Pior do que o soneto

19 03 2010

Nesta semana vimos nas telas da TV, nos noticiários, o caso da mulher que, segundo denúncias, esmolava usando a filha. Vimos como, através de uma denúncia anônima, a autoridade judicial ordenou o recolhimento da criança a um abrigo.

Vimos também que, entre a letra e o ato há diferenças, nesse caso nada sutis. A ordem judicial foi executada com extrema brutalidade, sem respeitar os sentimentos da criança e da mãe, separadas com força física e sem a presença de suporte psicológico para ambas. A policial que recolheu a menina usava uma arma na cintura, e penso – não sei se com razão – que qualquer pessoa que lidar com uma criança não pode estar ao mesmo tempo usando uma arma. Além disso, a policial entrou com a criança no colo no banco da frente do carro, e esse carro arrancou bruscamente, saindo em velocidade, contrariando frontalmente as leis de trânsito. A profissional da unidade que abrigou a criança condenou a forma como a ordem foi executada; e todo o Brasil ficou constrangido com a brutalidade.

Um detalhe não me escapou: a mãe é uma cigana, e também não me escapou toda a carga de preconceito que existe contra essa cultura, que não conhecemos, não entendemos e tememos. Associamos sempre os ciganos com ladrões e vagabundos, raptores de crianças e outras bobagens, percepção essa reforçada por uma literatura romântica e sem fundamento na realidade.

É claro que só estou falando de tudo isso porque havia, na hora, uma câmera para filmar o acontecido e em seguida colocar tudo em rede nacional de televisão. A minha pergunta é: quantos abusos desse tipo existem por aí, com ordens que na letra da lei parecem limpas e razoáveis mas que na prática são executadas de forma errônea, cruel, desastrosa, com mais prejuízo para os implicados do que se permanecer a situação original?

O Brasil está ainda engatinhando nessa área de proteção aos direitos de crianças, idosos, portadores de deficiência e outros grupos considerados vulneráveis. É preciso evitar que, na ânsia de resolver uma situação que aprece inaceitável não se crie outra mais inaceitável ainda. É preciso evitar que, nesses casos, a emenda se torne pior do que o soneto.


Ações

Information

2 responses

22 03 2010
Cinara Jorge

Clotilde,
Grupo vulnerável. Estas palavras me chamaram a atenção. Como estava vulnerável aquela moça cigana, implorando “Ó moço, ó moço!”.
Meu Deus! Eu não queria ter visto aquilo! Queria conseguir pensar naquela cena como um filme, mas o pior é que aconteceu. Aconteceu no meu país.
A criança era levada para a rua pela mãe porque, como ela mesma disse, envergonhada: “Ela ainda mama no peito, né?”
Deu vontade de trazer as duas aqui para casa e sentar o cacete naquelas, ditas, autoridades.

22 03 2010
Clotilde Tavares

O lado bom disso tudo é que também em rede nacional foi reconhecido que a ação toda foi uma catástrofe em termos humanos. E ficou o exemplo de como NÃO se deve fazer um ator desse.

Deixe uma resposta para Clotilde Tavares Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: