Memórias do internato (trechos)

18 06 2009

Ando escrevendo um texto – não é um livro, é apenas um texto – sobre a minha vida no colégio interno, onde fiquei dos oito aos dez anos de idade, precisamente nos anos de 1956 a 1957. Foi no colégio de Bom Conselho, a 40 km de Garanhuns, quase no limite de Alagoas.

Reproduzo um trecho, nesta quinta-feira em que estou cheia de compromissos externos, longe do computador e sem muito tempo para blogar com calma, como eu gosto…


(…)

Outros acontecimentos da vida social reduzidíssima do colégio era a visita de frades, que, penso eu, vinham fazer algum tipo de visita protocolar, ou de inspeção. Nessas ocasiões, e estando marcada a data da visita, o evento era comunicado às alunas e era preparado uma espécie de sarau, cheio de números musicais e poéticos para mostrar ao visitante nossos dotes artísticos.

Numa dessas sessões, coube-me apresentar uma “cançoneta”, que era uma pequena canção dramática, contando a história de uma menina chamada Sílvia que brigava com a mãe por algum motivo. Eu sempre gostei de cantar, e os ensaios eram um prazer, principalmente porque tinham o acompanhamento do piano, instrumento pelo qual eu tinha uma grande fascinação. As tardes de ensaios, onde eu cantava “Chamo-me Sílvia, e só lhe digo…” foram, no internato, algumas das tardes mais felizes que tive.

A recepção ao frade seria no domingo, depois da missa e do café da manhã. Fomos para a sala do piano, e umq das meninas disse uma poesia, outra cantou algo, mais uma tocou uma valsa, e chegou a minha vez.

E não consegui cantar nada, não porque não soubesse ou porque estivesse encabulada, mas porque de manhã não tenho nem nunca tive voz. Sempre acordei rouca, “com teias de aranha na garganta”, principalmente num clima frio como era aquela da região. Nos ensaios, à tarde, eu me saía bem, depois da voz já aquecida por quase um dia inteiro de gritos e brincadeiras; mas às sete e meia da manhã foi impossível.

Depois de duas ou três tentativas, retirei-me arrasada para o corredor, e pequei mais uma vez, levantando meu humilhado coração contra Deus, que havia permitido aquilo. Fiquei sob a égide da desgraça durante quase toda a semana. Onde eu chegava, comentavam: Clotilde não cantou, Clotilde não cantou…

Mas na sexta-feira, a professora de terceira série, no final da aula da manhã, já aí pelas onze horas, resolveu fazer uma “sessão artística” e chamou algumas das meninas para recitar e cantar. Depois perguntou: quem quer vir? Eu levantei o braço.

Fui lá para a frente, plantei os pés no chão, coloquei as mãos para trás, como era a postura adequada para essas apresentações e cantei uma música de Luiz Gonzaga que eu sabia todinha “Siri Jogando Bola”. A letra da música era engraçadíssima, cheia de absurdos, e eu fui muito, mas muito aplaudida mesmo.

Veio gente de outras salas, as freiras e até minha tia, para assistir à performance. Quando eu acabei, os aplausos foram enormes e me pediram bis. E eu cantei a música inteirinha de novo. Esse episódio foi uma das glórias da minha infância tímida e acanhada, e jamais vou esquecer daquela sensação, dos aplausos, dos rostos alegres me olhando, dos olhos brilhando, dos sorrisos largos.

Ali, naquele instante, nascia o meu gosto pelo palco.

SIRI JOGANDO BOLA

Vi dois siris jogando bola lá no mar
Eu vi dois siris bola jogar, lá no mar

Fui passear no país do tatu-bola
onde o bicho tem cachola e até sabe falar,
eu vi um porco passeando de cartola,
um macaco na escola ensinando o bê-a-bá

Vi dois siris jogando bola lá no mar
Eu vi dois siris bola jogar, lá no mar

Eu vi um peba de batina e de estola,
vi um bode de pistola numa farda militar,
vi um mosquito ser pegado pela gola
e ser preso na gaiola por ser bebo e imorá.

Vi dois siris jogando bola lá no mar
Eu vi dois siris bola jogar, lá no mar

Eu vi um sapo balançando uma sacola
num salão pedindo esmola pro enterro dum preá;
vi uma porca com dois brinco de argola
de batom – mas que graçola! – dando beijos num gambá

Vi dois siris jogando bola lá no mar
Eu vi dois siris bola jogar, lá no mar

Numa oficina vi um rato bater sola,
repicando na viola, eu vi um tamanduá.
Vi um veado com dois par de castanhola,
vestidinho de espanhola, requebrando pra daná

Vi dois siris jogando bola lá no mar
Eu vi dois siris bola jogar, lá no mar

Vi um elefante cozinhar na caçarola,
armoçar todo frajola e a dentuça palitar,
vi um jumento beber vinte Coca-Cola,
ficar cheio que nem bola e dar um arroto de lascar…


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One response

13 07 2009
Ecos do passado « Umas & Outras

[…] dia desses andei por aqui publicando um trecho sobre um episódio que me ocorreu na época em que fui interna. Hoje trago ecos de uma passado mais remoto, quando eu era tão pequena que tinha que ficar de […]

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