A melhor marchinha de Carnaval

9 02 2010

No domingo eu estava vendo o Fantástico e eles mostraram o Concurso de Marchinhas de Carnaval da Fundição Progresso. É um concurso que existe já há alguns anos e neste ano de 2010 teve mais de mil inscrições de vários estados brasileiros.

Ainda alcancei o reinado das marchinhas no Carnaval. Veículo poderoso de crítica social e política, algumas dessas marchinhas ficaram famosas como “A cabeleira do Zezé”, “Índio quer apito”, “Mamãe eu quero”, “O teu cabelo não nega” e tantas outras cantadas até hoje. Quando chegava perto do Carnaval, nos idos da década de 1960, a gente começava a aprender as marchinhas que tocavam no rádio, na voz de Emilinha Borba, Marlene, Ângela Maria, Blecaute.

No concurso de marchinhas que vi na TV, ganhou “Bom Dia”, de Renato Torres de Lima, de Itaguaí. E eu entrei logo em discussão com um amigo, que queria que a vencedora tivesse um “conteúdo educativo”, como uma marcha que ganhou há uns dois anos e que falava da péssima mistura que é álcool e direção.

É claro que eu concordo que é um horror beber e dirigir. O que não dá é pra fazer de uma marcha de carnaval instrumento de educação no trânsito. Pelamordedeus! O carnaval é uma festa da transgressão, de deboche, de divertimento. Se o politicamente correto já é chato no dia-a-dia, no Carnaval é que ele não tem mesmo espaço.

Carnaval é pra debochar do Zezé por causa de sua cabeleira, pra proclamar aos quatro ventos que garrafa cheia eu não quero ver sobrar e que o teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor. É bom berrar a plenos pulmões que eu mato, eu mato, quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato ou olhar pro céu e desejar que chova três dias sem parar porque a minha grande mágoa é lá em casa não ter água e eu preciso me lavar…

Misturando crítica social com letras bem humoradas a marchinha de Carnaval foi retrato de um tempo; hoje o Carnaval mudou, e eu não sou nem socióloga, nem antropóloga, nem “óloga” nenhuma para estudar os motivos. Mas as marchinhas, eu garanto que fazem falta nos dias de hoje.

Finalmente para você a letra – e depois o vídeo no YouTube – da marchinha vencedora no Concurso da Fundição Progresso e que o meu amigo achou tão inútil, desnecessária e boba – e é mesmo, mas também é divertida, alegre, engraçada, com uma melodia e um estribilho que pregam no ouvido e que vc aprende da primeira vez. E não é isso que todo compositor de marchinhas almeja? Pois é.

Bom Dia – de Renato Torres de Lima

Deixa eu dar bom-dia
Deixa eu dar paixão
Hoje é alegria
E eu dou, não nego não…
Mas se eu dou bom-dia
Dou de coração
Pinto minhas unhas
Viro um avião.
ESTRIBILHO
Se o conde D’Eu,
Se o rei de Bagdá
Se os negros do Sudão
Por que eu não posso dar?
E os enrustidos
Sempre dizem não
Se não dão bom-dia
Entram em depressão
Eu já dei um dia
Mas que confusão
Só não entenderam
O meu bom-dia não
ESTRIBILHO
Se o conde D’Eu,
Se o rei de Bagdá
Se os negros do Sudão
Por que eu não posso dar?




Galo cantou, às 4 da manhã…

8 02 2010
“À meia-noite acorda um francês
Sabe da hora e não sabe dos mês
Tem esporas e não é cavaleiro
Tem uma serra e não é carpinteiro.
Cava no chão e não acha dinheiro.
O que é o que é?”

Quando eu era menina, Mamãe me perguntava essa adivinha, que ela trazia entre as milhares de coisas que tinha decoradas. A gente logo respondia: é o galo!

Com presença forte ao longo de todo o folclore, tanto brasileiro quanto mundial, o “Francês” da adivinha é um animal emblemático, que “chama o dia e afugenta a noite” com seu canto em horas certas.

Em Hamlet, logo no primeiro ato, Shakespeare o chama de “trombeta da manhã”, na fala de Horácio:

“…Ouvi dizer que o galo, essa trombeta da manhã, com sua voz vibrante e clara desperta o dia, e que a esse aviso, os espíritos errantes, onde quer que estejam, retornam aos seus refúgios…”

E em Macbeth é usado como marcador do tempo na voz do porteiro:

“… Estivemos bebendo até o primeiro cantar do galo…”

Antes que o galo cantasse, Pedro negou três vezes a Cristo; e no jogo do bicho é o número 13, sendo por isso mascote do Treze Futebol Clube, de Campina Grande, um dos meus times do coração, cognominado “O Galo da Borborema”.

Uma história curiosíssima de um galo que seria preparado para o almoço de domingo já foi contada no meu livro Coração Parahybano, na crônica “A minha Noruega”, na página 113; e em Natal, onde moro, ele é considerado um símbolo da cidade, encimando orgulhosamente as torres das igrejas.

João Cabral de Melo Neto, no poema Tecendo a Manhã, o define:

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

Mas essa qualidade de tecer a manhã antes que a manhã real surja muitas vezes incomoda quem quer dormir e não consegue.

Tenho um amigo que mora numa casa onde o quarto dele é no primeiro andar. A janela dá para um pequeno – muito pequeno – quintal de um vizinho.

Aí, o vizinho foi e comprou um galo. Toda santa madrugada o animal começava a cantar, e o barulho ecoava no pequeno e apertado espaço entre as casas.

Então o meu amigo pegou sua vara de pescar, amarrou um peso na ponta, colocou a vara pela janela em direção da biqueira de zinco da casa do vizinho e, toda vez que o animal cantava, ele com a vara, batia na biqueira: dém, dém, dém.

