A fala dos bichos

30 06 2009

beija_f1aaO beija-flor, suspenso no ar diante dos hibiscos do quintal, arrulha. A ovelha, paciente e terna, bale. O pardal inquieto chilreia. O peru, majestoso e solene como um juiz togado, gorgoleja. O canário, em súbita aparição nas frondes do coqueiro, trina, mas o encanto dura pouco e ele desaparece no azul. A cobra silva e logo se esconde, deslizando sua serpeante anatomia por entre pedras e arbustos. O sagui, reclamando suas bananas de todo dia, chia. A mosca zumbe, impedindo o sono matinal.

onçaA onça, nos grotões esquecidos, esturra. O lobo uiva, em qualquer filme de vampiro. O jumento, excitado e descomunal, orneja. O cachorro ladra, late, gane, rosna, acua e uiva imitando o lobo. O cavalo relincha e nitre, entre nuvens de suor, levantando as patas no ar. O cabrito berra. Ou melhor: o mau, porque o bom cabrito fica caladinho de tão sonso. A andorinha gorjeia em revoada fazendo o verão, como num samba antigo. O corvo crocita seu eterno nunca mais, e prenuncia desgraças. O ganso grasna e grita, espantando os intrusos. O sapo coaxa, mora na beira da lagoa e não lava o pé porque não quer. O porco grunhe, ronca, guincha e se revolve na lama quente e macia, enquanto acumula delícias em sua carne suculenta.

elefanteO elefante barre. A galinha cacareja, cacareja, cacareja e o galo canta e clarina enquanto os pintainhos piam, desesperados e carentes. A abelha zune, zumbe, zunzuna, zonzoneia e zoa, tudo com “z”, somente para fazer mel. O bode bodeja, arrastando sua imponência de pai-de-chiqueiro atrás de cabras e cabritas, que berram e balem, mas ficam para ver qual é a proposta.

cegonhaA cegonha eu nunca vi, mas dizem que glotera. O morcego trissa e farfalha, em vôos rasantes e sonarizados, desafiando os obstáculos. O papagaio parla e protagoniza anedotas. A cigarra canta, chia, cigarreia, estridula e retine, a zombar da muda e estúpida formiga que, muda como o peixe,  trabalha sem parar. O gavião guincha, com as garras famintas de preás rechonchudos. O touro muge, tuge e brame. A vaca, com seus olhos doces e suaves, também muge, mas noutro tom. O grilo tritrila e estridula quando a noite cai.

E o gato? O gato ronrona, mia, resmoneia, rosna e reina sobre a casa, da qual é dono e senhor.

Everaldo, que uma noite sumiu e nunca mais voltou.

Everaldo, que uma noite sumiu e nunca mais voltou.





Procurando apartamento para alugar

29 06 2009
Natal, cidade impossível.

Natal, cidade impossível.

Estou procurando apartamento para alugar. Para os seguidores deste blog que não me conhecem, o apartamento que procuro é em Natal, capital do Rio Grande do Norte, uma cidade linda, perfumada, agradável, cidade onde morei durante 35 anos e da qual estou ausente há quatro, morando na capital parahybana a 180 km de distância. Eu gosto de definir Natal dizendo que ela é uma cidade impossível, como aquelas cidades do livro de Ítalo Calvino, porque Natal encerra tantas contradições, tantas coisas boas ao lado das piores, tudo tão entrelaçado e misturado que muitas vezes corta todas as nossas possibilidades de se viver nela. Mas meu tempo na Parahyba acabou. A saudade dos filhos e netos vem aumentando e agora estou de volta: é isso que importa.

As caixinhas, e a "moça com brinco de pérola".

As caixinhas, e a "moça com brinco de pérola".

A experiência de procurar apartamento em qualquer cidade é algo quase transcendental, pelo muito que envolve, pelas energias mobilizadas, pela ansiedade, pelo quadro em branco que é um apartamento onde não moramos ainda e que queremos encontrar, que só existe na nossa mente, espaço desejado e ainda não encontrado, dentro do qual precisamos inscrever mesmo que somente na imaginação os locais para o sofá, os livros, a mesinha preferida, as cortinas, a coleção de caixinhas, a posição da cama, os quadros, as fotografias.

Será que cabe?

Será que cabe?

Aí, entramos naquela habitação vazia, nua, asséptica, recém-pintada, e começamos a pensar: será que meu sofá cabe nessa parede? Será que quando estiver sentada aqui vou gostar de ver sempre essa porta da cozinha que abre direto na sala? Esse corredor estreito não vai me dar claustrofobia e me fazer rememorar o trauma do parto toda vez que eu passar por ele? Essa pia da cozinha tão alta não vai me deixar com dor nas costas? Será que tem barulho? Debruço na janela do quarto e vejo bem em frente aquela estrutura colorida de madeira na qual as crianças adoram subir e descer sem parar. Não, este positivamente não é o apartamento que quero.

Apartamento-colméia

Apartamento-colméia

Tenho andado bastante nesses dias. E tenho encontrado – com algumas exceções – apartamentos de dois tipos. O primeiro tipo é o que chamo “colméia”. Apartamentos de 55 m2, com 3 quartos, sendo duas suítes, e mais dependência de empregada. Aí é assim: você põe o sofá na sala, o sofá de três lugares, mas não cabe o de dois; a TV tem de ser de 14 polegadas, porque vai ficar quase diante do seu nariz; num dos quartos vai a cama, e no outro o armário; caso eu habite um desses, o terceiro quarto fica para os livros, dos quais devem caber apenas um terço dos que tenho. Os banheiros saõ engraçados: sentando no vaso, os joelhos encostam na parede da frente; e felizmente não sou homem porque penso que se fosse teria que me preparar para usar o banheiro ainda fora do quarto, já que lá dentro não há espaço para abrir o zíper. E a dependência de empregada? É naquele caixote que querem que um ser humano durma? Naquele caixote sem janelas? Uma múmia egípcia estaria mais confortável no seu sarcófago.

As torres

As torres

Esses apartamentos/colméias distribuem-se muitas vezes em torres de número variado, com a chamada área de lazer com diversos equipamentos como piscina, parque, salão de jogos, salas de ginástica, salão de festas, churrasqueira… mas eu não uso nada disso. É o apartamento ideal para o casal jovem: ambos trabalham fora, e só chegam em casa à noite onde, depois de ver Tv por meia hora, caem no sono. Os filhos, protegidos e acompanhados pelas empregadas, desfrutam da área de lazer durante o dia, quando não estão na creche ou na escola. Perfeito. Para eles, não para mim.

Olhaí a tal varanda-gourmet!

Olhaí a tal varanda-gourmet!

Já o segundo tipo de apartamento é o inverso. É o apartamento do novo-rico. Duzentos, trezentos metros quadrados, quatro suítes com closets, sala para home-theater, outras salas “íntimas”, quatro vagas na garagem, hidromassagem, ofurô, adega, escritório, e uma coisa chamada “varanda-gourmet”, que é uma varanda grande que tem numa das extremidades uma churrasqueira. Aí eu imagino: o cara começa a vida morando na periferia, fazendo churrasco “na laje” e convidando toda a vizinhança; depois melhora de vida e vai para um condomínio-colméia com churrasqueira coletiva, mas descobre que aí já não é mais tão agradável se misturar com os semelhantes. Daí a alguns anos os filhos crescem, ele progride mais, e então está pronto para a varanda-gourmet, que não deixa de ser uma forma sofisticada de “churrasco na laje”…

Ah!... Um loft!

Ah!... Um loft!

As construtoras e arquitetos – ou ambos – e ainda o mercado imobiliário não estão nem aí para pessoas como eu, que vivem sozinhas, que têm móveis e objetos queridos dos quais não querem se desfazer, que possuem coleções que precisam ser acomodadas, e que não necessitam de um monte de cubículos, nem de área de lazer ou “varanda-gourmet”. E fico vendo aqueles filmes americanos como “Ghost”, por exemplo, e doida pra morar num “loft”, aquele “vão” enorme onde eu pudesse espalhar minhas coisas e andar, caminhar para lá e para cá nas horas em que estou atrás de idéias para escrever estes meus textos.

Minha sala, na Parahyba.

Minha sala, na Parahyba.

Eu só quero uma sala grande – grande é o modo de dizer, de uns 25 a 30 m2. A que tenho agora é formada por dois quadrados: um de 3m x 3m e outra de 4m x 4m e cabe muito bem meu conjunto de estofado, minha TV, a cadeira que reclina, e minhas mesinhas com porta-retratos e coleções de caixinhas. Nem mesa de jantar eu tenho. Pois é: aquela mesa que todo mundo tem, com seis cadeiras e guarda-louças, eu não tenho, porque não preciso! Além da sala, preciso de um segundo cômodo que é o quarto, para a cama, a cômoda e um pequeno armário de um metro de largura; e o terceiro cômodo para os livros. Se a sala for grande, ponho os livros na sala e elimino um cômodo! A cozinha, um lugar para lavar roupa, e pronto. Mas tudo de um tamanho que eu possa dar três passos sem esborrachar o nariz numa parede.

