Domingo é dia de preguiça…

8 11 2009
COUBERT

Óleo sobre tela. Coubert.

 

 





Você precisa realmente disso?

7 11 2009
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Há uma história que não sei se é verdadeira mas isso não importa, pois ela é perfeita para demonstrar o que quero dizer. Conta-se que na corrida espacial, com americanos e russos disputando para ver quem chegava primeiro à Lua, as canetas comuns se mostraram inadequadas para o uso na gravidade zero. Os americanos, então, gastaram alguns milhões de dólares na pesquisa da caneta ideal; os russos usaram um lápis.

Isso e o exemplo clássico do foco no problema ou foco na solução. É grande o número de ocasiões no dia-a-dia em que nos desviamos da solução e usamos ou adquirimos, muitas vezes a custo alto, equipamentos ou metodologias inadequadas ou complexas para resolver coisas que admitem soluções mais simples.

Este tema foi disscutido ontem no blog da Bia Kunze, a Garota Sem Fio. Bia Kunze é uma figura muito interessante: dentista especializada em home-care, ela também testa equipamentos de tecnologia móvel para empresas, escreve sobre esse tema em jornais e na Internet, tem um excelente blog e faz animada participação no Twitter além de manter duas casas em capitais diferentes (isso eu não entendi direito, mas deixa pra lá.)

Bia Kunze ajuda profissionais a escolher aparelhos, softwares e serviços, e auxilia as pessoas a tirar o maior proveito possível dos seus equipamentos. O que ela nota, no dia-a-dia como consultora, é que muitas vezes os clientes investem altas somas em aparelhos cheios de funções dos quais somente usam umas poucas, e que os problemas deles poderiam ser resolvidos de forma mais simples e barata.

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A vassoura elétrica!

Eu sou apaixonada por gadgets. Em 1975 eu já tinha uma calculadora eletrônica minúscula, e os colegas de faculdade me perguntavam, “para que eu queria aquilo”. Fui a primeira pessoa em Natal a ter uma agenda eletrônica, um modelo da Casio com sua espetacular memória de 32 Kb; quando eu a tirava da bolsa, as pessoas se amontoavam à minha volta para olhar a engenhoca, do jeito que alguns anos depois iam à minha casa para ver a placa de captura de TV que instalei no computador para ver minha novela num cantinho da tela enquanto digitava no Word.

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Aí, eu notei que as coisas estavam se complicando quando começaram a aparecer os controles remotos com 101 teclas das quais a gente só usava umas cinco ou seis; os fornos de microondas de progamação complexa, cheios de recursos, que terminavam sendo usados apenas para esquentar o prato feito e a água para o cafezinho – como até hoje ainda fazemos. Os players de VHS e depois de DVD eram cheios de botões que não sabíamos para que serviam.

Esses aparelhos já estão vindo em um formato mais simplificado, talvez pelo aumento do acesso das chamadas classes C e D a esses produtos; mas no campo de outros gadgets, principalmente no que se refere à comunicação móvel, a praga dos dos mega-recursos para resolver miniproblemas continua com a corda toda. (Tem hífen? Não tem hífen? Eu nunca sei!)

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Eu continuo gostando de gadgets, mas só compro aqueles que realmente utilizo. Tenho vassoura elétrica, ando com minibinóculo dentro da bolsa, tenho uma microlâmpada que prende no livro para ler à noite, sou viciada em bobagem nerd. Quando surgiu o iPhone, fiquei doidinha por um. Como não compro por impulso, comecei a me perguntar se eu realmente precisava dele. E cheguei à conclusão de que poderia viver muito bem sem a engenhoca.

Ora, minha gente! Sou uma escritora e trabalho em casa. Não tenho horários a cumprir, clientes a atender, compromissos agendados nem alunos a orientar (não mais, graças a Deus!), desde que me aposentei como professora da UFRN. Então para que danado eu quero um smartphone? Só porque todos os meus amigos têm, embora a maioria o use basicamente para telefonar e tirar fotos dos netos? Meu aparelho Nokia-Modelo-Simples recebe e faz todas as ligações que preciso, e que são poucas. E os meus netos todo mundo sabe que são lindos…

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Aí, depois de namorar muito com um iPhone, e como a minha grana não nasce nas árvores, resolvi, em vez dele, comprar um leitor de e-books. Já li uma porção de artigos sobre essa maravilha tecnológica e estou muito inclinada a a adquirir o modelo da Sony. Para a leitora inveterada que eu sou, o gadget vai me permitir um sonho: andar por aí com centenas, talvez milhares de livros e lê-los em qualquer lugar onde estiver. Para mim, não me importa se os livros têm como suporte os átomos ou os bytes. Em qualquer formato, a essência mesma da Literatura que é o diálogo entre o leitor e o escritor, mantém-se preservado e vivo, para deleite de quem gosta de ler, na tela ou no papel.





Hoje não tem post

6 11 2009

Por que? Porque depois de passar mais de uma hora escrevendo um post caprichado, cheio de links e referências sobre a necessidade de se ter ou não um smartphone, o WordPress sumiu com meu texto! Isso veio comprovar minha teoria de que a Informática não é uma Ciência Exata: é uma Ciência Oculta…

Fiquei à beira de uma ataque de nervos mas, como tinha tudo na cabeça, vou escrever de novo para postar amanhã.

Acontece.

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Fiquei aborrecida!





O Festival Dosol

5 11 2009
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Alan Freed

Gosto de dizer que o rock and roll tem a minha idade, embora saiba que ele é alguns anos mais novo.

No início da década de 1950, a galera já se balançava e girava ao som do rhythm & blues. Aí um disc-jockey chamado Allan Freed se auto-intitulou “Moondog” e através de um programa de rádio e da organização de bailes, deixou sua assinatura na música mundial, criando em 1954 o termo “rock and roll” para designar o novo ritmo, que veio a se tornar mais do que uma dança: virou uma atitude, que mudou a face do comportamento entre os jovens.

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Com 13 anos, eu era uma peste!

Eu tinha sete anos em 1954 e aos doze, em 1959, já saía da aula mais cedo e, escondido de Mamãe, ia dançar rock na casa de um pessoal, na esquina da Irineu Joffily com a praça cel. Antonio Pessoa, em Campina Grande. Lá, numa tarde de excepcional performance, e como a casa abria janelas sobre a rua, fui vista por Titia, que vinha do trabalho. Ao chegar em casa, ela informou a Mamãe o tenebroso fato: “Ela estava escanchada na cintura de um rapaz!”

