História de cangaceiros

7 03 2010

Vicente Lucas se preparava para descarregar a mercadoria dos jumentos em frente ao armazém. A mulher, Josepha, em estado adiantado de gravidez, viu ao longe uma tropa de homens fortemente armados, que se aproximavam.

– Olha, Vicente, quanto soldado!

– Larga de ser tola, Zefinha! – disse o marido. – O que é que os soldados vinham fazer num fim de mundo desses?

Mas era Lampião e seu bando. Cangaceiros e volante em nada se distinguiam uns dos outros, nem nas roupas, nem nos armamentos e muito menos na ferocidade. E de repente estavam todos dentro da casa de comércio, de onde passaram à residência, contígua ao armazém.

Com a coronha dos rifles arrombavam portas, quebravam tudo, procurando dinheiro e jóias.

A mulher gritava enquanto o marido era espancado pelos cangaceiros para revelar o esconderijo dos bens. No oratório, dentro de uma lata vazia de doce, os trancelins e anéis de Josepha foram logo encontrados. Os bandidos queriam mais e continuaram o espancamento.

Vendo o marido mergulhado numa poça de sangue, ainda apanhando, Josepha só pensava nos filhos pequenos que, à aproximação do bando, haviam fugido pelos fundos da casa mergulhando nos matos, onde o menino Gerson, de poucos anos, só não morreu de sede porque foi alimentado pelos irmãos com água de raiz de umbuzeiro.

Depois de depredarem tudo, com Vicente já morto, um dos cangaceiros atirou em Josepha, que lhe pedia pelo amor de Deus que tivesse pena dela, que pensasse na criança que estava para nascer.

– Bandida! Cachorra! – vociferou o animal, disparando-lhe um tiro de rifle.

Errou o tiro. A bala alojou-se no bauzinho de couro onde estava guardado o enxoval da pequena Angelita, nascida meses depois, e falecida ainda muito novinha.

Entre risadas, com os embornais repletos do saque, os bandidos se prepararam para deixar o local. Um menino adotivo, cria da casa, foi amarrado à cauda da montaria de um deles por uma peça de tecido retirada do armazém e arrastado por algumas centenas de metros onde foi deixado, semimorto, à beira da estrada.

Tudo isso se passou em 1924, aqui neste Agreste pernambucano, e me foi contado hoje por Didi, minha prima, neta de Josepha e de Vicente.

Páginas do passado, heróicas, tristes, e verdadeiras.





Sangue do meu sangue, eu mesma

3 03 2010

Ontem andei aqui falando que estou viajando, realizando uma pesquisa de genealogia, pesquisando meus antepassados, no desejo de saber quem são, de onde vieram, o que faziam.

Batistério de Cleuza, minha mãe. 1921.

Descobri que a genealogia é também uma ocupação muito saudável para as damas aposentadas feito eu, que perderam o gosto pela farra e pela esbórnia (talvez em virtude dos excessos que já praticaram) e que não tendo mais maridos, filhos, cargos e empregos para se dedicar, procuram algo para encher o tempo.

A genealogia tem me levado a viajar, conhecer pessoas, encontrar parentes que eu nem sabia que existiam.

O curioso é que quando eu digo às pessoas que estou procurando meus antepassados, logo perguntam se encontrei algum conde ou barão; ou se sou descendente de algum nobre florentino ou fidalgo espanhol. E quando eu digo que sou da família Santa Cruz querem logo saber se sou parente de um comediante que aparecia na TV fazendo pequenos papéis em programas cômicos. Mas é isso mesmo, vivemos numa sociedade onde o que vale é a fama e a notoriedade, mediadas pela TV.

Alguns dos meus antepassados, de sobrenome Salgado de Vasconcelos, foram agricultores e criadores de gado, mascates e tropeiros. Havia ainda os Santa Cruz, que eram bacharéis. fazendeiros e políticos, e um deles quase virou cangaceiro, à frente de um “exército” de cerca de 400 homens, somente porque se indispôs com os políticos que estavam no poder. Isso foi em 1912, em Monteiro/PB e a história é contada por Pedro Nunes no seu espetacular livro “Guerreiro Togado”. Uma versão resumida você pode ler aqui. Tudo isso é do lado da mminha mãe, onde ainda há ramos que não pesquisei como os Duarte, de Canhotinho/PE e os Ferreira, de Flores e Sertãnia, também em Pernambuco.

Os Tavares, do lado do meu pai, eram jornalistas, intelectuais, mas nenhum deles famoso: socialistas, viviam dando com os costados na cadeia sempre que havia uma escaramuça política qualquer.

Tenho muito orgulho do meu povo, e das histórias que descubro sobre eles. Mas ainda há muito o que pesquisar. Se você imaginar que temos dois pais, quatro avós, oito bisavós, dezesseis trisavós, trinta e dois tetravós e assim por diante, vai entender porque o assunto é tão apaixonante.

Eu consegui chegar modestamente a sete bisavós, quatro trisavós e dois tetravós; a caminhada apenas começou. Conseguir encontrar todos os trinta e dois tetravós é quase impossível, principalmente porque a maioria era gente pobre, modesta, sobre quem não ficou nada escrito. Mas a graça da aventura está exatamente aí.

O que sei é que todos vivem dentro de mim, impressos no meu DNA, e que sou essa amálgama de mascates, bacharéis, caboclos brabos, tropeiros, jornalistas, agricultores, fazendeiros, comunistas, sesmeiros, bandidos e coronéis. Sangue do meu sangue, eu mesma, Clotilde Santa Cruz Tavares.





Antigos carnavais

14 02 2010

Neste domingo de Carnaval a minha vida virtual está por um fio. Falo assim porque o adaptador do meu notebook – aquele acabo que conecta a máquina à tomada de energia – está com mau contato, com péssimo contato, em vias de pifar. Está na garantia, mas onde danado eu vou achar assistência técnica autorizada num domingo de Carnaval? Pois é.

Enquanto escrevo, fico com um olho na tela e outro no pequeno led verde, que indica que o contato está feito. Se o led apaga, e apaga do nada, eu fico sem a máquina…

Então, nas carreiras, “ligêro como quem róba”, como se diz lá no mato, vou postar aqui umas imagens de antigos carnavais e lhe pedir encarecidademnte que não me abandone enquanto eu não normalizar essa situação e ficar sem atualizar o blog todo dia. Entre os meus grandes terrores está o de perder o contato com você, meu caro leitor, em homenagem de quem me sento todo dia aqui para escrever.

1949 foi o meu primeiro Carnaval. Eu tinha somente um ano e dois meses, usei um pierrô de seda colorida e, de lança-perfume em punho, já anunciava um futuro nada ortodoxo...

Em 1952 usei essa fantasia de presidiário em seda listada de vermelho e branco. As fantasias eram idealizadas por Papai e confeccionadas por Mamãe. A cidade ao fundo é Campina Grande-PB e eu tinha 4 anos de idade.

1953. Eu e meu irmão Braulio fantasiados de "turcos". Braulio de calça de seda azul, blusa branca e bolero preto bordado de lantejoulas, Na cabeça um chapeu feito de cartolina com areia prateada; eu uso saia de várias cores de seda, e na cabeça um turbante (ai, meu Deus! esse turbante nunca ficava no lugar) de seda violeta - que Mamãe chamava de "ciclámen". Nos pés, tênis e meias brancas para "pular" o frevo sem machucar os pés... Cada um com sua lança-perfume e o saquinho de confetes.

Há também uma foto maravilhosa do Carnaval de 1950, onde eu estou de havaiana vermelha; mas essa foto – com sua descrição – você vai ver lá no blog Memoria Viva.





Ferro-de-engomar

1 02 2010

No meulivro Formosa és: memórias do internato eu mostro a foto de um ferro de passar nos moldes do que usávamos naqueles longínquos anos do final da década de 1950.

Ferro de brasas. Veja a empunhadura de madeira e a abertura traseira por onde se abanava.

Abria-se o ferro, enchia-se o recipiente de brasas tiradas do fogão, e esperava-se que as brasas esquentassem o metal. Aí, passava-se a roupa. Havia ainda uma série de detalhes: para que esquentasse rápido, o ferro era colocado no chão, junto a uma porta bem ventilada, em cima de uma lata emborcada, com a abertura do fundo na direção do vento; um grampo era atravessado no nariz do ferro para que não abrisse quando alguém o empunhava e, se não esquentasse logo, enérgicas abanadas com um abano de palha eram logo providenciadas.