Uma varandinha, uma rede...

E quero uma varandinha, uma rede...

Então, meu caro leitor, está duro de encontrar. Mas eu vou insistir. Continuo procurando. Além do que citei acima, gosto de “vista”. Preciso de uma varandinha que caiba a rede, e que dê pra ver o mundo, as estrelas de noite, e a lua quando nasce, ou Vênus, logo antes do  amanhecer. Tem que ser um pouco alto, mas não precisa ser de frente para o mar. Gosto muito de observar a vizinhança, casas, quintais, copas de árvores, carros, avenidas e eventualmente outros edifícios, desde que não fiquem muito perto do meu.

Encontrei um assim: um céu. Vigésimo andar, tamanho razoável, vendo toda a baía de Ponta Negra. Mas entre aluguel, condomínio, IPTU e outras taxas saía por mil e setecentos reais, e eu não posso pagar tanto.

Mas espero. Como minhas intenções são boas, meu espírito está em paz e sempre me alinhei ao lado das forças do Bem e da Justiça, sei que o Universo vai me oferecer, na hora adequada, a morada dos meus sonhos, onde eu possa viver mais um período da minha vida, no meio dos meus livros e fotos, perto dos meus filhos e netos, nesta cidade que, apesar de impossível, é a mais concreta possibilidade de vida que eu tenho agora.






Camas

28 06 2009

Domingo, dia bom pra passar o dia na cama, nosso assunto – visual – de hoje.

Começando com a cama de Luís XVI, no Louvre.

Cama do rei

Achei na Wikipedia.


Cama de Elvis Presley.

Cama de Elvis Presley.

Achei aqui.


Cama de Mahatma Gandhi.

Cama de Gandhi.

Achei aqui.


Cama do Padre Cícero Romão Batista.

Cama do Padre Cícero Romão Batista.

Achei aqui.


Cama de Ernest Hemingway. Um gato dorme sobre ela, como ele gostava.

Cama de Hemingway. Um gato dorme sobre ela, como ele gostava.

Achei aqui.


Cama de Napoleão Bonaparte em Versailles.

Cama de Napoleão Bonaparte em Versailles.

Esqueci onde achei.


Cama de Jackie Kennedy, na casa Branca.

cama_jacqueline_kennedy

Achei aqui.


Minha cama.

visao geral





O gosto que nunca tomei

27 06 2009

Hoje o Umas & Outras traz um convidado: o jornalista Rodrigo Levino, nascido no Rio Grande do Norte, atualmente experimentando a dura poesia concreta das esquinas de Sampa, a quem incomodei por uma crônica ou texto. Aí ele vai e me manda esse texto falando sobre futebol e copa do mundo, assunto cheio de testosterona, que por isso mesmo vai dar uma injeção de novidade neste blog.


Rodrigo Levino

Rodrigo Levino

Mario Ivo indaga via MSN se estou satisfeito com a escolha de Natal como uma das cidades-sede da Copa do Mundo de 2014. Satisfeito não é a palavra. Insatisfeito também não. A verdade é que eu procuro desde uns seis ou sete anos de idade me comover com o futebol. Até agora, nada. Quer dizer, o problema não é com a escolha em si, mas com o gosto que eu nunca tomei.

A vida para um míope e astigmático diagnosticado aos quatro anos de idade não é um show de bola. Pelo contrário, meio caminho andado para ser um perna-de-pau. Ali pela época em que todo moleque se joga na várzea atrás de uma pelota, eu estava enfurnado em casa. Nunca fui acometido pela vergonha oceânica de, no meio da partida, ter a mãe gritando da janela ou pior, vindo até o campo improvisado e arrastar pelas orelhas, perguntando quando é que eu iria deixar esse negócio de futebol de lado e estudar de verdade. Dona Miriam nunca precisou se ocupar disso.

Entrar em campo com os óculos era pedir para saírem espatifados, de queda ou bolada. Jogar sem eles, impossível. Sem ter idéia de por onde a bola anda em campo, de tão cego, é muito provável que aos poucos você seja excluído do jogo, vá saindo da grande área pela lateral e quando der fé já está sentado na arquibancada ou tomando rumo de casa. Aconteceu comigo.

Copa, festa, alegria, rojão e emoção mesmo, dessa que faz Alex Medeiros e Rafhael Levino sumirem por um mês, enquanto duram os jogos, aconteceu uma vez e lá se vão 13 anos. Final do campeonato interno do Educandário Santa Teresinha, Caicó. As duas oitavas séries num embate que causou estrago em amizades de infância. Escalado para o time com o único intuito de divertir a massa e quebrar pernas, caso necessário, tive a grande chance nos estertores finais da partida. Meu time perdia por um gol. Falta perto da área. “Você bate. Chute com força, não precisa nem olhar”, aconselhou Filipe Torres.

A arquibancada gritava “Cegão! Cegão! Cegão!”. Eloquente a voz do povo. Ajeitei a bola, dei dois passos para trás, corri e… Nada. Na hora H faltou o traquejo, a malícia, a paixão, sobrou frouxidão e a insegurança que artilheiro nenhum pode ter. Não chutei a gol. Pela diagonal esquerda saiu uma bola murchando até chegar ao atacante, completamente cercado, enquanto o goleiro jazia adiantado e a barreira completamente aberta, prontos para receberem o meu primeiro gol, comemorado como se fosse final de Copa.

Nunca mais toquei numa bola de futebol. Nem assisti jogo nenhum. Ou seja, pensando assim como deve pensar um torcedor, não faço a menor idéia do que pode ser uma Copa do Mundo em Natal, porque o jogo que importava mesmo eu perdi faz tempo, ali por perto da Catedral de Sant’anna, em Caicó.





Michael Jackson: Too bad too bad about it!

26 06 2009

Michael Jackson não foi um dos meus ídolos. É claro que eu o conhecia, desde a época do Jackson Five, e acompanhei mais ou menos a sua trajetória na música, sem prestar muito mais atenção a ele do que prestava a outros cantores americanos de que eu gostava mais.

Na década de 1970, meu filho mais velho tinha um grupo de dança de rua, tipo “break” e eu comecei a prestar mais atenção naquele artista cuja performance no palco era tão precisa, tao enérgica, tão elétrica, tão sensual. Quando em seguida a minha filha um pouco mais nova tornou-se pré-adolescente, também virou fã do cantor e vivia a me pedir uma roupa cheia de zíperes, de couro preto, igualzinha à dele. Comecei a prestar mais atenção no artista e cada vez gostava mais.

Era o dia todo rodando o vinil Bad, naqueles tempos pré-CD. Too bad! Too bad! Too bad! E quando o clip aparecia na TV, eu largava tudo e ia olhar. E depois foi a vez de Thriller.

Nunca me interessei pela vida particular do artista. Sei que casou com a filha do Elvis, que teve filhos com outras mulheres, que se envolveu em escândalos com crianças, que tinha uma doença na pele que terminou deformando seu rosto e que aparecia com máscara e óculos escuros em frente às câmeras de TV para evitar os paparazzi e para não expor sua privacidade, sua e de seus filhos.  Nunca fiz julgamentos morais de artistas. Acho bobagem.

Para mim, a doação da música, da dança, da energia vibrante e alegre sobre o palco foi suficiente, e eu a aceitei carinhosamente, como um presente que o artista quis me dar, a mim e a seus milhões de fãs, e é isso que agora importa, nessa hora em que registro com tristeza a morte dele, ocorrida hoje à tarde.

É isso que quero agradecer aqui. O mais, é coisa da Vida, tão misturada com a Morte que às vezes a gente pensa que é tudo uma coisa só. Too bad!

UPDATE – O leitor avisa que eu inverti as datas, que Thriller veio antes e Bad depois. Eu me lembro de tudo junto, e o tempo da recordação é assim mesmo, misturado. Fica feita a observação.

MIchael





Facilitando a vida

25 06 2009

Hoje, com preguiça de escrever, vou lhe apresentar aqui umas dicas de organização e facilitação da sua vida, retiradas dos sites que visito o tempo todo e todas testadas por mim.

