A melhor marchinha de Carnaval

9 02 2010

No domingo eu estava vendo o Fantástico e eles mostraram o Concurso de Marchinhas de Carnaval da Fundição Progresso. É um concurso que existe já há alguns anos e neste ano de 2010 teve mais de mil inscrições de vários estados brasileiros.

Ainda alcancei o reinado das marchinhas no Carnaval. Veículo poderoso de crítica social e política, algumas dessas marchinhas ficaram famosas como “A cabeleira do Zezé”, “Índio quer apito”, “Mamãe eu quero”, “O teu cabelo não nega” e tantas outras cantadas até hoje. Quando chegava perto do Carnaval, nos idos da década de 1960, a gente começava a aprender as marchinhas que tocavam no rádio, na voz de Emilinha Borba, Marlene, Ângela Maria, Blecaute.

No concurso de marchinhas que vi na TV, ganhou “Bom Dia”, de Renato Torres de Lima, de Itaguaí. E eu entrei logo em discussão com um amigo, que queria que a vencedora tivesse um “conteúdo educativo”, como uma marcha que ganhou há uns dois anos e que falava da péssima mistura que é álcool e direção.

É claro que eu concordo que é um horror beber e dirigir. O que não dá é pra fazer de uma marcha de carnaval instrumento de educação no trânsito. Pelamordedeus! O carnaval é uma festa da transgressão, de deboche, de divertimento. Se o politicamente correto já é chato no dia-a-dia, no Carnaval é que ele não tem mesmo espaço.

Carnaval é pra debochar do Zezé por causa de sua cabeleira, pra proclamar aos quatro ventos que garrafa cheia eu não quero ver sobrar e que o teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor. É bom berrar a plenos pulmões que eu mato, eu mato, quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato ou olhar pro céu e desejar que chova três dias sem parar porque a minha grande mágoa é lá em casa não ter água e eu preciso me lavar…

Misturando crítica social com letras bem humoradas a marchinha de Carnaval foi retrato de um tempo; hoje o Carnaval mudou, e eu não sou nem socióloga, nem antropóloga, nem “óloga” nenhuma para estudar os motivos. Mas as marchinhas, eu garanto que fazem falta nos dias de hoje.

Finalmente para você a letra – e depois o vídeo no YouTube – da marchinha vencedora no Concurso da Fundição Progresso e que o meu amigo achou tão inútil, desnecessária e boba – e é mesmo, mas também é divertida, alegre, engraçada, com uma melodia e um estribilho que pregam no ouvido e que vc aprende da primeira vez. E não é isso que todo compositor de marchinhas almeja? Pois é.

Bom Dia – de Renato Torres de Lima

Deixa eu dar bom-dia
Deixa eu dar paixão
Hoje é alegria
E eu dou, não nego não…
Mas se eu dou bom-dia
Dou de coração
Pinto minhas unhas
Viro um avião.
ESTRIBILHO
Se o conde D’Eu,
Se o rei de Bagdá
Se os negros do Sudão
Por que eu não posso dar?
E os enrustidos
Sempre dizem não
Se não dão bom-dia
Entram em depressão
Eu já dei um dia
Mas que confusão
Só não entenderam
O meu bom-dia não
ESTRIBILHO
Se o conde D’Eu,
Se o rei de Bagdá
Se os negros do Sudão
Por que eu não posso dar?
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Galo cantou, às 4 da manhã…

8 02 2010
“À meia-noite acorda um francês
Sabe da hora e não sabe dos mês
Tem esporas e não é cavaleiro
Tem uma serra e não é carpinteiro.
Cava no chão e não acha dinheiro.
O que é o que é?”

Quando eu era menina, Mamãe me perguntava essa adivinha, que ela trazia entre as milhares de coisas que tinha decoradas. A gente logo respondia: é o galo!

Com presença forte ao longo de todo o folclore, tanto brasileiro quanto mundial, o “Francês” da adivinha é um animal emblemático, que “chama o dia e afugenta a noite” com seu canto em horas certas.

Em Hamlet, logo no primeiro ato, Shakespeare o chama de “trombeta da manhã”, na fala de Horácio:

“…Ouvi dizer que o galo, essa trombeta da manhã, com sua voz vibrante e clara desperta o dia, e que a esse aviso, os espíritos errantes, onde quer que estejam, retornam aos seus refúgios…”

E em Macbeth é usado como marcador do tempo na voz do porteiro:

“… Estivemos bebendo até o primeiro cantar do galo…”

Antes que o galo cantasse, Pedro negou três vezes a Cristo; e no jogo do bicho é o número 13, sendo por isso mascote do Treze Futebol Clube, de Campina Grande, um dos meus times do coração, cognominado “O Galo da Borborema”.