Quando cheguei em casa, Mamãe me fez shake, rattle and roll ao aplicar nas minhas costas e onde batesse umas lamboradas com a “virola”, um artefato de psicologia maternal inventado por ela e que consistia numa corda de sisal trançada com uma velha tomada de ferro elétrico.

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Ana Morena, no palco, domingo passado.

Talvez tenha sido por isso que o rock and roll se incrustou na minha pele e nunca mais saiu, numa espécie de tatoo comportamental de tal forma indelével que até hoje, com mais de sessenta anos de idade, ainda me faz continuar fã e praticante, do ritmo e da atitude. Não pratico mais a parte acrobática da dança; mas o resto tudinho eu ainda faço.

Meus filhos não precisaram apanhar para aprender a gostar de rock. Ambos roqueiros, fazem do ritmo e atitude o pão de cada dia, coisa mais patente em relação a Ana Morena que, junto com o marido Anderson Foca são empresários de rock and roll em Natal, vivem disso, e não trabalham em outra coisa.

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Esses danados fazem há anos o Festival Dosol, correndo pelo acostamento dos eventos ligados às grandes gravadoras, na promoção do rock independente, as chamadas “bandas indies”, que ficam à margem do circuito mais comercial do mercado.

Neste ano, são dois dias de festival, 7 e 8 de novembro, com 31 bandas sendo três delas de fora do Brasil. Tudo acontece na Ribeira, centro histórico de Natal-RN, onde a dupla Ana/Anderson tem o Centro Cultural Dosol.

E eu, que gosto tanto do silêncio, abro uma exceção e digo: aumenta o som que é rock and roll!





A vida é como a rapadura

4 11 2009

Gosto muito de dizer, e até já disse aqui, uma frase ouvida nas ruas: “A vida é como a rapadura: é doce, mas é dura.” Aí, toda vez que falo isso, muita gente me envia emails oferecendo diversas versões para a mesma frase. Sabedoria popular é assim mesmo, multiforme, e nenhuma dessas formas é mais certa do que a outra. A rigor, a frase é o conjunto de todas as suas versões.

Uma leitora me questionou se, na vida e na frase, primeiro não viria a dureza, e depois a doçura. Eu penso que não. Quando você põe a a rapadura na boca, a primeira coisa que sente é o doce. O doce vem antes, para enganar, para seduzir, para fazer a gente meter os dentes nessa rapadura tão difícil de roer.

As Proezas de João Grilo

Mas cada um sabe de si; e o doce e o duro estão às vezes tão unidos que o negócio é se fazer de doido e ir roendo a rapadura da vida, devagarinho, sentindo o doce, mas sabendo que esse doce também traz o açúcar da Morte Caetana, cariando nossa força de existir.

Viver é muito perigoso, já dizia Guimarães Rosa, e não é coisa pra gente frouxa. E já que eu estou no campo das frases cito mais uma, de Ariano Suassuna, posta na boca de João Grilo, o mais soberbo personagem do nosso armorial conterrâneo: “A vida é um sutiã: o negócio é meter os peitos!”

 





Futebol, cantoria de viola e Hamlet

3 11 2009
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Imagine, meu caro leitor, que você nunca foi a um jogo de futebol. Não sabe o que é, nunca viu na TV, nunca ouviu falar. Aí um belo dia alguém lhe convida para ir ao estádio. Você logo se entedia, pois vê aqueles homens correndo atrás de uma bola sem terem aparentemente o menor objetivo. Aí alguém lhe explica; são dois times diferentes. Um faz gol ali; outro faz gol acolá; e fazer gol é colocar a bola naquele espaço delimitado pelas traves. Aquele cara que está ali é o goleiro, e tem como objetivo impedir a bola de entrar… E assim por diante. Pouco a pouco você vai entendendo as regras do jogo e vai começando a tirar daquele espetáculo antes sem sentido muita distração, emoção e passatempo.

É assim com tudo. Para apreciar as coisas é preciso entendê-las. Umas são mais fáceis de entender do que as outras e eu, que gosto e entendo de futebol, nunca consegui entender as regras do beisebol ou do rugby, e por isso passo para outro canal quando vejo um jogo desses na TV.

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Quando eu era professora da Disciplina de Folclore Brasileiro, na UFRN, era uma maravilha apresentar para os meus alunos a cantoria de viola. Colocava um CD de cantoria, deixava eles escutarem um pouco e depois perguntava se haviam gostado. A maioria dizia que não tinha se ligado muito, que as vozes dos cantadores não eram bonitas, que não sabiam tocar as violas direito, que não haviam curtido. Aí eu começava a explicar a eles que aquilo era feito de improviso. “De improviso como?” falavam alguns. “De improviso, inventado na hora”, dizia eu. E aí dava a eles uma aula de poética, explicava a estrutura da sextilha, da décima, do martelo, o que era um mote e como se glosava, ensinava a contar os pés, ou seja, as sílabas poéticas. Mostrava que cada sextilha começava com a rima da anterior, introduzia-os a formas poéticas mais complexas como galope-à-beira-mar e martelo-gabinete… Daí a pouco estava todo mundo curtindo os CDs, com ouvidos atentos e olhos maravilhados que traduziam a satisfação estética e artística que estavam obtendo agora, depois de devidamente “alfabetizados” na arte da cantoria.

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Nas outras artes, é a mesma coisa. Existe todo um repertório que é preciso dominar para poder desfrutar daquela manifestação artística. Em algumas artes, como a música, é fácil saber quando o cantor está desafinado ou quando o instrumentista não sabe tocar, mesmo para quem é leigo. A música é uma arte que impressiona diretamente os nossos sentidos. Já em outros campos a coisa de complica, mas os obstáculos, se são maiores, não são intransponíveis.

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Apaixonada que sou pela poesia e pelo teatro, defendo a idéia de que não há nada em “Hamlet”, de William Shakespeare, que um adolescente de quinze anos não seja capaz de compreender, depois de devidamente “alfabetizado”, é claro. Comprovo isso toda vez que dou um curso em forma de leitura comentada da peça, geralmente para jovens. São cinco encontros de duas horas cada um, onde leio junto com a platéia toda a peça, cada dia um ato, parando, comentando e explicando. Um dado fundamental é que as pessoas aprendem, entre outras coisas, que o grande William Shakespeare não escrevia sobre reis e príncipes, mas sobre seres humanos que eventualmente eram reis ou príncipes. Um desses alunos me disse que, lendo “Hamlet”, aprendeu mais sobre si mesmo do que em um ano de terapia, com todo respeito que devo aos terapeutas.

