História de cangaceiros

7 03 2010

Vicente Lucas se preparava para descarregar a mercadoria dos jumentos em frente ao armazém. A mulher, Josepha, em estado adiantado de gravidez, viu ao longe uma tropa de homens fortemente armados, que se aproximavam.

– Olha, Vicente, quanto soldado!

– Larga de ser tola, Zefinha! – disse o marido. – O que é que os soldados vinham fazer num fim de mundo desses?

Mas era Lampião e seu bando. Cangaceiros e volante em nada se distinguiam uns dos outros, nem nas roupas, nem nos armamentos e muito menos na ferocidade. E de repente estavam todos dentro da casa de comércio, de onde passaram à residência, contígua ao armazém.

Com a coronha dos rifles arrombavam portas, quebravam tudo, procurando dinheiro e jóias.

A mulher gritava enquanto o marido era espancado pelos cangaceiros para revelar o esconderijo dos bens. No oratório, dentro de uma lata vazia de doce, os trancelins e anéis de Josepha foram logo encontrados. Os bandidos queriam mais e continuaram o espancamento.

Vendo o marido mergulhado numa poça de sangue, ainda apanhando, Josepha só pensava nos filhos pequenos que, à aproximação do bando, haviam fugido pelos fundos da casa mergulhando nos matos, onde o menino Gerson, de poucos anos, só não morreu de sede porque foi alimentado pelos irmãos com água de raiz de umbuzeiro.

Depois de depredarem tudo, com Vicente já morto, um dos cangaceiros atirou em Josepha, que lhe pedia pelo amor de Deus que tivesse pena dela, que pensasse na criança que estava para nascer.

– Bandida! Cachorra! – vociferou o animal, disparando-lhe um tiro de rifle.

Errou o tiro. A bala alojou-se no bauzinho de couro onde estava guardado o enxoval da pequena Angelita, nascida meses depois, e falecida ainda muito novinha.

Entre risadas, com os embornais repletos do saque, os bandidos se prepararam para deixar o local. Um menino adotivo, cria da casa, foi amarrado à cauda da montaria de um deles por uma peça de tecido retirada do armazém e arrastado por algumas centenas de metros onde foi deixado, semimorto, à beira da estrada.

Tudo isso se passou em 1924, aqui neste Agreste pernambucano, e me foi contado hoje por Didi, minha prima, neta de Josepha e de Vicente.

Páginas do passado, heróicas, tristes, e verdadeiras.

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