O galo cantava, ele batia. Cocoricó, dém, dém, dém.

Depois de duas noites de dém, dém, dém o vizinho sumiu com a ave para outro galinheiro, onde foi tecer a manhã bem longe de ouvidos humanos precisados de repouso…





Três histórias engraçadas

7 02 2010

QUESTÃO DE AUTORIDADE

O gerente chama o empregado da área de produção, tipo armário quatro portas, com 1,90 de altura, recém-admitido e inicia o diálogo:

- Qual é o seu nome?

- João – responde o grandalhão.

- Olhe – explica o gerente – eu não sei em que espelunca você trabalhou antes, mas aqui nós não chamamos as pessoas pelo seu primeiro nome. É muito familiar e pode levar a perda de autoridade. Eu só chamo meus funcionários pelo sobrenome: Ribeiro, Matos, Souza, etc, entendeu? E quero que o senhor me chame de Sr. Mendonça. Muito bem, agora quero saber: qual é o seu nome completo?

O empregado responde:

- Meu nome é João Paixão.

- Tá certo, João. Pode ir, agora.

MAU MOTORISTA

Um velhinho jantava em um restaurante de beira de estrada quando entram três motoqueiros da pesada. O primeiro chega e cospe no bife dele. Mais encorajado, o segundo apaga um cigarro na bebida do velhinho. Por último, o terceiro motoqueiro, sem ter mais o que fazer, vira o prato na cabeça dele. O velhinho pede mais uma bebida e então sai. Nisso um dos motoqueiros exclama:

- Este sujeito não é homem!

O garçom responde:

- Nem é motorista, também. Acabou de passar com um caminhão por cima de três motos…

O BATISMO

O discípulo procura um mestre para iniciá-lo no caminho esotérico. O mestre propõe a iniciação num ritual à margem do rio. Lá, mergulha o discípulo na água, e lhe diz:

- De agora em diante não mais te chamarás Luiz: te chamarás Pietrie. Não comerás mais carne animal, não beberás mais nada que contenha álcool, não fumarás, e nem usarás nenhuma droga. Tua alimentação será vegetariana, podendo eventualmente comer peixes.

Alguns dias depois o discípulo é encontrado à margem do rio, mergulhando um porco na água, e dizendo:

- De agora em diante, não te chamarás mais porco, teu nome será peixe…





O casamento vitoriano

5 02 2010

Casamento, Inglaterra, 1910.

Há um livro interessantíssimo, que recomendo: Vidas Paralelas, da escritora Phillys Rose (Record, 1997), que analisa o casamento na era vitoriana através das biografias de casais famosos.

É impressionante o desconhecimento que as pessoas bem educadas tinham dos fatos simples e corriqueiros da vida, no que diz respeito ao sexo.

Um dos casos citados é o de Marie Stopes, uma inglesa altamente instruída, que havia estudado numa universidade alemã e casado em 1911 com um botânico. Pois bem: mesmo sendo instruída e tendo cursado universidade, a criatura levou seis meses para perceber que faltava alguma coisa em seu casamento, e mais tempo ainda pesquisando no Museu Britânico para descobrir o que era. Ao final das pesquisas, constatou que ainda era virgem e pediu a anulação do casamento.

Casamento, Inglaterra, 1900.

As mulheres de Thomas Carlyle e John Ruskin também atravessaram o casamento virgens como nasceram.

Talvez – arrisca a autora – a explicação esteja no choque que os homens vitorianos tinham quando se deparavam com a nudez feminina. Muitos conheciam a nudez apenas das estátuas de mármore da antiguidade clássica. Quando os gajos viam pela primeira vez uma mulher nua de verdade, ficavam chocados – dizem que os pelos pubianos os amedrontavam – e simplesmente não conseguiam consumar o casamento.

Está tudo lá, documentado por dona Phyllis Rose e referendado por documentos históricos como cartas e excertos de processos de anulação de casamento.

Eu achei tudo muito interessante.





Deletando a solidão!

4 02 2010

De quinze em quinze dias somos bombardeados pela mídia com a mais “nova” pesquisa sobre a rede mundial dos computadores. Os jornais dizem que pesquisadores de tal ou qual universidade chegaram à conclusão de que a Internet faz com que as pessoas fiquem cada vez mais isoladas sem se comunicarem umas com as outras.

Aí eu tenho que apelar para a minha padroeira Santa Zoraide e pedir que ela clareie a cabeça desse povo. Ora, minha gente: o que é a Internet? Uma ferramenta de comunicação, constituída por computadores ligados em rede e à frente de cada um desses computadores existe alguém que tecla, que clica o mouse e que olha o monitor! Então como é que a Internet pode isolar as pessoas? Ela faz exatamente o contrário!

Com a Internet podemos trocar informações e experiências, lançar apelos e responder a pedidos, fazer denúncias, conhecer pessoas, namorar, compartilhar interesses comuns e, sobretudo, exercer a cidadania e praticar a democracia.

Os usuários da rede são estudantes conversando sobre suas dificuldades escolares, doentes trocando as informações mais atuais sobre tratamentos, adolescentes tímidos procurando companhia nas salas de bate-papo, ativistas políticos usando a rede para persuadir e noticiar, portadores de deficiência ou doentes que não podem sair da cama ou da cadeira de rodas mas cujos cérebros estão vivos e on-line. Tem empulhação e safadeza também, mas isso tem em tudo o que é atividade humana, e não será isso que vai descaracterizar a rede; a gente também encontra o que não presta no cinema, na literatura, na música, que dirá na Internet!

Não conheço coisa mais solitária de que uma pessoa sozinha, na sala de um apartamento, vendo televisão. Hoje, essa pessoa não está mais na frente da TV: está conectada à rede, se comunicando com algum outro ser humano. Ou seja: não está mais sozinha. Deletou a solidão.