1 No site Efetividade.net o que fazer com os documentos, recibos de bancos e extratos de contas. Jogo ou não jogo fora? A respota está aqui. http://www.efetividade.net/2009/06/23/organizacao-de-documentos-em-casa-nova-lei-pode-acabar-com-nossas-montanhas-de-recibos/

2 Antonio Azevedo diz: “Faça agora”. E é mesmo! http://www.antonioazevedo.com.br/2008/10/faca-agora/

3. PocketMod ajuda. Faça um para você. http://repocketmod.com/

4. Use esse diagrama de produtividade http://rmaues.org/blog/2009/03/27/nerdy-productivity/

5. A melhor lista telefônica virtual. http://www.102web.com.br/telemar.htm

6. Tabela supercompleta de calorias. http://www.cdof.com.br/nutri4.htm

7. Cozinha pra quem não sabe cozinhar direito. http://www.muitogostoso.com.br/

8. Um timer on line para você não esquecer a panela no fogo. http://e.ggtimer.com/1minute

9. Converta qualquer documento em PDF. http://www.freepdfconvert.com/

10. E se o barulho da vizinhança lhe incomoda, informe-se aqui. http://www.chegadebarulho.com/

Finalmente, se nada der certo, chame o Aristeu.

aristeu-evangelico-honesto_1





As estampas do sabonete Eucalol

24 06 2009
Carrinhos do Kinder-Ovo

Carrinhos do Kinder-Ovo

Ontem o meu neto veio me visitar e perguntou onde estavam os meus carrinhos. Os carrinhos aos quais ele se refere é uma coleção de minúsculos carrinhos, motos, caminhões, barcos e aviões que eu fiz durante um tempo da minha vida e que vinham dentro do “Kinder-Ovo”. Para quem não sabe do que se trata, o Kinder-Ovo é um “ovinho” que tem chocolate numa metade e um “brinquedo” na outra, geralmente coisas minúsculas e bonitinhas. Eu passei um tempo da minha vida colecionando tudo o que fosse de veículo que saía dentro dos ovinhos, depois de comer o chocolate.

Aí, por tabela, me lembrei de um dos maiores fetiches dos colecionadores brasileiros que são as estampas do sabonete Eucalol, que ainda conheci na minha infância. Entre meus tesouros infantis, tinha algumas, que terminaram sumindo na voragem dos anos. Mas o que eram essas estampas?

Nas caixas de sabonete Eucalol vinha sempre esse pequeno retângulo ilustrado em papel-cartão, mais ou menos do tamanho e formato de uma carta de baralho e “durinha”. Eu lembro de que guardava as minhas, que eram poucas, amarradas numa cinta de elástico, e trocava com outras crianças quando havia duplicatas.

Elas começaram a circular em 1930 e foram até 1957. Havia séries temáticas, como “A Vida de Santos Dumont”, “Aves do Brasil”, “Compositores Célebres”, e outras. Foram ao todo 54 temas distribuídos em 2.400 estampas.

Samuel Gorberg, pesquisador e colecionador, é autor de um livro sobre o assunto, com muitas informações on line no seu blog. Segundo Gorberg, séries como “História do Brasil” e “Lendas do Brasil” eram usadas em escolas pelo Brasil afora como material didático; uma das séries mais interessantes é “Viajando pelo Brasil”, desenhada pelo artista Percy Lao, que ilustrava os livros do IBGE.

O colecionardor Ariel Schneider, no seu site dedicado aos colecionadores e ao colecionismo, refere ter todas as 2.400 estampas na sua coleção, contando todo o seu trabalho para conseguir completá-la. Encontrei em vários sites da Internet as estampas para venda com preço que variam entre R$ 10,00 a R$ 25,00 cada.

Nasci com o vírus do colecionismo. Tenho a forma atenuada da doença e por isso me controlo e não encho a casa de objetos. Mas lá estão minhas caixinhas, meus folhetos de cordel antigos, minhas edições de Hamlet, meus livrinhos minúsculos, minhas canecas de louça, os livros sobre temas medievais… Entre esses objetos faz falta a minha nascente e desaparecida coleção de estampas do sabonete Eucalol, que deve ter se perdido quando eu fui para o internato aos oito anos de idade. Poucas, manuseadas, amarradas num elástico. Inesquecíveis.





Alavantu, anarriê!

23 06 2009

quadrilha_estili_04Todo ano e sempre por esta época eu abro espaço nas minhas colunas para falar sobre esse fenômeno das quadrilhas juninas, completamente desvirtuado desde que invetaram essa tal de quadrilha estilizada. O meu caro leitor, muito mais bem informado do que eu, poderia até dizer que eu não posso reclamar, uma vez que a cultura popular é assim mesmo, sujeita a mudanças, a modificações, e que essa dinâmica é uma característica do folclore.

Mas eu lhe digo que essas tais quadrilhas estilizadas não têm nada a ver com folclore ou cultura popular, sendo nada mais nada menos do que cultura de massa, criadas e veiculadas pela mídia televisiva, que lhes dá suporte, promoção e divulgação. Essas quadrilhas estilizadas surgiram há mais ou menos uns quinze ou vinte anos e apareceram primeiro, se não me engano, no programa da Xuxa, na TV Globo, como parte das coreografias apresentadas ali. O que sai na Xuxa o Brasil copia, e foi isso que aconteceu.

Definindo melhor, eu diria que estas quadrilhas são ” uma nova forma de expressão junina, que não é uma quadrilha matuta, mas um grupo de dança que tem uma coreografia própria, com passos criados exclusivamente para a música escolhida, como num corpo de balé. O grupo incorpora alguns personagens como Lampião, Maria Bonita, vaqueiros, espanholas e ciganos. Os seus trajes lembram roupas típicas do folclore dos pampas gaúchos, de uma escola de samba ou o faroeste americano.” Então, chamar este tipo de espetáculo de “quadrilha junina” e dizer que ele “preserva nossas tradições culturais”, como tem sido feito pela mídia, é exagero e falta de informação. Estas quadrilhas são simplesmente uma estilização bela e luxuosa mas artificial das verdadeiras quadrilhas juninas originais.

Quadrilha estilizada.

Quadrilha estilizada.

Da mesma forma que os Carnavais fora de época, que não têm nada a ver com o Carnaval de verdade; e os Rodeios e Vaquejadas atuais, que há muito se distanciaram da Vaquejada Nordestina, essas quadrilhas não têm muito a ver com a tradição original e são eventos fabricados para atender a uma necessidade de diversão de um segmento da população e para dar lucro aos empresários do setor. Um negócio, como outro qualquer, organizado pelas afiliadas da TV Globo em todas as capitais do Nordeste, com um forte esquema de divulgação através de VTs no horário nobre. Funcionam como um concurso, com várias eliminatórias, e no dia da final há chamadas ao vivo de meia em meia hora. Nenhum evento da cultura popular, com exceção talvez do Carnaval, tem uma cobertura tão maciça.

Quadrilha estilizada.

Quadrilha estilizada.

Quando faço esse tipo de crítica, todo mundo diz que isso é bobagem, que é um evento bonito, colorido, que atrai público. Ora, não sou doida. Sei que o espetáculo é colorido, que é bonito e que atrai público. Tem mais: acho ótimo que aconteçam na cidade mais e mais eventos desse tipo. Mesmo que alguns não sejam do meu agrado é bom que existam para todos os gostos. Também encaro com muita simpatia os empresários do lazer, que vendem felicidade, riso e diversão enquanto alguns vendem armas, bombas e mísseis.

Repito: nada contra. Mas é preciso que seja feito esse esclarecimento para que tanto as pessoas de fora do Nordeste quanto as novas gerações, que não conhecem a origem da tradição, saibam a respeito daquilo que estão fazendo e vendo. Imagine só se um turista chega aqui e assiste essa quadrilha estilizada: vai pensar que está no Texas, ou nos pampas gaúchos, e não no Nordeste.

Quadrilha matuta.

Quadrilha matuta.

A quadrilha junina “de verdade” eram antigamente dançada nos salões das casas grandes de fazenda ou nas humildes palhoças dos sítios, em ocasiões festivas como casamentos, batizados e outras, eram comuns nos séculos XVIII, XIX e primeira metade do século XX copiando, à maneira simples do nordestino, a quadrilha francesa dançada nos salões europeus da época. “Alavantu” é “en avant tous”, que quer dizer “todos à frente” e “anarriê” quer dizer “en arrière” , “para trás”, em francês.

Quadrilha matuta.

Quadrilha matuta.

Com a modernização e a entrada do Nordeste no século XX, com estradas, rádio e outros hábitos que foram incorporados à vida da região, as quadrilhas originais foram aos poucos deixando de existir e passaram a ser dançadas apenas no São João, acompanhando uma encenação mais ou menos improvisada de um casamento matuto. É um resquício, uma “sobrevivência”, como dizem os folcloristas, de algo que não existe mais na sua forma original. Em toda festa de São João, não importa o tamanho e a quantidade de pessoas, sempre se dança uma quadrilha, que é tanto mais divertida quanto mais improvisada.

Atualmente, como vi hoje no noticiário da Rede Globo, os concursos são organizados em três categorias de quadrilha: estilizada, comédia e tradicional. Na tradicional, ou matuta, segundo as explicações do apresentador, as moças se vestem com vestidos de tecido barato, geralmente chitão, e os homens com calças remendadas e chapéus de palha. Além disso, eles se movimentam utilizando “trejeitos próprios dos sertanejos” – mas aqui pra nós eu nunca vi um sertanejo andar daquele jeito, pelamordedeus.

Quadrilha estilizada: parece o can-can!

Quadrilha estilizada: não parece o can-can?