Havia uma empregada lá em casa que ia para o meio do quintal com o ferro na mão e o balançava em arco, provocando com esse movimento o vento necessário para avivar as brasas. Mas Mamãe morria de medo dessa performance, que achava perigosa. Imagina se você sem querer solta esse ferro e ele voa em cima de alguém! – dizia Mamãe. – De um dos meninos! – continuava, e nós nos enconlhíamos, aterrados, ao imaginar a cachoeira de brasas ardentes se derramando sobre as nossas cabeças.

Além do ferro de engomar doméstico, havia na Campina Grande da minha infãncia um lugar com esse nome. Ali perto do Ferro-de-Engomar, diziam. Era um edifício que tinha um formato pontudo, em bico, e por isso era assim chamado. Quero dizer: havia, não: há, ainda há. Continua lá no mesmo local, há bem uns 60 anos.

Infelizmente não achei foto do prédio. mas no Google Maps é possível ver a forma pontuda do edifício, apontando como uma cunha para a avenida.

Localizado na Avenida Getúlio Vargas, no centro da cidade, tem no seu térreo um bar, com clientela cativa; as más línguas dizem que a partir das oito da manhã o dono do “Ferro” já se encontra de plantão, para atender à turma que passa lá pra “regular a marcha lenta” antes de ir trabalhar. Isso deve ser porque neste país está ficando na moda ir trabalhar “calibrado” com algumas doses de álcool…

Peço aos blogueiros Emmanuel Souza e Adriano Araújo, inventores do blog Retalhos Históricos de Campina Grande, que desenvolvam essa pauta e falem sobre esse local tradicional da “Rainha da Borborema”.

Finalmente, um Ferro-De-Engomar famoso: o Flatiron Building (Fuller Building), um dos primeiros arranha-céus construídos em Nova Iorque, inaugurado em 1902 e localizado entre a Quinta Avenida, a Broadway e a Rua 23. Com seus 22 andares, é um dos cenários mais característicos da Big Apple e foi desenhado pelo arquiteto e urbanista Daniel Burnham. Eu ainda vou ver isso!

Flatiron Building, New York City.





Monga, e o monossílabo

20 01 2010

Fui criada no meio de eufemismos. Em casa, e na vizinhança.

Quando se ia mandar um dinheiro para alguém, o dinheiro se transformava em uma palavra misteriosa: a “encomenda”. Mamãe dizia: “Neusa recebeu a encomenda?”

Não se falava em tuberculose: era “a fina”, ou “a magra”. Fulano está com “a fina”. E câncer, nem pensar. Dizia-se “aquela doença”. “Fulano está com aquela doença”.

Não se dizia parir, ter menino, dar à luz: o termo era “descansar”. Menstruar era palavrão. Naquele tempo, as mulheres ficavam “incomodadas”; e quando uma das moças da vizinhança “se perdia” não era porque a criatura não encontrasse o caminho de casa: era porque havia perdido a virgindade.

Papai chegou ao ponto de inventar palavras de xingação, como “leqüera”, assim mesmo, com trema no “u”, para quando queríamos insultar uns aos outros; e inventou também a palavra “lunfa”, que queria dizer uma mulher de vida mais livre sem chegar realmente a ser prostituta.

É bem verdade que vez por outra, no calor das discussões, as muralhas da boa educação caíam por terra e saíam todos os deliciosos palavrões que hoje se diz com tanta frequência e tão abertamente. “Sua puta sem-vergonha, chifreira, eu sei que seu marido é corno, viu, sua rapariga?” Nós, crianças, ouvíamos entre assustados e deliciados as brigas, até que alguém notava e baixava o volume da voz.

Lembrei disso tudo vendo a TV, onde, depois do anúncio de um medicamento, aparece o letreiro: “Ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado”, frase complexa e pedante, que faz você pensar umas três vezes antes de entender diteito o que ela quer dizer.

Isso me levou de volta no tempo, a uma placa que havia na porta do Restaurante Maré Mansa, em Macau-RN, famosíssimo pelo seu camarão divino. Hoje essa placa não existe mais – o camarão continua divino – mas na década de 1980 eu fiz uma foto dela – que obviamente nunca consigo achar quando preciso. A placa diz: “Se acompanhado, não se aproxime com mulher de vida livre”. É o cúmulo do arrodeio para dizer: “Proibido entrar com puta”.

Mas o exagero do eufemismo eu ouvi dizer numa história contada pelo poeta e contador de causos Jessier Quirino. Ele conta que estava num parque de diversões e foi entrando para ver Monga, a mulher Gorila. Naquela sala escura, lotada de gente de pé, ele entra com uma das mãos atrás, protegendo “o monossílabo”. Quem já entrou para ver Monga – eu já – sabe que é de suma importância fazer isso, porque há cem por cento de risco de se levar uma, como direi, “dedada” no “monossílabo”, é claro…





Formosa és

15 12 2009

Quando a gente vai chegando na meia-idade, e começa a se aproximar daquilo que supomos ser a viagem derradeira – digo supomos porque quem sabe se depois dessa ainda não haverá outras viagens, outras passagens? – começa a haver uma necessidade de passar as coisas a limpo, de pegar o rascunho da vida e dar-lhe forma e essência, conteúdo e continente, aparar os excessos, enxertar sentido naquilo que ficou vago, preencher as lacunas. Isso, penso eu, é uma tarefa feita mais para nós mesmos do que para os outros.

Então nesta semana, concluí e lancei – lançar no sentido de publicar, entregar ao público – mais um livro, disponível para download gratuito pela Internet.

Desta vez é o “Formosa és: memórias do internato”, texto que venho escrevendo desde junho deste ano, para que não se perca na memória essa fase da minha vida. Fiquei interna por dois anos, entrando com oito anos e saindo ao completar dez, no Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, na cidade de Bom Conselho, no Agreste pernambucano.

Os acontecimentos narrados no livro se passaram há 55 anos, tendo sido já depurados pelo filtro do tempo e da maturidade. Foi ruim? Foi bom? Digo somente que foi uma experiência, que deixou marcas. Mas é bom quando a gente pode se debruçar sobre o passado e ajustar contas com ele, fechando arquivos que estavam abertos e “desfragmentando” esse imenso HD a que chamamos memória.

Não tenho planos de fazer o livro em papel. Nem ele, nem os que pretendo ir lançando pelo mesmo método, à medida em que os for preparando. Afinal, o desejo do escritor é ser lido; se você mandar imprimir as cerca de 150 páginas do volume, terá gasto praticamente os mesmos 30 reais que pagaria  pelo livro impresso – ou menos. De quebra, eu me livro da noite de autógrafos, na qual estou sempre tão aterrorizada que mal sei o que estou dizendo a cada uma daquelas pessoas tão gentis que compram o livro e querem minha assinatura.

Então, aí vai o endereço: http://www.clotildetavares.com.br/formosaes.pdf

E para quem está curioso, o “Formosa és” do título é de um belíssimo hino a Nossa Senhora, tema musical daqueles dois anos que passei interna: “Formosa és, Rainha Imaculada,/ Fragrante lis, aurora divinal./ Se os olhos meus um dia te olvidarem, / Ó Mãe, então, recorda-te de mim.// Quero morrer cantando os teus louvores, / Qual rouxinol que expira ao pôr-do-sol. / Quando partida a minha pobre lira,/ Te cantará meu triste coração.”

Sou uma pessoa religiosa que não tem religião, e esse hino sempre consegue me transportar para as altas esferas, onde cantam os anjos e ainda ecoa a minha voz de menina.





Dois siris jogando bola

1 12 2009

O Colégio.

Ando escrevendo minhas memórias, abrangendo os primeiros vinte anos da minha vida. Entre esses, há dois anos especiais: os que passei no internato, no Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, em Bom Conselho, agreste de Pernambuco. Fui para lá com oito anos e saí com dez, no período de 1956 a 1957. Só esse período do internato dá um livro, que em breve estará aqui para download gratuito. Trecho dele segue abaixo para você.


(…)

Outros acontecimentos da vida social reduzidíssima do colégio era a visita de frades, que deviam estar cumprindo algum tipo de visita protocolar, ou de inspeção. Nessas ocasiões, e estando marcada a data da visita, o evento era comunicado às alunas e era preparado uma espécie de sarau, cheio de números musicais e poéticos para mostrar ao visitante nossos dotes artísticos.