Como diria o próprio Shakespeare: “…O olho do poeta, revirando, olha da terra ao céu, do céu à terra, e enquanto o seu imaginar concebe formas desconhecidas, sua pena dá-lhes corpo, e ao ar inconsistente dá local de morada e até um nome, tal é a força da imaginação.” (Sonho de Uma Noite de Verão, Ato V, cena 1)





Dia de Finados

2 11 2009
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Na Região do Cariri paraibano, onde minha mãe foi criada, a Morte é chamada carinhosamente por um nome de mulher: Caetana. Minha mãe dizia que a Caetana tem duas formas: a Moça e a Onça. Quando vem no formato de Moça, nos abraça tão suave, deixa os cabelos caírem por cima da gente e nos carrega tão macio que a gente nem sente. Mas às vezes ela está virada na Onça, e nos morde com seus dentes de pedra e desfia nossa vida com suas garras, esfolando a gente vivinha ainda. O roçado dela é o mundo, e onde tem gente viva a Moça/Onça Caetana afia suas garras e treina seus abraços macios e mortais.

Quando a gente nasce, é como se assinasse um contrato, e viver é esperar a liquidação da fatura. Só por medo da Morte é que a gente agüenta a Vida que às vezes é mais Onça do que a própria Caetana. Shakespeare diz que é por medo da morte, dessa fatal viagem para o país desconhecido de onde ninguém jamais voltou que suportamos “a angústia do amor desprezado, a morosidade da lei, o orgulho dos que mandam, o desprezo que sofremos dos indignos… Quem carregaria suando o fardo pesado da vida se não fosse o temor da Morte?”

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Altar mexicano dos mortos.

Há uma tradição mexicana que diz que cada pessoa morre três vezes. A primeira é a da morte mesmo, quando pára de respirar. A segunda é quando o corpo é sepultado. E a terceira é quando, em algum momento no futuro, seu nome é pronunciado pela última vez. Disso eu deduzo que não existe Morte: o que existe é o Esquecimento, pior, dez mil vezes pior do que a Morte porque às vezes acontece ainda em vida do freguês.

Se você viajar hoje pelo interior do Nordeste vai ver, nas janelas das casas perdidas no meio da escuridão da noite, velas acesas nas janelas: são as chamas dos mortos, brilhando na escuridão para que eles não sejam esquecidos. Como genealogista que sou, vivo cercada pelos meus defuntos queridos, esmiuçando suas vidas, reconstruindo seus passos, estabelcendo suas árvores de costados, seus laços de parentesco. Hoje é dia de me sentar na varanda quando a noite cair, acender a minha vela e, pacientemente, recitar em voz alta todos os seus nomes, por extenso, para que não caiam no esquecimento, começando pelo meu tetravô, tenente-coronel  Teothonio da Santa Cruz Oliveira, que viveu entre Correntes-PE e Viçosa-AL nos idos do século XIX até minha tia Maria Anunciada Santa Cruz Quirino (1927-2008), a última que deixou este mundo, no Natal do ano passado.

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La Catrina, personificação da Morte no folclore mexicano.

E para não terminar nesse clima solene, conto uma historinha que ouvi quando criança. Um homem tornou-se compadre da Morte, e o trato era que, quando ela visse buscá-lo, mandaria um aviso para que ele pudesse se preparar, tomando as providências para deixar os negócios em ordem. Anos depois o aviso chegou. O homem se apavorou e na manhã da Morte chegar, ele estando morto de medo, a esposa, muito criativa, disse; “Se avexe não, Fulano. Vista uma roupa velha, vá lá pra junto do fogão, se lambuse todo de carvão, fique de cabeça baixa atiçando o fogo e deixe a Comadre Morte comigo.” E assim ele fez. Daí a pouco, quando a Morte chegou que perguntou pelo Compadre a mulher falou que ele tinha tido um chamado urgente e que tinha viajhado às pressas: não estava ali. A Morte ficou chateada. “Mas é danado mesmo!” disse. “Eu vim de tão longe pra esse compromisso com o Compadre e ele me fazer uma desfeita dessas! Tem nada não. Pra não perder a viagem, vou levar aquele preto velho que está ali, junto do fogão…”





A Marquesa

1 11 2009

Se a minha mãe hoje estivesse viva, completaria 88 anos. O dia primeiro de novembro, Dia de Todos os Santos, era o dia do seu aniversário. Hoje, para registrar aqui sua passagem pelo planeta, repoduzo texto que escrevi sobre ela e que consta dos meus livros A Agulha do Desejo e Coração Parahybano.


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Cleuza Santa Cruz Tavares (1921-1997)

Quero lhe contar hoje a história da minha mãe. Nascida em 1921, em Coxixola, na Parahyba, Cleuza Santa Cruz Tavares passou a infância em fazendas, primeiro no Cariri Paraibano e depois no agreste de Pernambuco, onde meu avô Pedro Quirino criava uma meia dúzia de cabeças de gado. Na vida simples daqueles tempos e lugares, aprendeu em criança valores fundamentais que a acompanharam até o fim: honra, dignidade, destemor.

Casou-se aos 18 anos com Nilo Tavares, que na época era Secretário da Prefeitura de Angelim, Pernambuco. Em 1946 fixaram-se em Campina Grande, onde lhe nasceram os filhos: Clotilde, Braulio, Pedro e Inês. Dedicou-se à casa e à família até que todos crescemos, casamos e saímos de casa. Foi aí que ela resolveu realizar o grande sonho da sua vida: formar-se em Direito e advogar. Então esta mulher, que só tinha estudado até o primeiro ano primário, aos 52 anos matriculou-se no então Artigo 99 e em dois anos fez o primeiro e o segundo grau. Prestou Vestibular para Direito na Universidade Regional do Nordeste e passou em quarto lugar. Em 1980, com quase 60 anos de idade, formou-se finalmente em Direito. Um golpe do destino truncou-lhe então a carreira nascente: o meu pai teve um derrame, passando a necessitar de cuidados intensivos e ela deixou de cumprir o próprio ideal para atender a quem dela precisava, como o fez durante toda a vida.

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Jovem, aos 24 anos, com seu cachorro Pinóquio. O ano é 1945.

Sem poder assumir o sonhado escritório de advocacia, nas solitárias noites em casa, lia, escrevia e ouvia no rádio suas músicas preferidas. Em tom de brincadeira, inventou para si própria um título – a Marquesa, pelo qual ficou conhecida na cidade – que usava para telefonar para os programas de rádio pedindo as músicas dos seus cantores preferidos.

Quando encontrava quem cuidasse de Papai, ia aos bares, acompanhada de amigos e amigas muito mais jovens do que ela, onde tomava cerveja, cantava e se divertia. Sua mesa sempre estava cheia de jovens e de artistas, porque ela amava a alegria, a juventude e o teatro, e sempre tinha atores e atrizes por perto.