Na quadrilha estilizada, os homens usam terno e as moças usam vestidos luxuosos e bordados. Há um enredo, uma música que todos têm que cantar composta especialmente para essa quadrilha, e as coreografias são muito elaboradas, executadas em ritmo frenético, exigindo um preparo de maratonista para os dançarinos. Mal comparando, parece uma escola de samba e incluídos nos seus “enredos” mirabolantes já vi berrantes do Mato Grosso, pioneiros quakers da Nova Inglaterra, mulheres holandesas de touca e tamanquinho, cowboys americanos no estilo Tom Mix, negrinho do pastoreio e o mais de maluquice e aberração histórica que você possa imaginar.

Já na quadrilha estilo comédia, e ainda segundo a matéria veiculada, as celebridades viram alvo do humor. Homens se vestem como Xuxa ou Madonna, mas não esclarece se mulheres se vestem como Brad Pitt ou Ronaldo Fenômeno.

Hoje, véspera de São João, data que para mim tem conotações religiosas e de tradição muito profundas, que fazem parte da minha cultura, das minhas raízes e cujos sons e práticas correm forres e quentes junto com o sangue das minhas veias, fica o esclarecimento, o protesto e a esperança de ver um dia na mídia com igual destaque o verdadeiro São João da minha terra, a alegria do meu povo! Quem sabe, um dia?

UPDATE – Alguém me esclareceu hoje que as tais quadrilhas “estilo comédia” são compostas apenas por homens, vestidos de “homens” e de “mulheres”; e que as músicas e danças executadas pelos “casais” têm forte conotação sexual, imitando as coreografias do forró de plástico e das bandas de axé.

<a href=”https://clotildetavares.files.wordpress.com/2009/06/quadrilha_estili_01.jpg”><img class=”size-thumbnail wp-image-1238″ title=”quadrilha_estili_01″ src=”https://clotildetavares.files.wordpress.com/2009/06/quadrilha_estili_01.jpg?w=150&#8243; alt=”Quadrilha estilizada: parece o can-can!” width=”150″ height=”112″ /></a>

Quadrilha estilizada: parece o can-can!





O sonho de Poliphilo

22 06 2009

polifilo02Há algum tempo a editora Planeta publicou o romance O Enigma do Quatro, de Ian Caldwell e Dustin Thomason, cujo enredo versa sobre a busca do significado de outro livro, o clássico Hypnerotomachia Poliphili, impresso no finalzinho do século XV. Apaixonada que sou por temas medievais e por livros, corri a adquirir o tal romance. A ação se passa no campus de uma universidade americana, mas o enredo é mal construído, confuso e, antes da metade eu me perdi irremediavelmente nas imperfeições do estilo e terminei por passá-lo adiante, sem terminar de ler.

poliphiloMas o livro teve a virtude de me apresentar esta espetacular obra, a Hypnerotomachia Poliphili, cujo título quer dizer “O Combate de Amor de Polifilo num Sonho” e que conta a indecifrável e obscura história de Polifilo à procura de sua amada, Polia. A linguagem utilizada é o italiano arcaico, com intervenções gregas e latinas e enriquecido por 171 xilogravuras da escola de Andrea Mantegna.

polifilo01Considerado um dos mais belos livros que existem, Hypnerotomachia Poliphili foi impresso em 1499 pelo veneziano Aldo Manuzio, e representa uma revolução na arte editorial, em termos tipográficos, em relação às ilustrações e à diagramação. Sua autoria é incerta, talvez de Francesco Colonna (1433-1527), talvez de Leon Battista Alberti (1404-1472) e somente agora, depois de quase 500 anos, foi realizada a sua tradução integral.

Parte narrativa imaginária e parte tratado erudito, este livro intriga há séculos historiadores e arquitetos pelas representações de edifícios e estruturas físicas ali ilustradas; contém ainda um inflamado discurso da heroína, Polia, defendendo os direitos das mulheres expressarem a própria sexualidade, e isso escrito quinhentos anos atrás.

polifilo03É um livro raro. Dele, existem menos exemplares do que da Bíblia de Gutemberg, supondo-se que haja apenas uns 200 no mundo inteiro. O único que existe no Brasil pertence ao bibliófilo José Midlin, que não revela quanto pagou pelo volume mas diz que o livro se paga cada vez que é folheado. Aliás, José Midlin doou sua magnífica biblioteca à USP em 2006; e os livros estão passando por um processo de digitalição, e vão fazer parte do projeto Brasiliana-USP, sendo que alguns já estão disponíveis na Internet. Mas isso é assunto para outro post.

poliphilo2Meu assunto de hoje é a Hypnerotomachia Poliphili. A raridade e o preço não nos impedem de conhecer essa obra primorosa. Antes que o projeto Brasiliana-USP coloque no ar sua edição fac-similiar, ela já é há tempos disponível aqui neste link.  Mesmo que para nós seja indecifrável o italiano antigo, as belíssimas ilustrações estão lá, à disposição de qualquer criatura, para deleite dos olhos e reconhecimento da cultura renascentista que, ainda hoje, encontra eco nos nossos espíritos e na nossa memória. Vale a pena a visita.





Gerúndios

21 06 2009

… LENDO Memórias de Eloy de Souza
… ESCREVENDO minhas recordações, enquanto estou lembrada.
… COMENDO nestes dias camarão com Karl Leite, ratatouille com Estêvão Lúcio e pizza com Carlinhos e Ilana.
… DORMINDO marromeno…
… MATANDO as saudades de parte dos meus livros que estão em Natal.
… ASSISTINDO Marcas da Violência com Viggo Mortensen.
… ABRAÇANDO filhos e netos em Natal-RN por esses dias.
… ACARICIANDO meus gatos Teobaldo e Irlanda, que se deitam no meu colo sem serem chamados.
… ENCONTRANDO amigos queridos.
… PESQUISANDO preços.
… PLANEJANDO umas coisas.
… REVISITANDO esta cidade impossível.

Tela de Vicente Vitoriano, artista plástico do Rio Grande do Norte.

Tela de Vicente Vitoriano, artista plástico do Rio Grande do Norte.





Bikes

20 06 2009

Adoro bicicletas. Nunca aprendi a andar numa.

Abrindo o desfile, uma tela de Flávio Freitas e a foto que fecha é minha, tirada na praia de Camboinha, em João Pessoa-PB. As outras encontrei por aí na Internet.

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O fim do mundo

19 06 2009

Há uns quinze anos, eu lia muita literatura esotérica, mais por curiosidade do que por qualquer outro motivo, uma vez que todas as minhas tentativas de acreditar em alguma coisa que escapasse à minha concepção lógica do Universo deram errado.

Sou cética por natureza, embora tenha uma mente muito reverente diante dos milagres – naturais, sempre naturais! – que vejo acontecerem todo dia na minha frente.

fimdomundo_palenque2Nessa época li uns livros sobre o calendário maia e fiquei abismada com a forma como aquela civilização concebeu e desenvolveu explicações sobre o funcionamento do Universo, fez cálculos astronômicos de rara precisão e já tinha conhecimento do zero enquanto a Europa ainda estava mergulhada na superstição e no obscurantismo.

Os livros que li sobre o calendário maia foram um poderoso insight para mim e alimentaram com um rico veio a minha fantasia e a minha criatividade. Além disso, a forma como esse povo antigo media o tempo era tão sofisticada e elegante que até hoje me deixa entusiasmada.

fimdomundo_maiacalendarimgEntre outras coisas, os maias falavam que o ano de 2012 reperesentaria, segundo a sua forma de medir o tempo, o fim de uma era; que isso se daria a 21 de dezembro; e que a partir daí o mundo como o conhecemos iria se modificar de maneira completamente radical. Muitas pessoas que conheço acreditavam e ainda acreditam nisso. Respeito as crenças e acho que todo mundo tem direito de acreditar no que quiser mas eu mesma nunca acreditei. Acho bonito, mas não acredito.

Mas existe na Internet um site de uma organização científica, o Instituto para a Continuidade Humana, onde há depoimentos de cientistas que afirmam que os acontecimentos previstos para 2012 são inevitáveis, e que há 94% de certeza de que nesse ano ocorram eventos cataclísmicos que irão devastar o nosso planeta, sendo é preciso que providências urgentes sejam tomadas a respeito. Eles apontam inclusive algumas dessas providências e mostram simulações do que vai acontecer em 2012.

Choque de fragmentos do "Planeta X" com a terra. Site do IHC.

Choque de fragmentos do "Planeta X" com a Terra, previsto para 2012, segundo o site do Instituto para a Continuidade Humana.

Mas é tudo mentira, meu caro leitor. Se você acessar o site do tal Instituto, – que é um site muito bem feito, parecendo mesmo “a cara” de uma instituição científica respeitável – você vai ver que lá no finzinho, na última linha, depois que você rola a tela todinha, os direitos autorais do site pertencem à Sony Pictures Digital Inc., e que tudo não passa da propaganda de um filme que a produtora estará lançando em breve.

Orson Welles dramatiza A Guerra dos Mundos.

Orson Welles dramatiza A Guerra dos Mundos.