Numa dessas sessões, coube-me apresentar uma “cançoneta”, que era uma pequena canção dramática, contando a história de uma menina chamada Sílvia que brigava com a mãe por algum motivo. Eu sempre gostei de cantar, e os ensaios eram um prazer, principalmente porque tinham o acompanhamento do piano, instrumento pelo qual eu tinha uma grande fascinação. As tardes de ensaios, onde eu cantava “Chamo-me Sílvia, e só lhe digo…” foram, no internato, algumas das tardes mais felizes que tive.

Eu, em 1956.

A recepção ao frade seria no domingo, depois da missa e do café da manhã. Fomos para a sala do piano, e um disse uma poesia, outra cantou algo, mais uma tocou uma valsa. Quando chegou a minha vez, não consegui cantar nada, não porque não soubesse ou porque estivesse envergonhada – eu só tinha oito anos! – mas porque de manhã não tenho nem nunca tive voz. Sempre acordei rouca, “com teias de aranha na garganta”, principalmente num clima frio como era aquele da região. Nos ensaios, à tarde, eu me saía bem, depois da voz já aquecida por quase um dia inteiro de gritos e brincadeiras; mas às sete e meia da manhã foi impossível. Depois de duas ou três tentativas, retirei-me arrasada para o corredor, em estado de completa e absoluta humilhação.

Fiquei sob a égide da desgraça durante quase toda a semana. Onde eu chegava, comentavam:

– Clotilde não cantou, Clotilde não cantou…

Mas na sexta-feira, a professora de terceira série, no final da aula da manhã, já aí pelas onze horas, resolveu fazer uma “sessão artística” e chamou algumas das meninas para recitar e cantar. Depois perguntou:

– Quem quer vir?

Eu levantei o braço.

Fui lá para a frente, plantei os pés no chão, coloquei as mãos para trás, como era a postura adequada para essas apresentações e cantei uma música de Luiz Gonzaga que eu sabia todinha “Siri Jogando Bola”.

Vi dois siris jogando bola lá no mar
Eu vi dois siris bola jogar, lá no mar
Fui passear no país do tatu-bola
onde o bicho tem cachola e até sabe falar,
eu vi um porco passeando de cartola,
um macaco na escola ensinando o bê-a-bá
(…)
Vi um elefante cozinhar na caçarola,
armoçar todo frajola e a dentuça palitar,
vi um jumento beber vinte Coca-Cola,
ficar cheio que nem bola e dar um arroto de lascar.

A letra da música era engraçadíssima, cheia de absurdos, e eu fui muito, mas muito aplaudida mesmo. Veio gente de outras salas para assistir à performance. Quando acabei, os aplausos foram enormes, pediram bis, e eu cantei a música inteirinha de novo.

Esse episódio foi uma das glórias da minha infância tímida e acanhada, e jamais vou esquecer daquela sensação, dos aplausos, dos rostos alegres me olhando, dos olhos brilhando, dos sorrisos largos.

Ali, naquele instante, nascia o meu gosto pelo palco.





Cultura popular, seiva da Vida

23 11 2009

Um dia desses recebi um e-mail de um leitor que me perguntou como era que eu, uma professora universitária, formada em Medicina, com pós-graduação e outros badulaques acadêmicos, tinha tanta afinidade com o folclore, com a cultura popular, com as coisas do povo. “De onde vem essa ligação, Clotilde?” perguntou-me o leitor. “Como você penetrou nesse mundo?” Em vez de responder, quero contar algumas coisas da minha infância.

Campina Grande, meados do século XX.

Passei minha infância em Campina Grande, na Paraíba, na década de 1950. Pela manhã, quando e meus irmãos saíamos da quentura da cama, depois de escovar os dentes e banhar o rosto com água “quebrada a frieza”, vínhamos para a mesa tomar o café com pão, manteiga, cuscuz, ovo frito e leite. Depois do café era a hora do banho-de-sol na calçada de casa, onde Papai, indo para o trabalho diário no jornal, se despedia de nós. Pedíamos a bênção e ele sempre respondia: “Deus te abençoe.” Mamãe conversava com a vizinha assuntos secretos que se encerravam quando um de nós se aproximava. “Comadre, olhe os meninos…” E se calavam.

Depois do banho-de-sol entrávamos em casa e o rádio era ligado no programa “Retalhos do Sertão”, da Rádio Borborema, onde os repentistas José Gonçalves e Cícero Bernardes cantavam sextilhas, glosavam motes e, no final do programa, invariavelmente, disparavam num galope-à-beira-mar ou num martelo-a-desafio de tirar o fôlego. A manhã se adiantava, o programa de rádio terminava e íamos brincar no quintal, onde passávamos o tempo a construir com areia, fragmentos de madeira, latas e caixas vazias uma fazenda completa com a casa grande, a casa de farinha, e os cercados e currais onde eram abrigados os bois e cavalinhos de barro que Mamãe comprava na feira.

Na hora do almoço comíamos feijão, arroz, carne assada, farofa de cuscuz. Verduras e saladas não faziam parte do hábito alimentar. Depois da refeição, havia “um docinho”, que podia ser doce-de-leite ou um naco de goiabada em lata espetado num garfo. Tirada a mesa do almoço e arrumada a cozinha, começava a brincadeira de desenhar.

Mamãe mandava comprar na mercearia da esquina uma folha grande de papel cor-de-rosa que era usada para fazer embrulhos e pacotes, e cortava essa folha em pedaços menores. Desenhávamos muito e eu tenho ainda viva na memória a lembrança da textura daquele papel rústico e macio, que eu cobria de renques e mais renques de árvores, todas diferentes c umas das outras, com ramos retorcidos e estilizados.

Angelim-PE

Ao lado da mesa, Mamãe sempre às voltas com a máquina de costura contava casos e histórias da sua infância, passada nas terras do meu avô, primeiro no sítio Boqueirão, no Cariri paraibano e depois na Broca, em Angelim, agreste de Pernambuco. Eram muitas as histórias e uma das que mais gostávamos era a do eclipse total do Sol, que havia pegado a todos de surpresa: a uma hora da tarde, sem que ninguém soubesse antes o que iria acontecer, o dia havia de repente se convertido em noite, fazendo os passarinhos endoidarem à procura dos ninhos e as raposas procurarem as tocas, deixando todos estupefatos, no meio do roçado, mergulhados na escuridão, distantes de casa quase uma légua.

Nisso se passava a tarde e, no fim do dia, banhados e trocados de roupa, tomávamos a nossa sopa de feijão ou o prato de xerém com leite, seguidos de tapioca e café-com-leite. Na boquinha da noite já estávamos de novo na calçada, brincando de roda, de toca, e das brincadeiras “de menina”: anel, berlinda… Papai apontava na esquina e corríamos para encontrá-lo e com ele entrar em casa onde o víamos jantar e depois sentar-se na espreguiçadeira da sala para ler e ouvir rádio.

Começava então a hora mágica das histórias de trancoso que não podiam ser contadas de dia sob pena de ambos, contador e ouvinte, criarem rabo. A noite era hora também da leitura dos folhetos, e ainda posso ouvir a voz de Mamãe recitando “O Pavão Misterioso”, ou “Juvenal e o Dragão”. Depois era hora de lavar os pés, tomar um copo de leite com açúcar e ir dormir, depois de rezar o “Santo Anjo do Senhor/ Meu zeloso guardador/ Se a ti me confiou/ A piedade divina/ Sempre me rege/ Guarda/ Governa/ E ilumina/ Amém.”

O sono vinha rápido cerrando nossos olhos e abrindo a cortina da mente para os sonhos, povoados de paisagens do sertão e de seus personagens, feras encantadas, fazendeiros cruéis e princesas prisioneiras, almas do outro mundo e bichos que falavam.

Então, não é questão de gostar ou não da cultura popular. Ela é o elemento fundador da pessoa que sou hoje, faz parte de mim, do que faço. Ela determina meu papel no mundo, e dela me vem, através dessas profundas raízes, a própria seiva da Vida.





