Futebol, cantoria de viola e Hamlet

3 11 2009
futebol

Imagine, meu caro leitor, que você nunca foi a um jogo de futebol. Não sabe o que é, nunca viu na TV, nunca ouviu falar. Aí um belo dia alguém lhe convida para ir ao estádio. Você logo se entedia, pois vê aqueles homens correndo atrás de uma bola sem terem aparentemente o menor objetivo. Aí alguém lhe explica; são dois times diferentes. Um faz gol ali; outro faz gol acolá; e fazer gol é colocar a bola naquele espaço delimitado pelas traves. Aquele cara que está ali é o goleiro, e tem como objetivo impedir a bola de entrar… E assim por diante. Pouco a pouco você vai entendendo as regras do jogo e vai começando a tirar daquele espetáculo antes sem sentido muita distração, emoção e passatempo.

É assim com tudo. Para apreciar as coisas é preciso entendê-las. Umas são mais fáceis de entender do que as outras e eu, que gosto e entendo de futebol, nunca consegui entender as regras do beisebol ou do rugby, e por isso passo para outro canal quando vejo um jogo desses na TV.

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Quando eu era professora da Disciplina de Folclore Brasileiro, na UFRN, era uma maravilha apresentar para os meus alunos a cantoria de viola. Colocava um CD de cantoria, deixava eles escutarem um pouco e depois perguntava se haviam gostado. A maioria dizia que não tinha se ligado muito, que as vozes dos cantadores não eram bonitas, que não sabiam tocar as violas direito, que não haviam curtido. Aí eu começava a explicar a eles que aquilo era feito de improviso. “De improviso como?” falavam alguns. “De improviso, inventado na hora”, dizia eu. E aí dava a eles uma aula de poética, explicava a estrutura da sextilha, da décima, do martelo, o que era um mote e como se glosava, ensinava a contar os pés, ou seja, as sílabas poéticas. Mostrava que cada sextilha começava com a rima da anterior, introduzia-os a formas poéticas mais complexas como galope-à-beira-mar e martelo-gabinete… Daí a pouco estava todo mundo curtindo os CDs, com ouvidos atentos e olhos maravilhados que traduziam a satisfação estética e artística que estavam obtendo agora, depois de devidamente “alfabetizados” na arte da cantoria.

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Nas outras artes, é a mesma coisa. Existe todo um repertório que é preciso dominar para poder desfrutar daquela manifestação artística. Em algumas artes, como a música, é fácil saber quando o cantor está desafinado ou quando o instrumentista não sabe tocar, mesmo para quem é leigo. A música é uma arte que impressiona diretamente os nossos sentidos. Já em outros campos a coisa de complica, mas os obstáculos, se são maiores, não são intransponíveis.

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Apaixonada que sou pela poesia e pelo teatro, defendo a idéia de que não há nada em “Hamlet”, de William Shakespeare, que um adolescente de quinze anos não seja capaz de compreender, depois de devidamente “alfabetizado”, é claro. Comprovo isso toda vez que dou um curso em forma de leitura comentada da peça, geralmente para jovens. São cinco encontros de duas horas cada um, onde leio junto com a platéia toda a peça, cada dia um ato, parando, comentando e explicando. Um dado fundamental é que as pessoas aprendem, entre outras coisas, que o grande William Shakespeare não escrevia sobre reis e príncipes, mas sobre seres humanos que eventualmente eram reis ou príncipes. Um desses alunos me disse que, lendo “Hamlet”, aprendeu mais sobre si mesmo do que em um ano de terapia, com todo respeito que devo aos terapeutas.

Como diria o próprio Shakespeare: “…O olho do poeta, revirando, olha da terra ao céu, do céu à terra, e enquanto o seu imaginar concebe formas desconhecidas, sua pena dá-lhes corpo, e ao ar inconsistente dá local de morada e até um nome, tal é a força da imaginação.” (Sonho de Uma Noite de Verão, Ato V, cena 1)

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O gosto que nunca tomei

27 06 2009

Hoje o Umas & Outras traz um convidado: o jornalista Rodrigo Levino, nascido no Rio Grande do Norte, atualmente experimentando a dura poesia concreta das esquinas de Sampa, a quem incomodei por uma crônica ou texto. Aí ele vai e me manda esse texto falando sobre futebol e copa do mundo, assunto cheio de testosterona, que por isso mesmo vai dar uma injeção de novidade neste blog.