Uma história curiosíssima de um galo que seria preparado para o almoço de domingo já foi contada no meu livro Coração Parahybano, na crônica “A minha Noruega”, na página 113; e em Natal, onde moro, ele é considerado um símbolo da cidade, encimando orgulhosamente as torres das igrejas.

João Cabral de Melo Neto, no poema Tecendo a Manhã, o define:

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

Mas essa qualidade de tecer a manhã antes que a manhã real surja muitas vezes incomoda quem quer dormir e não consegue.

Tenho um amigo que mora numa casa onde o quarto dele é no primeiro andar. A janela dá para um pequeno – muito pequeno – quintal de um vizinho.

Aí, o vizinho foi e comprou um galo. Toda santa madrugada o animal começava a cantar, e o barulho ecoava no pequeno e apertado espaço entre as casas.

Então o meu amigo pegou sua vara de pescar, amarrou um peso na ponta, colocou a vara pela janela em direção da biqueira de zinco da casa do vizinho e, toda vez que o animal cantava, ele com a vara, batia na biqueira: dém, dém, dém.

O galo cantava, ele batia. Cocoricó, dém, dém, dém.

Depois de duas noites de dém, dém, dém o vizinho sumiu com a ave para outro galinheiro, onde foi tecer a manhã bem longe de ouvidos humanos precisados de repouso…





Antes mal-acompanhada do que só

22 01 2010

Nos dias em que estou assim à toa, sem fazer nada, uma coisa que me distrai muito é ler os classificados. O meu caro leitor não imagina o potencial de diversão que há nesses anúncios, ou como é instigante exercitar a imaginação inventando histórias a partir daquelas poucas palavras que ali estão.

Todas as pequenas – e às vezes grandes – necessidades humanas estão presentes, explícitas ou latentes nos classificados. São pessoas que estão “vendendo todos os móveis” por motivo de viagem ou transferência e eu logo imagino a dor que a gente sente quando tem que se separar de um objeto querido, que pode ser o armário antigo e cheio de recordações ou a fofa poltrona que já se acostumou com nosso corpo.

E o que pensar quando o anúncio diz: “Vende-se vestido de noiva, cor branca, em renda francesa, todo rebordado em pérolas. Nunca foi usado.” Pobre noiva, que com tanto carinho escolheu modelo e tecido e quem sabe até ajudou a fazer o trabalhoso bordado, mas não chegou a vesti-lo e subir ao altar! Que tragédia ou desilusão se esconderá por trás deste anúncio? Uma traição? Morte prematura do noivo?

  Quando o assunto é ortografia, as coisas se tornam muito engraçadas. É curioso observar a forma como certas palavras são escritas e aí o crédito por essas aberrações ortográficas tanto pode ir para quem redige o anúncio e o entrega no balcão como para a atendente do jornal, a quem o anunciante dita o texto pelo telefone. Alguém quer vender um título do “Walter Park”, em vez de “Water Park”, um salão de beleza oferece “coiffus” em vez de “coiffeurs” (cabelereiros) e outro quer vender um computador com estabilizador de “um caviar”, quando o correto é 1 KVa.

Descobri também que é um bom negócio trabalhar com recarga de cartuchos para impressora, tal a quantidade de anúncios dessa atividade. Um deles oferece a própria máquina que faz o trabalho e afirma que esta é “a profissão do novo milênio”. Acrescenta ainda que “Deus é fiel”, mas nessa eu passei batida e não consegui estabelecer qual seria a relação entre a fidelidade divina e a tinta dos cartuchos.

Mas o melhor de tudo é a criatividade das pessoas na hora de oferecerem seus serviços. Descobri um “motorista/locutor”, um “massagista profissional” que adverte de maneira taxativa que não massageia “partes íntimas” e um “caligrafista”, que se oferece para endereçar convites de casamento, formatura e outros eventos. Encontrei também um “sargento do exército, 30 anos, comunicação fácil, experiência em planejar, sobrepor limitações, mudanças de paradigma e táticas racionais…”, que acrescenta outras habilidades e conclui o anúncio dizendo que “… não é fumante, flamenguista ou corintiano e muito menos simpatizante do futebol”.