O Muro de Berlim: 20 anos depois

9 11 2009

No dia 9 de novembro de 1989 eu estava em São Luís do Maranhão onde havia ido participar de uma banca de concursos na Universidade Federal, na área de Saúde Pública. Passava o dia trancada numa sala na Universidade, almoçava ali mesmo em restaurante próximo e o trabalho era duro, pois o concurso tinha muitos candidatos inscritos, e havia que analisar todos aqueles currículos, fazer as entrevistas, corrigir as provas, assistir às provas didáticas em forma de aula e tudo o mais. Quem já passou por isso sabe que é uma maratona.

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Pois bem: nesse dia eu cheguei ao hotel aí pelas sete horas na noite, mais morta do que viva. Tomei um banho e desabei na cama, buscando coragem para descer ao restaurante e jantar. Foi aí que, distraidamente, liguei a TV e não acreditei naquilo que eu estava vendo: estavam derrubando o muro de Berlim.

A Queda do Muro é um desses acontecimentos históricos espetaculares que nunca podemos esquecer e que a gente sempre sabe onde estava e o que estava fazendo quando recebemos a notícia. O 11 de setembro, o assassinato de John Lennon, o assassinato de Kennedy, a chegada do homem na Lua… Como esquecer essas datas e a nossa reação a esses eventos?

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Naquele dia, longe dos meus filhos, em cidade distante, sozinha no quarto de hotel, sem amigos para comentar o que estava acontecendo, sem ter com quem falar, eu fiquei ali pensando no significado daquilo que eu estava vendo. Pensei em todas as mortes, separações, injustiças, em toda a coorte de desgraças que aquela muralha de pedra havia produzido. Pensei no Muro, ou na sua queda, como um símbolo de uma nova ordem que se instalava sobre aqueles escombros, com mais Compreensão, com mais Tolerância, com mais Harmonia entre homens e nações.

É claro que muros mais sólidos ainda estão erguidos, desafiando a Paz e a Solidariedade: são aqueles construídos nas mentes e corações dos homens, com os tijolos da Cobiça, o cimento da Intolerância, a cal do Ódio. São esses muros interiores que hoje, na comemoração dos 20 anos de derrubada do Muro de Berlim, precisam ser lembrados. Como a muralha física de pedra e cal que tombou há anos, é preciso que eles comecem também a cair por terra, melhorando a vida de todo mundo.

A jornalista Ariane Mondo, paraense/potiguar vivendo na Alemanha mantém um blog sobre a Queda do Muro. Aqui.

O escritor W. J. Solha escreve artigo fundamental sobre a efeméride, incluindo reflexões sobre a prática política, tudo embalado pelo texto elegantíssimo desse sorocabano/paraibano, festejado autor de “Relato de Prócula”. Veja o texto de W. J. Solha aqui.

Há um filme muito bom sobre o tema: “Adeus Lenin” (Wolfgang Becke, 2003).

E achei esta foto espetacular AQUI.

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Aqui jaz o muro de Berlim...





A Marquesa

1 11 2009

Se a minha mãe hoje estivesse viva, completaria 88 anos. O dia primeiro de novembro, Dia de Todos os Santos, era o dia do seu aniversário. Hoje, para registrar aqui sua passagem pelo planeta, repoduzo texto que escrevi sobre ela e que consta dos meus livros A Agulha do Desejo e Coração Parahybano.


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Cleuza Santa Cruz Tavares (1921-1997)

Quero lhe contar hoje a história da minha mãe. Nascida em 1921, em Coxixola, na Parahyba, Cleuza Santa Cruz Tavares passou a infância em fazendas, primeiro no Cariri Paraibano e depois no agreste de Pernambuco, onde meu avô Pedro Quirino criava uma meia dúzia de cabeças de gado. Na vida simples daqueles tempos e lugares, aprendeu em criança valores fundamentais que a acompanharam até o fim: honra, dignidade, destemor.

Casou-se aos 18 anos com Nilo Tavares, que na época era Secretário da Prefeitura de Angelim, Pernambuco. Em 1946 fixaram-se em Campina Grande, onde lhe nasceram os filhos: Clotilde, Braulio, Pedro e Inês. Dedicou-se à casa e à família até que todos crescemos, casamos e saímos de casa. Foi aí que ela resolveu realizar o grande sonho da sua vida: formar-se em Direito e advogar. Então esta mulher, que só tinha estudado até o primeiro ano primário, aos 52 anos matriculou-se no então Artigo 99 e em dois anos fez o primeiro e o segundo grau. Prestou Vestibular para Direito na Universidade Regional do Nordeste e passou em quarto lugar. Em 1980, com quase 60 anos de idade, formou-se finalmente em Direito. Um golpe do destino truncou-lhe então a carreira nascente: o meu pai teve um derrame, passando a necessitar de cuidados intensivos e ela deixou de cumprir o próprio ideal para atender a quem dela precisava, como o fez durante toda a vida.

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Jovem, aos 24 anos, com seu cachorro Pinóquio. O ano é 1945.

Sem poder assumir o sonhado escritório de advocacia, nas solitárias noites em casa, lia, escrevia e ouvia no rádio suas músicas preferidas. Em tom de brincadeira, inventou para si própria um título – a Marquesa, pelo qual ficou conhecida na cidade – que usava para telefonar para os programas de rádio pedindo as músicas dos seus cantores preferidos.

Quando encontrava quem cuidasse de Papai, ia aos bares, acompanhada de amigos e amigas muito mais jovens do que ela, onde tomava cerveja, cantava e se divertia. Sua mesa sempre estava cheia de jovens e de artistas, porque ela amava a alegria, a juventude e o teatro, e sempre tinha atores e atrizes por perto.

Com ela aprendi coisas fundamentais. Ensinou-me a não maltratar os animais, a honrar a palavra dada e a me orgulhar de ser mulher e nordestina. Com ela aprendi a rir da desgraça e das peças que a vida nos prega, a não levar desaforo para casa, a não ter medo de nada. Aprendi também a ser hospitaleira, a ser solidária e a defender quem está por baixo ou é vítima de preconceito.

Um edema agudo de pulmão a levou em dezembro de 1997. Mas enquanto aqueles valores que ela nos inculcou correrem nas nossas veias, e nas dos nossos filhos e netos, Dona Cleuza, a Marquesa, continuará viva e presente entre os que a conheceram e amaram.


O livro Coração Parahybano estará em breve disponível para download gratuito. Aguarde.





A Casa Rosa

12 09 2009
A Casa Rosa

A Casa Rosa

Acabo de assistir a um documentário muito bom. “Pretérito perfeito” (Brasil, 2008 – 71 minutos – Original Video), com direção e roteiro de Gustavo Pizzi, fala sobre a Casa Rosa, prostíbulo de luxo que teve sua época áurea no década de 1940 e que funcionava no bairro das Laranjeiras, na rua Alice 550, no Rio de Janeiro.

Como não conhecia nada dessa história fui à Internet, onde encontrei no site da Casa Rosa toda a história do edifício. O cabaré foi “…ponto vital na historia do Bairro das Laranjeiras e nas estórias de muitos que tiveram sua iniciação nos famosos quartos da Casa Rosa.” No documentário, vemos o cantor Lobão contando como foi isso, e mostrando o quarto onde ele pela primeira vez conheceu – do ponto de vista bíblico – uma mulher.

Cartaz de "Pretérito Perfeito"

Cartaz de "Pretérito Perfeito"

A Casa Rosa é um belo exemplo de arquitetura do início do século XX, tendo sido construído “… com o objetivo de agradar aos prazeres da alta sociedade, mantendo assim um padrão de qualidade em sua arquitetura e detalhes como azulejos portugueses e pinturas em azulejo ainda em exposição na casa.” A clientela era gente rica: comerciantes, políticos, magistrados e coronéis que por ali passavam.

Depois do seu declínio como bordel, no início dos anos 80, passou um tempo fechado e no fim dos anos 90 começaram a se realizar eventos de Forró e samba, como o Xote Coladinho e o Pessoas do Século Passado. Isso redundou na fundação de um Centro Cultural, que oficializou suas atividades em 2004.

Ivanilda

Ivanilda

Voltando ao documentário, ele é uma maravilha. Mostra depoimentos de antigos frequentadores e de funcionários; e pontuando toda a narração temos os depoimentos sábios e divertidos de Ivanilda Santos de Lima, que ali trabalhou como prostituta. É dificil imaginar que a respeitável senhora de meia-idade, bem acima do peso, de óculos de grau e vestida com simplicidade, seja a personagem das histórias que ela conta, de maneira divertida, ao entrevistador.

