A gaiola do mundo

1 10 2009

Ontem de tarde eu estava escrevendo. Diante de mim, a TV ligada e meus olhos pulando da tela da TV para a tela do notebook. Escrevo melhor no meio da confusão, e se tem muito silêncio, paz e tranquilidade minhas idéias somem e eu não sou capaz de redigir uma só linha. Para completar, a dez metros do meu quarto andar, passa uma das mais movimentadas avenidas da cidade. Pois bem: lá estou eu escrevendo quando um som agudo me chamou a atenção. Um pássaro empoleirado no peitoril da varanda, emitia um trinado impossível de tão alto, e como veio, foi embora, me deixando suspensa e encantada com a visita.

São eles, os meus amigos alados, que me descobriram aqui e já vieram me visitar. E para compartilhar com você essa minha relação com os passarinhos, publico aqui a crônica escrita em 2006, quando ainda morava na Paraíba. O texto também está no meu livro “Coração Parahybano”.


O bem-te-vi.

O bem-te-vi.

Quando eu morava em Natal, na minha casa grande, cheia de plantas, árvores e orquídeas, os passarinhos me visitavam com freqüência. Os bem-te-vis faziam a festa, havia um beija-flor azul que vinha pontualmente às seis e meia da manhã beber todo o mel de uma plantinha de flores vermelhas e vez por outra aparecia ele: o canário-da-terra, o rei do pedaço, de cor marrom-avermelhada, que fazia a maior folia debaixo do coqueiro.

Aqui em João Pessoa, na varanda de um oitavo andar, ainda tentando adaptar plantas que trouxe do Rio Grande do Norte a uma varanda onde o vento chega a ser às vezes destruidor de caules e corolas, já comecei a reencontrar meus pequenos amigos.

O beija-flor azul.

O beija-flor azul.

O bem-te-vi vive na mais alta antena de TV do prédio, e de lá faz seu palco de canto espetacular; e o minúsculo beija-flor já me visitou uma vez, olhando para mim através da vidraça como quem pergunta: “Clotilde, cadê meu mel? Cadê minhas florzinhas vermelhas?” Mas faltava o canário. Aí, uma manhã dessas, ouvi o trinado. Ele estava cantando. Não somente cantando como também pipilando, currucheando, assoviando, arrulhando, chilreando e fazendo todos aqueles magníficos barulhos que tornam o canto do canário tão maravilhoso. Mas esse tinha algo diferente; era um canto mais elaborado, e pesquisa aqui, pesquisa acolá, descobri que quem cantava era um canário belga, um primo mais sofisticado do pequenino canário da terra que brincava debaixo do meu coqueiro.

O canário.

O canário.

Mas onde se escondia o estridente passarinho? Quando ele começava, eu ficava de janela em janela, procurando descobrir onde estava a avezinha, e nada. Aí, peguei o binóculo e fiz campana, esquadrinhando toda a vizinhança até que o descobri, numa gaiola na varanda do terceiro andar do prédio vizinho.

Agora, estando em casa, quando ele começa, eu largo o que estou fazendo e vou assistir da janela da área de serviço ao concerto vocal, à sessão de canto lírico, à ária apaixonada que esse pequeno soprano coloratura me dedica, porque já sei que ele canta somente para mim.

Seu pequeno coraçãozinho de pássaro chora a saudade da liberdade, dos campos verdes, das matas, dos coqueiros, do céu azul, da chuva, do sol e da brisa dos tabuleiros. Preso, sem poder voar, vive cantando, e meu coração de gente também lamenta com ele porque eu também, passarinho, vivo presa na gaiola do mundo, que às vezes me parece tão pequena para os meus anseios, para os vôos da minha alma, para as viagens da minha consciência, para o palpitar do meu coração.

Meu coração e o teu, passarinho, cantando juntos a saudade dos espaços infinitos.



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