Acabou o verão!

2 02 2010

Acabou é o modo de dizer, porque o sol continua brilhando, as areias quentes continuam beijadas pelas águas mornas e o mar, bem, o mar continua indiferente a se é janeiro ou fevereiro e não se cansa de envolver com seu abraço salgado e sensual aqueles privilegiados que não precisaram voltar ao trabalho ou à escola.

Para mim, que não tenho mais emprego formal, que não vou à praia e que vivo enfiada em casa, continua tudo como antes no quartel d’Abrantes. A rotina por aqui permanece igual, escrevendo de manhã – quando o assunto aparece – saindo à tarde quando é preciso resolver alguma coisas fora e permanecendo de noite em casa, dividindo meu tempo entre o Twitter, as séries favoritas de TV e a leitura de livros como Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, que estou lendo pela … vamos ver: pela quinta ou sexta vez, porque este livro é uma verdadeira aula de história, e de como bem escrever.

Daqui a uns dias chega o Carnaval, acaba fevereiro e março começa, marcando o real início do ano para quem exerce qualquer atividade produtiva nesse país que não dependa da estação chamada Verão.

Coisa boa é que em março o preço das passagens de avião e dos hotéis despenca. Para aqueles que, como eu, ficaram em casa nas férias fugindo das temperaturas abrasadoras para os sombreados aposentos com ar-condicionado, é uma boa hora para pensarem em dar uma volta por esse mundo velho sem porteira.

Vou viajar: só não sei para onde. Viajar é preciso: viver não é preciso.





Ferro-de-engomar

1 02 2010

No meulivro Formosa és: memórias do internato eu mostro a foto de um ferro de passar nos moldes do que usávamos naqueles longínquos anos do final da década de 1950.

Ferro de brasas. Veja a empunhadura de madeira e a abertura traseira por onde se abanava.

Abria-se o ferro, enchia-se o recipiente de brasas tiradas do fogão, e esperava-se que as brasas esquentassem o metal. Aí, passava-se a roupa. Havia ainda uma série de detalhes: para que esquentasse rápido, o ferro era colocado no chão, junto a uma porta bem ventilada, em cima de uma lata emborcada, com a abertura do fundo na direção do vento; um grampo era atravessado no nariz do ferro para que não abrisse quando alguém o empunhava e, se não esquentasse logo, enérgicas abanadas com um abano de palha eram logo providenciadas.

Havia uma empregada lá em casa que ia para o meio do quintal com o ferro na mão e o balançava em arco, provocando com esse movimento o vento necessário para avivar as brasas. Mas Mamãe morria de medo dessa performance, que achava perigosa. Imagina se você sem querer solta esse ferro e ele voa em cima de alguém! – dizia Mamãe. – De um dos meninos! – continuava, e nós nos enconlhíamos, aterrados, ao imaginar a cachoeira de brasas ardentes se derramando sobre as nossas cabeças.

Além do ferro de engomar doméstico, havia na Campina Grande da minha infãncia um lugar com esse nome. Ali perto do Ferro-de-Engomar, diziam. Era um edifício que tinha um formato pontudo, em bico, e por isso era assim chamado. Quero dizer: havia, não: há, ainda há. Continua lá no mesmo local, há bem uns 60 anos.

Infelizmente não achei foto do prédio. mas no Google Maps é possível ver a forma pontuda do edifício, apontando como uma cunha para a avenida.

Localizado na Avenida Getúlio Vargas, no centro da cidade, tem no seu térreo um bar, com clientela cativa; as más línguas dizem que a partir das oito da manhã o dono do “Ferro” já se encontra de plantão, para atender à turma que passa lá pra “regular a marcha lenta” antes de ir trabalhar. Isso deve ser porque neste país está ficando na moda ir trabalhar “calibrado” com algumas doses de álcool…

Peço aos blogueiros Emmanuel Souza e Adriano Araújo, inventores do blog Retalhos Históricos de Campina Grande, que desenvolvam essa pauta e falem sobre esse local tradicional da “Rainha da Borborema”.

Finalmente, um Ferro-De-Engomar famoso: o Flatiron Building (Fuller Building), um dos primeiros arranha-céus construídos em Nova Iorque, inaugurado em 1902 e localizado entre a Quinta Avenida, a Broadway e a Rua 23. Com seus 22 andares, é um dos cenários mais característicos da Big Apple e foi desenhado pelo arquiteto e urbanista Daniel Burnham. Eu ainda vou ver isso!

Flatiron Building, New York City.





Provocação aceita

31 01 2010

Minha gente! Há uma moça chamada Luna que me segue no twitter. Pois hoje ela postou: “Eu estava mal acostumada a todo dia ler um artigo da @ClotildeTavares. Agora falta um ritual no meu dia.”

Eu dei uma explicação meio fajuta, meio malamanhada: que estou em crise de criatividade. Os 140 caracateres do twitter nao permitiam maiores detalhes, mas continuei dando desculpas para mim mesma: que estou sem vontade de escrever, que o blog é meu, fui eu quem inventou e que isso não me obriga a escrever todo dia, que todo mundo tem direito de estar numa fase preguiçosa da vida, que estou com preguiça também em outros setores da minha vida, que minha carteira de motorista venceu dia 10 e eu ainda não fui renovar, que meu passaporte ficou pronto dia 23 e eu ainda não fui buscar, que isso, que aquilo.

Mas não interessa.

Qualquer motivo é tão bom quanto outro. Momentos de inércia e paralisação acontecem na vida de todo mundo.

Talvez seja a falta de exercício físico, que faço três vezes por semana sob o olhar vigilante e exigente de Fernando, a quem chamo de “personal-trainer das estrelas e celebridades”, no caso, eu mesma.