Além de tudo, o “Pretérito perfeito” (e viva o diretor, Gustavo Pizzi!) é técnicamente muito bem feito, fotografia linda, recursos narrativos excelentes e uma sensibilidade muito grande na abordagem de um tema como esse.

Recomendo.





O 11 de setembro

11 09 2009

No dia 11 de setembro de 2001 eu estava em Natal na sala de espera do consultório da Dra. Joaquina Fernandes Vieira, minha colega e amiga Quinquina, otorrinolaringologista que sempre dava um jeito nas minhas frequentes crises de sinusite. A um canto, lia um livro sem prestar atenção na TV quando vi que o noticiário havia mudado de tom e transmitia um incêndio em um edifício. Como o som da TV estava baixo, perguntei a alguém o que era aquilo. A pessoa respondeu “Parece que é um incêndio em São Paulo!” “Em São Paulo o que!” eu disse, me aproximando da tela. “Isso é Nova Iorque, e é o World Trade Center!” Nem bem eu havia dito isso, quando o segundo avião se chocou com a Torre Sul bem na minha frente e eu entendi imediatamente que aquilo devia ser um atentado. Aí, chegou a minha hora de entrar para a consulta.

Ao terminar, saí da sala da médica a tempo de ver o terceiro avião se chocar com o Pentágono. Ia fazer algumas coisas depois do consultório, mas resolvi ir para casa, e dirigi até lá sob o terror de que os Estados Unidos decidissem uma ação de retaliação que lançasse o mundo num holocausto incontornável.

Coxixola-PB

Coxixola-PB

Liguei para os meus irmãos, e a pergunta era: “Se houver algo assim, o que é que a gente faz?” E Pedro, que mora em Campina, e que não estava tão apavorado quanto eu, mostrou a solução: “Se a coisa pegar fogo, a gente evacua a família inteira para Coxixola.”

Mas por que Coxixola, perguntará o meu caro leitor? O que é Coxixola? Onde é Coxixola? Explico. Coxixola é uma pequena cidade, uma cidade mínima, que fica no Cariri paraibano, fazendo limites com Serra Branca, Congo, Caraúbas e São João do Cariri. É o menor município da Paraíba. É também a cidade natal da minha mãe e, talvez por ela sempre falar da sua cidade-berço com tanto carinho e saudade, sempre nos deu a idéia de um lugar escondido, inacessível, distante, protegido das desgraças do mundo, e ao mesmo tempo mágico, cheio de bucolismo, de lendas e de histórias, como se fosse São Saruê, a Terra do Nunca, o País das Maravilhas e a floresta de Brocéliande, tudo junto, reunido num lugar só.

Um pontinho no mapa

Um pontinho no mapa

Na década de 1960, aos quinze anos de idade, fui conhecer Coxixola e me encantei com o minúsculo lugarejo que, naquele tempo, era apenas uma rua, duas fileiras de casas, onde as pessoas mais velhas ainda se lembravam do meu avô Pedro Quirino. Sem muita coisa para fazer, naqueles ermos, divertia-me com as primas a explorar os arredores, e conversar com as pessoas. Foram dias que jamais esquecerei, andando sozinha pelos matos, vadeando riachos, subindo e descendo serrotes e ouvindo o grito das maracanãs quando passavam de tarde em revoada sobre as vazantes.

Quando queria aborrecer Mamãe, Papai fazia a maior gozação da cidadezinha, dizendo que Coxixola não aparecia no mapa. Mamãe ia buscar o Atlas e, com orgulho, mostrava o minúsculo pontinho perdido no meio do Cariri. Então, o que não diriam eles hoje se vissem a pequenina Coxixola na rede mundial dos computadores? Pois é, meu caro leitor. Coxixola agora tem status de município digital. Orgulhosa e faceira, mostra através de fotos e informações as suas prendas e riquezas.

Entrada da cidade

Entrada da cidade

Penso nos olhos da minha mãe, como brilhavam quando ela se lembrava do seu berço natal. A família foi expulsa do Cariri pela seca de 1927, quando foram todos para Angelim, Pernambuco, e onde ficaram até a vida adulta. Mesmo assim, quando chovia, meu avô voltava ao Cariri, para ver “tanta boniteza, pois a natureza é um paraíso aberto”, como nos versos imortais do poeta.

Herdei esse amor todo por aquela terra e Coxixola, apesar de continuar sendo um pequeno pontinho no Atlas, para mim sempre será um porto seguro inacessível a qualquer catástrofe, uma estrela plantada no meio do Cariri, no mapa do meu coração.





Recife, Pernambuco

9 09 2009

De todos os lugares que fazem parte dos primeiros quinze anos da minha vida, a cidade do Recife é de longe aquele que carrega uma carga afetiva maior, uma mistura de sensações vívidas e intensas, mesmo depois de passados tantos anos.

Foi em Recife que eu vi o mar pela primeira vez. Fiquei ali, abestalhada e muda diante daquela imensidão de água, sem saber direito o que pensar e sem esconder uma certa decepção. Ouvira tanto falar do mar que imaginava um espetáculo variegado e colorido, com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e agora me mostravam apenas aquele monte de água, indo e voltando, sem nada mais além disso. Ah, caro leitor, eu só tinha cinco anos e esperava que o mar fosse pelo menos melhor do que o circo. Hoje, com mais de sessenta, continuo achando o circo mais interessante do que o mar.

Ascenso Ferreira

Ascenso Ferreira

Mas há outras lembranças. O quintal de mangueiras da casa da minha tia Petroniza. A casa da minha avó numa rua chamada “Subida do S”. A feira do Hipódromo nas quintas feiras onde comíamos sapotis doces e deliciosos e víamos passar, terrível e majestoso, altíssimo, de chapelão e bengala, o poeta Ascenso Ferreira.

Já mocinha, íamos ao passeio no “Quem-me-quer”, que era como se chamava a calçada do cinema São Luiz, e me parece ouvir ainda o som espetacular do gongo, anunciando o início da sessão. Os rapazes usavam terno e gravata para ir ao cinema e nós, garotas, equilibrávamos nossos vacilantes treze anos nos sapatos de saltinho. Ao terminar o filme, íamos tomar sorvete no Guemba, ou na Botijinha.

Av. Conde da Boa Vista

Av. Conde da Boa Vista

Depois, memórias mais adultas, da época em que morei lá quando fazia mestrado. A ditadura militar agonizava mas ainda nos amedrontava em seus últimos estertores e lembro de memorável carreira que dei pela Avenida Conde da Boa Vista afora, perseguida por um policial a cavalo. Fui salva por companheiros anônimos e por dúzias de bolas de gude que fizeram a montaria se estatelar no chão.

Com os ventos da anistia, vi voltarem Arraes, Gregorio e Julião, e comemorei com meu tio Cláudio Tavares, o comunista mais comunista que já conheci em toda a minha vida, a redemocratização.

Era o final dos anos 70, e no coreto da praça da Várzea, a um quarteirão do apartamento em que eu morava, Antonio Nóbrega se apresentava para uma platéia embevecida que já vislumbrava o grande artista que ele viria ser. Nessa mesma época também vi nascer as carreiras de Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Lenine. As noites de Olinda eram curtas para os nossos delírios e o carnaval durava dez dias. O bloco Siri na Lata era um território de aprontações e a  violência ainda não tinha tomado posse da festa.

Doces memórias, que dão saudade.

Este texto vai para minhas primas Sonia Neusa Mignot e Dalva Quirino de Arruda Sena, e para meu primo Mauro de Arruda Sena, que comigo compartilharam a maravilha da adolescência no Recife,





A primeira televisão

23 07 2009

Hoje quero apresentar ao meu caro leitor um amigo. É Adauto de Andrade, que se auto-descreve no seu blog Legal como advogado, pai, marido, técnico, contador de causos, fuçador e curioso de um modo geral e acrescenta: não exatamente nessa ordem.

Adauto

Adauto

A propósito do meu post sobre a chegada do homem na Lua, Adauto me respondeu dizendo que ele só tinha um mês e meio quando o fato aconteceu, e que por isso não se lembrava.  E informou que a casa do pai dele, “… ainda que modesta – era a única que tinha televisão (presente de meu padrinho, que havia quebrado a tv a machadadas – mas isso é outra história). Minha mãe conta que nesse dia todos os vizinhos possíveis e imagináveis se reuniram em casa para ver as notícias naquela tv preto e branco a válvulas e recém reformada.