O problema com esse tipo de material publicitário é que pessoas desavisadas podem entar num estado de verdadeiro terror e tomar tudo como verdadeiro, com consequências imprevisíveis, a exemplo do que aconteceu em Nova York em 1938 quando Orson Welles, então um simples locutor de rádio, encenou A Guerra dos Mundos, de H.G.Wells, em uma emissora da cidade, narrrando uma suposta invasão de “marcianos” com tanta veracidade que a população se apavorou, havendo todo tipo de transtornos na metrópole e gerando as maiores confusões. Pessoas que haviam perdido o início do programa dizendo que era uma dramatização acreditaram piamente na invasão “marciana” e tentaram deixar a cidade causando gigantescos engarrafamentos. Outras, armadas até os dentes, atiravam em tudo que achavam parecido com “naves alienígenas”.

Soube dessa história do site do pretenso “Instituto para a Continuidade Humana” através do boletim HypeScience, que sempre me fornece histórias interessantes. Se você assinar a newsletter, as histórias vão chegar direto na sua caixa postal. Mais matérias sobre esse assunto de hoje, de onde tirei os elementos para este post,  você pode ver aqui e aqui.

Aurora Miranda

Aurora Miranda

Para concluir, não deixo de me lembrar do delicioso samba de Assis Valente que eu gostava de ouvir com Aurora Miranda, regravado um dia desses por Adriana Calcanhoto, e do qual lhe dou a letra, para você tomar tenência e não embarcar nessas histórias de fim-de-mundo, cometendo excessos que depois vão lhe deixar na maior saia-justa.

E o Mundo Não se Acabou, de Assis Valente

Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disso minha gente lá de casa
Começou a rezar…

E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite lá no morro
Não se fez batucada…

Acreditei nessa conversa mole, pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir, e sem demora fui tratando
De aproveitar…

Beijei a boca de quem não devia, peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou…

Chamei um gajo com quem não me dava, e  perdoei a sua ingratidão
E festejando o acontecimento, gastei com ele mais de quinhentão…
Agora eu soube que o gajo anda dizendo coisa que não se passou
E, vai ter barulho e vai ter confusão, porque o mundo não se acabou…





Memórias do internato (trechos)

18 06 2009

Ando escrevendo um texto – não é um livro, é apenas um texto – sobre a minha vida no colégio interno, onde fiquei dos oito aos dez anos de idade, precisamente nos anos de 1956 a 1957. Foi no colégio de Bom Conselho, a 40 km de Garanhuns, quase no limite de Alagoas.

Reproduzo um trecho, nesta quinta-feira em que estou cheia de compromissos externos, longe do computador e sem muito tempo para blogar com calma, como eu gosto…


(…)

Outros acontecimentos da vida social reduzidíssima do colégio era a visita de frades, que, penso eu, vinham fazer algum tipo de visita protocolar, ou de inspeção. Nessas ocasiões, e estando marcada a data da visita, o evento era comunicado às alunas e era preparado uma espécie de sarau, cheio de números musicais e poéticos para mostrar ao visitante nossos dotes artísticos.

Numa dessas sessões, coube-me apresentar uma “cançoneta”, que era uma pequena canção dramática, contando a história de uma menina chamada Sílvia que brigava com a mãe por algum motivo. Eu sempre gostei de cantar, e os ensaios eram um prazer, principalmente porque tinham o acompanhamento do piano, instrumento pelo qual eu tinha uma grande fascinação. As tardes de ensaios, onde eu cantava “Chamo-me Sílvia, e só lhe digo…” foram, no internato, algumas das tardes mais felizes que tive.

A recepção ao frade seria no domingo, depois da missa e do café da manhã. Fomos para a sala do piano, e umq das meninas disse uma poesia, outra cantou algo, mais uma tocou uma valsa, e chegou a minha vez.

E não consegui cantar nada, não porque não soubesse ou porque estivesse encabulada, mas porque de manhã não tenho nem nunca tive voz. Sempre acordei rouca, “com teias de aranha na garganta”, principalmente num clima frio como era aquela da região. Nos ensaios, à tarde, eu me saía bem, depois da voz já aquecida por quase um dia inteiro de gritos e brincadeiras; mas às sete e meia da manhã foi impossível.

Depois de duas ou três tentativas, retirei-me arrasada para o corredor, e pequei mais uma vez, levantando meu humilhado coração contra Deus, que havia permitido aquilo. Fiquei sob a égide da desgraça durante quase toda a semana. Onde eu chegava, comentavam: Clotilde não cantou, Clotilde não cantou…

Mas na sexta-feira, a professora de terceira série, no final da aula da manhã, já aí pelas onze horas, resolveu fazer uma “sessão artística” e chamou algumas das meninas para recitar e cantar. Depois perguntou: quem quer vir? Eu levantei o braço.

Fui lá para a frente, plantei os pés no chão, coloquei as mãos para trás, como era a postura adequada para essas apresentações e cantei uma música de Luiz Gonzaga que eu sabia todinha “Siri Jogando Bola”. A letra da música era engraçadíssima, cheia de absurdos, e eu fui muito, mas muito aplaudida mesmo.

Veio gente de outras salas, as freiras e até minha tia, para assistir à performance. Quando eu acabei, os aplausos foram enormes e me pediram bis. E eu cantei a música inteirinha de novo. Esse episódio foi uma das glórias da minha infância tímida e acanhada, e jamais vou esquecer daquela sensação, dos aplausos, dos rostos alegres me olhando, dos olhos brilhando, dos sorrisos largos.

Ali, naquele instante, nascia o meu gosto pelo palco.

SIRI JOGANDO BOLA

Vi dois siris jogando bola lá no mar
Eu vi dois siris bola jogar, lá no mar

Fui passear no país do tatu-bola
onde o bicho tem cachola e até sabe falar,
eu vi um porco passeando de cartola,
um macaco na escola ensinando o bê-a-bá

Vi dois siris jogando bola lá no mar
Eu vi dois siris bola jogar, lá no mar

Eu vi um peba de batina e de estola,
vi um bode de pistola numa farda militar,
vi um mosquito ser pegado pela gola
e ser preso na gaiola por ser bebo e imorá.

Vi dois siris jogando bola lá no mar
Eu vi dois siris bola jogar, lá no mar

Eu vi um sapo balançando uma sacola
num salão pedindo esmola pro enterro dum preá;
vi uma porca com dois brinco de argola
de batom – mas que graçola! – dando beijos num gambá

Vi dois siris jogando bola lá no mar
Eu vi dois siris bola jogar, lá no mar

Numa oficina vi um rato bater sola,
repicando na viola, eu vi um tamanduá.
Vi um veado com dois par de castanhola,
vestidinho de espanhola, requebrando pra daná

Vi dois siris jogando bola lá no mar
Eu vi dois siris bola jogar, lá no mar

Vi um elefante cozinhar na caçarola,
armoçar todo frajola e a dentuça palitar,
vi um jumento beber vinte Coca-Cola,
ficar cheio que nem bola e dar um arroto de lascar…





Abençoada terra

17 06 2009

jardinagem4Sabe aqueles dias em que a gente está assim, com o coração meio desassossegado, sem achar canto, sem conseguir ler ou escrever nem se concentrar naquilo que passa na TV? Aqueles dias em que, ultrapassados os surtos hormonais da juventude, mesmo assim, a gente começa a sentir uma vontade sei-lá-do-quê, uma saudade do que ainda não aconteceu, e uma sensação de que é preciso voltar, mas que a gente não sabe para onde? Pois é. Nesses dias de cão, antes que o mau-humor baixe sua negra cortina sobre a cena da minha vida, eu encontrei um remédio poderoso para afastar esses fantasmas. Uma coisa simples, que todo mundo tem e pode fazer em casa: cuidar das plantas.

jardinagem1Explico. A terra e os seres vegetais que dela brotam têm um incrível poder regenerador e curativo nesses estados de alma desassossegada. Isso porque a energia vital da terra, que continua vibrando mesmo num simples vaso de plantas cultivado em apartamento é uma energia primordial, atávica, profundamente conectada com nossas memórias primeiras.

Tenho poucas plantas, pois a moradia em apartamento e as viagens constantes não me permitem uma maior quantidade. Elas ssempre me socorrem e acalmam meu coração e minha mente, mostrando mais uma vez o milagre dos ciclos de renovação/destruição inerentes à natureza de tudo o que é vivo. Tudo que é vivo morre, mas tudo que morre renasce outra vez.

jardinagem3A semente mergulhada na terra morre como semente mas rebenta em planta dando origem a novas sementes, completando e eternizando o ciclo. Quando morremos, morremos para este mundo, e nos misturamos ao pó, à terra, à mesma terra na qual são mergulhadas as sementes. Nosso DNA, no entanto, sobrevive na descendência; e a essência se incorpora a uma essência maior, à Grande Alma Universal, ou qualquer que seja o nome pela qual a queiramos chamar.

jardinagem2Todos esses pensamentos passam pela minha cabeça enquanto estou cuidando das minhas plantinhas: uma muda do tamarindo de Augusto dos Anjos, que eu trouxe de Sapé, e que plantei em um vaso; uma figueira-da-Índia minúscula, bonsai que ganhei de presente há mais de dez anos; a orquídea que herdei de Mamãe, e que floresce todo ano; as pequenas suculentas, que não dão trabalho e sempre estão bonitas; e o comigo-ninguém-pode, planta que considero meu emblema pelas caraterísticas que tem: resistente, valente, venenosa e bonita ao mesmo tempo, um perigo! Gosto de pensar que essa planta parece comigo, e se eu tivesse um brasão, ela estaria num dos campos como símbolo da minha natureza.