Mas Fernando ligou hoje e prometeu que volta quarta-feira para me repaginar fisicamente, melhorar meu lay-out e despertar as minhas endorfinas através de halteres, caneleiras e muito alongamento. Como conseqüência, espero que essa atividade física desperte a atividade mental que está faltando por aqui.

Então, Luna, querida: você me provocou, moça! E aqui estou respondendo à provocação.

A todos que lêem, essa moça Luna tem um blog maravilhoso, cheio de comida gostosa: o Quiche de Macaxeira.





O inferno feminino

27 01 2010

Ivana Arruda Leite

Ontem, um dos links que publiquei foi o do blog da escritora Ivana Arruda Leite. Como eu gosto dos livros dela, meu caro leitor! O que mais gosto nela é a forma como aborda os temas ligados ao universo feminino, completamente alheio aos edulcorantes artificiais que geralmente cercam as chamadas “coisas de mulher”.

Como está escrito sobre as portas do inferno, ao entrar nos seus livros o leitor precisa abandonar toda a esperança, e nutrir-se de coragem para encarar a profunda tragédia que muitas vezes permeia o cotidiano feminino, aqui exposto sem dó nem piedade. No seu livro “Falo de mulher”, o aparente paradoxo do título, repleto de duplos entendimentos, se derrama pelos contos, como “Receita para comer o homem amado”, “A puta seletiva”, “Mulher é tudo igual” e outros, onde a mulher, eviscerada e nua em seus desejos e impulsos mais secretos, fala sempre a verdade.

Mas Ivana é também lírica e memorialista , no seu livro “Eu te darei o céu”, recuperando para nós, mulheres nascidas no inícios dos anos 1950, a infância e adolescência perdidas, com as músicas de Celly Campelo e Roberto Carlos, vestidos rodados e cabelos armados nos assustados da adolescência, seguidos pela fase “caia na real”, onde os anos de chumbo vieram, descendo com seu punho selvagem, esmagando e escurecendo o céu da nossa geração.

Fã de seus livros desde alguns anos atrás, conheci-a pessoalmente em São Paulo no final de 2008, na “Balada Literária”, evento organizado pelo escritor Marcelino Freire nas quebradas da Vila Madalena. Bom papo, boa conversa, alegre, divertida, ficamos horas falando das nossas séries preferidas na TV por assinatura. Tentei olhar para aquela mulher morena, miúda, sentada ao lado de sua filha Bebel e tomando um café, com a bolsa no colo, e fiquei a imaginar o violento pulsão criativo escondido por trás de pessoa tão amável e simples. Pulsão este que faz com que Ivana consiga desvendar o mais grotesco do universo existencial feminino e expor suas chagas ocultas, seus sonhos inconfessáveis, seus amores maníacos, seus ideais inúteis, com um toque profundo de humor, mas humor negro, é bom que se diga.

Ivana Arruda Leite é uma escritora que é preciso conhecer, sem perda de tempo, pelo muito de Humanidade que expõe nas histórias e personagens.

Eu recomendo. Leia alguns dos seus contos aqui.





Recebi pelo Twitter

26 01 2010

Na impossibilidade absoluta de escrever, em plena crise de criatividade, só me resta repassar o melhor dos links que recebi pelo Twitter nos últimos dias.

A maior palavra cruzada do mundo

Lindos cases para seus objetos

Ivana Arruda Leite, escritora maravilhosa

Começaram a prender as blogueiras!

Turistas retidos em Machu Pichu

Artigo de Chico Guedes na Revista Catorze

Filmes com claque e sem claque

Bairro chique no Haiti escapa da destruição

e finalmente esse video do YouTube que mostra uma linha do tempo com a decadência dos grandes impérios.





Antes mal-acompanhada do que só

22 01 2010

Nos dias em que estou assim à toa, sem fazer nada, uma coisa que me distrai muito é ler os classificados. O meu caro leitor não imagina o potencial de diversão que há nesses anúncios, ou como é instigante exercitar a imaginação inventando histórias a partir daquelas poucas palavras que ali estão.

Todas as pequenas – e às vezes grandes – necessidades humanas estão presentes, explícitas ou latentes nos classificados. São pessoas que estão “vendendo todos os móveis” por motivo de viagem ou transferência e eu logo imagino a dor que a gente sente quando tem que se separar de um objeto querido, que pode ser o armário antigo e cheio de recordações ou a fofa poltrona que já se acostumou com nosso corpo.

E o que pensar quando o anúncio diz: “Vende-se vestido de noiva, cor branca, em renda francesa, todo rebordado em pérolas. Nunca foi usado.” Pobre noiva, que com tanto carinho escolheu modelo e tecido e quem sabe até ajudou a fazer o trabalhoso bordado, mas não chegou a vesti-lo e subir ao altar! Que tragédia ou desilusão se esconderá por trás deste anúncio? Uma traição? Morte prematura do noivo?

  Quando o assunto é ortografia, as coisas se tornam muito engraçadas. É curioso observar a forma como certas palavras são escritas e aí o crédito por essas aberrações ortográficas tanto pode ir para quem redige o anúncio e o entrega no balcão como para a atendente do jornal, a quem o anunciante dita o texto pelo telefone. Alguém quer vender um título do “Walter Park”, em vez de “Water Park”, um salão de beleza oferece “coiffus” em vez de “coiffeurs” (cabelereiros) e outro quer vender um computador com estabilizador de “um caviar”, quando o correto é 1 KVa.

Descobri também que é um bom negócio trabalhar com recarga de cartuchos para impressora, tal a quantidade de anúncios dessa atividade. Um deles oferece a própria máquina que faz o trabalho e afirma que esta é “a profissão do novo milênio”. Acrescenta ainda que “Deus é fiel”, mas nessa eu passei batida e não consegui estabelecer qual seria a relação entre a fidelidade divina e a tinta dos cartuchos.