Finalmente, entre todo esse cortejo de profissionais, gostei muito de dois rapazes que se oferecem para “acompanhantes”: “Lindo, gaúcho, olhos azuis” e “Novato, 22 anos, prazeiroso”.  Com um pequeno esforço de imaginação, consegui me ver sendo acompanhada por um deles ou, quem sabe, pelos dois ao mesmo tempo. Mas temo, meu caro leitor, que isso não seja assunto para este blog e vou ficando por aqui, profundamente inclinada a subverter o provérbio e afirmar que, vez por outra, é melhor estar mal-acompanhada do que só.





Monga, e o monossílabo

20 01 2010

Fui criada no meio de eufemismos. Em casa, e na vizinhança.

Quando se ia mandar um dinheiro para alguém, o dinheiro se transformava em uma palavra misteriosa: a “encomenda”. Mamãe dizia: “Neusa recebeu a encomenda?”

Não se falava em tuberculose: era “a fina”, ou “a magra”. Fulano está com “a fina”. E câncer, nem pensar. Dizia-se “aquela doença”. “Fulano está com aquela doença”.

Não se dizia parir, ter menino, dar à luz: o termo era “descansar”. Menstruar era palavrão. Naquele tempo, as mulheres ficavam “incomodadas”; e quando uma das moças da vizinhança “se perdia” não era porque a criatura não encontrasse o caminho de casa: era porque havia perdido a virgindade.

Papai chegou ao ponto de inventar palavras de xingação, como “leqüera”, assim mesmo, com trema no “u”, para quando queríamos insultar uns aos outros; e inventou também a palavra “lunfa”, que queria dizer uma mulher de vida mais livre sem chegar realmente a ser prostituta.

É bem verdade que vez por outra, no calor das discussões, as muralhas da boa educação caíam por terra e saíam todos os deliciosos palavrões que hoje se diz com tanta frequência e tão abertamente. “Sua puta sem-vergonha, chifreira, eu sei que seu marido é corno, viu, sua rapariga?” Nós, crianças, ouvíamos entre assustados e deliciados as brigas, até que alguém notava e baixava o volume da voz.

Lembrei disso tudo vendo a TV, onde, depois do anúncio de um medicamento, aparece o letreiro: “Ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado”, frase complexa e pedante, que faz você pensar umas três vezes antes de entender diteito o que ela quer dizer.

Isso me levou de volta no tempo, a uma placa que havia na porta do Restaurante Maré Mansa, em Macau-RN, famosíssimo pelo seu camarão divino. Hoje essa placa não existe mais – o camarão continua divino – mas na década de 1980 eu fiz uma foto dela – que obviamente nunca consigo achar quando preciso. A placa diz: “Se acompanhado, não se aproxime com mulher de vida livre”. É o cúmulo do arrodeio para dizer: “Proibido entrar com puta”.

Mas o exagero do eufemismo eu ouvi dizer numa história contada pelo poeta e contador de causos Jessier Quirino. Ele conta que estava num parque de diversões e foi entrando para ver Monga, a mulher Gorila. Naquela sala escura, lotada de gente de pé, ele entra com uma das mãos atrás, protegendo “o monossílabo”. Quem já entrou para ver Monga – eu já – sabe que é de suma importância fazer isso, porque há cem por cento de risco de se levar uma, como direi, “dedada” no “monossílabo”, é claro…





Um sonho de Natal

25 12 2009

Na minha infância nunca tirei retrato com Papai Noel. Se você vem acompanhando essa minha série de post sobre o Natal, já sabe que não tive uma infância muito fácil no que se refere ao quesito financeiro.

Além de sermos “remediados”, não havia essa tradição tão arraigada de comemorar o Natal como hoje. O evento ainda não tinha se tornado essa locomotiva de marketing, puxando atrás de si os vagões do consumo desenfreado, das tradições inventadas de última hora para vender produtos, da perda de significado dos símbolos.

Mas eis que no Natal de 2001 ou 2002, não me lembro bem, fui à “formatura” da minha neta Isabela, que devia ter seus seis ou sete anos e estava terminando a fase de alfabetização. No final da cerimônia, as crianças se acotovelaram para tirar uma foto ao lado de um magnífico Papai Noel, com uma espetacular roupa de cetim vermelho e belas barbas de algodão.

Eu fiquei olhando assim de longe e pensei: “Por que não?”

E fui lá, caro leitor. Fui também tirar a minha foto com Papai Noel, projeto adiado por cerca de cinquenta anos. Abracei aquela criatura e dei um zoom ao contrário no tempo. Virei criança de novo enquanto meu filho fazia a foto e minha neta morria de rir.

