Festa de alguns, transtorno de todos

3 12 2009

Nesta quinta feira vou ter que sair do meu apartamento e procurar um lugar para passar os próximos quatro dias. Isso porque nesta minha maravilhosa e linda cidade Natal, acontece um evento anual, que já está na sua 19ª edição: o Carnatal. É um dos tais Carnavais fora de época, inspirado nas Micaretas baianas, com trios elétricos, blocos onde os foliões se vestem de “abadás” e toneladas de som despejam música de nível duvidoso atroando os ares e impedindo o sono e o sossego de vastas zonas residenciais do bairro de Lagoa Nova.

É uma praga que existe em todo o Brasil. Se alguns deles estão perdendo a força, com o formato se esgotando ao longo dos anos, o Carnatal parece vicejar onde os outros entram em decadência. E olhe que são – ou já foram – muitos, cada um com o nome mais esquisito do que o outro: o Recifolia, (Recife), o Fortal (Fortaleza), a Micarande (Campina Grande), o Precaju (de Aracaju), o Carnabelô (Belo Horizonte), o Maceiofest (Maceió), o Marafolia (São Luís do Maranhão), o Carnabelém (Belém), e um estranhíssimo Micaracandango (Brasília). Além disso, as cidades do interior seguem a moda e no Rio Grande do Norte tem – ou teve – cite o Carnaxelita (Currais Novos), o Carnavale (Assu), e CaicoFolia (Caicó) e Festaverão (Mossoró).

A propósito do Carnaxelita, o carnaval fora de época da cidade de Currais Novos-RN, tem esse nome porque a região é rica em xelita, um minério importante pois é a matéria prima para extração do tungstênio. Corre até uma piada onde se diz que quando foi criada a festa, a população se dividiu: uns queriam colocar o nome de Carnacu , para aproveitar a primeira sílaba de Currais Novos, e outro grupo queria que se chamasse Carnaovos, para aproveitar a última sílaba. Aí o padre achou que era apelação demais, e colocou o nome de Carnaxelita. Mas isso tudo é brincadeira, meus queridos curraisnovenses que me lêem, e vamos voltar ao que interessa.

Eu não gosto do Carnatal e não é porque me incomoda pessoalmente, uma vez que já não gostava antes de vir morar no miolo da festança – aliás, esse é possivelmente o único defeito dessa minha nova morada. Não gosto do Carnatal porque não reforça nossos valores culturais. Pelo contrário, é uma demonstração da cultura baiana, visto que nos três dias de festa são tocados os hits da axé music e pagode, ritmos que não têm nada a ver com a cidade. Há uma grande uma evasão de dinheiro da capital, já que grande parte do que é arrecadado vai para pagamento das bandas baianas que abrilhantam a festança, que acontece com a interdição de uma área pública, para atender a empresa privada que organiza o evento. O trajetos dos trios impede o fluxo normal de carros e transeuntes nas grandes avenidas Prudente de Morais e Romualdo Galvão, vias principais do tráfego no bairro de Lagoa Nova, ladeadas por comércio intenso e prédios residenciais.

A minha rua, Avenida Miguel Castro, transversal das avenidas citadas, fica interditada a partir de uma hora da tarde e eu preciso colar um adesivo no carro para chegar até o meu prédio. Mas ninguém me deu adesivo para os ouvidos, para que eu usasse nas noites sob barulho intenso, das quais só vou poder fugir pois me mudo ainda hoje para o apartamento do meu filho, no bairro do Tirol. O pior vem depois, me disse um vizinho, quando o bairro inteiro, transformado em latrina gigantesca durante a festa, fica com um odor insuportável de urina. A Prefeitura manda lavar depois, mas não é suficiente, e até São Pedro ter pena e colaborar com uma das suas caudalosas chuvas de verão, temos que aturar o fedor.