Mas o melhor de tudo é a criatividade das pessoas na hora de oferecerem seus serviços. Descobri um “motorista/locutor”, um “massagista profissional” que adverte de maneira taxativa que não massageia “partes íntimas” e um “caligrafista”, que se oferece para endereçar convites de casamento, formatura e outros eventos. Encontrei também um “sargento do exército, 30 anos, comunicação fácil, experiência em planejar, sobrepor limitações, mudanças de paradigma e táticas racionais…”, que acrescenta outras habilidades e conclui o anúncio dizendo que “… não é fumante, flamenguista ou corintiano e muito menos simpatizante do futebol”.

Finalmente, entre todo esse cortejo de profissionais, gostei muito de dois rapazes que se oferecem para “acompanhantes”: “Lindo, gaúcho, olhos azuis” e “Novato, 22 anos, prazeiroso”.  Com um pequeno esforço de imaginação, consegui me ver sendo acompanhada por um deles ou, quem sabe, pelos dois ao mesmo tempo. Mas temo, meu caro leitor, que isso não seja assunto para este blog e vou ficando por aqui, profundamente inclinada a subverter o provérbio e afirmar que, vez por outra, é melhor estar mal-acompanhada do que só.





Monga, e o monossílabo

20 01 2010

Fui criada no meio de eufemismos. Em casa, e na vizinhança.

Quando se ia mandar um dinheiro para alguém, o dinheiro se transformava em uma palavra misteriosa: a “encomenda”. Mamãe dizia: “Neusa recebeu a encomenda?”

Não se falava em tuberculose: era “a fina”, ou “a magra”. Fulano está com “a fina”. E câncer, nem pensar. Dizia-se “aquela doença”. “Fulano está com aquela doença”.

Não se dizia parir, ter menino, dar à luz: o termo era “descansar”. Menstruar era palavrão. Naquele tempo, as mulheres ficavam “incomodadas”; e quando uma das moças da vizinhança “se perdia” não era porque a criatura não encontrasse o caminho de casa: era porque havia perdido a virgindade.

Papai chegou ao ponto de inventar palavras de xingação, como “leqüera”, assim mesmo, com trema no “u”, para quando queríamos insultar uns aos outros; e inventou também a palavra “lunfa”, que queria dizer uma mulher de vida mais livre sem chegar realmente a ser prostituta.

É bem verdade que vez por outra, no calor das discussões, as muralhas da boa educação caíam por terra e saíam todos os deliciosos palavrões que hoje se diz com tanta frequência e tão abertamente. “Sua puta sem-vergonha, chifreira, eu sei que seu marido é corno, viu, sua rapariga?” Nós, crianças, ouvíamos entre assustados e deliciados as brigas, até que alguém notava e baixava o volume da voz.

Lembrei disso tudo vendo a TV, onde, depois do anúncio de um medicamento, aparece o letreiro: “Ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado”, frase complexa e pedante, que faz você pensar umas três vezes antes de entender diteito o que ela quer dizer.

Isso me levou de volta no tempo, a uma placa que havia na porta do Restaurante Maré Mansa, em Macau-RN, famosíssimo pelo seu camarão divino. Hoje essa placa não existe mais – o camarão continua divino – mas na década de 1980 eu fiz uma foto dela – que obviamente nunca consigo achar quando preciso. A placa diz: “Se acompanhado, não se aproxime com mulher de vida livre”. É o cúmulo do arrodeio para dizer: “Proibido entrar com puta”.

Mas o exagero do eufemismo eu ouvi dizer numa história contada pelo poeta e contador de causos Jessier Quirino. Ele conta que estava num parque de diversões e foi entrando para ver Monga, a mulher Gorila. Naquela sala escura, lotada de gente de pé, ele entra com uma das mãos atrás, protegendo “o monossílabo”. Quem já entrou para ver Monga – eu já – sabe que é de suma importância fazer isso, porque há cem por cento de risco de se levar uma, como direi, “dedada” no “monossílabo”, é claro…





Encerrando um ciclo

19 01 2010

Se você é meu leitor constante, deve ter notado que ando sumida deste blog. Não sei o que se passa comigo ultimamente que ando num daqueles bloqueios que é o terror de toda pessoa que vive do que cria: na literatura, no teatro, na música. Uma dificuldade de escrever, uma inquietude, uma coisa estranha, um estresse que não me deixa ficar parada num canto e juntar duas idéias uma na outra e mais uma terceira e assim dar seguimento a um escrito qualquer.

Fazer o que? Penso que todo mundo tem essas fases, e como eu não tenho nenhum produtor no meu pé me apressando por texto – o que aconteceria se eu estivesse escrevendo a novela das oito, por exemplo – tenho mais é que não forçar muito a Natureza e esperar que você, meu pacientíssimo leitor, compreenda e releve.

Teve também essa história toda do Haiti, que me deixou triste e abalada, como há muito não me sentia frente a uma catástrofe como essa. Vejo os noticiários, fico arrasada, perco a graça e a alegria. Vejo as aberrações que são ditas por políticos e pessoas sem noção e fico irada. Nesse tumulto de emoções, minha capacidade de escrever escorre pelo ralo.

Clicando aqui, você vai ler, se tiver paciência, um belo texto de uma mulher haitiana, escrito antes do terremoto. Ela diz:

Minha avó acreditava que se uma vida é perdida, outra vida brota em algum outro lugar, sendo essa nova vida ainda mais forte que a outra. Ela acreditava que uma pessoa não morre, realmente, desde que alguém se lembre dela, alguém que reconheça que esta pessoa, apesar de tudo, estava aqui. Nós somos parte de um círculo sem fim, somo as filhas de Anacaona. Nós envergamos, mas não quebramos. Não somos atraentes, mas ainda assim resistimos. De vez em quando devemos gritar isso o mais distante que o vento puder levar nossas vozes. Nou lèd, nou la! Somos feias, mas estamos aqui.