O Papai Noel, muito maroto, parece ter gostado do abraço porque dois dias depois eu o encontrei no shopping, ainda com a fantasia, no meio de um monte de criança. Piscou o olho para mim e disse: “E aí? Não quer dar mais um beijinho no Papai Noel?”

Pois é, meu caro leitor. Tem milagre de Natal pra tudo quanto é gosto. Prudentemente, recusei a oferta e recomendei ao bom e assanhado velhinho que fosse beijar uma de suas renas, e me incluísse fora daquilo. Ele riu, eu ri, e assim termina mais um conto de Natal moderno.

Feliz Natal!

Veja que olho mais safado desse Papai Noel!





Uma anedota

11 10 2009

Eu gosto de anedota, de piada. Aliás, quem não gosta? Nada como ouvir uma piada bem contada, e se entregar ao prazer da gargalhada aberta, rasgada, rir “às bandeiras despregadas”, como se dizia antigamente, nesta expressão que ninguém usa mais.

A anedota é uma historiazinha curta, que tem como principal função despertar a hilaridade do leitor ou ouvinte através de um recurso simples e muito manjado: o anti-clímax. É preciso arte para contar a anedota, evitando arrodeios desnecessários e informações que não contribuem para a graça da piada. Quanto mais curta, melhor.

E como hoje é domingo e eu estou na maior preguiça para escrever, lhe deixo aqui esta piada de loura, cartegoria na qual eventualmente me incluo, por obra e graça da química.

Pois dizem que o professor, na sala de aula, pede a uma loira que diga um verbo.

– Bicicreta – fala a criatura.

– Mas minha filha! – diz o mestre horrorizado. – Se diz bicicleta, e bicicleta não é verbo.

Aponta para outra, loira também, e pede que diga um verbo. (Aliás, nessa turma todas são loiras… Que faculdade será essa?)

– Prástico – ela diz.

O professor, já nervoso, corrige.

– Minha querida! Se diz plástico, com “L”, e plástico não é verbo.

Aí ele vê um loirinha de óculos, se enche de esperança e se dirige a ela, pedindo que diga um verbo.

– Hospedar – responde a menina.

– Que maravilha! – comemora o professor. – Agora, forme uma frase com o verbo hospedar.

A loirinha, então, toda empolgada, diz:

– Os pedar da bicicreta é de prástico.





Olimpíada 2016 – a festa do Rio de Janeiro

3 10 2009

Acompanhei ontem com emoção a escolha do Rio de Janeiro para sediar a Olimpíada de 2016. No twitter, os comentários de sucediam, e eu me diverti muito porque, além da torcida normal de uma ocasião dessa havia ainda as piadas, cada qual mais engraçada do que a outra, e, como toda piada  que se preza, oscilando através de vários graus da escala do políticamente incorreto.

Desde o engraçadíssimo Yes, we crew, de Marcelo Tas e Xico Sá propondo malabarismo em semáforo como esporte olímpico, foi engraçado ver alguém dizendo que na abertura “Ronaldo leva a tocha e Marcelo D2 acende”, outro lembrando que “Vanusa vai ter sete anos pra aprender a cantar o Hino” e um terceiro levantando a possibilidade de Niemeyer começar a treinar assim que sair do hospital.

E as piadas não param. Dizem que as medalhas vão ser de “ouro, prata, bronze e chumbo” e sugerem que os sete anos que nos separam das Olimpíadas são suficientes para aposentar Galvão Bueno.

Piadas à parte, fiquei feliz. Nesse momento agora, não me interessa se metade da verba vai ser desviada, se vai faltar dinheiro para saúde e educação, se a bandidagem no Rio de Janeiro vai deitar e rolar, se os engarrafamentos vão ser imensos, e todos os outros argumentos que estão usando para tentar empanar a alegria desta hora.

Todos esses problemas podem acontecer, e provavelmente vão acontecer, mas minha gente! Numa hora dessa, em que estamos pela primeira vez na América Latina sediando uma Olimpíada, é muito ruim torcer contra. É feio, é mesquinho, é pobre. O que a gente tem que fazer daqui pra frente é exercer o papel de cidadão, cada um dentro da sua esfera de atuação, e fiscalizar o que é que vão fazer com essa grana toda, ver como é que as verbas vão ser aplicadas através dos mecanismos controladores de que a sociedade dispõe. O melhor desses mecanismos é o voto, e no próximo ano já vai ser possível aplicá-lo.

No mais, é comemorar, alegrar-se com a festa do esporte, com a celebração da saúde e da alegria, e torcer para que mais uma vez nossos atletas subam ao pódio coroados de ouro.