A linha vermelha

A linha vermelha mostra o trajeto dos trios elétricos. Veja onde moro, quase no cruzamento da Miguel Castro com a Salgado Filho, inteiramente à mercê da confusão, do barulho e da latrina universal. Clique na foto para ver em melhor resolução.

Mas aí o meu caro leitor diz: “Não reclame, Clotilde. A festa tem hora para terminar, pois o Ministério Público multa se passar da uma hora da manhã.” Eu sei que multa. Mas o vizinho também me disse que os trios elétricos têm por hábito estacionar na minha rua, em frente ao prédio, para fazer a desmontagem do trio, e por isso ninguém dorme até as cinco da manhã. E não tem quem controle esse barulho adicional.

Só pra encerrar, as autoridades de saúde pública da capital estão preocupadas com a influência do Carnatal no aumento da propagação do vírus H1N1, por causa do aglomerado de pessoas e dos hábitos: troca de copos de bebida e beijos na boca. Estão recomendando que não usem copos uns dos outros nem beijem “pessoas estranhas”. Taí uma coisa que eu queria ver, principalmente porque me disseram que neste ano o “desafio” é “beijar pelo menos 30 pessoas por noite”.

Então, meus amigos, se nesses dias eu demorar a liberar ou responder aos comentários, saiba que estou fora do meu domicílio habitual, não porque queira mas porque fui obrigada. E eu queria muito que alguém me respondesse porque o poder público coloca tantos recursos à disposição de uma festa privada e deixa de apoiar o Carnaval de verdade, legítima manifestação popular.

UPDATE às 9h35: Pessoas que leram esse post me telefonaram dizendo que estou falando sem conhecimento de causa, uma vez que o evento ainda vai ocorrer, começando hoje no final da tarde; e que eu não posso fazer esse tipo de comentário sem ter vivido a situação eu mesma. Então hoje eu vou ficar no apartamento e a partir das 15 horas estarei postando minhas impressões aqui, num post atualizado de hora em hora. Também estarei relatando tudo no twitter (http://twitter.com/ClotildeTavares). Ficarei para “conhecer a causa”. Se estiver errada, dou a mão a palmatória e reconheço, porque sempre tive facilidade para reconhecer quando estou errada, o que é mais frequente do que você imagina e do que eu gostaria que fosse… 😉

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Ainda o barulho

6 10 2009

Ontem andei aqui falando de barulho urbano. E hoje continuo com o assunto porque recebi alguns e-mails interessantes de pessoas relatando suas próprias dificuldades em lidar com essa praga urbana, como você pode ver em alguns comentários do post anterior, logo abaixo deste. Mas também recebi outros, que não publiquei porque a linguagem não se adaptava àquela adotada neste espaço, uma vez que envolvia xingamentos dirigidos a esta blogueira e prometia que ia sim continuar ligando o som do carro nas alturas, descrevia o equipamento, e terminava com a afirmativa: “Quem for podre que se quebre!”

Pelo tom do e-mail dava para deduzir o perfil do missivista. Deve ser jovem, entre 20 e 30 anos, do sexo masculino, classe média. Baseada na convivência que tive nos edifícios onde morei, e no que observo por aí no meu círculo de convivência, acrescento que geralmente, eu disse geralmente, são de classe média a média-alta, educados em colégios particulares, cursando faculdades também particulares. Gostam de “vaquejada, de forró e de cabaré”, como dizem as letras de suas músicas, e geralmente contam com o pai ou a mãe para tirá-lo de encrencas quando as coisas não vão bem. Na última novela da Globo havia um tipo assim, o “Zeca”. Resumindo, são essas as pessoas que chamo de “ceresumanos”. São muitos e às vezes eu tenho a impressão de que são maioria nessa faixa etária.

Voltando à questão do barulho, penso que é preciso atuar em três eixos.