Com ela aprendi coisas fundamentais. Ensinou-me a não maltratar os animais, a honrar a palavra dada e a me orgulhar de ser mulher e nordestina. Com ela aprendi a rir da desgraça e das peças que a vida nos prega, a não levar desaforo para casa, a não ter medo de nada. Aprendi também a ser hospitaleira, a ser solidária e a defender quem está por baixo ou é vítima de preconceito.

Um edema agudo de pulmão a levou em dezembro de 1997. Mas enquanto aqueles valores que ela nos inculcou correrem nas nossas veias, e nas dos nossos filhos e netos, Dona Cleuza, a Marquesa, continuará viva e presente entre os que a conheceram e amaram.


O livro Coração Parahybano estará em breve disponível para download gratuito. Aguarde.





Carlos Drummond de Andrade, “gauche” na vida

31 10 2009
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Há mais de cem anos, num dia 31 de outubro como esse, em 1902, nascia em Itabira, Minas gerais, o poeta Carlos Drummond de Andrade. Não foi somente um mestre na poesia, mas também na crônica e no conto; sua bibliografia é vasta e dispensa comentários pois é ponto pacífico que Drummond é um dos nossos “gênios da raça”.

Ainda consigo evocar a emoção que tive quando li Carlos Drummond de Andrade pela primeira avez. Tinha uns 14 ou 15 anos de idade e li no colégio, ou melhor, o professor de Português leu alguma coisa durante a aula e depois deixou o livro por ali; eu peguei, folheei e li, entre surpresa e maravilhada, alguns poemas.

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Acostumada com sonetos, poemas de Castro Alves e poesia parnasiana, fiquei completamente de bobeira com a vigorosa poesia daquele homem que dizia tudo o que eu queria dizer mas não sabia. Da mesma forma que ele, eu estava “presa à vida e aos meus companheiros” e sentia, mesmo de forma imperfeita, que “o tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.” A partir daí, o poeta sempre me acompanhou em tudo, oferecendo a melhor forma de descrever e expresar as minhas paixões, as minhas perprlexidades, os meus anseios, numa época em que eu ainda não tinha linguagem própria para traduzir o que ia no meu coração e na minha mente.

Muitas coisas me ensinou a poesia de Drummond. Ensinou-me que “o mundo é grande e cabe na cama e no colchão de amar”, e que o amor é eterno pois “eu te gosto, você me gosta, desde tempos imemoriais”. Aprendi que um retrato na parede pode doer tanto como se a coisa viva, presente e pulsante estivesse de pé, olhando para mi ali no meio da sala, e desde então guardo certos retratos no fundo das minhas gavetas mais profundas, para que não doam, para que não me machuquem.

Junto com o poeta, compadeci-me de José e perguntei-lhe: “E agora, José?” aproveitando também para perguntar a mim mesma “E agora?” E também fiquei ali, como José, “sozinho no escuro, qual bicho do mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar.” Como as filhas, quis saber de “Nossa mãe, o que é aquele vestido, naquele prego?” E perplexa diante do “mundo, mundo, vasto mundo” descobri que não me chamava Raimundo, não era uma rima e muito menos uma solução. Finalmente, fiquei e ainda fico horas mesmerizada diante do desmesurado edifício poético que é “A Máquina do Mundo”.

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Depois de ler Drummond eu, adolescente estranha e esquisita, descobri um termo que me descrevia exatamente: “gauche”. E, como o poeta, entendi que a condição de artista está sempre ligada a essa “gauchice”, se é que posso dizer assim.

Saúdo entao hoje o poeta de “A Flor e a Náusea”, este homem que sentava “no chão da capital do país às cinco horas da tarde” e dizia, sem admitir nenhuma contestação: “Garanto que um flor nasceu.” No dia em que li esses versos pela primeira vez, aprendi uma lição fundamental: que uma flor, mesmo feia, continua sendo uma flor e que, somente por ser flor, pode furar “o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”





Eu acredito

30 10 2009
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Ontem andei aqui falando no Céu, em São Pedro, em livraria celestial. Aí as pessoas me mandaram e-mail querendo saber em que eu acredito. Ou seja, o meu caro leitor quer saber se eu acredito em Deus e qual é a minha religião.

Confesso que eu acho essa curiosidade meio abusada, meio descabida, meio fora de propósito porque crença e religião é uma coisa de foro íntimo e não deve interessar a mais ninguém a não ser a nós mesmos. Por outro lado, já me acostumei com essas atitudes do meu leitor, sempre querendo saber mais sobre mim e isso é compreensível uma vez que sou eu mesma que vez por outra lhe dou esse cabimento, confessando aqui, neste espaço público, coisas que deveriam ficar no terreno pessoal. Então vou tentar responder às duas perguntas colocadas no início: se acredito em Deus e qual é a minha religião.

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Antes de responder se acredito em Deus, quero falar sobre outras coisas nas quais acredito com toda a força do meu coração. Acredito que o mundo tem jeito. Acredito que o ser humano é bom, e se vez por outra fica mau e criminoso isso acontece por motivos que a minha pequena mente não consegue entender, porque também acredito que tem uma mente maior dirigindo todo esse movimento que chamamos de Vida, Mundo, ou Eternidade.

Acredito na Natureza, quando o raio fende o céu, o trovão ribomba e as nuvens se despejam sobre nós, numa chuva carregada da energia das estrelas. Acredito na força das asas do beija-flor, que o equilibra no ar enquanto ele sorve tão gulosinho o mel dos hibiscos do jardim.

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Acredito que o nascer do sol é um dos mais belos espetáculos da terra, muito embora eu nem sempre esteja acordada para vê-lo. Mas contemplo seu esplendor ao contrário vendo o pôr-do-sol, principalmente naqueles começos de noite em que o arco prateado da lua nova se desenha no céu, como que retesado e disposto a levar nossa mente através do azul até as estrelas.

Acredito na Música, no Teatro, na Literatura. Acredito na Arte e na Filosofia. Acredito na Ciência e nas Tradições que dão sustentação e essência aos povos e civilizações. Acredito na cultura simples do meu povo, nos cantadores de viola, nas panelas de barro e nos cestos de palha, nas histórias de trancoso e nos cantos das romanceiras. Acredito no brotar das sementes e na sua transformação em espiga, e na canjica e na pamonha que posso fabricar com ela.

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Acredito nas maravilhas da tecnologia, nos prodígios da informática, nas viagens interplanetárias. Acredito em tudo que vejo estampado nos olhos dos meus netos Marcelo e Isabela. Acredito na confiança que meus gatos sentem quando se entregam aos meus carinhos, e me deixam coçar a sua barriga e puxar suas orelhas.