Bem, eu fiquei curiosa sobre aquela história da TV quebrada a machadadas e exigi o relato, que, sem mais delongas, segue abaixo.

Fala Adauto:

“Meu pai, vulgo “Seo Bento”, do alto de seus 72 anos, continua firme e ativo – ainda que aposentado – com uma oficininha de conserto de televisores no fundo de sua casa.

“Foi mecânico a vida inteira, tendo vindo de trem de Santa Rita de Jacutinga, MG, para São José dos Campos, SP, aos onze anos de idade. Sendo o mais velho de um total de doze irmãos (e irmãs) foi para roça para plantar arroz com a família e cerca de dez anos depois resolveu ir para cidade. Conseguiu emprego numa fecularia e mais tarde numa mecânica de caminhões, ambos da família Renó.. Quando a empresa faliu, foi para a Johnson e lá ficou até sua aposentadoria.

“Tudo isso é só para contextualizar.

iub“Lá na mecânica conheceu o sr. Nobilino, encarregado, e que viria a ser meu padrinho de batismo. Vida dura, casou-se, construiu sua casa e teve três filhos (sendo eu o caçula). Minha mãe contribuía na renda familiar com suas costuras, mas, para ajudar um pouco mais, meu pai fez um curso por correspondência para conserto de rádios e televisores no IUB – Instituto Universal Brasileiro. Sempre após o serviço ficava acordado até tarde, ainda na cozinha de casa, consertando rádios e outros aparelhos.

“Numa época em que televisão ainda era um luxo, meu padrinho, seu chefe, sujeito já estabelecido e com mais posses – mas dado a violentos acessos de fúria – havia comprado uma dessas máquinas de fazer doido. Mas não é que a televisão apresentou defeito? Mexe daqui, mexe dali, fuça, vira, tenta, esmurra, acabou ficando puto, levou aquela “geringonça” para fora, bem no meio do quintal, e extravasou sua raiva a golpes de machado no pobre aparelho…

tv-quebrada1“Não sobrou muito.

“Ciente de que meu pai estava dando seus primeiros passos naquela arte eletrônica, juntou os cacarecos que sobraram da vítima e levou até em casa.

“- Toma, Bento. Se você conseguir fazer essa porcaria funcionar, ela é sua.

“O que para outros seriam lixo, para meu pai foi uma oportunidade! Jamais que ele teria como comprar um aparelho daqueles naquela época!

“Desmontou tudo, arranjou madeira (sim, as tvs de então possuíam caixas de madeira – ótimas para cupins…), e, usando suas habilidades de marcenaria, fez outra caixa para a televisão. Economiza daqui, compra uma válvula dali, solda acolá e, não demorou muito, o aparelho voltou à vida!

“E essa é a história da primeira televisão que tivemos em casa…





Um pequeno passo…

20 07 2009
Essa era eu, em 1969.

Essa era eu, em 1969.

No dia 20 de julho de 1969 eu estudava para o vestibular de Medicina, para o qual me preparava, pretendendo me inscrever em duas Universidades: a da Paraíba, na capital, e a do Rio Grande do Norte, em Natal.

Espalhava os livros sobre a mesa e enquanto vigiava meu filho Rômulo, que tinha um ano e dois meses, tentava equilibrar reações químicas e dominar o cálculo estequiométrico, estudava as leis de Mendel na Biologia ou me maravilhava com as explicações da Física, matéria que sempre gostei e na qual terminei tirando a maior nota das minhas provas do vestibular, um 8,9.

Eu morava na casa de meus pais, em Campina Grande, e havia terminado um casamento há menos de um ano. Tinha 21 anos e, estudando, procurava retomar a vida e conseguir fazer o curso de Medicina, que na época era meu grande sonho.

Nesta tarde de 20 de julho era domingo, e enquanto eu estudava, meus pais, Titia Adiza e meus irmãos menores viam televisão. A TV nesse tempo era em preto e branco e irradiava uma programação gerada a partir do Recife. Nas tardes de domingo, havia um programa chamado “Dimensão Jovem”, gravado ao vivo, onde se apresentavam cantores, bandas e outros artistas.

pegada_armstrongEra quase final da tarde, e dali a pouco mamãe falou: – Está na hora! E todos fomos para a frente da TV onde ia se apresentar a banda onde o meu irmão Braulio, de 19 anos, tocava. Era uma banda de rock de Campina Grande, os “Sebomatos”, e justamente quando os meninos começaram a tocar e nós vibrávamos, torcíamos, batíamos palmas, o programa foi interrompido. Eram 17 h17 min (hora de Brasília) e a Apolo 11 havia pousado na Lua. Depois os meninos retomaram a música. (Braulio me informa por email que as músicas que tocaram naquele dia no programa foram “Bye Bye Love” (Ray Charles) e “Boys” (Beatles). Acrescenta que o programa era transmitido pela TV Jornal do Commercio e dirigido por Luis Jansen.)

Para nós, a família, era mais importante ver Braulio tocando guitarra do que o homem pousar na Lua, e todos lamentamos a interrupção…

Neil Armstrong só desceu do módulo para pisar na Lua às 23h56min (hora de Brasília), numa transmissão ao vivo para todo o planeta Terra (aliás, uma das primeiras transmissões ao vivo por TV em larga escala) para uma audiência até então recorde. Veja mais aqui.

E você, se tem idade suficiente, o que fazia nesse dia? Quais as suas lembranças?





Ecos do passado

13 07 2009

Ando escrevendo minhas recordações. O principal objetivo disso é me distrair, uma vez que não tenho muita intenção de editar um livro – coisa trabalhosa e cara, que já fiz muitas vezes mas não tenho mais paciência para fazer de novo. A idéia é colocar o conteúdo escrito à disposição na Internet, para quem quiser ler.

Um dia desses andei por aqui publicando um trecho sobre um episódio que me ocorreu na época em que fui interna. Hoje trago ecos de uma passado mais remoto, quando eu era tão pequena que tinha que ficar de joelhos em cima de uma cadeira para acompanhar o que se passava em cima da mesa da cozinha, como verão a seguir.

O período é os anos entre 1950 e 1952, quando morávamos em Campina Grande, na rua Alexandrino Cavalcanti. A família era composta por meus pais, minha tia – um pouco mais velha do que Mamãe – que morava conosco, eu e meu irmão nascido em 1950. Eu devia ter uns quatro anos de idade nessa época, uma vez que nasci em dezembro de 1947.

O curioso é que hoje compramos o frango todo partido e embaladinho, sem sangue nem miúdos, ou já assado no supermercado e sequer imaginamos como era que se matava e tratava de uma galinha há sessenta anos.


(…)

Eu tinha 2 anos.

Eu tinha 2 anos.

Uma coisa de que bem me lembro nesses dias eram as manhãs cheias de sol, que dava na parte de trás da casa. Mamãe com os cabelos soltos nas costas colocando milho para as galinhas e a atenção com que a ave olhava o grão com um olho, depois com o outro e só então bicava certeira o caroço de milho e o engolia. Quando as galinhas engordavam, cabia a Tia matar a galinha, pois Mamãe dizia que não tinha coragem.

O ritual era minucioso e eu o acompanhava de perto. Um caldeirão de água era colocado para ferver e a matança só se iniciava quando a água começava a borbulhar, o que às vezes demorava um pouco, no lento fogão de carvão. A faca maior, a peixeira, era amolada no batente de cimento da cozinha. Iam então ao quintal cercar a galinha ou o frango escolhido, que era deitado no chão e Tia, de cócoras, pisava com um dos pés nas asas do bicho e com o outro pé nos pés do animal. Assim presa, a ave parava de se mexer, de “bater”, e tia arrancava com a mão as peninhas delicadas do pescoço da galinha, expondo a pele, onde passava a faca, interrompendo com a lâmina o jorro da artéria recém-secionada para que não sujasse a cozinha e pingasse somente sobre um prato colocado antes no chão, com um pouco de vinagre e um garfo.

Minha tia Adiza (1916-1990)

Minha tia Adiza (1916-1990)

Quando o sangue parava de jorrar, ela batia o sangue com o garfo, misturando-o ao vinagre para que não coagulasse, e aquela mistura iria servir de base para a cabidela, que era como chamávamos o “molho pardo”. Ela saía então de cima da galinha, colocando discretamente a cabeça do bicho sacrificado debaixo de uma das asas enquanto batia o sangue. A panela de água fervente recebia o corpo da galinha, mergulhado nela pelos pés, e as penas eram assim arrancadas. Essa operação produzia um odor esquisito, de pena queimada e cocô de galinha, que nunca esqueci.