O primeiro é a educação. Ações nas escolas precisam ser desenvolvidas, principalmente entre os bem jovens, quando as crianças ainda não se tornaram “ceresumanos”. Aulas, atividades, cartilhas, videos, tudo isso pode fazer com que essas crianças além de se educarem sejam multiplicadores da idéia de que a poluição sonora é danosa à saúde; elas também conheceriam as medidas punitivas que podem ser aplicadas aos barulhentos.

O segundo eixo é o da fiscalização e repressão ao barulho já existente. Aqui – volto a dizer – não adianta órgãos de fiscalização criados por governantes bem intencionados, mas sem a correspondente cota de pessoal ou viatura para fiscalizar. Em Natal, o uso do telefone 190 acionando a polícia para dar fim à algazarra funciona muito bem e, dessa maneira indireta, também “educa”.

O terceiro eixo é o que cabe a nós, cidadãos. É surpreendente o número de pessoas que se sente incomodada mas não faz nada, pelo medo de parecer “chata” ou “antipática”. Precisamos entender que a paz e o silêncio são um direito. Precisamos nos informar mais sobre essa questão, porque muita gente pensa que durante o dia é permitido fazer o barulho que quiser, e que a “lei do silêncio” só vale após as dez horas da noite. Barulho é barulho qualquer hora, e o cidadão tem o direito de reclamar.

Então: informe-se, eduque seu filho, fale sobre isso no seu círculo de amigos, cobre políticas educativas na escola em que ele estuda, vote em pessoas que estejam interessadas na questão do meio-ambiente, não tenha medo de parecer antipático, pois se trata de sua saúde, do seu bem-estar e da sua vida sem estresse. Sobretudo, reclame, faça valer seus direitos de cidadão e de habitante de um planeta que, se a gente nao tomar cuidado, daqui a pouco vai se tornar um lugar muito terrível pra se viver.





Barulho é caso de polícia

5 10 2009

Ontem à noite eu estava esperando um amigo para bater um papo. Esse amigo é Chico Guedes, que tem um blog maravilhoso sobre a Hungria, uma vez que ele é tradutor da língua magiar e apaixonado por aquele país. Mas não é sobre isso que quero falar, pois de húngaro não entendo nada e se você quiser saber mais vai ter que ir lá no blog do rapaz, que é muito interessante pois tem textos inteligentes, especialmente um sobre as planícies da Hungria, e fotos muito bonitas. Eu estava planejando que ficaríamos na varanda do apartamento, para desfrutar da prisa perfumada de Natal e da magnífica Lua Cheia que já se elevava no céu, parecendo uma figura de Goya, pálida, envolta em nuvens, como uma dama escondida atrás de sua mantilha de renda negra.

Essa poesia toda foi para o beleléu quando começou a maior barulhada na vizinhança. Algumas pessoas estacionaram um carro a uns cem metros de onde eu moro, na calçada de um prédio comercial, ligaram o som do veículo em toda altura e se empenharam em poluir a noite com o ruído aterrador dos seus sub-woofers. A música era de baixo nível, mas isso não vem ao caso pois não sou patrulha estética de ninguém; e naquele volume até canto gregoriano seria terrível.

Felizmente, meu caro leitor, aqui em Natal, onde voltei a morar depois de quatro anos na Paraíba, barulho não é caso de meio-ambiente: é caso de polícia. Liguei para o 190 – Rádio Patrulha e em coisa de 20 minutos a farra dos barulhentos terminou. Quando o meu amigo chegou, a paz já havia sido restaurada, a noite havia voltado a ser calma e suave e a Lua Cheia podia ser contemplada com deleite.

Tenho tolerância zero com barulho urbano, principalmente esse causado por equipamentos de som instalados em carros ou aquele oriundo de bares e botequins, que infernizam a vida de qualquer vizinhança. Em João Pessoa, onde morei durante quatro anos, havia um órgão que pretendia disciplinar isso mas não disciplinava coisa nenhuma porque não tinha viatura para atender aos chamados. E queixa de barulho tem que ser atendida na hora, e não no dia seguinte. Quando voltei para Natal, fiquei feliz de ver como a questão do barulho é tratada aqui; e nesses quase dois meses de moradia na Cidade do Sol, chamei a Rádio Patrulha duas vezes, com sucesso.