Energias restauradas, paz no coração e na mente, é assim que me sinto depois de algum tempo com as mãos mergulhadas na terra abençoada. Pronta para continuar seguindo em frente.





16 de junho: Bloomsday

16 06 2009
James Joyce

James Joyce

Hoje é o Bloomsday, ou melhor, o dia de Bloom. Mas quem é Bloom, e por que há um dia dedicado a ele?

Curiosamente, Bloom não é uma pessoa real. É um personagem fictício chamado Leopold Bloom e criado pelo escritor irlandês James Joyce, nascido em Dublin em 1882 e falecido na Suiça em 1941. Joyce é considerado um dos mais importantes escritores do século XX e Leopold Bloom é o personagem principal do seu livro Ulisses, que tem a fama de ser o livro mais citado e menos lido da literatura mundial.

A ação do livro decorre durante 16 horas do dia 16 de junho de 1904, e representa – isso aqui numa descrição muito simplista – os acontecimentos da vida de Leopold Bloom durante esse dia, utilizando-se o autor da técnica do fluxo de consciência, de piadas, de paródias, de fragmentos justapostos, tudo isso sgnificando uma nova forma de contar uma história, uma nova técncica do romance que é uma das grandes contribuições do livro para a literatura modernista do século XX.

Manuscrito da 1ª página do Ulisses.

Manuscrito da 1ª página do Ulisses.

Como a maioria das pessoas, eu também não li o Ulisses por inteiro. Mas me dá muito prazer abri-lo ao acaso e ler trechos, e já fiz uma adaptação do famoso “monólogo de Molly Bloom” para o teatro, que eu pretendia levar à cena em 2004 no centenário do Bloomsday. Como não encontrei parceiros dispostos a topar a parada, e o teatro é uma arte coletiva, ninguém faz sozinho, engavetei o projeto como outros tantos. Mas o texto é grandioso e sempre me dá muito prazer lê-lo outra vez.

Natal comemora o Bloomsday hoje.

Natal comemora o Bloomsday hoje.

Em Natal, durante alguns anos, chefiei as comemorações do Bloomsday junto com Arlene Venâncio, na época aluna da pós-graduação do curso de Letras e que era entusiasmada com Joyce. Fizemos umas duas ou três comemorações na antiga A.S. Livros e uma na Bienal do Livro de Natal em 2003, que coincidiu com o Bloomsday.

Este dia é comemorado em todo o mundo e as comemorações exigem que as pessoas declamem poemas de Joyce, bebam bastante, cantem e façam aquilo que se chama a “polifonia”: depois de ler o trecho final do monólogo de Molly Bloom, que encerra o livro, em quantas línguas forem possíveis entre os participantes, lê-se novamente o trecho em todas as línguas, em voz alta e ao mesmo tempo. Cabia a mim ler o trecho em português, o que me deixava sempre muito feliz.

Cartaz do Bloomsday 2008

Cartaz do Bloomsday 2008

Além da polifonia, que tinha um efeito final muito excitante, lembro-me do belo Paulo Marcelo, aluno também da UFRN, cantando a canção irlandesa Molly Malone e finalmente do acontecimento mais inusitado que penso já ter havido em qualquer Bloomsday: na comemoração que houve na Bienal do Livro, no auditório repleto, enquanto se sucediam os recitativos, o recinto foi invadido pelo poeta Sopa D’Osso, emblemático na sua magreza, com seu sobretudo verde-escuro, olhos loucos, estado completamente alterado de consciência, a declamar um poema de Joyce traduzido por ele para o tupi-guarani.

Fique então com o trecho final do monólogo de Molly Bloom, que é todo escrito assim mesmo, sem pontuação, pois essa era a técnica de Joyce, o famoso fluxo da consciência. Leia em voz alta e não procure entender. Deixe-se levar pelas palavras, deixe-se tomar pelo som da sua voz e comemore hoje comigo, com todos os leitores deste blog e com todos os joyceanos do mundo este escritor sem par, esta obra sem fronteiras.

Trecho final do monólogo de Molly Bloom, encontrado nas duas últimas páginas do Ulisses, com tradução de Antonio Houaiss:

Angeline Ball

Angeline Ball como Molly Bloom

“… ..o sol brilha para você ele disse no dia que a gente estava deitado entre os rododendros no cabeço do Howth no terno de tuíde cinza e chapéu de palha dele dia que levei ele a se propor a mim sim primeiro eu dei a ele um pouquinho do bolinho-de-cheiro da minha boca e era ano bissexto como agora sim dezasseis anos atrás meu Deus depois desse beijo longo eu quase perdi minha respiração sim ele disse que eu era uma flor da montanha sim assim a gente é uma flor todo o corpo de uma mulher sim essa foi uma coisa verdadeira que ele disse na vida dele e o sol brilha para você hoje isso foi por que eu gostei dele porque eu via que ele entendia ou sentia o que é uma mulher eu sabia que eu podia dar um jeito nele e eu dei a ele todo o prazer que eu podia levando ele até que ele me pediu pra dizer sim e eu não queria responder só olhando primeiro para o mar e o céu eu estava pensando em tantas coisas que ele não sabia de Mulvey e do Sr Stanhope e Hesier e meu pai e do velho capitão Grovas e os marinheiros brincando de coelho-sai e pula-carniça e lavar-pratos como eles chamavam no cais e o sentinela na frente da casa do Governador com a coisa em redor do capacete branco dele pobre diabo meio tomado e as garotas espanholas se rindo nos xailes e nas grandes travessas delas e os pregões da manhã os gregos e os judeus e os árabes e o diabo sabe quem mais de todos os confins da Europa e a Rua do Duque e o mercado de aves todas cacarejando em frente do Larby Sharon e os pobres dos burricos escorregando meio dormidos e os sujeitos vagos nas mantas dormitando na sombra nos degraus e as rodas grandes das carroças de touros e o velho castelo milhares de anos velho e aquèles mouros bonitos todos de branco e tuìbantes como reis pedindo à gente pra sentar nas lojinhas pequeninas deles e Ronda com as velhas janelas das posadas olhos vislumbrados em muxarabiê escondidos para o amante dela beijar o ferro e as bodegas de vinho meio abertas à noite e as castanholas e a noite que a gente perdeu o bote em Algeciras o vigia indo por ali sereno com a lanterna dele e oh aquela tremenda torrente profunda oh e o mar o mar carmesim às vezes como fogo e os poentes gloriosos e as figueiras nos jardins da Alameda sim e as ruazinhas esquisitas e casas rosas e azuis e amarelas e os rosais e os jasmins e gerânios e cactos e Gibraltar eu mocinha onde eu era uma Flor da montanha sim quando eu punha a rosa em minha cabeleira como as garotas andaluzas costumavam ou devo usar uma vermelha sim e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim e eu puxei ele pra baixo pra mim para ele poder sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim eu disse sim eu quero Sims.”

Veja aqui videos sobre o tema e a atriz Angeline Ball arrasando como Molly Bloom.





Imagens da cultura popular

15 06 2009

1.

O cordelista e xilogravurista José Costa Leite e um dos seus trabalhos.

O cordelista e xilogravurista José Costa Leite e um dos seus trabalhos.

2.

"É o Homem da Meia-Noite que vem, vestindo fraque e colete, gigantes pernas de pau, sorrindo na multidão, com riso de manequim..." Boneco gigante do Carnaval de Olinda.

"É o Homem da Meia-Noite que vem, vestindo fraque e colete, gigantes pernas de pau, sorrindo na multidão, com riso de manequim..." Boneco gigante do Carnaval de Olinda.

3.

Nau Catarineta de Cabedelo-PB. Há muitos grupos mas este é formado só por mulheres da terceira-idade.

Nau Catarineta de Cabedelo-PB. Há muitos grupos mas este é formado só por mulheres da terceira-idade.

4.

"Vassoura", personagem cômico tradicional da Nau Catarineta.

"Vassoura", personagem cômico tradicional da Nau Catarineta.

5.

Santana Mestra, arte popular de Goiás.

Santana Mestra em terracota, arte popular de Goiás.

6.

Pastoras do cordão Azul em Pastoril na praia de Tambaú, na capital paraibana.

Pastoras do cordão Azul em Pastoril na praia de Tambaú, na capital paraibana.

7.

Os estranhos animais de argila de Fulano, Paraíba.

Os estranhos animais de argila de Abimael, Paraíba.