A gente vê que esse terremoto já vem acontecendo há muito tempo. O tremor que botou os prédios no chão foi apenas a cereja do bolo. A sensação que eu tenho é como se o Haiti precisasse ser “reformatado” para seu povo poder conseguir se reerguer de uma forma mais humana, mesmo ao sangrento custo de tantas vidas perdidas. Como se o Universo tivesse resolvido “passar a régua” para começar tudo de novo.

E fica a minha pergunta: quandos lugares mais nesse planeta não estão precisando de uma boa passada de régua? É isso.

Amanhã tentarei voltar com a diversão e a irresponsabilidade de sempre.





O Haiti no meu coração

15 01 2010

Não consigo tirar da minha cabeça o que está acontecendo no Haiti. Ontem à noite, depois que vi os noticiários na TV, meu coração ficou pesado, meus olhos túmidos e a garganta grossa: como ter apetite para encarar o jantarzinho caseiro que estava pronto quando as imagens da TV me mostravam o indescritível: crianças famintas e feridas vagando pelas ruas, mortos abandonados à putrefação na margem das avenidas, pessoas disputando um copo de água na tapa, e o sofrimento, a miséria, a sensação de perda, de desenraizamento, de completa e total incapacidade de superar o caos ao redor.

O problema atual do Haiti é puramente de logística: como organizar o socorro, a alimentação, a segurança, a volta do fornecimento de serviços básicos, se toda a estrutura que havia foi arrasada? E ainda é preciso aturar insanos como um pastor evangélico norte-americano, Pat Robertson, que diz que o que aconteceu ali foi porque o país fez um pacto com o Diabo!

Ou então o cônsul do Haiti no Brasil, George Samuel Antoine que, sem saber que estava sendo gravado, afirmou ao que a tragédia causada pelo terremoto que atingiu o Haiti está sendo boa, pois traz visibilidade ao consulado.

Braulio Tavares, na sua coluna de hoje no Jornal da Paraíba, fala sobre o lento terremoto de exploração e desmandos que afeta o Haiti há 200 anos; e muito outros profissionais- cientistas, filósfos, analistas políticos e econômicos, jornalistas – muitos outros discutem e buscam explicações.

Eu não. Eu simplesmente fico triste, choro, perco o apetite. Daqui, do meu canto, nada posso fazer. Já sou muito velha para pegar um avião e ir até lá ajudar. Não me sinto disposta fisicamente para tanto. E tenho medo, minha gente. Sou medrosa. Tenho medo de morrer longe de casa. Sou humana, sou frouxa, sou covarde. Sinto tudo isso quando vejo o medo, a tristeza e o sofrimento que pulsa no coração de parte da Humanidade, Humanidade essa que também é a minha Humanidade.

Nós somos um, e um de nós – um não, muitos – sofrem e sentem fome e medo.

Eu sinto também.





Os sonhos da Onça-Parda

14 01 2010

Ainda estou horrorizada com as notícias do terremoto que aconteceu no Haiti. Um país já tão pobre, um povo já tão sofrido, e agora mais essa. As centenas de milhares de vidas perdidas são uma tragédia para a Humanidade, que soma a isso o sofrimento dos que ficaram e que terão agora que lidar com as perdas e a difícil reconstrução.

Quando houve o tsunami na Tailândia, escrevi o texto abaixo; hoje, repito-o aqui, por considerar adequado para a situação e porque eu mesma, ainda triste, não estou conseguindo comentar sobre a catástrofe.


Os sonhos da Onça-Parda (publicada na Tribuna do Norte-Natal/RN em dezembro de 2004)

No “Romance da Pedra do Reino” o escritor Ariano Suassuna, em um grande achado poético e metafórico, compara a Terra a “uma Fera estranha, uma Onça-Parda em cujo dorso habita a Raça piolhenta dos homens.”

A imagem me veio à mente depois dessa catástrofe que se abateu sobre a Ásia, em forma dos gigantescos “tsunamis” causados pelo terremoto de nove graus Richter ocorrido nas profundidades do Oceano Índico.

Tudo isso já foi visto e revisto pela televisão e os repórteres e comentaristas esgotaram o repertório de lugares comuns que se usa numa ocasião dessas. Mas uma coisa me chamou a atenção. Ao contrário dos desastres ecológicos causados pelo Homem, com sua ação predatória sobre o ambiente movido pelo lucro, pela cobiça e pela exploração, esse desastre foi uma fatalidade. Um acontecimento fortuito, devido ao Acaso e a fatores perfeitamente naturais.

A Onça-Parda, a Terra, até então sossegada e como que adormecida, contrai a musculatura do lombo, arrepia-se, treme, e por mais que a Raça piolhenta se agarre aos seus pelos é cuspida fora sem a menor contemplação, sem culpa, sem pena, sem pudor. É isso que somos: insetos microscópicos, aninhados no dorso desse gigantesco animal que, até dormindo, pode acabar conosco.

A Onça é democrática na sua coceira mortífera, atingindo desde o pescador na sua precária canoa até o iate principesco do milionário. Quando a onda vem, varre palhoças e hotéis de luxo com fúria igual. Para a Onça, somos todos ácaros desprezíveis, piolhos do nada, nenhum mais importante do que o outro. E depois de coçar-se, a Onça acomoda-se novamente para dormitar ao sol, não se sabendo quando vai remexer-se outra vez.

A Natureza deslumbrante daquela região banhada pelo Oceano Índico foi construída graças a essas convulsões violentas do planeta, rocha por rocha, laguna por laguna. A Beleza e o seu usufruto terminaram cobrando o seu preço em vidas e bens materiais.