Nenhuma pessoa é obrigada a aturar barulho provocado por terceiros. O barulho é uma contravenção penal, prevista em lei, e inclui gritaria, algazarra, exercício de profissão incômoda ou ruidosa, uso abusivo de instrumentos sonoros ou sinais acústicos e barulho de animais, como cães, por exemplo. Prevê prisão ou multa, e quanto mais nós, incomodados, exercermos o direito que temos de reclamar, mais os barulhentos vão se educando e entendendo que não têm o direito de perturbar a paz alheia.

Eu faço parte de um grupo de discussão na Internet, o Barulho-Br. Lá são mostradas muitas situações de barulho, e as soluções que podem ser encontradas. Além disso, o setor de links do grupo tem muitos textos e legislação que podem orientar a pessoa que vem sofrendo com esse tipo de incômodo.

Veja também os posts:

O cachorro do vizinho

O barulho vem de jegue





Pelo buraco da fechadura

3 09 2009

Hoje foi o meu primeiro dia depois da mudança no qual eu  iria estar com o apartamento arrumado (quase), com as coisas no lugar (quase). Mas não pude desfrutar do meu espaço como gostaria. Às sete e meia da manhã um carro de som estacionou em frente ao meu prédio, que fica na lateral do D.E.R. Os funcionários daquele órgão resolveram fazer uma paralisação de um dia reivindicando reposição salarial e só podem fazer isso com muito barulho, muita zoada, incomodando quem não tem nada a ver com o assunto, no caso, eu e os outros infelizes moradores do prédio e cercanias.

Aí, depois de passar duas horas escurando músicas de gosto duvidoso e discursos cheios de retórica, referências obsoletas ao capitalismo e às forças sociais, além de sandices como “bom-dia a todos e todas”, eu não aguentei mais e fui para a casa da minha filha em outro bairro, onde estou agora.

Meu dia foi pro brejo, meu planejamento para hoje fez água e afundou e não pude desfrutar do meu apartamento arrumado (quase) pela primeira vez. Então, divido com você essas fotinhas, que fiz hoje antes de sair de lá. Depois de cinco e meia da tarde, voltarei, esperando que a barulhada já tenha acabado.

Aí estão os 1.800 livros, que já subiram para as estantes. Delas, somente a primeira à esquerda está arrumada. nas outras empilhei os volumes, que terão forçosamente que passar por uma triagem ara poderem caber nas prateleiras. Isso se eu conseguir me livrar deles.

Aí estão os 1.800 livros, que já subiram para as estantes. Delas, somente a primeira à esquerda está arrumada. Nas outras empilhei os volumes de qualquer jeito, e eles terão forçosamente que passar por uma triagem para poderem caber nas prateleiras. Isso se eu conseguir me livrar de algum, o que duvido. No braço do sofá, a bandeja com os restos do café da manhã, tomado em meio à algazarra de discursos e música ruim.

A parede em frente às estantes é azul: eu adoro essa cor. Gosto de todas as minhas quinquilarias ao meu redor, porque preciso de muitos estímulos visuais.

A parede em frente às estantes é azul: eu adoro essa cor. Gosto de todas as minhas quinquilharias ao meu redor, porque preciso de muitos estímulos visuais. O restante da parede livre será preenchido pelos quadros. Tenho muitos, e você já pode ver dois, querendo "subir" para as paredes. Mas pregar quadro exige muita reflexão, muito pensamento. Era algo que eu ia fazer hoje, mas não pude, expulsa pela zoada. Notem que tenho um binóculo pronto para espionar a vizinhança.