8.

O cordelista e xilogravurista Abraão Batista.

O cordelista e xilogravurista Abraão Batista.

9.

Bonecos

Artesanato paraibano. Bonecos à imagem e semelhança de Genival Lacerda, Sivuca, Jackson do Pandeiro e Biliu de Campina.

10.

E pra fechar o firo, cozido de corredor com pirão mexido com frinha de mandioca e tutato comido de colherinha, pra deixar os neurônios azeitados e tinindo que só a mulesta dos cachorros!

E pra fechar o firo, cozido de corredor com pirão mexido com farinha de mandioca e tutano comido de colherinha, pra deixar os neurônios azeitados e tinindo que só a mulesta dos cachorros!

Todas as fotos são minhas. Comi o pirão na casa da minha sobrinha Júlia Quirino.





Enterrado vivo

14 06 2009

poe2“…escancarada a porta, apareceu, de pé, a figura altaneira e amortalhada de Lady Madeline Usher. Havia sangue na sua veste branca e vestígios de alguma luta áspera em cada parte do seu corpo emagrecido. Por um momento, ela ficou, trêmula, a vacilar no umbral – depois, com um pequeno grito lamentoso, caiu pesadamente para dentro, sobre o corpo de seu irmão, e, na sua violenta e agora final agonia, o que ela arrastou para o chão foi apenas um cadáver, a vítima dos horrores que ele mesmo previra.”

Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

No conto A Queda da Casa de Usher, Edgard Allan Poe conta uma tragédia de horror, em que a bela Lady Madeline Usher, sofrendo de catalepsia, é enterrada vida. Poe retrata neste conto um terror atávico do ser humano que é ser sepultado por engano, quando ainda há vida no corpo. O terror é tão largo e disseminado que, em diversas culturas, dispositivos variados são adicionados aos ataúdes para que os supostos “enterrados vivos” possam pedir socorro, caso isso aconteça.

poe3Esses casos poderiam ser possíveis em virtude de uma doença rara denominada catalepsia, espécie de ataque que pode durar de alguns minutos até alguns dias, onde as funções orgânicas diminuem de velocidade e intensidade, fazendo que com que pessoas desavisadas e sem maior informação julguem que o indivíduo está morto. A causa da catalepsia é desconhecida; mas acredita-se que hoje em dia, com todo o aparato técnico existente em hospitais e pronto-socorros não é mais possível um caso desses passar despercebido, tendo como consequência o “enterramento vivo” do paciente.

Somente em regiões longínquas sem profisionais médicos ou equipamentos seria possível que um ataque dessse tipo pudesse ser confundido com a morte. Por outro lado, o tema é excitante e dá boa margem para enredos literários, como o fantástico conto de Edgard Allan Poe, citado acima, e muitos outros.

poethurmanO medo de ser enterrado vivo está associado com outra fobia semelhante: a claustrofobia, uma vez que o enterrado vivo geralmente se acorda fechado em um caixão com espaço minúsculo. Aqui, é bom lembrar de Uma Thurman em Kill Bill II, que sai do túmulo onde a enterraram literalmente “na marra”.

Freud de Melo

Freud de Melo

Para lidar com esses medos, um camarada chamado Freud de Melo, advogado, empresário e produtor rural de Hidrolândia, estado de Goiás, já tratou de construir seu túmulo com tudo o que tem direito: TV, celular, alto-falantes, sistema de ventilação e alimentos.

No You Tube tem um video; se você quiser ver, pode clicar aqui.

Eu sempre achei essas histórias todas muito curiosas. Mas é assim que são os seres humanos: curiosos e diferentes pra caramba, dando assunto abundante para blogueiras desocupadas que nem eu.





A rainha do crime

13 06 2009

agatha01Todo mundo já ouviu falar de Agatha Christie, a mais famosa autora de livros policiais de todos os tempos. Inglesa, nascida em 1890, foi cognominada a “Rainha do Crime” e publicou cerca de 300 obras, entre romances de mistério, poesia, peças para rádio e teatro, contos, documentários, uma autobiografia e seis romances que não são romances policiais e que foram publicados sob o pseudônimo de Mary Westmacott.

Seus livros venderam mais de dois bilhões de exemplares, tornando-a a autora mais publicada de todos os tempos em qualquer idioma, somente ultrapassada pela Bíblia e por Shakespeare. agathapoirotTraduzida em mais de cem línguas, morreu em 12 de Janeiro de 1976 e criou tipos célebres como o detetive belga Hercule Poirot, cheio de maneirismos; e a idosa Miss Marple que, a pretexto de observar passarinhos com seu binóculo termina vendo mais do que deve e assim soluciona os  crimes.

Agatha Christie é autora da peça A ratoeira (The Mousetrap), que estreou em Londres em 1952 e continua em cartaz, ininterruptamente, até hoje, constando do Guiness como a peça em cartaz há mais tempo em toda a história.

agatha02Leitora voraz de livros policiais, leio seus livros desde adolescente, e eles ainda me dão muito prazer pois sou daquele tipo de gente que depois de um certo tempo esquece quem foi o assassino, podendo ler o livro novamente sem sequer desconfiar de quem cometeu o crime… Tenho uma pilha deles, que me acompanham desde muito tempo e que me fornecem diversão segura e garantida quando tudo o mais falha.

No entanto, o melhor livro de Agatha Christie, para mim, é sua Autobiografia, que ela terminou de escrever em 1965, aos 75 anos. É possível, lendo este livro, conhecer a vida de uma jovem na Inglaterra vitoriana, e a escritora nos leva, através do seu relato, a compartilhar da sua infância em Torquay, e depois da sua adolescência, sua primeira viagem a Paris, a paixão pela música e pelo piano, o desejo de tornar-se uma cantora lírica, os namoros, o gosto pelas caminhadas, pela natação, e pelo surf, que praticava com o marido Archibald Christie nas praias da África do Sul e depois no Havaí, na sua primeira grande viagem de volta ao mundo. É divertido imaginá-la, alta e magra, de pé nas imensas pranchas havaianas, vestida com aqueles maiôs vitorianos cheios de folhos e babados que iam até os pés.

Agatha e Max

Agatha e Max

O seu segundo marido foi o arqueólogo Sir Max Mallowan, 14 anos mais jovem que a escritora, com quem se casou em 1930 (ela com 40 e ele com 26 anos). Suas viagens juntos contribuíram com material para vários de seus romances situados no Oriente Médio.  Em tom divertido ela dizia que uma das vantagens de ser casada com um arquóelogo é que quanto mais velha se fica, mais o interesse dele aumenta.

Na sua auto-biografia, Agatha Christie compartilha com o leitor o seu processo de criação e o desgosto por não ter feito sucesso como escritora de romances não-policiais. Na verdade, era difícil e estranho para ela se assumir “escritora”, já que não considerava os livros policiais como verdadeira literatura. Mas foi com eles que alcançou o sucesso e até hoje deleita o mundo com suas histórias de crimes e mistérios.

agatha03Um fato curioso é que talvez o maior mistério de sua vida tenha aocorrido em 1928 na vida real quando, depois da morte de sua mãe e separação do seu primeiro marido, triste e deprimida, ela sumiu por 12 dias. Depois de uma mobilização intensa da polícia à sua procura, e quando as autoridades já estavam pensando que teria sido assassinada, Agatha Christie apareceu, jamais tendo revelado o que aconeceu nos dias em que esreve sumida.

A internet está cheia de sites dedicados a ela. Entre esses, selecionei para  você A Casa Torta.

Dos livros dela, o que mais gosto é O Assassinato de Roger Ackroyd. Leia, e descubra porque.

A Rainha do Crime

Todo mundo já ouviu falar de Agatha Christie, a mais famosa autora de livros policiais de todos os tempos. Inglesa, nascida em 1890, foi cognominada a “Rainha do Crime” e publicou cerca de 300 obras, entre romances de mistério, poesia, peças para rádio e teatro, contos, documentários, uma autobiografia e seis romances que não são romances policiais e que foram publicados sob o pseudônimo de Mary Westmacott. Seus livros venderam mais de dois bilhões de exemplares, tornando-a a autora mais publicada de todos os tempos em qualquer idioma, somente ultrapassada pela Bíblia e por Shakespeare.

Traduzida em mais de cem línguas, morreu em 12 de Janeiro de 1976 e criou tipos célebres como o detetive belga Hercule Poirot, cheio de maneirismos e a idosa Miss Marple que, a pretexto de observar passarinhos com seu binóculo termina vendo mais do que devia e solucionando crimes. Agatha Christie é autora da peça “A ratoeira”, que estreou em Londres em 1952 e continua em cartaz, ininterruptamente, até hoje, constando do Guiness como a peça em cartaz há mais tempo em toda a história.

Leitora voraz de livros policiais, leio seus livros desde adolescente, e eles ainda me dão muito prazer pois sou daquele tipo de gente que depois de um certo tempo esquece quem foi o assassino, podendo ler o livro novamente sem sequer desconfiar de quem cometeu o crime… Tenho uma pilha deles, que me acompanha desde muito tempo e que me fornecem diversão segura e garantida quando tudo o mais falha.

