade da criatura que me enviou.

O e-mail dizia:

“Olá, Jackson. Tudo Bom?
Sou Fulana de tal, do site TalTal.com (www.taltal.com), um site americano de música, que tem escritório em Nova York, Buenos Aires e São Paulo, além de estarmos preparando nossa entrada na Europa.  Além de sermos um diretório de MP3, damos bastante destaque ao conteúdo, isto é, entrevistas, críticas, etc. Estamos com um projeto de uma nova seção, em que apresentaremos o perfil de personalidades da música. Não poderia, é claro, faltar você, que é, certamente, um dos nomes mais importantes da nossa música. Por isso, estou mandando este email.  Gostaria de marcar uma entrevista com você. Ela pode ser feita por email ou telefone, como preferir.
Aguardo resposta ansiosamente. Obrigada.  Atenciosamente,

Aí a criatura assinava, colocava 0 email e os telefones para contato.

Jackson e Almira, sua primeira esposa e partner.

Jackson e Almira, sua primeira esposa e partner.

Ora, aquele site na época era bastante respeitado no meio musical e eu fiquei surpresa com o desconhecimento de uma pessoa que deveria ser mais informada, como essa tal Fulana. Só para ver até onde ia a coisa, respondi que era possivel conceder a entrevista por e-mail e assinei como se eu fosse Jackson do Pandeiro.

Aí, ela me respondeu:

“Oi, Jackson! Tudo Bom?
Fiquei muito feliz com sua resposta. Estou enviando abaixo as perguntas. A seção deve estrear em breve, por isso, pediria que você me respondesse o mais rápido possível.  Ah, e me mande uma foto também, ok?  Muito obrigada novamente.
Abraço,

Enviou então umas vinte perguntas cada uma mais absurda que a outra, do tipo:

“Qual artista e/ou música que te enlouquece, te colocando para dançar ou faz você desligar o rádio? Qual o seu videoclipe favorito? Quem  são os (as) cinco artistas do mundo da música mais sexy de todos os tempos? Se você pudesse ser outra pessoa, quem seria?”

E isso sem nenhuma pergunta sobre a produção musical ou o processo criativo do artista. O pior de tudo é que na primeira página do site de Jackson do Pandeiro, através do qual ela havia feito contato comigo, tem as datas de nascimento e morte do cantor: “1919-1982″…

Para mais informações sobre Jackson do Pandeiro, visite o site http://jacksondopandeiro.com.br ou venha até Alagoa Grande, na Paraíba, onde está instalado o memorial que preserva a obra e o acervo do cantor. Ou então compre o livro “O Rei do Ritmo” (Editora 34) escrito pelos jornalistas Fernando Moura e Antonio Vicente.





De clique em clique

24 07 2009

Uma das melhores coisas da Internet é ficar zapeando por aí, descobrindo coisas estranhas, divertidas, inteligentes, instigantes.

Trouxe algumas delas hoje para você.

1. Catálogo de manuscritos medievais: um primor. Eu passo horas enfiada num site desses, imaginando que estou na biblioteca do Mosteiro de Saint-Gallo…  AQUI.

2. Um Quadrante. Para navegar e olhar as estrelas. Eu não navego, mas olho estrelas, e gosto de saber a altura de edifícios, de árvores… Fiz um para mim, que mostro na foto. Usei papelão, um canudinho de refrigerante, um barbante e uma argola de um brinco velho. Fiz a graduação dos ângulos com um transferidor escolar. Faça um para você e aprenda a usar AQUI e AQUI.

3. O homem cobra. Um dançarino turco incrível, contorsionista, e muito, muito lindinho…

4. Me diga se não é um luxo este papel higiênico! Achei AQUI.

5. A Cega Natureza do Amor, novo livro de Patrício Jr, que foi lançado em Natal há uns dias. Para divulgar a noite de autógrafos, casais encapuzados namoravam no maior shopping da cidade. Veja mais AQUI e AQUI.