Outra visão da sala, com a parede azul e a grande porta de vidro de seis painéis, quase cinco metros de extensão que eu estou dando tratos à bola para encontrar um modelo de cortina que eu goste e que eu possa comprar.

Outra visão da sala, com a parede azul e a grande porta de vidro de seis painéis, quase cinco metros de extensão que eu estou dando tratos à bola para encontrar um modelo de cortina que eu goste e que eu possa comprar, porque tenho uma estranha predileção por coisa cara e acima do meu orçamento. Entra muita luz por aí, e preciso de um filtro eficaz senão tenho que andar de óculos escuros dentro de casa.

E basta de voyeurismo por hoje. Na sequência irei sempre postando aqui um pedacinho e outro da minha casa, porque sei que o meu caro leitor é curioso e adora olhar pelo buraco da fechadura.

Este post é dedicado a Denize “La Reina Madre” Barros, artista e designer maravilhosa. Se você não tem ainda uma bolsa da griffe La Reina Madre, não é uma mulher completa.





Sou chata

19 08 2009

Uma das coisas que mais me surpreende nas pessoas é a grande capacidade que elas têm de se acomodar. Não estou falando na capacidade de se adaptar às situações novas, que é uma coisa bem diferente e que, para mim, é sinônimo de inteligência. Estou falando na imobilidade das pessoas que se adaptam a uma situação que não lhes agrada muito, apenas por preguiça e comodismo, sem reagir, sem falar, sem se colocar. Diante de uma situação assim, em lugar de tomarem uma atitude e transformarem a situação, a maioria das pessoas se acomoda, procurando uma zona de relativo conforto, onde seja possível sobreviver com um mínimo de aporrinhação.

Agitada e inquieta por natureza e questionadora de tudo por formação, sou difícil de me acomodar passivamente seja lá com o que for. Adapto-me com relativa facilidade às vicissitudes do destino, àquelas coisas contra as quais nada podemos fazer, como a Morte, a Doença ou a Paixão. Mas não me acomodo nunca, nunca, jamais, àquilo que considero que posso modificar.

E é por isso que sou chata. Sou chata e assumo, correndo todos os riscos dessa atitude mas em paz com minha natureza e ouvindo lá dentro de mim a voz de Mamãe, que sempre dizia: se acredita que está errado, vá lá e defenda seu ponto de vista.

Sou chata porque vivo telefonando para o Banco no qual sou correntista exigindo que coloque uma mesinha nos postos de serviço, para que a gente não precise manusear contas e papéis “no ar”, sem um apoio.

Sou chata porque ligo para a administração dos shoppings pedindo para instalarem ganchos nos banheiros femininos para que nós possamos pendurar a bolsa e as sacolas enquanto usamos o sanitário.

Sou chata porque não vejo como me adaptar à barulheira infernal de carros de propaganda, dos pit-boys com seus sub-woofers ou do carro de som da paróquia anunciando a missa, que me impedem de falar ao telefone, de ouvir o aparelho de TV ou simplesmente me acordam, quando quero dormir.

Sou chata quando me torno – como irônicamente me chamaram um dia desses – “guardiã da obra de William Shakespeare” e mais da obra de Borges, de Machado, de Oscar Wilde, de Clarice Lispetor e que quem mais tiver seus textos distorcidas, mutilados, publicados com autoria trocada ou – pior, muito pior – tiver seu nome associado a um texto que nada tem a ver com sua obra.

Sou chata, e vou continuar reclamando.





O barulho vem de jegue

21 07 2009

Ontem à noite estava eu muito bem sentada às nove da noite vendo minha série favorita na TV. Na segunda feira, vejo C.S.I às oito no AXN, Medium às 9 no Sony e The Mentalist às 10 no Warner. Então eram nove horas em ponto e o capítulo de Medium mal havia começado quando um barulho ensurdecedor começou na rua em frente ao meu prédio.

jegueFui olhar o que era. No meio da rua, dividindo a faixa com os carros, estava estacionada uma carroça, puxada por um animal. A carroça era toda ornamentada e portava um equipamento de som. O cavalo também estava vestido a caráter, enfeitado que só jumento de cigano. De pé, um homem enfeitadíssimo, com uma roupa cheia de lantejoulas que me pareceu aquelas coisas mexicanas: chapelão enorme, colete, calças justas, enfim, um “mariachi”. Pelo menos foi essa a visão que tive da minha varanda, no sexto andar.