Acredito nos mistérios. Acredito no que está oculto e naquilo que a minha mente não alcança. Acredito que existe uma batalha entre o Bem e o Mal, e que eu procuro, nas atitudes da minha vida, estar alinhada com as forças do Bem, da Justiça e da Verdade.

Acredito em você, meu caro leitor, como ser humano especial e único entre todos. E também acredito em mim e na força que existe quando dois ou mais de nós nos juntamos com um objetivo comum. Estas crenças formam a minha religião e garanto a você que, se Deus existe, está de acordo com elas.





A biblioteca celestial

29 10 2009
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Biblioteca Nacional - RJ

Hoje, 29 de outubro, é o “Dia Nacional do Livro”, escolhido por ser a data de aniversário da fundação da Biblioteca Nacional, que nasceu com a transferência da Real Biblioteca Portuguesa para o Brasil. O acervo de 60 mil peças, entre livros, manuscritos, mapas, moedas e medalhas ficou no início acomodado nas salas do Hospital da Ordem Terceira do Carmo, no Rio de Janeiro. A data oficial de fundação da Biblioteca é 29 de outubro de 1810, e sobre a aventura que foi a transferência desse acervo há um livro espetacular, A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis, de Lilia Maritz Schwarcz, editado pela Companhia das Letras em 2002.

Então, hoje para mim é dia de festa. O aniversário de uma biblioteca, minha gente, que hoje também tem muita coisa disponível em formato digital, quer evento mais importante? Quando estive no Rio de Janeiro no ano passado passei um dia internada naqueles corredores, respirando o ar daquelas paredes cobertas de tesouros e com o coração batendo docemente e mais forte só por estar naquele ambiente sagrado, para mim muito mais significativo do que qualquer templo ou igreja. E lhe garanto: se um dia eu morrer e for para o Céu, a primeira pergunta que faço a São Pedro (pergunta que aprendi a fazer com Diógenes da Cunha Lima) é onde está a biblioteca, onde é a livraria. Se não tiver nem numa coisa nem outra dou meia volta e vou para o Inferno, porque lá pelo menos tem rock and roll…

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Brincadeiras à parte, os apaixonados por livros, como eu, devem imaginar o Céu como uma grande livraria, ou biblioteca, onde seja possível encontrar todos os títulos, todas as coleções completas, sem falar nos jornais, revistas, periódicos, fanzines, e tudo o mais que possa ser impresso, escrito ou desenhado.

As poltronas desse espaço paradisíaco devem ser macias como nuvens e o café forte, quente e perfumado. Na biblioteca do céu será possível encontrar, entre outros, o livro de Aristóteles sobre a comédia, que se supõe que ele escreveu mas que não chegou até nós. E o que dizer das outras peças de Sófocles, que escreveu quase 120 mas só sobreviveram sete? E Ésquilo, autor de mais de 80 textos dos quais também só sete chegaram até os nossos dias? Ao todo, seriam 184 textos teatrais desses dois grandes autores, sem falar nos outros: todos os grandes textos da Antiguidade Clássica que foram destruídos pelo fogo das guerras e pela burrice do fundamentalismo religioso!

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Agatha Cristhie

Todos esses livros estariam lá, lado a lado, como aqueles escritos de antigas civilizações que nunca encontraram decifração e que, no céu, foram pacientemente decifrados pelos estudiosos que, na morada celestial, receberam todas as verbas de pesquisa que lhe foram negadas na Terra. Um livro curioso que sei que será encontrado no Céu é aquele no qual a escritora Agatha Christie relata o que aconteceu durante os onze dias em que ficou desparecida, mistério real nunca revelado e cuja solução ela levou para o túmulo.

Um paraíso feito de livros: quer coisa melhor, meu caro leitor? Sem estresse, sem pressa, desfrutado com extremo prazer, porque nessa livraria divina podemos ler lenta e gostosamente todos os livros que quisermos, já que a Eternidade é o nosso tempo e se estende, infinita, à nossa frente.





Banheiras

28 10 2009

Ontem à noite, depois de um cheio de stress, fiquei pensando em como seria bom mergulhar numa banheira de espuma… Como não tenho banheira, catei na web essas banheiras que compartilho com você.

Um modelo clássico.

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No aconchego da sala, ao lado da lareira… Encontrei aqui.

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Que maravilha! Aqui.

Uma banheira de livros… aqui.

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Outra… aqui.

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Essa com TV nem sei onde encontrei.

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Com salva vidas… aqui.

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Essa é a banheira-café; se você seguir o link, vai ver também a cama-sanduíche.

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E finalmente a rainha da coleção, essa banheira maravilhosa, incrivelmente fashion-brega, que encontrei aqui, por indicação da jornalista Atalija Lima, a quem agradeço a inspiração deste post.





Eu e meu duplo

27 10 2009

No tempo em que eu ainda estava na ativa como professora da UFRN, tirei três meses de licença prêmio, à qual eu tinha direito. Os colegas perguntavam: “E então, Clotilde, vai fazer o que com esses três meses de folga? Vai viajar? Vai aproveitar para escrever um livro?” e ficavam chocados quando eu respondia que não ia fazer nada, que ia ficar à toa, que tinha tirado a licença exatamente para isso. “Mas fazer nada como?” perguntavam, como se tivessem esquecido do supremo deleite que é ficar estirada na rede branca armada na varanda, empurrando de leve o pé na parede para desfrutar do balanço suave e do rangido do armador.

Essa incapacidade de relaxar, de entregar-se ao ócio, é uma constante nesses tempos turbulentos e apressados em que vivemos. O cotidiano assume uma velocidade, uma intensidade, uma concentração tal que fica difícil desligar-se disso nos momentos de lazer. Então, para acompanhar o ritmo, busca-se também diversões agitadas, velozes, barulhentas e concentradas. Não se admite mais um lazer onde não haja barulho, agitação e movimento.

Além disso, é importante mostrar-se ativo, sociável, extrovertido. Olha-se com desconfiança as pessoas contemplativas, que amam a solidão, o sossego, o silêncio. Um sujeito que passa o fim de semana lendo em vez de sair para a balada, principalmente se é jovem, é olhado com estranheza pelo grupo, e os amigos dizem: “Precisamos arrancar Fulano de casa, do meio desses livros, e levá-lo para se divertir”, como se os livros não fossem uma diversão tão aceitável como qualquer outra.