No entanto, o melhor livro de Agatha Christie, para mim, é sua “Autobiografia”, que ela terminou de escrever em 1965, aos 75 anos. É possível, lendo este livro, conhecer a vida de uma jovem na Inglaterra vitoriana, e a escritora nos leva, através do seu relato, a compartilhar da sua infância em Torquay, e depois da sua adolescência, sua primeira viagem a Paris, a paixão pela música e pelo piano, os namoros, o gosto pelas caminhadas, pela natação, e pelo surf, que praticava com o marido Archibald Christie nas praias da África do Sul e depois no Havaí, na sua primeira grande viagem de volta ao mundo. É divertido imaginá-la, alta e magra, de pé nas imensas pranchas havaianas, vestida com aqueles maiôs vitorianos cheios de folhos e babados que iam até os pés.

Agatha Christie compartilha com o leitor o seu processo de criação e o desgosto por não ter feito sucesso como escritora de romances não-policiais. Na verdade, era difícil e estranho para ela se assumir “escritora”, já que não considerava os livros policiais como verdadeira literatura. Mas foi com eles que alcançou o sucesso e até hoje deleita o mundo com suas histórias de crimes e mistérios.





Antônio meu santo

12 06 2009

Hoje é dia dos namorados, toda a terra está em flor
Só se vê menina e moça, de braço dado com seu amor…

santo_antonio01A música, que eu ouvia quando menina, é composição de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, gravada por Blecaute. De todas essas datas que o comércio inventa para vender mais, eu acho essa do Dia dos Namorados umas das mais simpáticas. Aliás, a tradição de um dia dedicado aos enamorados é antiga, vindo dos tempos romanos; em algunas países, comemora-se a 14 de fevereiro, dia dedicado a São Valentim; e no Brail, o dia é dedicado a Santo Antônio.

O dia mesmo é amanhã, 13 de junho, mas como temos o costume de comemorar as datas na véspera, este post de hoje é dedicado ao santo casamenteiro.

Santo Antônio, nascido em Lisboa em 15 de agosto de 1195 com o nome de Fernando de Bulhões, era de família rica e influente. Aos 15 anos, trocou tudo disso por uma vida de fé e oração, ingressando na ordem dos padres agostinianos e tomando o nome de Antônio. Depois, conhecendo o trabalho de Francisco de Assis, mudou de ordem passando a ser franciscano.

Igreja de Santo Antonio, em Pádua, Itália.

Igreja de Santo Antonio, em Pádua, Itália.

Dizem que tinha o dom da oratória e quando falava, não importa em que idioma, todos o entendiam. Relata-se que até os animais ouviam atentamente as suas prédicas, como um célebre sermão que fez para os peixes. Dizem que, por causa disso, anos após a sua morte sua língua foi encontrada intacta, enquanto o resto do corpo já estava reduzido a cinzas. A língua do santo está em exposição na Igreja de Santo Antônio, em Pádua, na Itália.

Sua maior fama mesmo é de santo casamenteiro, talvez porque em vida angariava esmolas para conferir dote às moças pobres, que assim arranjavam casamentos melhores. Mas é ainda invocado quando se quer encontrar coisas perdidas. Cascudo refere que é um dos mais populares santos do Brasil, sendo padroeiro de centenas de cidades brasileiras.

Curioso é que, por sua intervenção em lutas armadas, tem sido agraciado com patentes militares. Vejam só: é capitão da fortaleza da Barra, coronel em São Paulo, capitão em Goiás, soldado na Paraíba e Espírito Santo, tenente-coronel no Rio de Janeiro, tenente no Recife e vereador em Igarassu. Além disso, em várias cidades o santo é proprietários de bens, recebidos por herança, de pessoas que morriam e para ele deixavam em testamento terras, escravos, e o que mais fosse.

Por causa de sua eficácia como casamenteiro, ao longo dos anos a mulherada tem submetido o pobre santo a uma série de vexames para que ele lhes arranje marido. Colocam a imagem do santo de cabeça para baixo, escondem o Menino Jesus que ele traz no braço, tiram-lhe o resplendor… Quando se usava saia comprida, costurava-se o santo na barra da saia, na parte de trás, e ao andar o pobre era rebolado no chão e nas pedras durante todo o dia. Algumas o amarravam numa corda e enfiavam no poço, onde ficava submerso até que arranjasse um marido para a sua torturadora.

santo_antonio02Nos idos de 1987-1988, trabalhei com o marchand Antônio Marques na Galeria de Arte do Centro de Turismo de Natal, aprontei poucas e boas com Santo Antônio, colocando as imagens que lá estavam expostas sempre de cabeça para baixo quando entrava na galeria, com o objetivo de forçar o santo a me arranjar um namorado. Sabem o resultado? O santo me arrumou um cara que me deu um trabalho enorme. Foram dez meses de paixão tumultuada e mais uns dois anos para me ver livre da criatura. Durante esse tempo, minha vida ficou de cabeça para baixo, do mesmo jeitinho que eu tinha colocado o santo. Nunca mais pedi nada a Santo Antônio. Eu, hein?

Então, como ficou provado aqui pela minha experiência, Santo Antonio arranja marido sim, mas não se responsabiliza, e geralmente nos manda o primeiro que aparece. Para arranjar marido, minha cara leitora, se pegue com São José que eu lhe garanto que o homem que vai aparecer é que nem o santinho, sério, direito, trabalhador, caseiro, um homem de família, que pode até aceitar com bom humor e paciência alguma excentricidade sua, uma vez que ele aceitou sem questionar a missão de zelar pela virgem grávida que foi colocada sob a sua guarda.

santo_antonio05De qualquer maneira, e como não quero decepcionar a minha imensa multidão de 3 ou 4 leitoras que estão no afã de arranjar marido, namorado, caso, companheiro, chamego, xodó, rolo, ficante, sainte, ou seja lá que nome se dê hoje em dia à criatura que conosco enrosca pernas, braços, emoções e pensamentos, uma coisa de cada vez ou tudo junto, estou aqui repassando para você, cara leitora, uma oração de Santo Antônio recebida de herança e que – para os meus tormentos – sempre faz efeito.

Santo Antônio dos Cativos
Vós que sois amarrador
Amarrai por vosso amor
Quem de mim quer fugir
Empenhai o vosso hábito
E vosso santo cordão
Com algemas muito fortes
E um poderoso grilhão
Para que façam impedir
Os passos de FULANO
Que de mim quer fugir
E fazei meu Santo Antônio
Pelo amor de Nossa Senhora
Que FULANO case comigo
Sem tardança e sem demora.

Você deve rezar treze vezes durante treze dias. No entanto, é preciso ter cuidado com o que você pede ao santo, pois ele sempre atende. Atende, mas não se responsabiliza. E muito menos eu.

Para encerrar, veja aqui o sermão do Padre Antonio Vieira, proferido em 1654, tendo como tema o sermão de Santo Antonio aos peixes, do qual reproduzo trecho:

Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino , contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.

Santo Antonio prega aos peixes.

Santo Antonio prega aos peixes.





“Corpos tristes”

11 06 2009

Hoje o meu dia começou na madrugada, pois andei sem sono; asssim aproveitei para observar o planeta Vênus, que está um verdadeiro esplendor, principalmente quando o céu vai mudando de cor prenunciando o amanhecer. Se você é daqueles que gostam de levantar cedo aproveite. O espetáculo é deslumbranate.

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Todo ano fico meio confusa sem saber direito de que festa é essa de Corpus Christi que a Igreja católica celebra no dia de hoje. Sempre pensei que fosse a Ascenção de Cristo, mas finalmente neste ano resolvi descobrir do que se tratava. Pois bem: é uma festa instituída para celebrar a presença do corpo vivo de Cristo na Eucaristia. Remonta ao século XIII e foi criada pelo Papa Urbano IV. Muitas cidades decoram suas ruas para a passagem da procissão, como Pirenópolis (GO), Mariana (MG), Matão (SP) e Jacobina (BA). Fui buscar essa erudição toda na Wikipedia, onde você pode ver mais sobre isso. Não sou religiosa, mas adoro as coisas da religião, quando envolvem milagres, rituais, e demonstrações coletivas e fé. E me lembro também de uma amiga “sem noção”, que só chamava essa festa de “Corpos Tristes”, crente que estava abafando…

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No primeiro episódio da 15a. temporada de uma das minhas séries preferidas, E.R., atravessei oceanos encapelados de grandes emoções. A série perdeu um dos personagens mais interessantes, mas promete, na seqüencia dos capítulos, a volta de muita gente que já deixou a trama.

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Leia sobre o conflito USP x PM no site de Sandro Fortunato. Ele escreve e eu assino embaixo.

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E divirta-se com Mari Melo, tentando montar um carrinho aramado com instruções em mandarim, no blog Brincando de Casinha, onde assino ponto todo dia.

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E quem vai à procissão?