O motivo da balbúrdia eu fui entendendo aos poucos. Alguém no prédio aniversariava – era um aniversário de casamento – e o “Tele-jegue”, que era o nome da “coisa”, estava ali, casamento3contratado por alguém, para fazer a homenagem ao casal. O “locutor” fazia piadas, sendo que eu jamais imaginei que um casal completando 35 anos de casados gostasse de ouvir piadas daquele tipo. As piadas eram entremeadas com músicas, que pareciam ser religiosas, desse tipo de música chata que as pessoas quando ouvem levantam os braços e balançam de um lado para outro. Na calçada, havia onze pessoas, incluindo o casal homenagado. O prédio tem 80 apartamentos; a quatro moradores cada, são 320 pessoas, das quais pelo menos trezentas aguentaram a barulheira sem terem nada com ela.

Entre uma música e uma piada, o “tele-jegueiro” anunciou que estava incrementando ainda mais a carroça, que em breve ela teria um palco, um sistema próprio de iluminação, máquina de fumaça e um som ainda mais potente “para animar ainda mais a sua festa”. A função durou 45 minutos, e eu perdi o episódio que estava assistindo na TV.

barulhoÉ por isso que eu, apesar de gostar muito do Brasil, às vezes tenho vontade de morar num país civilizado somente pra ter a experiência. Aquela coisa que a gente vê nos filmes: um barulhinho a mais numa vizinhança residencial, com cinco minutos a polícia está na porta, muito educada mas muito firme, pedindo explicações e acabando com o fuzuê. Aqui, liga-se para a polícia, não é com ela; liga-se para a SEMAN, estão sem carro para atender.

Ao feliz casal, mesmo deplorando seu mau-gosto, ou de quem lhes ofereceu o presente, meus parabéns pelos 35 anos de união. Falizmente no próximo ano, quando completarem os 36 anos,  eu não estarei mais aqui, para presenciar vexame semelhante e ser impedida no meu direito de cidadã pagante de impostos de assistir meu programa preferido na  TV.





Dança comigo?

17 04 2009

nervosoAs más línguas dizem que eu sou nervosa, estressada, intolerante, impaciente, perfeccionista, que quero tudo do meu jeito, que não quero aceitar as mudanças.

Nada mais falso. Começando pelo final dessa minha extensa lista de defeitos – minha não, que me atribuem – eu tenho a declarar que sou perfeitamente acessível às mudanças, e posso mesmo acrescentar que procuro por elas. Sou doida por mudança, sou maluca por novidade. Todocomputer01 mundo é testemunha de que fui uma das primeiras pessoas a me conectar à Internet, quando a maioria dos seres humanos da minha idade pensava que a rede mundial de computadores era uma coisa para adolescentes, e que era usada basicamente para jogos on line. Estou conectada desde 1993, ou 94, nem me lembro bem.

Quanto a querer tudo do meu jeito – e aqui me lembro daquele personagem que dizia que pintura_urbanasó tinha dois jeitos: o jeito dele e o jeito errado – continuo dizendo que não é bem assim. Descobri, ao longo dessa minha vida de décadas, que há jeitos muitos melhores do que o meu jeito, e venho praticando jeitos de todo jeito, em todas as áreas nas quais atuo, e sempre, sempre me dando muito bem.