6. Vida de solteiro. Sem comentários. Clique AQUI.

7. O Livro Egípcio dos Mortos. Uma coisa belíssima, um documento impressionante que, por sobre os séculos que nos separam dele, ainda conserva a força e a estranha beleza dos rituais fúnebres do Antigo Egito. AQUI.

8. Torneira. Quer me agradar? Me dê uma dessa de presente! A azul, eu quero a azul. E tem mais AQUI.

9. Colar de crochê. Um primor de habilidade. Belo belo belo. Mas é preciso ter um colo de acordo. Como diz o cantador de viola, “o pescoço é quem confeita o colar”. AQUI.

10. E finalmente esse bicho estranho, que deve se chamar PhotoShop, que nem fui eu que encontrei: ele apareceu aqui de enxirido!

Para divulgar o lançamento, casais encapuzados namoravam no maior shopping da cidade.




A primeira televisão

23 07 2009

Hoje quero apresentar ao meu caro leitor um amigo. É Adauto de Andrade, que se auto-descreve no seu blog Legal como advogado, pai, marido, técnico, contador de causos, fuçador e curioso de um modo geral e acrescenta: não exatamente nessa ordem.

Adauto

Adauto

A propósito do meu post sobre a chegada do homem na Lua, Adauto me respondeu dizendo que ele só tinha um mês e meio quando o fato aconteceu, e que por isso não se lembrava.  E informou que a casa do pai dele, “… ainda que modesta – era a única que tinha televisão (presente de meu padrinho, que havia quebrado a tv a machadadas – mas isso é outra história). Minha mãe conta que nesse dia todos os vizinhos possíveis e imagináveis se reuniram em casa para ver as notícias naquela tv preto e branco a válvulas e recém reformada.

Bem, eu fiquei curiosa sobre aquela história da TV quebrada a machadadas e exigi o relato, que, sem mais delongas, segue abaixo.

Fala Adauto:

“Meu pai, vulgo “Seo Bento”, do alto de seus 72 anos, continua firme e ativo – ainda que aposentado – com uma oficininha de conserto de televisores no fundo de sua casa.

“Foi mecânico a vida inteira, tendo vindo de trem de Santa Rita de Jacutinga, MG, para São José dos Campos, SP, aos onze anos de idade. Sendo o mais velho de um total de doze irmãos (e irmãs) foi para roça para plantar arroz com a família e cerca de dez anos depois resolveu ir para cidade. Conseguiu emprego numa fecularia e mais tarde numa mecânica de caminhões, ambos da família Renó.. Quando a empresa faliu, foi para a Johnson e lá ficou até sua aposentadoria.

“Tudo isso é só para contextualizar.

iub“Lá na mecânica conheceu o sr. Nobilino, encarregado, e que viria a ser meu padrinho de batismo. Vida dura, casou-se, construiu sua casa e teve três filhos (sendo eu o caçula). Minha mãe contribuía na renda familiar com suas costuras, mas, para ajudar um pouco mais, meu pai fez um curso por correspondência para conserto de rádios e televisores no IUB – Instituto Universal Brasileiro. Sempre após o serviço ficava acordado até tarde, ainda na cozinha de casa, consertando rádios e outros aparelhos.

“Numa época em que televisão ainda era um luxo, meu padrinho, seu chefe, sujeito já estabelecido e com mais posses – mas dado a violentos acessos de fúria – havia comprado uma dessas máquinas de fazer doido. Mas não é que a televisão apresentou defeito? Mexe daqui, mexe dali, fuça, vira, tenta, esmurra, acabou ficando puto, levou aquela “geringonça” para fora, bem no meio do quintal, e extravasou sua raiva a golpes de machado no pobre aparelho…

tv-quebrada1“Não sobrou muito.

“Ciente de que meu pai estava dando seus primeiros passos naquela arte eletrônica, juntou os cacarecos que sobraram da vítima e levou até em casa.