A nós, insetos humanos, só resta contabilizar as perdas, ajudarmo-nos uns aos outros, reerguer dos escombros o que foi destruído e torcer para que a Onça-Parda tenha bons sonhos e não volte a estremecer tão cedo.





As igrejas do interior – VI

13 01 2010

Há tempos que eu não postava aqui as fotos das igrejas das pequenas cidades do interior, uma das minhas paixões. Você pode mandar a foto da igreja da sua cidade; mas precisa mandar também o crédito da foto, ou seja, o nome do fotógrafo. E veja os posts anteriores clicando na coluna de tags da direita, sob o nome igrejas. Com esta postagem, já são 60 igrejas.

Galante-PB. Foto Egberto Araújo.

Galante-PB. Foto Egberto Araújo.

Capela da Vila de Montemor, Rio Tinto-PB. Foto Guy Joseph.

Taipu-RN. Foto de Sandro Fortunato

Mulungu-PB. Foto Fábio Mozart.

Mogeiro de Baixo-PB. Foto de Fábio Mozart.

Goianinha-RN. Foto Cinara Andrade.

Santa Luzia-PB. Foto Egberto Araújo.

Jardim do Seridó-RN. Foto Joaquim Junior.

Iguatu-CE. Foto Manoel Bomfim.

Nísia Floresta-RN. Foto Sandro Fortunato.





A vida é sonho

11 01 2010

Na obra A Vida é Sonho, de Calderón de la Barca (1600-1681) o príncipe Segismundo vive desde a infância numa prisão escura, acorrentado, tendo sido ali colocado por seus pais em virtude de uma profecia que vaticinava que ele, chegando à idade adulta, traria grandes desgraças ao reino.

Muitos anos depois, o rei arrepende-se e começa a pensar se havia procedido corretamente aprisionando o filho daquele modo. Manda então narcotizá-lo, retirá-lo da prisão e, ao acordar daquele sono estranho Segismundo se vê no palácio real, bem vestido e cheio de jóias. Dizem-lhe que ele é príncipe, e que tudo aquilo que lhe havia acontecido antes teria sido apenas um sonho.

Uma vez investido no seu novo papel, Segismundo, de acordo com a profecia, começa a cometer os desatinos que haviam sido anunciados quando do seu nascimento. Sem conseguir suportar seus desmandos e loucuras, o rei faz a operação inversa: narcotiza-o, despe-o das roupas caras e das jóias e encerra-o novamente no escuro calabouço, preso a grossas correntes.

Ao acordar, Segismundo se lamenta, preso entre o sonho e a realidade, numa das mais belas páginas poéticas já escritas.

- É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
- Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
- Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
- Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.




As 10 coisas que mais gostei na viagem de navio

9 01 2010

Se você está chegando a esse blog hoje pela primeira vez, clique aqui para ver que viagem foi essa.

1 – A comida

Fiquei feliz de desfrutar de uma gastronomia elaborada como a que era servida no restaurante à la carte, com refeições de seis pratos. Não aumentei nem meio quilo porque esse tipo de comida, com suas pequenas porções, realmente engorda menos do que se você se servir no self-service onde sempre, sempre, os olhos são maiores do que a fome.

2 – Ver a esteira de espuma que o navio deixa na água

Eu ficava horas na amurada, ou na popa, vendo o caminho que a grande embarcação deixava nas águas e a rapidez com que ele se desfazia. Um momento ímpar para refletir sobre a rapidez com que as coisas passam…

3 – Tomar café da manhã na cabine

Odeio ver a humanidade antes de ingerir pelo menos meio litro de café e tomar um banho. O café na cabine, servido gratuitamente, na hora marcada por mim na véspera, com croissants deliciosos e outras gostosuras, foi realmente um luxo.

O clube.

4 – A pontualidade

Se anunciarem um show às 21h15, começa às 21h15; se disserem que a piscina está aberta às 8h55, abrem às 8h55. Vivendo e me irritando sempre num mundo impontual como o nosso, eu desfrutei de uma semana maravilhosa, podendo me programar, sem perder meu tempo esperando que as coisas começassem.

5 – A possibilidade de fazer amizade

Você vai caminhando pelo deck, senta numa daquelas poltronas com um livro. Ao seu lado, na poltrona próxima, senta alguém: homem, mulher, adolescente, não importa. Aí você sorri e diz: “Oi, eu sou Clotilde, e moro em Natal, e você, de onde é?” É o suficiente para conhecer gente e fazer boas amizades. Num cruzeiro, as pessoas estão mais abertas a isso e eu adoro conhecer gente nova.

Lojas "DutyFree"

6 – Praticar meu inglês terrível com o inglês mais terrível ainda de stewards e garçons

Foi divertido conversar em inglês com gente da Malásia, Indonésia, Coréia e Madagascar. Conversar é o modo de dizer, porque na maior parte das vezes um não entendia direito o outro. Mas como eu via que o inglês deles era tão ruim quanto o meu, a auto-censura diminuía e eu conseguia conversar razoavelmente bem com aquelas criaturas.

7 – Ir ao clube sozinha

Sentar, ficar horas ouvindo a banda tocando música romântica dos anos 1960, tomando refrigerante light… Você não precisa de companhia para freqüentar nada, uma coisa que nem sempre é bem aceita em terra firme. Pelo menos aqui em Natal eu não me atrevo a entrar num bar da moda e concorrido sozinha, para ocupar uma mesa, ver o show, comer, passar o tempo. Já tentei fazer isso, mas quando era mais nova os garçons me constrangiam me tomando por prostituta; agora, na terceira-idade, possivelmente vão pensar que eu sou doida.

Cardápio

8 – Provar a mim mesma que posso passar sete dias completos sem Internet

Sem e-mails, sem twitter, sem MSN, sem blog. E sem ler as milhares de coisas que leio todo dia na rede: jornais, revistas, blogs. Passei muito bem sem tudo isso. No segundo-dia de viagem, eunem me lembrava que existia Internet.