Agora no que se refere a algumas pragas da vida moderna: som alto, gente sem noção, políticos desonestos (aliás, bastava dizer ”políticos” porque não conheço um só que seja honesto – deve até existir, mas eu não conheço), falta de delicadeza, de cordialidade, de reconhecer e respeitar o espaço do outro… Aí sim, eu sou mesmo nervosa, estressada, impaciente.

caneca_defeitoJá escrevi demais sobre isso, mas sempre tem assunto, sempre tem uma história nova para contar. De novo e sempre e novamente e outra vez voltam à cena esses “ceres humanos, meus dessemelhantes”. Encontrei-os ontem no shopping, quando tentava comprar um presentinho para minha sobrinha-neta, que completou quatro anos. Eu queria comprar uma carteirinha de cédulas para a garota, pois ela já está começando a entender o valor do dinheiro e precisa de um lugar para guardar suas moedinhas e as notas de dois reais que a tia-coruja lhe dá de vez em quando.

Entro na lojinha descolada e divertida, toda enfeitada, com garotas atendentes alegrinhas e risonhas. Enquanto estou me aproximando das prateleiras para olhar os artigos, uma delas, aí dos seus vinte, vinte e poucos anos se aproxima.

– Oi! – e irradia sobre mim toda a energia da sua juventude, enquanto executa um passo de dança no ritmo da música que é transmitida pelo “som” da loja, em volume um pouco acima do normal.

– Oi! – respondo eu, um pouco cansada, e já meio impaciente, pois há quase uma hora ando nesse shopping em busca da tal carteirinha. – Você tem carteirinha de cédulas para menina?

– Oi? – responde a garota, trocando a exclamação pela interrogação, pois o som altíssimo não deixa que ela ouça. Repito a pergunta, e quando já estou quase desconfiada de que o vocabulário dela se restrinja à palavra “Oi”, ela grita para as outras, que estão amontoadas atrás do balcão, em risinhos e cochichos, uma vez que sou a única cliente da loja:

– Mulhééééééééé (assim mesmo, sem o “r”)! Baixa esse som aí, que eu não tou nem conseguindo escutar a cliente!

O som é baixado, e ela me olha, ainda dançando, e diz:

– Oi! Como é seu nome?

– Meu nome? – pergunto eu, sempre surpresa quando acontece de entrar numa loja e quererem saber o meu nome. Eu entrei ali para realizar uma compra, uma transação comercial, e não para fazer amizade. Mas respondo.

– Clotilde.

Ela se derrete toda:

– Oiiiiiiiiiiiii, Matilde!

– Matilde não, minha filha: Clo-til-de.

– Ah, sim, desculpe. Clo-til-des! Pois o meu é Fabiana.

– Oi, Fabiana – respondo eu, na falta de coisa melhor para dizer. – Vocês tem carteirinha de cédulas para menina?

– Para menina não, Clotildes, mas temos umas lindas para meninos, você não quer dar uma olhadinha?

– Não, eu queria para menina. É um presente para uma menina de quatro anos.

– Ah, Clotildes, então você não quer ver outras opções de presentes? Temos cada artigo lindo, e tenho certeza de que a menina ia gostar muito mais do que de uma carteira. Criança de quatro anos não usa carteira ainda!

Isso é discutível. Criança de quatro anos usa agenda, com os compromissos da escola. Por que não poderia usar carteira para guardar o dinheiro do lanche? Mas desisto, não tenho mais energia para continuar a conversa.

– Então se você não tem, obrigada – e vou saindo. Ela vem atrás de mim, pega no meu braço:

– Mas Clotildes, você já vai? Fique mais um pouco!

Bem, isso aqui deve ser algum tipo de festa, penso eu. Aí, acerto o meu passo com o dela, porque a criatura continua dançando o tempo inteiro em que conversa comigo e começo a dançar com ela até ela ficar sem jeito, parar de dançar, quando então a deixo plantada e vou embora sem uma palavra.

Por isso me chamam de impaciente, estressada e sem jeito.

Sou mesmo.