“- Toma, Bento. Se você conseguir fazer essa porcaria funcionar, ela é sua.

“O que para outros seriam lixo, para meu pai foi uma oportunidade! Jamais que ele teria como comprar um aparelho daqueles naquela época!

“Desmontou tudo, arranjou madeira (sim, as tvs de então possuíam caixas de madeira – ótimas para cupins…), e, usando suas habilidades de marcenaria, fez outra caixa para a televisão. Economiza daqui, compra uma válvula dali, solda acolá e, não demorou muito, o aparelho voltou à vida!

“E essa é a história da primeira televisão que tivemos em casa…





Ecos do passado

13 07 2009

Ando escrevendo minhas recordações. O principal objetivo disso é me distrair, uma vez que não tenho muita intenção de editar um livro – coisa trabalhosa e cara, que já fiz muitas vezes mas não tenho mais paciência para fazer de novo. A idéia é colocar o conteúdo escrito à disposição na Internet, para quem quiser ler.

Um dia desses andei por aqui publicando um trecho sobre um episódio que me ocorreu na época em que fui interna. Hoje trago ecos de uma passado mais remoto, quando eu era tão pequena que tinha que ficar de joelhos em cima de uma cadeira para acompanhar o que se passava em cima da mesa da cozinha, como verão a seguir.

O período é os anos entre 1950 e 1952, quando morávamos em Campina Grande, na rua Alexandrino Cavalcanti. A família era composta por meus pais, minha tia – um pouco mais velha do que Mamãe – que morava conosco, eu e meu irmão nascido em 1950. Eu devia ter uns quatro anos de idade nessa época, uma vez que nasci em dezembro de 1947.

O curioso é que hoje compramos o frango todo partido e embaladinho, sem sangue nem miúdos, ou já assado no supermercado e sequer imaginamos como era que se matava e tratava de uma galinha há sessenta anos.


(…)

Eu tinha 2 anos.

Eu tinha 2 anos.

Uma coisa de que bem me lembro nesses dias eram as manhãs cheias de sol, que dava na parte de trás da casa. Mamãe com os cabelos soltos nas costas colocando milho para as galinhas e a atenção com que a ave olhava o grão com um olho, depois com o outro e só então bicava certeira o caroço de milho e o engolia. Quando as galinhas engordavam, cabia a Tia matar a galinha, pois Mamãe dizia que não tinha coragem.

O ritual era minucioso e eu o acompanhava de perto. Um caldeirão de água era colocado para ferver e a matança só se iniciava quando a água começava a borbulhar, o que às vezes demorava um pouco, no lento fogão de carvão. A faca maior, a peixeira, era amolada no batente de cimento da cozinha. Iam então ao quintal cercar a galinha ou o frango escolhido, que era deitado no chão e Tia, de cócoras, pisava com um dos pés nas asas do bicho e com o outro pé nos pés do animal. Assim presa, a ave parava de se mexer, de “bater”, e tia arrancava com a mão as peninhas delicadas do pescoço da galinha, expondo a pele, onde passava a faca, interrompendo com a lâmina o jorro da artéria recém-secionada para que não sujasse a cozinha e pingasse somente sobre um prato colocado antes no chão, com um pouco de vinagre e um garfo.

Minha tia Adiza (1916-1990)

Minha tia Adiza (1916-1990)

Quando o sangue parava de jorrar, ela batia o sangue com o garfo, misturando-o ao vinagre para que não coagulasse, e aquela mistura iria servir de base para a cabidela, que era como chamávamos o “molho pardo”. Ela saía então de cima da galinha, colocando discretamente a cabeça do bicho sacrificado debaixo de uma das asas enquanto batia o sangue. A panela de água fervente recebia o corpo da galinha, mergulhado nela pelos pés, e as penas eram assim arrancadas. Essa operação produzia um odor esquisito, de pena queimada e cocô de galinha, que nunca esqueci.