Rodrigo Levino

Rodrigo Levino

Mario Ivo indaga via MSN se estou satisfeito com a escolha de Natal como uma das cidades-sede da Copa do Mundo de 2014. Satisfeito não é a palavra. Insatisfeito também não. A verdade é que eu procuro desde uns seis ou sete anos de idade me comover com o futebol. Até agora, nada. Quer dizer, o problema não é com a escolha em si, mas com o gosto que eu nunca tomei.

A vida para um míope e astigmático diagnosticado aos quatro anos de idade não é um show de bola. Pelo contrário, meio caminho andado para ser um perna-de-pau. Ali pela época em que todo moleque se joga na várzea atrás de uma pelota, eu estava enfurnado em casa. Nunca fui acometido pela vergonha oceânica de, no meio da partida, ter a mãe gritando da janela ou pior, vindo até o campo improvisado e arrastar pelas orelhas, perguntando quando é que eu iria deixar esse negócio de futebol de lado e estudar de verdade. Dona Miriam nunca precisou se ocupar disso.

Entrar em campo com os óculos era pedir para saírem espatifados, de queda ou bolada. Jogar sem eles, impossível. Sem ter idéia de por onde a bola anda em campo, de tão cego, é muito provável que aos poucos você seja excluído do jogo, vá saindo da grande área pela lateral e quando der fé já está sentado na arquibancada ou tomando rumo de casa. Aconteceu comigo.

Copa, festa, alegria, rojão e emoção mesmo, dessa que faz Alex Medeiros e Rafhael Levino sumirem por um mês, enquanto duram os jogos, aconteceu uma vez e lá se vão 13 anos. Final do campeonato interno do Educandário Santa Teresinha, Caicó. As duas oitavas séries num embate que causou estrago em amizades de infância. Escalado para o time com o único intuito de divertir a massa e quebrar pernas, caso necessário, tive a grande chance nos estertores finais da partida. Meu time perdia por um gol. Falta perto da área. “Você bate. Chute com força, não precisa nem olhar”, aconselhou Filipe Torres.

A arquibancada gritava “Cegão! Cegão! Cegão!”. Eloquente a voz do povo. Ajeitei a bola, dei dois passos para trás, corri e… Nada. Na hora H faltou o traquejo, a malícia, a paixão, sobrou frouxidão e a insegurança que artilheiro nenhum pode ter. Não chutei a gol. Pela diagonal esquerda saiu uma bola murchando até chegar ao atacante, completamente cercado, enquanto o goleiro jazia adiantado e a barreira completamente aberta, prontos para receberem o meu primeiro gol, comemorado como se fosse final de Copa.

Nunca mais toquei numa bola de futebol. Nem assisti jogo nenhum. Ou seja, pensando assim como deve pensar um torcedor, não faço a menor idéia do que pode ser uma Copa do Mundo em Natal, porque o jogo que importava mesmo eu perdi faz tempo, ali por perto da Catedral de Sant’anna, em Caicó.





Sou Flamengo!

13 04 2009

clotilde_flaMuitos leitores vão me odiar por essa afirmativa. Mas eu nem ligo. Sou Flamengo sim, desde que me entendo por gente e via na parede da sala de visitas lá de casa, em lugar de honra, um quadro com a seleção tricampeã no início dos anos 50. Nos dias em que o Flamengo jogava, Papai  sentava-se ao lado do rádio e escutava o jogo, enquanto nós ficávamos por ali, lendo ou brincando. E nos acostumamos a torcer junto, a gritar gol, e a cantar o hino, que sei cantar completo até hoje.

É um dos dois times do mundo pelos quais eu tenho paixão (o outro é o Treze Futebol Clube, de Campina Grande-PB).

O Flamengo é paixão, é uma coisa que corre nas veias, e que sempre me alegra quando, indo pela rua, vejo a camisa rubro-negra envergada por alguém.

Então, o 1 x 0 de ontem sobre o Fluminense me deixa feliz, e não resisto a publicar aqui a minha felicidade.

Mengoooooooooooooooooo!