Na verdade, as diversões desses dias de hoje são cada vez mais desgastantes pelo tempo que perdemos tentando nos divertir, ou lutando para chegar no local da diversão. São horas perdidas em filas para comprar ingressos, em congestionamentos no caminho para a praia ou enquanto aguardamos uma mesa no nosso restaurante predileto. A diversão termina sendo mais cansativa do que o trabalho, mas é preciso se divertir, é preciso freqüentar, é preciso aparecer nos lugares, é preciso dançar a noite inteira, é preciso ir ao restaurante da moda, à buate do momento. É preciso manter a fama de ativo, participante, sociável.

Ah, meu caro leitor, ficar sozinho exige competência. Dedicar o fim-de-semana a arrumar os armários exige coragem. Entregar-se à leitura, à contemplação, enquanto todos estão na praia ou na balada, exige um espírito forte, disposto a enfrentar críticas de todo tipo. Finalmente, ficar à toa, sem fazer nada, simplesmente, é um suicídio social.

Esquecem-se os baladeiros de que é nos momentos de solidão que pensamos, criamos, questionamos. É nesses momentos que acontece o encontro mais importante, o encontro da gente com a gente mesmo, com o nosso duplo, que nos observa do fundo do espelho, que tem coisas para nos dizer mas precisa de silêncio e de calma para se expressar. Dessa conversa, sempre saímos mais fortes, mais calmos, mais vivos e criativos. Experimente. É um bom programa para qualquer fim de semana.





Cora Coralina, doceira e poeta

26 10 2009
Igreja da Boa Morte em Goiás Velho.

Igreja da Boa Morte em Goiás Velho.

Já andei por aqui falando de uma visita que fiz a Goiás Velho, a antiga capital do estado de Goiás, um lugar lindo, encantado, cheio de recordações de um tempo antigo, com igrejas, casarões e chafarizes de encher os olhos.

Lá também foi a morada da poeta/doceira Cora Coralina, de quem visitei a casa agora transformada em museu, guardando todos os objetos do dia-a-dia da poeta, como a cadeira onde escrevia, seus tachos de fazer doce, seus livros na estante, seus vestidos.

Pois é com grande prazer que apresento hoje um indispensável complemento dos encantos dessa cidade: o livro  “Cora Coralina, doceira e poeta”. Que livro maravilhoso, meu caro leitor! Uma viagem poético-visual-saborosa em torno do universo de Cora, especialmente da sua atividade à frente do fogão e dos seus tachos de cobre, o que a levou a dizer: ” – Sou mais doceira do que poeta”.

O livro é um edição da Global Editora, em tamanho grande (30×23 cm) capa dura, magnificamente ilustrado por Claudia Scatamacchia e com fotos das receitas por Cristiano Lopes. Tem textos sobre Cora de sua filha Vicencia Bretas Taham, do neto de Cora, o advogado e jornalista Flavio de Almeida Salles Junior, além de texto de J. A. Dias Lopes, jornalista e gourmet.

A Casa Velha da Ponte.

A Casa Velha da Ponte.

Ana Lins dos Guimarães Peixoto, a Cora Coralina, nasceu na cidade de Goiás Velho, mas saiu de lá bem jovem, indo morar em São Paulo. Voltou a Goiás Velho aos 45 anos de idade e, tornando a habitar na casa velha dos seus ancestrais, chamada a Casa Velha da Ponte, começou a fazer doces para sobreviver. Escrever já era hábito desde os 14 anos de idade. Publicou seu primeiro livro com 75 anos e, reconhecida nacionalmente tanto como doceira como quanto poeta, falceceu aos 96 anos, deixando vários livros publicados.

Esta publicação traz suas receitas, apresentando o texto na redação original de Cora e em seguida sua interpretação, com as quantidades, para que eu ou você possamos repeti-las. Isso porque a receita original geralmente é escrita sem as quantidades, ou com quantidades aproximadas, tornando impossível a sua reprodução por uma pessoa com dotes culinários reduzidos, como esta blogueira e quem sabe muitos dos seus leitores.

Cora Coralina.

Cora Coralina.

A viagem é doce, saborosa e cheia de poesia, pois as receitas são entremeadas com fotos da cidade, da casa, e com poemas de Cora. São doces, bolos, pudins, biscoitos, broas, geléias, cremes, licores e vinhos caseiros, todos com fotografias e todos de dar água na boca.

Eu adorei esse livro que a Global editou para celebrar os 120 anos de nascimento desta mulher espetacular, que nos deixou esse legado poético de doces delícias, esse versos cheios de sabor, e o exemplo de sua vida.

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Elogio da Preguiça

25 10 2009

Você já ouviu falar de Juvenal Antunes, poeta nascido em 1883 em Ceará Mirim, RN? Ele foi personagem da série “Amazônia” e aqui você sabe mais sobre ele. O que eu queria mesmo era preencher esse domingo com o magnífico poema “Elogio à preguiça”, da sua autoria.

ELOGIO DA PREGUIÇA

Poema de Juvenal Antunes (1883-1941)

Bendita sejas tu, Preguiça amada,
Que não consentes que eu me ocupe em nada!
Mas queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras,
Hei de dizer, em versos, quatro asneiras.
Não permuto por toda a humana ciência
Esta minha honestíssima indolência.
Lá está, na Bíblia, esta doutrina sã:
-Não te importes com o dia de amanhã.
Para mim, já é grande sacrifício
Ter de engolir o bolo alimentício.
Ó sábios, dai à luz um novo invento:
A nutrição ser feita pelo vento!
Todo trabalho humano, em que se encerra?
Em na paz, preparar a luta, a guerra!
Dos tratados, e leis, e ordenações,
Zomba a jurisprudência dos canhões!
Juristas, que queimais vossas pestanas,
Tudo que legislais dá em pantanas.
Plantas a terra, lavrador? Trabalhas
Para atiçar o fogo das batalhas…
Cresce o teu filho? É belo? É forte? É louro?
- Mais uma rês votada ao matadouro!…
Pois, se assim é, se os homens são chacais,
Se preferem a guerra à doce paz,
Que arda, depressa, a colossal fogueira
E morra assada a humanidade inteira!
Não seria melhor que toda gente,
Em vez de trabalhar, fosse indolente?
Não seria melhor viver à sorte,
Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte?
Queres riquezas, glórias e poder?…
Para que, se amanhã tens de morrer?
Qual mais feliz? O mísero sendeiro,
Sob o chicote e as pragas do cocheiro,
Ou seus antepassados que, selvagens,
Viviam, livremente, nas pastagens?
Do Trabalho por serem tão amigas,
Não sei se são felizes as formigas!
Talvez o sejam mais, vivendo em larvas,
As preguiçosas, pálidas cigarras!
Ó Laura, tu te queixas que eu, farsista,
Ontem faltei, à hora da entrevista,
E, que ingrato, volúvel e traidor,
Troquei o teu amor – por outro amor…
Ou que, receando a fúria marital,
Não quis pular o muro do quintal.
Que me não faças mais essa injustiça!…
Se ontem não fui te ver – foi por preguiça.
Mas, Juvenal, estás a trabalhar!
Larga a caneta e vai dormir… sonhar…




Inventando histórias

24 10 2009

Trabalhando com teatro, uma das coisas que tenho que fazer de vez em quando é escrever textos que depois serão encenados por atores. Escrever é muito bom, é uma coisa que me dá muito prazer e quando se trata de uma tarefa específica como é o caso dessa as dificuldades que podem aparecer servem apenas como estímulo para tentar alcançar um resultado melhor.