A segunda fase era “tratar” da galinha, ou abri-la. Mamãe colocava uma cadeira encostada à mesa, onde eu ficava de joelhos, prestando atenção a toda a operação, que me deixava fascinada. A galinha era aberta pela frente, pela titela, depois de ter a cabeça e os pés cortados. Os miúdos eram retirados, e eu via os grãos de milho ainda dentro do papo, a moela onde os grãos eram triturados e – como Mamãe explicava – cheia de pedrinhas que a galinha engolia para ajudar no amassamento do milho engolido, o fígado e a “passarinha”, ou baço, o coração com suas artérias, o “bofe”, ou pulmões e as tripas, que eram lavadas, viradas, lavadas de novo e assadas sobre a grelha no fogão.

Meus pais, Nilo e Cleuza, em 1950.

Meus pais, Nilo e Cleuza, em 1950.

Tudo aquilo exercia sobre mim uma grande fascinação. A galinha era partida pelas juntas, ou articulações, mas tudo ia para a panela. Só se colocava no lixo o papo, o bofe e uma parte da cabeça. Cada um tinha seu pedaço preferido e eu me lembro que sempre gostei das asas e da moela e Tia adorava os pés. Mamãe escolhia o sobre-cu, e o pescoço. A papai sempre eram destinadas as coxas e a titela, mas isso era comum naquele tempo: ao chefe da casa, os melhores pedaços de carne sempre eram reservados e embora à noite nós só comêssemos cuscuz com leite e café, para Papai sempre se reservava um pedaço de carne que ele comia com arroz ou macarrão. Ele não comia comida do sertão; e se não houvesse arroz, macarrão ou carne, ele só comia pão com café e talvez um ovo, com a gema bem mole, onde ele ia umedecendo os pedacinhos de pão, só da casca, pois ele detestava o miolo, que tirava todinho e empilhava ao lado do prato.

(…)


O blog não tem fotos da mortandade das aves mas aqui vc vai encontrar processo semelhante, com fotos.





Arquitetura bizarra

8 07 2009

Andei olhando tanto edifício por aí com essa história de alugar apartamento (já aluguei, thanks God) que terminei pegando gosto no tema. Aí, dei uma passeada na Internet e encontrei umas coisas bem curiosas que posto aqui.

1.Edifício que gira, em Dubai. O link é http://paccas.wordpress.com/2008/10/02/edificio/. Existem muitos, há alguns no Brasil, mas eu gostei mais desse.

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2. Essas fachadas curvas, em Sopot, Polônia, me deixam de bobeira. Se por dentro for assim, vai ser difícil encontra mobília que dê certo! No meu prédio atual tem uma parede redonda no quarto, inútil, não gosto de colocar nada encostado nela. Olha o link: http://curiosidadesnanet.wordpress.com/2008/07/29/edificios-estranhos/

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3. Em Paris, esse edifício estranhíssimo, parecendo que saiu de um filme de terror. Veja em http://www.maniacworld.com/strange-building-in-paris.html

predio-strange-building-in-paris-1


4. Este é no Japão, colorido e lindo. Eu adorei. http://rossignol.cream.org/

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5. E tem muito arquiteto – ou construtor, ou gente – suficientemente maluco pra construir uma coisa dessas. Veja em  http://rpittham.wordpress.com/

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6. Em Boston, MA, pertencente à Univesidade de Cambridge, esse projeto de Frank Gehry causou confusão e reclamações. Bonito por fora, mas completamente inviável por dentro. Veja mais em http://bostonist.com/2007/11/06/mit_sues_gehry.php

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7. Com o telhado cor-de-rosa, mas de cabeça para baixo. Essa esquisitice você vê em http://shakandjill.com/2007/07/strange-houses.html

predio corderosa]weirdbuilding


8. Neste, em Branson, Missouri,o arquiteto quis chamar a atenção para os possíveis danos de um terremoto. http://www.toptenz.net/top-10-eccentric-buildings.php

predio partido ao meio]ripleys-believe-it-or-not-building


9. Prédio em foram de cesta, em Ohio, construído pelo dono de uma fábrica de… cestas.  http://curiosidadesnanet.wordpress.com/2008/07/29/edificios-estranhos/