A segunda fase era “tratar” da galinha, ou abri-la. Mamãe colocava uma cadeira encostada à mesa, onde eu ficava de joelhos, prestando atenção a toda a operação, que me deixava fascinada. A galinha era aberta pela frente, pela titela, depois de ter a cabeça e os pés cortados. Os miúdos eram retirados, e eu via os grãos de milho ainda dentro do papo, a moela onde os grãos eram triturados e – como Mamãe explicava – cheia de pedrinhas que a galinha engolia para ajudar no amassamento do milho engolido, o fígado e a “passarinha”, ou baço, o coração com suas artérias, o “bofe”, ou pulmões e as tripas, que eram lavadas, viradas, lavadas de novo e assadas sobre a grelha no fogão.

Meus pais, Nilo e Cleuza, em 1950.

Meus pais, Nilo e Cleuza, em 1950.

Tudo aquilo exercia sobre mim uma grande fascinação. A galinha era partida pelas juntas, ou articulações, mas tudo ia para a panela. Só se colocava no lixo o papo, o bofe e uma parte da cabeça. Cada um tinha seu pedaço preferido e eu me lembro que sempre gostei das asas e da moela e Tia adorava os pés. Mamãe escolhia o sobre-cu, e o pescoço. A papai sempre eram destinadas as coxas e a titela, mas isso era comum naquele tempo: ao chefe da casa, os melhores pedaços de carne sempre eram reservados e embora à noite nós só comêssemos cuscuz com leite e café, para Papai sempre se reservava um pedaço de carne que ele comia com arroz ou macarrão. Ele não comia comida do sertão; e se não houvesse arroz, macarrão ou carne, ele só comia pão com café e talvez um ovo, com a gema bem mole, onde ele ia umedecendo os pedacinhos de pão, só da casca, pois ele detestava o miolo, que tirava todinho e empilhava ao lado do prato.

(…)


O blog não tem fotos da mortandade das aves mas aqui vc vai encontrar processo semelhante, com fotos.





As estampas do sabonete Eucalol

24 06 2009
Carrinhos do Kinder-Ovo

Carrinhos do Kinder-Ovo

Ontem o meu neto veio me visitar e perguntou onde estavam os meus carrinhos. Os carrinhos aos quais ele se refere é uma coleção de minúsculos carrinhos, motos, caminhões, barcos e aviões que eu fiz durante um tempo da minha vida e que vinham dentro do “Kinder-Ovo”. Para quem não sabe do que se trata, o Kinder-Ovo é um “ovinho” que tem chocolate numa metade e um “brinquedo” na outra, geralmente coisas minúsculas e bonitinhas. Eu passei um tempo da minha vida colecionando tudo o que fosse de veículo que saía dentro dos ovinhos, depois de comer o chocolate.

Aí, por tabela, me lembrei de um dos maiores fetiches dos colecionadores brasileiros que são as estampas do sabonete Eucalol, que ainda conheci na minha infância. Entre meus tesouros infantis, tinha algumas, que terminaram sumindo na voragem dos anos. Mas o que eram essas estampas?

Nas caixas de sabonete Eucalol vinha sempre esse pequeno retângulo ilustrado em papel-cartão, mais ou menos do tamanho e formato de uma carta de baralho e “durinha”. Eu lembro de que guardava as minhas, que eram poucas, amarradas numa cinta de elástico, e trocava com outras crianças quando havia duplicatas.

Elas começaram a circular em 1930 e foram até 1957. Havia séries temáticas, como “A Vida de Santos Dumont”, “Aves do Brasil”, “Compositores Célebres”, e outras. Foram ao todo 54 temas distribuídos em 2.400 estampas.

Samuel Gorberg, pesquisador e colecionador, é autor de um livro sobre o assunto, com muitas informações on line no seu blog. Segundo Gorberg, séries como “História do Brasil” e “Lendas do Brasil” eram usadas em escolas pelo Brasil afora como material didático; uma das séries mais interessantes é “Viajando pelo Brasil”, desenhada pelo artista Percy Lao, que ilustrava os livros do IBGE.

O colecionardor Ariel Schneider, no seu site dedicado aos colecionadores e ao colecionismo, refere ter todas as 2.400 estampas na sua coleção, contando todo o seu trabalho para conseguir completá-la. Encontrei em vários sites da Internet as estampas para venda com preço que variam entre R$ 10,00 a R$ 25,00 cada.

Nasci com o vírus do colecionismo. Tenho a forma atenuada da doença e por isso me controlo e não encho a casa de objetos. Mas lá estão minhas caixinhas, meus folhetos de cordel antigos, minhas edições de Hamlet, meus livrinhos minúsculos, minhas canecas de louça, os livros sobre temas medievais… Entre esses objetos faz falta a minha nascente e desaparecida coleção de estampas do sabonete Eucalol, que deve ter se perdido quando eu fui para o internato aos oito anos de idade. Poucas, manuseadas, amarradas num elástico. Inesquecíveis.





Memórias do internato (trechos)

18 06 2009

Ando escrevendo um texto – não é um livro, é apenas um texto – sobre a minha vida no colégio interno, onde fiquei dos oito aos dez anos de idade, precisamente nos anos de 1956 a 1957. Foi no colégio de Bom Conselho, a 40 km de Garanhuns, quase no limite de Alagoas.

Reproduzo um trecho, nesta quinta-feira em que estou cheia de compromissos externos, longe do computador e sem muito tempo para blogar com calma, como eu gosto…


(…)

Outros acontecimentos da vida social reduzidíssima do colégio era a visita de frades, que, penso eu, vinham fazer algum tipo de visita protocolar, ou de inspeção. Nessas ocasiões, e estando marcada a data da visita, o evento era comunicado às alunas e era preparado uma espécie de sarau, cheio de números musicais e poéticos para mostrar ao visitante nossos dotes artísticos.

Numa dessas sessões, coube-me apresentar uma “cançoneta”, que era uma pequena canção dramática, contando a história de uma menina chamada Sílvia que brigava com a mãe por algum motivo. Eu sempre gostei de cantar, e os ensaios eram um prazer, principalmente porque tinham o acompanhamento do piano, instrumento pelo qual eu tinha uma grande fascinação. As tardes de ensaios, onde eu cantava “Chamo-me Sílvia, e só lhe digo…” foram, no internato, algumas das tardes mais felizes que tive.

A recepção ao frade seria no domingo, depois da missa e do café da manhã. Fomos para a sala do piano, e umq das meninas disse uma poesia, outra cantou algo, mais uma tocou uma valsa, e chegou a minha vez.

E não consegui cantar nada, não porque não soubesse ou porque estivesse encabulada, mas porque de manhã não tenho nem nunca tive voz. Sempre acordei rouca, “com teias de aranha na garganta”, principalmente num clima frio como era aquela da região. Nos ensaios, à tarde, eu me saía bem, depois da voz já aquecida por quase um dia inteiro de gritos e brincadeiras; mas às sete e meia da manhã foi impossível.

Depois de duas ou três tentativas, retirei-me arrasada para o corredor, e pequei mais uma vez, levantando meu humilhado coração contra Deus, que havia permitido aquilo. Fiquei sob a égide da desgraça durante quase toda a semana. Onde eu chegava, comentavam: Clotilde não cantou, Clotilde não cantou…

Mas na sexta-feira, a professora de terceira série, no final da aula da manhã, já aí pelas onze horas, resolveu fazer uma “sessão artística” e chamou algumas das meninas para recitar e cantar. Depois perguntou: quem quer vir? Eu levantei o braço.

Fui lá para a frente, plantei os pés no chão, coloquei as mãos para trás, como era a postura adequada para essas apresentações e cantei uma música de Luiz Gonzaga que eu sabia todinha “Siri Jogando Bola”. A letra da música era engraçadíssima, cheia de absurdos, e eu fui muito, mas muito aplaudida mesmo.

Veio gente de outras salas, as freiras e até minha tia, para assistir à performance. Quando eu acabei, os aplausos foram enormes e me pediram bis. E eu cantei a música inteirinha de novo. Esse episódio foi uma das glórias da minha infância tímida e acanhada, e jamais vou esquecer daquela sensação, dos aplausos, dos rostos alegres me olhando, dos olhos brilhando, dos sorrisos largos.