Quando eu ainda ensinava teatro na UFRN muitas vezes inventava personagens a partir dos exercícios de trabalho de ator propostos aos alunos. E o engraçado é que esses personagens, criados pelos alunos/atores eram quase sempre reis, imperadores, sacerdotes, heróis, magos, princesas, governantes… Isso acontece, penso eu, porque projetamos nos personagens que criamos nosos sonhos, nossas expectativas, nossos desejos.

Uma coisa semelhante acontece no que se relaciona à chamada “terapia das vidas passadas”. Segundo alguns estudiosos, é possível acessar existências que já vivemos através de hipnose e outras técnicas. Eu não sei se isso é verdade ou não, e nem quero aqui discutir essa questão. O que quero dizer é, quando se trabalha com esse tipo de prática de uma forma que considero superficial, as pessoas sempre são, em vidas passadas, reis ou imperadores, nobres na corte francesa, sacerdotisas do templo de Ísis, guardiões do tesouro de Persépolis, altos dignatários, embaixadores, e por aí vai.

Aí eu pergunto: e as pessoas comuns? Nunca vi ninguém dizer que, numa vida passada, tenha sido servente de pedreiro ou lavrador. Nunca ouvi ninguém dizer que foi dona de casa ou uma simples costureira, apesar desse tipo de gente – as pessoas simples – representarem noventa e cinco por cento ou mais das pessoas existentes no mundo, em qualquer época que se considere.

Talvez se pense que a vida das pessoas comuns é destituída de atrativos, de aventura, de encanto, mas disso eu discordo. Eu, você, cada um de nós, por simples e comum que seja, tem suas histórias e aventuras para contar. Cada um de nós tem um repositório de histórias, emoções e vivências tão excitantes quanto a vida de qualquer rei, ou rainha. Concorda comigo?





Ouvindo a intuição

23 10 2009
Cleuza Santa Cruz Tavares, minha mãe.

Cleuza Santa Cruz Tavares, minha mãe.

A minha mãe era uma mulher muito sábia. Ela possuía em alto grau essa sabedoria atávica, ancestral, intuitiva, que vem não se sabe de donde, e que não se aprende nas universidades. É uma espécie de dom, algo que parece trazermos inscrito no nosso DNA. Até os meus vinte e dois anos, tempo em que vivi em casa e convivi com Mamãe, aprendi muito, e hoje me considero também depositária dessa sabedoria, exercitada a cada dia, nas situações do cotidiano que me são apresentadas pelo fluir do rio da Vida.

Uma coisa curiosa em Mamãe era que, nos seus atos, obedecia sempre à voz da intuição, que ela chamava “a minha natureza”. Essa “natureza” dela a fazia ter comportamentos ou atitudes inesperadas, quando se recusava a participar de algo ou a gostar ou desgostar de alguém. Os parentes reconheciam esse seu dom e era chamada sempre para resolver conflitos familiares na grande família de dez irmãos da qual fazia parte, sendo a sétima filha. Qualquer problema, qualquer situação de estresse familiar, lá ia ela para Recife – onde morava boa parte dos meus tios e tias. Moças solteiras que engravidavam, rapazes que não queria seguir a carreira determinada pelos pais, casais que ameaçavam se separar, crises financeiras, Mamãe ia, com sua “natureza” a tiracolo, dar um jeito nas coisas.

É, meu caro leitor. A intuição é uma função cerebral tão importante quanto a razão, ou o raciocínio lógico, mas opera diferente, através de caminhos que não conseguimos entender bem. Além disso, a nossa educação, toda firmada em cima de funções lógicas, não dá muito status de saber ao conhecimento intuitivo. No entanto, ele está aí a nosso serviço. É só saber como utilizá-lo, e não reprimi-lo quando ele se manifestar. E, antes que me perguntem: a intuição não tem sexo. Não existe esse negocio de “intuição feminina”. Os homens também a têm, no mesmo grau que nós, mulheres, mas a reprimem de tal forma, e a descaracterizam como “coisa de mulher”, que ela raramente se manifesta entre eles.

No exercício das minhas funções intuitivas, eu dou extrema importância a instintos, a essas mensagens que vêm à mente consciente não se sabe de onde nem por que. Olhei e não gostei, mesmo que não haja nenhum motivo, não me aproximo. “Sinto” que fulano não presta: não faço negócio. Entro no carro e lá vem a voz: “Vá de táxi”. Vou de táxi. Estou de passagem comprada e lá vem a voz de novo: “Não vá não” e eu não vou não. Estou em casa sentada e a voz diz: “Vá”. E eu largo o que estou fazendo e vou.

Foi assim que ontem eu simplesmente desisti de ir à viagem do Cariri, para a qual havia me planejado há dias. Acordei de manhã e a voz disse: “Não vá não!” Disse e repetiu, de maneira tão forte e consistente que eu simplesmente cancelei tudo. Telefonei cancelando a reserva na pousada, cancelei os encontros que havia marcado com os amigos e não fui mesmo.

Aí você me pergunta: “E quem garante que a voz está certa?” Eu, meu caro leitor, eu garanto. A voz é a minha intuição e eu nunca me arrependi de obedecer a ela. É a voz de mamãe, a voz da natureza, da “minha” natureza, sentimento atávico, conhecimento intuitivo, fonte límpida de sabedoria que aí está, à nossa disposição. É só prestar atenção.





Paraíso aberto

22 10 2009

Há uma música que fala sobre o Cariri, que diz assim:

“No meu Cariri, pode-se ver de perto

tanta boniteza,

pois a Natureza

é um paraíso aberto…”

Pois é para esse paraíso aberto que estou indo hoje, meu caro leitor, passar quatro dias no Encontro dos Povos do Cariri, um evento que congrega arte, cultura, economia e negócios, e que acontece em São João do Cariri, na Paraíba.

