Ô preguiça…

16 03 2010

As pessoas gostam de dizer que a necessidade é a mãe da invenção. Ou seja: inventa-se algo porque se precisa desse algo. Mas tenho pra mim que outra sensação precede a necessidade, vindo antes, e que parece ser a real e determinante causa de todas as invenções da tecnologia que hoje dominam a nossa vida. Essa sensação é a preguiça.

Afirmo, sem medo de errar, que a invenção nasce diretamente do nosso desejo de facilitar as coisas, da nossa busca de fazer o máximo com o mínimo de esforço possível.

Cansado de caminhar de um lado para o outro, o homem primitivo descobriu que podia escorregar com pouco esforço sobre o solo, se a superfície fosse suficientemente lisa; surgiu daí o trenó, que deslizava maciamente sobre o gelo, não se adaptando porém a terrenos mais ásperos.

Para estes, aparece então a roda, com os diversos veículos que aumentavam a capacidade do pé, do passo humano. Todos os carros, carruagens, máquinas a vapor, locomotivas, trens, navios, patins, bicicletas, motocicletas, skates, elevadores, escadas e esteiras rolantes, naves espaciais, bem como pontes, estradas, viadutos, tudo, tudo, foi criado em seqüência, motivado pela preguiça inicial do nosso antepassado de ir de um lugar a outro pelos próprios pés. O curioso é que pelo uso exacerbado dessas “extensões” dos pés, nos tornamos sedentários e, para compensar, temos que caminhar horas sem sair do lugar, nas esteiras das academias de ginástica.

Quer ver outro exemplo? Cansados de gritar até ficarem roucos para se comunicar uns com os outros à distância, os nossos peludos bisavôs dos antigos tempos começaram a percutir um tronco oco com um bastão; daí, inventaram uma linguagem sonora que ia aonde o grito não alcançava. Vieram na seqüência os sinais de fumaça, as buzinas de chifre, os sinos, as cornetas e trombetas, o megafone, os faróis (que equivalem a um grito noturno), a escrita, o pombo-correio, o correio propriamente dito (que leva a voz nas palavras a lugares distantes), os diferentes sistemas de sinalização usando bandeiras, espelhos, e outros artefatos, até o telégrafo, o rádio, o jornal, o telefone, a televisão, o cinema, e esta espetacular junção dos computadores e telefones que constituem as redes telemáticas e que, através da Internet, envolvem o planeta, levando a voz de cada um de nós aonde queiramos que ela vá.

No escuro das noites antediluvianas, depois de se esforçar em vão para enxergar, o homem inventa então os meios artificiais de iluminação: a fogueira, a vela, a tocha, as lâmpadas a óleo, os lampiões, os diversos tipos de gás para iluminação, os óculos, o holofote, o telescópio o microscópio, a lente de aumento, a fotografia, o cinema e a televisão (de novo, junção de voz com imagem) e os espetaculares telescópios astronômicos que enxergam até onde a gente pensava que não existia mais nada.

Uma viagem, meu caro leitor, essa de imaginar o que podemos inventar quando a preguiça bate e queremos fazer as coisas mais fáceis e mais agradáveis. Como eu, hoje, ainda convalescendo dos abalos à minha coluna vertebral, combalida pela idade, cheia de preguiça de escrever, que fui buscar inspiração num velho livro de infância, chamado “História das Invenções”, de Hendrik van Loon, da Editora Brasiliense, que, com a data de 1959, me acompanha até hoje. Lá, você encontra essa história toda, em detalhes e livre dos meus nem sempre sensatos comentários. Foi lá que pesquei essas idéias pra você. Por pura preguiça.

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Elogio da Preguiça

25 10 2009

Você já ouviu falar de Juvenal Antunes, poeta nascido em 1883 em Ceará Mirim, RN? Ele foi personagem da série “Amazônia” e aqui você sabe mais sobre ele. O que eu queria mesmo era preencher esse domingo com o magnífico poema “Elogio à preguiça”, da sua autoria.

ELOGIO DA PREGUIÇA

Poema de Juvenal Antunes (1883-1941)

Bendita sejas tu, Preguiça amada,
Que não consentes que eu me ocupe em nada!
Mas queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras,
Hei de dizer, em versos, quatro asneiras.
Não permuto por toda a humana ciência
Esta minha honestíssima indolência.
Lá está, na Bíblia, esta doutrina sã:
-Não te importes com o dia de amanhã.
Para mim, já é grande sacrifício
Ter de engolir o bolo alimentício.
Ó sábios, dai à luz um novo invento:
A nutrição ser feita pelo vento!
Todo trabalho humano, em que se encerra?
Em na paz, preparar a luta, a guerra!
Dos tratados, e leis, e ordenações,
Zomba a jurisprudência dos canhões!
Juristas, que queimais vossas pestanas,
Tudo que legislais dá em pantanas.
Plantas a terra, lavrador? Trabalhas
Para atiçar o fogo das batalhas…
Cresce o teu filho? É belo? É forte? É louro?
– Mais uma rês votada ao matadouro!…
Pois, se assim é, se os homens são chacais,
Se preferem a guerra à doce paz,
Que arda, depressa, a colossal fogueira
E morra assada a humanidade inteira!
Não seria melhor que toda gente,
Em vez de trabalhar, fosse indolente?
Não seria melhor viver à sorte,
Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte?
Queres riquezas, glórias e poder?…
Para que, se amanhã tens de morrer?
Qual mais feliz? O mísero sendeiro,
Sob o chicote e as pragas do cocheiro,
Ou seus antepassados que, selvagens,
Viviam, livremente, nas pastagens?
Do Trabalho por serem tão amigas,
Não sei se são felizes as formigas!
Talvez o sejam mais, vivendo em larvas,
As preguiçosas, pálidas cigarras!
Ó Laura, tu te queixas que eu, farsista,
Ontem faltei, à hora da entrevista,
E, que ingrato, volúvel e traidor,
Troquei o teu amor – por outro amor…
Ou que, receando a fúria marital,
Não quis pular o muro do quintal.
Que me não faças mais essa injustiça!…
Se ontem não fui te ver – foi por preguiça.
Mas, Juvenal, estás a trabalhar!
Larga a caneta e vai dormir… sonhar…