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10 . Para fechar a lista, este prédio em Xangai, cuja única esquisitice foi desabar inteirinho sem se partir. Eu pergunto: você moraria em um dos prédios iguais, próximo a ele? O link é  http://hypescience.com/predio-de-13-andares-cai-como-um-poste-em-xangai/

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Conta de mentiroso

7 07 2009

Hoje, dia 7 do 7, por sugestão da escritora Leila Miccolis, republico com algumas modificações um texto que saiu há uns meses no Correio da Paraíba sobre o número 7. Este texto também está sendo publicado no site da Leila, o Blocos on Line.

7Todo mundo sabe que “sete é conta de mentiroso”. Mas é um número que eu gosto, sabe-se lá o motivo. Os numerologistas devem ter explicações para isso, mas o número sete permeia a minha vida e quando preciso escolher algo que tem a ver com quantidades menores do que 10, escolho o sete, sem piscar.

Sete são as maravilhas do mundo, os pecados capitais, os dias da semana, as cores do arco-íris, os anões da Branca de Neve, as notas musicais, as vidas do gato e finalmente os sete palmos que pesarão sobre nós no dia fatal, seguido pela missa do sétimo dia. Tudo em sete.

Ultimamente, para espantar o tédio dos dias, andei fazendo uma brincadeira com o número sete fazendo listas de 7 coisas. Tenho me divertido muito com essas pequenas listas, que divulgo pelo Twitter (http://twitter.com/ClotildeTavares). Hoje compartilho com você algumas delas.

haagen-dazsVamos começar pelas 7 delícias culinárias, que adoro, e que vivem constituem constante ameaça à minha dieta: penne al pesto, camarão termidor, umbuzada, maionese de lagosta, xerém com galinha guisada, haagen-dazs, arroz-ovo-ketchup. Esse último item é porque, quando a gente está enjoada de toda essa comida sofisticada de restaurante, nada como “comida-de-estudante”: arroz-ovo-ketchup.

As 7 coleções que faço: caixinhas, bichinhos de barro, leques, livros minúsculos, traduções do Hamlet, canecas, folhetos antigos de cordel. 7 séries de TV que acompanho: Two and a Half-Man, The Big Bang Theory, Fringe, C.S.I., Ugly Betty, Desperate Housewives e The Sopranos. As 7 coisas que adoro fazer: ler, escrever, dançar dança-de-salão, compartilhar o que sei, bater papo, atuar no palco, pesquisa genealógica.

No cinema, os 7 atores que pagam o filme: Kevin Spacey, Albert Finney, Ian McKellen, Anthony Hopkins, Sean Connery, Harrison Ford, Al Pacino. Mais 7 atores bonitões que também pagam o filme: Brad Pitt, Leonardo de Caprio, George Clooney, Tom Cruise, Johnny Depp, Denzel Washington e Viggo Mortensen. 7 comedias adocicadas imperdíveis: A Garota de Rosa-Shocking, O Cantor de Casamentos, Uma Bela Mulher, O Clube das Desquitadas, Uma Secretária de Futuro, Sabrina e Casamento Grego.

pontanegraAgora, 7 lugares em João Pessoa que eu adoro: calçadão do Cabo Branco, bistrô Savoir, Salão de Artesanato em janeiro, Terraço Brasil, o cafezinho do Shopping Manaíra no primeiro andar, Restaurante Mediterrâneo e o Sebo Cultural. E, finalmente, 7 lugares em Natal: Ladeira do Sol, cafezinho da Siciliano do Midway, Restaurante Camarões (o antigo), Mamma Itália, Pizza Pazza, luar em Ponta Negra e o pôr-do-sol olhado da Capela do Campus.








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