Eu sempre fico feliz de poder voltar a essa região, sobre a qual já escrevi outras vezes aqui neste blog. O Cariri é o berço dos meus antepassados mais próximos, e é lá que fica Coxixola, onde nasceu minha mãe.

Neste final de semana vou encontrar amigos, escritores e artistas, gente da minha gente, povo do meu povo, e vou fazer o lançamento virtual do meu folheto de cordel Cariri de A a Z, onde eu louvo as belezas daquela região. para o meu caro leitor de todo dia nesse blog, faço uma gentileza especial: é suficiente clicar aqui e ler o folheto, disponível para você em formato PDF.

Mesmo viajando, o blog continuará sendo atualizado diariamente mas talvez haja uma pequena demora na liberação dos comentários e nas respostas aos emails. Segunda, 26, tudo volta ao normal.

No mais, é me desejar boa viagem e prometo que quando chegar venho cheia de novidades pra você.

"Sobrado dos Árabes" - São João do Cariri, Paraíba.

"Sobrado dos Árabes" - São João do Cariri, Paraíba.

UPDATE: Minha gente, desisti da viagem. Acordei assim com um pressentimento, uma sensação estranha, e como obedeço muito às minhas intuições, cancelei tudo. É isso. (Escrito às 7h20 da manhã de 22/10)





Preparativos para viagem

21 10 2009
Sartre e Simone

Sartre e Simone

A escritora Simone de Beauvoir relata num dos seus livros que Sartre, seu companheiro e também escritor, sempre saía de casa com bastante dinheiro em espécie, passaporte e todos os documentos. Para Sartre, isso significava que, se lhe desse vontade, podia dali mesmo de um daqueles cafés que frequentava viajar para onde quisesse sem precisar voltar em casa. Isso significava liberdade absoluta de ir e vir.

Eu morro de inveja desse tipo de atitude porque sou daquelas pessoas que para viajar nem que seja por dois dias preciso de milhares de preparativos. Desde os tradicionais “que roupa levar”, que somente isso daria um post quilométrico incluindo minha clamorosa indecisão a respeito não somente a roupa mas sapatos, bolsas e acessórios até os meus equipamentos eletrônicos dos quais não me separo e que dão sentido à minha vida. Então: roupa, sapatos, acessórios, maquilage, notebook e sua fonte, câmera, gravador, celular e carregador, o carrgador de pilhas, agenda, caderninho para escrever, canetas, remédios, produtos dietéticos… É uma troçada sem fim, da qual preciso todo dia. Antes levava livros também, mas agora com os livros em PDF (tenho cerca de 400 títulos no notebook) não preciso mais carregar esse peso extra.

Mas antes de viajar também tenho que tomar providências domésticas. O apartamento tem que ficar todo arrumado e a cozinha limpa, senão quando a gente volta, além daquele choque inicial de abrir a porta e ver logo uma bagunça, se ficar sujeira na cozinha cria mofo e atrai insetos. É preciso também deixar as plantas com água e em lugar protegido, mas onde haja alguma luz, para que não morram.

Fora isso, e princialmente se eu for para um lugar onde não tenha Internet ou a conexão seja difícil e precária, é preciso deixar agendados os posts dos blogs, colocar as listas de discussão (quase 30!) em modo web, e enviar antecipadamente as colunas para o jornal.

Então, meu caro leitor, viajar para mim é sempre uma trabalheira; é por isso que só saio de casa se o roteiro me atrair com muita força. Como farei amanhã, indo em direção ao Cariri Paraibano. Mas os detalhes dessa viagem você vai ter que esperar até amanhã para saber.





Pequenos crimes

20 10 2009

Segundo a Wikipedia, a contravenção é “uma infração penal, designada de crime menor, punida com pena de prisão simples ou multa, ou ambas, alternativa ou cumuladamente.” E, continua dizendo que parace não haver diferença entre crime e contravenção, “pois o mesmo fato pode ser considerado crime ou contravenção pelo legislador, de acordo com a necessidade da prevenção social”.

Fazendo uma analogia com as drogas, quando se diz que as chamadas “drogas leves”, como a maconha, podem servir de porta de entrada para drogas mais perigosas, como a cocaína e o crack, eu também posso pensar que a contravenção, que é um crime leve, pode servir de porta de entrada para o crime maior, o crime grande. O camarada se acostuma a viver muito próximo do ilegal até que vai se acostumando e termina por cometer um delito de verdade.

E é fácil detectar esses pequenos crimes no dia-a-dia. Um cara passa sossegado com uma gaiola na mão. Dentro, um pássaro. Será que ele tem licença do Ibama para possuir aquele passarinho? E o outro que conserta, por exemplo, geladeiras e fogões e usa a calçada da casa como oficina de trabalho, de onde se espalha o cheiro dos produtos químicos e da tinta utilizada? Além disso, trabalha sem máscara, sem camisa e descalço, prejudicando a própria saúde e pondo em risco sua vida.

Pelo leito inclinado da rua, desce uma grande grande quantidade de água. Não está chovendo. É um morador da parte alta da rua trocando a água da piscina! A água que ele não quer mais, despeja na rua e ela desce em corredeiras porque o novo rico construiu a piscina mas esqueceu de providenciar uma forma adequada de esvaziá-la.

No corredor do prédio de apartamentos, a mãe manda o garotinho de cinco anos jogar bola com a empregada, por certo quando o guri está insuportável dentro de casa. É como se dissesse: vai ser insuportável no corredor, e aproveita e incomoda os vizinhos. E a madame entra com o cachorrinho poodle no restaurante e dá pedacinhos de comida na boca do bicho, como se ele fosse gente.

E assim caminha a Humanidade, de crime em crime, sem nem saber que é crime porque não tiveram educação em casa, porque as escolas são frágeis, porque as políticas que deviam cuidar disso são frágeis, porque não há como fiscalizar, porque não há como reclamar, porque o dinheiro que devia ser utilizado para dar sustentabilidade às políticas de prevenção some depressa no sorvedouro da corrupção, esta sim, um crime grande, mas que começa e se origina nos pequenos crimes de todo dia.

Contravenção é uma infração penal, designada de crime menor, punida com pena de prisão simples ou multa, ou ambas, alternativa ou cumuladamente.

Não existe na realidade uma diferença substancial entre crime e contravenção penal, pois o mesmo fato pode ser considerado crime ou contravenção pelo legislador, de acordo com a necessidade da prevenção social. Ex: no Brasil, o porte ilegal de armas já foi considerado contravenção penal, com o advento do estatuto do desarmamento hoje é considerado crime.