9 – Comprar a preço maravilhoso

Uma das boas coisas do navio são as lojas Duty Free, onde você compra em dólar, sem pagar imposto. O perfume que uso, que custa R$ 270,00, foi comprado a 68 dólares.

10 – O balanço suave da embarcação

Já disse aqui e repito: parecia que  eu era menina de novo, embalada na rede da infância por mãos maternas. Mas eram as ondas do Atlântico, ou os suspiros de Iemanjá, a Rainha do Mar, embalando meu sono por sete deliciosas noites. Tenho saudades.





Meu casaco de general

8 01 2010

Neo-hippie, em 1970.

“… Com minhas calças vermelhas, meu casaco de general, cheio de anéis…” Quem não é muito jovem sabe o que é isso: um trecho da letra de um belíssimo blues de Jards Macalé, popularizado na voz de Gal Costa e repetido à exaustão, de todas as formas possíveis, por todos os freaks que habitaram os anos 70 e 80.

Eu fui uma dessas pessoas. Com algum domínio do violão, afinação e atitude para interpretar, fazia shows gratuitos para delírio da galera principalmente na saudosa Bodega da Praça, em Ponta Negra, na cidade de Natal, onde eu moro desde os anos 1970, com dois intervalos: Recife (1978-1979) e João Pessoa (2005-2009).

O “casaco-de-general” sempre me pareceu uma roupa ritual, algo que se veste para ir à guerra, para ir à luta. Aquela peça de roupa que você tem ali pendurada nas ocasiões em que a empresa é perigosa, você não sabe quando volta, a noite é fria e, por causa da solidão, as possibilidades são imensas.

Beatles, 1967.

Eu tive dois desses casacos-de-general. O primeiro, um paletó de veludo cotelê verde-escuro, com bolsos laterais onde eu enfiava as mãos e um bolsinho interno onde ia o dinheiro e a chave. Nas noites de Campina Grande, no final da década de 1960, ele me aquecia e me protegia, qual cota de malha, das batalhas que começavam a aparecer no horizonte dos meus vinte verdes anos. Hoje repousa velhinho, velhinho, no fundo do baú das roupas que tenho pena de jogar fora. Obviamente não me cabe mais.

Marcos Sá, Rio, 1972.

O outro foi feito a partir de uma camisa da aeronáutica que ganhei de presente no início dos anos 1970, quando fui morar em Natal. Feita de grosso zuarte azul escuro, eu a cortei na altura da cintura, ajustei e transformei numa jaqueta. Preguei umas tachas de metal, bordei umas flores e pronto: virou uniforme. Para onde eu ia, a emblemática peça ia comigo, mostrando quem eu era: freak, neo-hippie, fora-de-moda, outsider. Um dia, no fragor de uma das muitas batalhas noturnas, deixei-a a contragosto no no terreno do inimigo e nunca mais voltei para buscá-la.

Hoje você olha para mim e vê uma senhora muito arrumada, da terceira idade, bem vestida e maquiada. O que você não imagina é que, por dentro, vestindo a minha alma, ainda se encontra meu casaco-de-general, com o qual eu vou seguindo, por todas as ruas, e vou tomar aquele velho navio…

(Marcos Sá é meu amigo, que me emprestou essa foto para ilustrar o post, tipicamente dentro da estética dos anos ‘70: o casaco-de-general sobre o macacão Lee, o cabelo black-power  e os óculos Ray-Ban modelo aviador.)





“Triste do país que precisa de heróis”

7 01 2010

Vejo na TV que um menino encontrou uma bolsa, cheia de objetos de valor: relógio, MP3, jóias – e em vez de ficar com tudo devolveu ao dono. O garoto foi recompensado, virou matéria de TV, foi homenageado pelo prefeito da cidadezinha – que ficou muito bem na fita ao lado do garoto – e serviu de mote para as famosas exortações hipócritas nas quais a TV se esmera tanto: “Vejam que coisa linda! Um menino honesto! Filho de agricultores! Pobre de Jó! E devolveu a bolsa! Que coisa mais linda, e exemplar!” Tenho certeza de que domingo ele vai estar no Faustão, como exemplo de “história de vida”.

Minha gente! Ser honesto é obrigação. Ninguém deveria receber prêmio especial nem virar matéria em jornal nacional por achar e devolver um objeto que não lhe pertence. Ninguém deveria ser considerado herói por ser honesto. Talvez por enfrentar as chamas de um incêndio para salvar alguém desconhecido – porque se for filho ou parente é o que se espera, não? Ou por se atirar à água da enchente para resgatar pessoa que vai na enxurrada.

Eu não suporto a boa ação escancarada, para todo mundo ver. Não estou dizendo que o menino fez isso, mas aqueles que capitalizaram o gesto dele assim o fizeram. Para mim, a boa ação real é aquela que fazemos em silêncio, em segredo, onde muitas vezes nem o próprio beneficiado sabe. Mas essa boa ação oculta e secreta não satisfaz a vaidade daqueles que só vêem sentido em ser “bom” se puderem ostentar isso para os outros. E considero o escoteiro fardado atravessando a rua com a velhinha é a imagem perfeita e acabada da hiprocrisia, do “está-vendo-como-sou-bom-correto-honesto?”

É muito triste viver num país como esse, onde se rouba tanto e de tal forma escancarada que um gesto de honestidade é alçado ao nível de “grande gesto nacional”. “Triste de um país que precisa de heróis”, já dizia Brecht em uma das últimas falas da peça “Galileu Galilei”. E eu completo: triste de um país onde um gesto que deveria ser um comportamento natural de honestidade é alçado a gesto de heroísmo.