Ali, naquele instante, nascia o meu gosto pelo palco.

SIRI JOGANDO BOLA

Vi dois siris jogando bola lá no mar
Eu vi dois siris bola jogar, lá no mar

Fui passear no país do tatu-bola
onde o bicho tem cachola e até sabe falar,
eu vi um porco passeando de cartola,
um macaco na escola ensinando o bê-a-bá

Vi dois siris jogando bola lá no mar
Eu vi dois siris bola jogar, lá no mar

Eu vi um peba de batina e de estola,
vi um bode de pistola numa farda militar,
vi um mosquito ser pegado pela gola
e ser preso na gaiola por ser bebo e imorá.

Vi dois siris jogando bola lá no mar
Eu vi dois siris bola jogar, lá no mar

Eu vi um sapo balançando uma sacola
num salão pedindo esmola pro enterro dum preá;
vi uma porca com dois brinco de argola
de batom – mas que graçola! – dando beijos num gambá

Vi dois siris jogando bola lá no mar
Eu vi dois siris bola jogar, lá no mar

Numa oficina vi um rato bater sola,
repicando na viola, eu vi um tamanduá.
Vi um veado com dois par de castanhola,
vestidinho de espanhola, requebrando pra daná

Vi dois siris jogando bola lá no mar
Eu vi dois siris bola jogar, lá no mar

Vi um elefante cozinhar na caçarola,
armoçar todo frajola e a dentuça palitar,
vi um jumento beber vinte Coca-Cola,
ficar cheio que nem bola e dar um arroto de lascar…





Alguém se lembra?

5 06 2009

gillette5 antig_biotonico

antig_calcafarwest antig_liquidif

modess5 antig_ruralwillis





Ora, direis, uma chupeta…

1 06 2009

Hoje recupero para você, meu caro leitor, este texto que escrevi há dois anos e que fez muita gente rir. O bebê, que ainda não havia nascido, chama-se hoje Marina, e está com cerca de dois anos.


happydays_nuk1Fui convidada para o chá de bebê de Thaís, a filha da minha amiga Vitória. Havia uma lista para escolher o que cada um iria levar. Aí, como não sou muito versada nessas coisas de criança escolhi as chupetas, porque chupeta eu sei o que é, e sei também que se encontra em qualquer farmácia.

Ledo engano, meus caríssimos leitores. Foi uma das tarefas mais difíceis da minha vida conseguir essa chupeta. “Mas ora, direis! Uma chupeta? Coisa mais simples! Clotilde deve estar, como sempre, fazendo drama”.

orto_kukaAh, meus caros e desavisados amigos! Também eu pensava assim e quando criei meus filhos (Ana, a mais nova, tem 28 anos) uma chupeta era apenas uma chupeta. “Vai ali, menino, na farmácia, e traz uma chupeta para o bebê” – era assim que esse assunto era resolvido.

Lembrei-me também do nascimento de Pedro-Quirino-Meu-Irmão. Mamãe atrapalhou-se nas contas e o menino nasceu antes do tempo. Papai estava desempregado, a gente numa pobreza danada, Mamãe desnutrida, magra de fazer dó. O menino nasceu de madrugada e botou a boca no mundo, a berrar, mas o leite ainda não tinha descido, Mamãe, coitada, aperriada, os peitos vazios. E não tinha chupeta para o recém-nascido. No quarto do meio, eu e Bráulio, meu outro irmão,  estávamos cada um em nossas camas, acordados, porque o movimento era grande e acabara de nascer uma criança no quarto vizinho ao nosso. Eu com seis anos; Bráulio tinha apenas três, e estava mais assustado do que eu com as coisas incompreensíveis que se passavam no aposento ao lado.

f_chupetaNessa hora, Titia Adiza entra no quarto e senta-se na cama de Bráulio; “Meu filho, acaba de nascer seu irmãozinho. Está ouvindo ele chorar? Ele chora assim porque não tem chupeta. Será que você pode emprestar a sua?” E Braulio, mais por surpresa do que por generosidade, entregou a Titia aquela impressionante chupeta, enorme, amarelada, amarrada num cordão, com meses de uso, porque ele não largava dela para nada. O prodigioso objeto logo acalmou o bebê, nós adormecemos e quando acordamos no outro dia o leite já havia descido e Pedro-Quirino-Meu-Irmão, muito vermelho e com o cabelo bem preto, mamava furiosamente.

coloridinhasBem, mas voltando ao presente e ao chá de bebê de Thaís: na semana passada, estando eu no shopping, entrei nas farmácias – são duas, ali – para comprar as tais chupetas. Aí, o que se deu foi um alumbramento, uma epifania, uma iniciação. Nesse dia, fui introduzida no maravilhoso universo chupetal.

Descobri que há muitas marcas de chupeta. Lillo – a que eu procurava – da Mônica, Nuk, Dermiwil, Chicco, MAM, Kitstar, Babycare, Neopan, Fiona… Essas marcas apresentavam linhas diferenciadas como Classic, Citrus, Acqua Fish, borda escura ou clara, Trendline, Happydays, Starlight, Soft, Gota Luminosa, Sleeptime, Disney…

coloridaComeçando a ficar confusa, fui conferir as especificações da lista de Thaís: três chupetas Lillo, ortodôntica, cor-de-rosa, do Snoopy. Legal! Lá estava a chupeta Lillo na prateleira da farmácia. Mas não correspondia ao pedido. Encontrei Lillo Classic, Extra-air, Disney, com Peter-pan, Sininho, Ursinho Pooh, Barney, Mickey, Minnie… Mas nada de Snoppy. Havia um linda, cor-de-rosa, maravilhosa, com um simpático unicórnio estampado, mas… nada de Snoopy.

Comecei então a ver que a tarefa era séria e exigia caráter, tenacidade, determinação. Já meio desesperada, na segunda-feira, sabendo que o chá do bebê seria na sexta, consultei a Internet onde encontrei as chupetas Snoopy mas aí surgiu outra dúvida: comprando pela Internet chegariam a tempo? Provavelmente não, e eu achei melhor não arriscar. Afinal, havia ido apenas a quatro farmácias e às Lojas Americanas. Iria então ampliar minha busca.

nuk2E na quinta-feira, véspera do acontecimento, entreguei-me de corpo e alma à missão, a bordo do meu valoroso Palio-96, pelas avenidas da capital parahybana. Peguei a Epitácio no sentido cidade/praia, desde o início, e vim parando farmácia por farmácia. Na segunda encontrei, mas só tinha para criança de seis meses em diante e eu acrescentei mais um dado ao meu conhecimento sobre as chupetas: é que existem tamanhos para várias idades, me fazendo meditar bastante sobre os danos causados a Pedro-Quirino-Meu Irmão, recém-nascido, tendo que encarar a chupetona do irmão mais velho, já com três anos. Mas fui em frente e consegui encontrar um exemplar da Lilo-ortodôntica-cor-de-rosa-com-Snoopy na farmácia número cinco e mais dois exemplares na farmácia número sete, aquela que fica na esquina da Tito Silva, onde, exausta, mas vitoriosa, encerrei minha busca, depois de onze farmácias, Internet e Lojas Americanas. Isso sem contar o Terceirão, shopping popular no centro da cidade, onde fui em busca de outra coisa mas não deixei de procurar pelas chupetas.

snoopyDe tudo, ficam algumas lições. A primeira e mais importante e óbvia delas é que o mundo está muito, muito mudado, e que eu talvez não soubesse hoje cuidar de uma criança pequena, com tantos requisitos de mercado e de puericultura dita científica a cumprir. Também não se deve decepcionar uma mãe de primeiro filho, que ainda curte e se amarra nesses pequenos detalhes da experiência. Depois do segundo ou terceiro pimpolho, começamos a não prestar mais atenção nesses detalhes; mas para a-mãe-de-primeira-viagem, para sua primeira vez, tudo isso é importante, e nós, mulheres mais velhas, mães, tias e avós, devemos permitir que se alimentem essas ilusões.

A última e mais importante lição que aprendi com esse episódio é nunca se deixar enganar por uma aparente trivialidade: por trás de uma prosaica chupeta pode se esconder toda uma teia complexa de relações sociais e de mercado com as quais eu, na minha vã filosofia, nunca teria tido oportunidade de sonhar.